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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Teoria não é manual de instruções

Imagem de uma garotinha aprendendo a andar, representando Djaiaí

Sou e quero ser uma historiadora da teoria. Nós pesquisadores deveríamos saber todo o tempo, mas tantas vezes nos esquecemos, de que teoria é  muito importante sim, ainda mais nesse contexto fragmentado e sutil que vivemos, é preciso ter um chão  (ainda que de barro ) para nos sustentar. O mais importante, a meu ver, é o modo que vamos lidar com ela: depois de cerca de dez anos estudando o desbunde de invenção de Rosa pela Teoria da História, não consigo mais enxergá-la como método ou receita, mas sim como um convite  ao pensamento, à reflexão mais aprofundada que leva a uma constante recriação de tudo .  Dessa tendência não me desligo, ainda que ela me faça, novamente, a ser expulsa da História  porque não rezei sua missa direitinho (nem para frente, nem para trás)... Não posso deixar de ser quem me tornei depois de travessias profundas no sertão e na teoria para voltar a categorizar as fontes. Nos rituais tribais, depois de uma conquista, o indivíduo  costuma receber um novo nome, como que renascido. Também no conto Tresaventura de Rosa, que analisei na tese,  a protagonista é  uma menininha que, ainda aprendendo a andar, foge de casa em direção ao sonhado (no sentido de sonho como acesso ao inconsciente mesmo) arrozal. Para suas curtas perninhas o caminho é longuíssimo e ela percorre apenas uma pequena parte. No entanto, porque concluiu corajosamente a travessia como podia naquele momento, ao final recebe seu nome e o leitor conhece Djaiaí. Lembrando da reflexão de Heidegger que comecei com o Nicolau, depois de abrir uma picada na mata fechada - no caso não com uma faca, mas com anedotas infantis, lembrando que anedota é "contra Historia, escreveu o Rosa em 1967 e eu estudei no mestrado -, não volto atrás e talvez tenha mesmo que mudar de nome. Talvez adote um mais ligado aos meus ancestrais tribais ... Quem sabe...

sábado, 7 de outubro de 2017

PENSANDO EM UMA HISTÓRIA DA CRIANÇA


Pensando em uma História da criança, que levem em conta suas vivências, narrativas, experiências e valores, achei essa citação da contracapa desse livro sublime (destaques meus) :

"Brincadeiras, bordados, avós e netos se encontram no caminho construído pela dimensão criativa, expressiva e lúdica que ultrapassa o enredamento da vida comum. Os encontros entre gerações para brincar CRIAM UM TEMPO DE SUSPENSÃO DAS AMARRAS SOCIAIS VOLTADAS PARA O UTILITARISMO E ABREM ESPAÇOS PARA A REITERAÇÃO E O EXTRAORDINÁRIO ENVOLTOS NO MISTÉRIO DO DOMÍNIO DO CONHECIMENTO E NO FASCÍNIO DO IMPROVÁVEL, NUMA TRAMA DE DIVERTIMENTO, COMICIDADE E IMAGINAÇÃO. Entre gerações, as brincadeiras preservadas na memória permitem realizar o desejo de estar juntos, explorando tessituras que confrontam o certo e o incerto, ordem e a desordem na busca do belo, mas também e muitas vezes a prazerosa repetição do mesmo. Benjamin nos ensina que as crianças (próximas aos mágicos e aos loucos), refazem a história de cada peça, pedra, toco, retalho e resto. Bordadeiras também. Brincadeiras oferecem aos avós, chances redobradas de rebordar a vida nos encontros com seus netos."

(Eloisa Acires Candal Rocha.Contracapa de EVANGELISTA, Olinda; DURAN, Olga (org). Netos e avós, memórias de brincadeiras. UEM: Maringá. 2015. Netos e avós, memórias de brincadeiras. UEM: Maringá. 2015)

Vejamos, quando netos e avós criam um tempo próprio de convivência e diversão, estão modelando o tempo, criando suas próprias Histórias, a partir do compartilhamento cultural. Para mim, que sou uma historiadora da área de Teoria, isso é precioso.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

LEITURAS DELICIOSAS


Comprei esse na liquidação da Loja Sesc antes do Natal, estou lendo aleatoriamente e demoradamente os artigos e estou ADORANDO...li primeiro o que me levou a comprar o volume que é A descoberta da linguagem, do Francisco Bosco e ele me abriu caminhos para pensar diferentemente sobre as engraçadas falas de crianças ao Pedro Bloch. Bosco fala do gênio como possibilidade inventiva e as palavras em Sartre, e não que ele cite textualmente, mas algumas ideias que ele apresenta me fizeram lembrar de Benjamin lido por Agamben em "Infância e História"... que leitura sensacional essa do Bosco (eu queria escrever claramente assim um dia!).

