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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Frederico Puppi no Instrumental SESC Brasil : Sons e palavras de um viajante

Frederico Puppi e o violoncelo tradicional, foto de divulgação 

No Instrumental de ontem tivemos a oportunidade de ouvir Frederico Puppi, com seu violoncelo moderninho, misturado  às inserções eletrônicas e foi como viajar com um viajante.
Se na  semana passada tivemos aquele repertório todo eletrônico, desta vez tivemos um músico mais tradicional, mas com fundamentais inserções eletrônicas e confesso que agradou meus ouvidos do início ao fim, pensei e senti o tempo todo : Vim aqui para isso.

A apresentação foi voltada ao seu disco Marinheiro de Terra Firme, e é mesmo como ele disse ser : o som dos náufragos que sobrevivem nas cidades do mundo. A primeira  referência bem leve que eu fiz o ouvir aquele som, foi a algumas sonoridades 'mouras' de João Bosco, especialmente no disco Bosco e  viagem paradisíaca que ele nos propõe , e talvez eu pudesse até ter comentado na conversa final, mas como o show foi tão intenso eu acabei me esquecendo e só voltei a fazer a referência agora, ouvindo o disco de Puppi. Ou seja, ainda que eu não saiba explicar, e que eu ache que o "marinheiro"  nem conhece esse disco,  ela existiu.

Para o público fiel do Instrumental, como eu, Puppi é um artista diferente porque ao contrário da maioria dos instrumentistas que falam apenas pela musicalidade, ele é quase teatral, expressa no corpo a mensagem que quer passar no violoncelo que ele mesmo criou (e explicou como criou) e especialmente é um  conversador, comenta com palavras, em um português perfeito, quase tanto quanto com sons o trabalho que fez. A gente adora, eu adoro.

Em suas  pequenas narrativas eu mergulhei no O Narrador de Walter Benjamin: falamos dele, que é um músico italiano, nascido nos alpes, e que se tornou um viajante, que já não sabe exatamente onde mora nesse mundão e vem contando histórias "das alpes" ("onde  se ouve o mais profundo silêncio nas iluminadas manhã, depois de uma noite de nevasca"), do sertão ("chão laranja e céu azul, a perder de vista", dois lugares com "pessoas com casca por fora, mas com coração gentil dentro, de onde sai música modal", propriamente dita, nada tonal soa ali, dai a aproximação com a sonoridade oriental), do sul da Itália e sua alegre  Tarantela ... tantas histórias e muita simpatia! 

O público do instrumental ontem estava mais normal, não estava tão lotado como se fosse um  festival, como na semana passada, mas cheio, só que sentei perto de pessoas desrespeitosas com o músico, que falavam o tempo todo, bem desagradável... 
Nas inserções eletrônicas, para o show, Puppi fez comentários sonoros e políticos (nunca politiqueiros) e o público acolheu e respondeu : tocou uma versão de Bella Ciao, o que até poderia não ser um comentário tão político em relação à situação brasileira e do mundo que flerta com fascismo, já que ele inseriu bastante som italiano nos samples, mas a seguir não deixou dúvidas inserindo, em alto  bom som, aquele trecho magnifico do discurso de Marielle Franco no qual ela diz que não ia permitir que interrompam a fala de uma mulher eleita! Foi de arrepiar e, ao fundo da platéia, uma mulher gritou "Marielle vive" e foi aplaudida!
Por último, há que se comentar que além de ter tocado  a delicada útima faixa do disco, Pequena Música Para Um Grande Momento, onde são sampleados sons de crianças brincando, surgiram as crianças outras no show : Anita, a sobrinha de dois anos de Puppi, que mora na Irlanda e que inspirou uma das canções mais criativas do disco e que leva o seu nome e também uma garotinha de tranças, com uns 7 ou 8 anos, sentada com os pais na minha frente,  e cujas reações à música foram de se fazer notar: se era triste, ela ficava apenas ouvindo, mas se tinha ritmo e animava, batia palmas, fazia gestos com as mãos, mostrando que, talvez, estivesse aproveitando e se divertindo mais do que todo mundo. 
 Pelo telão, em vídeo, uma amiga de Puppi , da qual infelizmente não me lembro o nome, comentou que o som dele lhe parecia coisa de criança, no sentindo mesmo de CRIAR ... e não é que é mesmo?
Adorei!
UM PLUS: Um dos sonhos do espetacular  Puppi, segundo ele próprio, é conhecer pessoalmente o Jaques Morelenbaum . Meu também, nego, mas pra você deixo até minha senha que peguei há anos, porque sei que desse encontro de vocês deve sair um som MUITO MARAVILHOSO! 

sábado, 6 de outubro de 2018

Janusz Korczak : intolerância é uma ameaça sempre presente




Em 2016, em meio às atividades do meu pós-doutorado sobre as crianças de Pedro Bloch, muito interessada em pedagogias libertadoras no século XX, assisti a um  curso de  sobre a  trajetória do médico e  educador judeu polonês Janusz Korczak (1878 - 1942), ministrado por Sarita Mucinic Sarue e seu interessantíssimo trabalho com as crianças, em pleno contexto da segunda guerra Mundial. 
Tendo trabalhado pela emancipação da criança, e  gerenciado os orfanatos para crianças judias Dom Sierot e Nasz Dom, em Varsóvia, estes que eram  geridos pelas crianças e desenvolvido uma estratégia pedagógica que serviu como pontapé inicial ao que depois chamaríamos de "educação democrática" (ideia linda, que eu amei desde sempre e que executei quando ministrei palestras sobre Guimarães Rosa na Escola Lumiar entre 2003  e 2004) e que, infelizmente, acabou sendo duramente perseguido. O mais tocante da história é a morte do professor, que nunca abandonaria seus alunos em uma situação difícil, a ponto de aceitar seguir com eles até a câmara de gaz onde todos acabaram morrendo no Campo de Extermínio de Treblinka, num desfecho que a humanidade ainda não engole com facilidade.
Foi muito difícil para mim acompanhar este curso, nele eram apresentados vídeos, contavam-se histórias, mostravam-se fotos das mais terríveis sobre a degradação humana, lembro que eu sempre virava o rosto para a janela e observava o verdejante campus Butantã em sua calma e beleza, pois o conteúdo apresentado não era nada intragável, era um bom exemplo do que de pior o ser humano produziu!
Era terrível e tudo mais, mas era um acontecimento histórico, servia para nos alertar, não era ainda uma realidade na nossa vida cotidiana de brasileiros, como tememos vir a ser neste momento eleitoral de 2018.
Um candidato a presidência atual  assume ideário fascista (que deu origem àquele absurdo),  é preconceituoso, faz apologia a tortura, a violência