Esta manhã li a metade de Silêncios da História: experiência, acontecimentos, narração, do Marcelo Jasmim (que nome floral!)... e ele menciona os atos de fala de Austin para abordar o Silêncio da História! Ai fiquei abismada porque isso, de outra forma, também está na minha tese que, embora não pareça, é uma tese de pura Teoria da História, ainda que ninguém quis aceitá-la dessa forma! Lembro que o professor Luiz Costa Lima disse, na defesa, que não via Austin em Rosa em momento algum, que era para eu repensar esta relação na revisão,repensei e deixei como estava, lembando que na hora eu quase recomentei que ele lesse e relesse Os três homens e o boi dos três homens que inventaram um boi!) ...
Ai leio esses artigos e penso que não é possível que eu tenha feito um trabalho tão ruim quanto ficou parecendo, não é !

sábado, 17 de setembro de 2016

"Mãos vazias e pássaros voando" : Um trabalho de Teoria da História



"A Estória não é História. A Estória quer ser contra a História." G. Rosa
"Deus é paciência. O contrário é o diabo".G. Rosa
"
"Deus é definitivamente; o Demo é o contrário".G. Rosa

Por muito tempo, talvez um pouco influenciada por algumas outras opiniões azedas, eu acabei rejeitando o resultado final da minha dissertação de mestrado "Mãos vazias e pássaros voando : Memória, invenção e não-história em Tutaméia de João Guimarães Rosa"  (2009). Hoje peguei meu exemplar e, folheando, me orgulhei dele. Lembrei de toda travessia, da ousadia de pesquisar Rosa na História, da tensão de ter duvidado até o último minuto da defesa que eu ia ter condições de saúde para terminar... e terminei. Hoje eu concordo com algumas pessoas que, desde então, me disseram que é uma boa dissertação e para mim tem valor especial ela ser na área de TEORIA DA HISTÓRIA, propriamente dita (como eu sempre quis assumir, mas que depois nem sempre me deixaram fazer, porque agora é "História Intelectual" :s ). 

Era o pagamento de uma promessa que eu fiz à memória de Rosa, mas era também a agradável sensação de ter encontrando " a minha casa de verdade", no mundo de Rosa, então escrevi um trabalho bonito, que continua interessante (ainda uso as ideias nos artigos que tenho tentado publicar ) ...
Aquilo vale à pena fazer...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O historiador e seu tempo: Novo trabalho de José Jobson de Andrade Arruda concilia teoria e prática para discutir a historiografia


Bom, é matéria de revista, mas é a primeira em mais de uma década que leio a Revista Pesquisa a abordar, a partir de Jobson, questões de Teoria da História. Lembro tão bem que, na minha semana de caloura em 1999, Jobson falou e distribuiu um texto sobre teoria que, claro, era ininteligível para mim (saída do vestibular...).No livro que ele etá publicando agora, o professor propõe um diálogo entre teoria e prática no cotidiano do historiador (isso Elias está praticando faz tempo, e eu na sequência...); ele também fala da necessidade de diálogo entre a macro e a micro história (algo que Ginzburg já refletia em seus primeiros textos sobre a Micro História ), enfim, nada de muito novo no front, mas a entrevista tem belas citações:"Nem só a retórica teórica se exercendo no vazio; nem somente a pletora de experimentos práticos sem uma costura teórica que os ilumine, pois a interpenetração de teoria e prática conduz ao logos, isto é, à razão compreensiva " J.J.A.A.
Isso não seria outra forma de colocar o grande método do Saliba, que me formou como historiadora e aposta na leitura dos movimentos da história no cruzamento entre "subjetividade epistemológica" e "objetividade metodológica " ... enfim, essa é minha caixinha;. Leia a matéria neste link.

sábado, 28 de abril de 2012

O andar do bêbado e como o ACASO determina nossas pesquisas em história!


Em 2010, ainda no início do doutorado, eu recebi uma bolsa para ser monitora na disciplina  Teoria da História II da graduação em História do DH/FFLCH/USP. Foi uma experiência interessante assistir novamente aquelas aulas depois de anos, desta vez não mais como graduanda, e poder perceber como o professor (que agora é também meu orientador ) comentava o tempo todo a bibliografia mais  recente sobre o tema! Uma das recomendações mais enfáticas foi a deste livrinho de nome divertido ai. Espero que outros alunos (ainda na graduação) não tenham recebido a recomendação de forma tão descomprometida como eu recebi: Só recentemente eu comprei o volume e estou adorando! Para os que estão se propondo a contar histórias é tão fundamental lembrar que a história - assim como a vida- se desenvolve em vários sentidos, inclusive os aleatórios como o andar de um bêbado e por isso devemos seguir procurando interpretá-los, assim como fazem as crianças  quando ainda não se formataram completamente a perspectivas lineares determinadas pelos adultos  e ainda podem desfrutar da pura vivência.
RECOMENDO MUITÍSSIMO!
"O título 'O andar do bêbado' vem de uma analogia que descreve o movimento aleatório, como os trajetos seguidos por moléculas ao flutuarem pelo espaço, chocando-se incessantemente com suas moléculas irmãs. Isso pode servir como uma metáfora para a nossa vida, nosso caminho da faculdade para a carreira profissional, da vida de solteiro para a familiar, do primeiro ao último buraco de um campo de golfe. A surpresa é que também podemos empregar as ferramentas usadas na compreensão do andar do bêbado para entendermos os acontecimentos da vida diária. O objetivo deste livro é ilustrar o papel do acaso no mundo que nos cerca e mostrar de que modo podemos reconhecer sua atuação nas questões humanas. Espero que depois desta viagem pelo mundo da aleatoriedade, você, leitor, comece a ver a vida por um ângulo diferente, com uma compreensão mais profunda do mundo cotidiano. (...) O desenho de nossas vidas, como a chama da vela, é continuamente conduzido em novas direções por diversos eventos aleatórios que, juntamente com nossas reações a eles, determinam nosso destino. Como resultado, a vida é ao mesmo tempo difícil de prever e difícil de interpretar."
Leonard Mlodinow.O Andar do Bêbado : Como o acaso determina nossas vidas. Ed.Zahar,2011.p. 10-2

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

AMOR PELA TEORIA DA HISTÓRIA

Estagiei em Teoria da História este semestre, então escrevi um relatório que me fez descobrir que eu adoraria ser professora desta disciplina. Concursos de universidades pelo Brasil afora: aguradem-me! Vejamos momentos do meu relatório:

"...Estagiar na disciplina Teoria da História II foi uma oportunidade fundamental para mim, como aluna de doutorado, cuja pesquisa questiona exatamente as ligações entre epistemologia e produção de narrativas no Brasil do século XX.
Serei docente de História, em nível superior, e sinto que este estágio me forneceu bastante base para tanto. Isto porque , ao discutir com o professor ministrante da disciplina o que estávamos considerando como “Teoria da História” e observar as experiências propostas por ele em aula, maravilhei-me com a ideia de que esta disciplina deve funcionar como um exercício constante que busque tornar possível o despertar para a historicidade do conhecimento. Isso acontecia quando o professor conseguia diminuir ao máximo a diferenciação entre ensino e pesquisa na aula, pois ele refletia constantemente sobre esse assunto e me fazia refletir também e, claro, estas reflexões acabava sendo expostas aos alunos.
Para mim, foi importante pensar como a proposta de reflexão constante sobre o tempo exercitada nesta disciplina colocou aos alunos a importância dos questionamento dos benefícios ou malefícios da sobrecarga de informações rápidas com as quais estamos crescentemente submetidos, graças ao advento de novas mídias como a internet - que foi muito bem utilizada na aula, não deixando que nenhum aluno ficasse alheio à construção e atualização da disciplina. Entretanto, normalmente estas novas mídias funcionam em um ritmo desenfreado de aquisição de informações aos quais os alunos de nível superior também estão submetidos constantemente, o que acaba produzindo uma espécie de anulação da “duração” no processo educacional - já que só é possível educar quando se respeita o ritmo e o tempo dos educandos, pois a própria idéia de conhecimento não tem relação com a percepção imediata, mas sim com a reflexão e discussão do mundo, a cada novo instante. Isso leva tempo, e tempo já não temos mais. Mas, ao menos nas aulas de “Teoria da História”, essa reflexão foi proposta e executada.
Se pensar é selecionar o que pode ser esquecido, o educador deve executar este exercício e treinar os alunos para que este processo se efetue bem. Ensinar História, como disciplina, é despertar a curiosidade e propor que se descubra, usando uma expressão de Italo Calvino, “que história aguarda, lá embaixo, seu fim?”[1], pois a História não é uma linha do tempo retilínea, mas sim assemelha-se mais a uma grande construção narrativa, moldada de outras tantas outras narrativas, que apresentam vários sentidos a serem procurados na reflexão sobre verdades e possibilidades, ou como dizia o primeiro texto “Pequena Antologia” disponibilizada pelo ministrante da disciplina, que foi tema da primeira questão da prova da disciplina : "Não vejo saída fácil para escapar do duplo risco do passadismo e do presentismo, exceto viajar para a frente e para trás através dos séculos, em busca de novas perspectivas. Mas esse, tal como o entendo, é o valor da história: não ensinar lições, mas fornecer perspectiva."[2] Isso vale tanto para a atividade de pesquisa, como também para a atividade docente.


[1] Italo CALVINO. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Cia das Letras. 1999.P. 248
[2] Robert Darnton, Os dentes falsos de George Washington; um guia não convencional para o século XVIII. São Paulo: Cia. das Letras. 2005. Pp. 11-12

sábado, 16 de janeiro de 2010

CONTATOS E PROJETOS

Vivemos na "sociedade dos contatos", ou como se diz, mundo do
"Netmeeting"...então eu tentei manter meus contatos, reiniando o diálogo com pesquisadores de Rosa com os pesquisadores de Rosa que respeito ou me identifico...colo aqui um e-mail que mandei para um dos melhores, na minha opinião, afinal é um retrato de como está minha cabeça de pesquisadora nesse momento, mas vai mudar, você sabem:
SOBRE MEU PROJETO, MAIS UMA VEZ
Caro professor,
Escrevo para lhe informar que acabo de enviar-lhe meu projeto de doutorado impresso pelo correio, até o fim desta semana você o receberá.Agradeço imensamente a sua disposição em continuar o contato comigo.
Fiz questão de lhe enviar por dois motivos principais : Um é receber a sua opinião sobre o grau de legitimidade da pesquisa que estou começando agora, pois acho que os pesquisadores não devem fazer seus trabalhos sozinhos e, como devo ter lhe dito algumas vezes, a sua posição a respeito das relações entre Literatura e História (que é de meu total interesse), como um caminho onde o papel da ficção mediadora deve ser valorizado, é a mais interessante com a qual tomei contato nos últimos tempos. Você perceberá que uso suas idéias como base de pensamento (espero estar usando-as bem, mas isso você me irá confirmar ou não, mas interessa-me muito o diálogo...)
O outro motivo é que, como meu trabalho está inserido na área de Teoria da História, interessam-me os questionamentos epistemológicos que a linguagem de Guimarães Rosa coloca claramente ( de forma repleta de lirismo e genialidade literária, mas com crescente grau de hermetismo que, em última análise, me levou a considerar a crise das possibilidades de narração da História, pensada historiograficamente por Walter Benjamin, mas de forma geral por toda a filosofia da linguagem do século XX ).Então, trata-se de uma pesquisa que não considera a história de forma "documentalista", já que não vai pelos caminhos usuais - que se debruçariam sobre perspectivas como a "História das crianças no tempo de Rosa", mas sim sobre as possibilidades e impossibilidades de representação da linguagem infantil que este autor apresentou em seus textos -, o que está ligado ao contexto da crise epistemológica que levou ao questionamento da legitimidade da História no século XX, e isso sentido aqui no Brasil.
Como vê, meu trabalho parece ser algo original e sei que ele sempre será posto em cheque - tanto por historiadores mais tradicionalistas, quanto por pensadores da literatura menos interessados em tensões epistemológicas -, então um interlocutor como você - que assumiu claramente em seu livro, ser alguém que observa a questão como um "outro" (ou usando suas palavras, assumiu seu olhar de "marciano"), é um tesouro.
É com pessoas como você, como meu orientador Elias Thomé Saliba- que possuem visões mais abertas a outros questionamentos- que é bom estabelecer diálgos.
Uma coisa importante, não tenho muita pressa em receber seu comentário, como disse, eu acabei de escrever o projeto agora, ele ainda está se desenvolvendo, então espero sua resposta quando você puder me enviar, pois não quero atrapalhar muito.
Muito obrigada,
Camila

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

'Tempo Rei' e Teoria da História

Estou achando,por enquanto, que fazer doutorado na área de Teoria da História é como ouvir umas músicas do Gilberto Gil, que sempre estão meditando sobre o tempo e os tempos que vão se seguindo...
Começando com Parabolicamará,trazia os primeiros pensamentos sobre as novas relações entre Tempo - o da "onda luminosa" que, para transmitir informações, levava "o tempo de um raio, tempo que levava Rosa pra aprumar o balaio quando sentia que o balaio ía escorregar"... isso em um baião super dançante "ê, mundo dá volta, Camará!"
E depois a genial Tempo Rei:



Eu acho que a gente estuda História (especialmente a Teoria da História) para levantar questionamentos assim : "Tempo Rei, Oh Tempo Rei!Transformai as velhas formas do viver ensinai-me Oh Pai! O que eu, ainda não sei"
Ninguém, sozinho, poderá resolver todos os problemas da História do Brasil, mas nos vale levantar questionamentos, sem sermos bruscos ou formalistas , o que significaria uma crença errônea na absoluta capacidade humana de viver somente a partir do racional ... como pensaríamo, então, nossa cultura baseada na cordialidade e em tudo o que isso acarreta de bom e de ruim (como nos alertou Sérgio Buarque), como poderíamos analisar as coisas apenas pelo racional (por exemplo, como um estudioso de um músico como Tom Zé conseguiria um bom resultado se apenas assistisse aos seus shows sentado e analisando racionalmente? E as outras linguagens que ele desperta para serem desenvolvidas - a dança, os ritmos, etc?)
Um dos pontos chave dos estudiosos é perceber um espaço ótimo entre ele e as fontes, sempre descoberto a partir de tentativas de aproximação e afastamento: mobilidade de perspectiva é uma noção importantíssima para o Historiador da Cultura...
No Brasil, questionamentos claros podem estar expressos em letras de canções (como não cansa de dizer Luiz Tatit) e aí não é preciso falar alemão para filosofar, mesmo que a própria canção de Gil nos lembre que a quaqlquer momento o pensamento "poderá não mais fundar nem gregos, nem baianos"... e então?
Então sigamos, lembrando que Guimarães Rosa respondeu em uma entrevista que brasilidade seria um "sentir pensar"... se é assim, porque nós precisamos interpretar a História da Cultura do Brasil como se esta fosse um "pensar sentir"? Não é! É primeiro um sentir e muitas vezes só um sentir, é preciso prestar atenção nisso pra que depois possamos pensar sobre...
Chega, né?
Bom fim de semana a todos os meus possívies leitores !

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Acabo de entrar no doutorado em História, no qual devo seguir a linha de pesquisa iniciada pelo meu mestrado.
Se no mestrado eu queria descobrir qual a concepção de História realmente adotada por Guimarães Rosa, e como esta aparece em sua obra literária, descobri que esta está mesmo mais voltada para a forma que pensaram o tempo durante a modernidade.
Ok,não muitas novidades até aqui - embora minha leitura seja uma bomba que vai contra a maioria das leituras da posição da História em Guimarães Rosa, porque ela não considera, de forma alguma, relações diretas entre o texto da "verdade do acontecido" e o texto ficcional . No doutorado eu propus uma pesquisa que se especificasse na abordagem de um dos temas caros aos que respiravam os ares da modernidade - como Guimarães Rosa - que é a atenção devotada ao olhar infantil para os processos históricos. Com esta mesma preocupação -delimitando pela época, inclusive - Rosa tem alguns companheiros de peso, como James Joyce, ou mesmo Walter Benjamin.
Interessantíssimo, não? Eu acho!
Porém meu orientador - que também deve ter achado tudo isso muito interessante,porque a proposta dá conta de discutir seriamente temas de TEORIA DA HISTÓRIA PURA, problematizando conceitos de temporalidades,de linguagem lúdica,e especialmente de duração,na forma específica como foram encarados pela modernidade - fez uma exigência prática,que obviamente tornará mais viável a pesquisa complicadíssima que estou propondo (que abarcará leituras em pedagogia,psicologia, história, lingüística, semiótica, etc...), mas é tão terrível atender a tal! Como acrescentar mais um autor a pesquisa?
Que autor brasileiro poderia dar as mãos a Guimarães Rosa nesse movimento todo?
Nenhum na prosa brasileira, eu suponho!
Mas me lembro do que escreveu Oswaldino Marques:

"Não se perturbe o leitor com o enquadramento indistinto de João Guimarães Rosa nas esferas da poesia e da prosa, pois a sua textura verbal cobre a dupla extensão dessas categorias. Não foi por acaso haver a ele cabido a primazia de gerar uma nova forma de expressão literária, onde se
fundem, de modo orgânico, a prosa e o poema. À falta de um termo corrente, fomos forçados a cunhar o vocábulo prosopoema, para nomeá-la."

[MARQUES, Oswaldino. Canto e plumagem das palavras.]

Ora, então posso brincar com poetas também? Parece que sim.
E o mais interessante deles parece ser Manoel de Barros, que sofreu assumida influência da escrita de Rosa - especialmente na relação com a linguagem que estabeleceu (Linguagem e vida são uma coisa só) e isso ambos também parecem ter aprendido com as crianças.


Ótimo, ótimo. então qual é o
problema?
O problema é que eu posso gostar muito de Barros, achar genial e
legal, MAS ELE NÃO É GUIMARÃES ROSA!
Pessoa fiel, é um horror!
Não rolou aquela paixão ainda, nem mesmo ao ler trechos lindíssimos e reveladores como este:


"Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos."
Mundo Pequeno (do livro "O Livro das Ignorãças")

Será que meu doutorado será uma aprendizagem da traição?
Vou começar relendo "Dom Casmurro" (risos)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

EDUCAR É DESPERTAR APTIDÃO PARA A SELEÇÃO DE INFORMAÇÕES

Ontem assisti a ultima parte do concurso para a vaga de professor titular na cadeira de Teoria da História da USP. Apesar de não ter assistido a aula ministrada (que teve como tema a narrativa humorística da história e pelo que soube sintetizou o conteúdo do curso de pós em história que eu assisti no ano passado), trouxe algumas pérolas...
Primeiro a definição de "Teoria da história" como sendo um exercício que torne possível o despertar para a historicidade do conhecimento. Isso deve acontecer quando o professor consegue diminuir ao máximo a diferenciação entre ensino e pesquisa na aula, pois reflete e faz os alunos refletirem a respeito da sobrecarga de informações rápidas com as quais estamos crescentemente submetidos com o advento de novas mídias como a internet. Este ritmo desenfreado acaba produzindo uma espécie de anulação da duração no processo de educar, já que só é possível educar quando se respeita o ritmo e o tempo dos educandos pois a própria idéia de conhecimento não tem relação com a percepção imediata, mas sim com a reflexão e discussão do mundo, a cada novo instante. Isso leva tempo, tempo que já não temos mais. Se pensar é selecionar o que pode ser esquecido, o educador deve executar e treinar para que este processo se efetue bem. Pois alguém já disse que não se ensina o que se sabe, mas se ensina o que se é.
Como eu sempre me enxerguei mais como uma pesquisadora que estava dando aulas do que como uma professora (não encaro isso como uma diferenciação hierárquica, mas apenas como uma diferenciação de sensação), me senti menos culpada, mesmo que eu mesma não estive imitando diretamente nenhuma receita, apenas refleti sobre as realidades com as quais entrava em contato... como professora de humanas no Estudo Orientado,sentia que o que se pedia de mim era muito menos os conteúdos do que de uma postura, um discurso, um acolhimento e assim consegui algum resultado.
Em momentos como os que eu vivi ontem eu percebo que aquele professor que agora é titular executou muito bem a sua tarefa, pois eu recebi seus estímulos como aluna e quando mudei de posição e comecei a educar, acabei não saindo muito do que eu percebi ser a forma como ele executa sua função, mesmo que eu não tenha executado essa relação direta em nenhum momento antes de ontem, quando eu redescobri porque eu ainda encontro prazer na academia, pois foi lá que eu achei um lugar de tensão, conforto e discussão que ainda satisfaz meu cérebro pensante... assim vou tentar seguir meu rumo, respeitando meu tempo, pois um discurso riquíssimo como o que eu ouvi ontem só foi possível depois de uma vida toda de respeito as durações do aprender e do educar, quem sabe daqui umas décadas, não é?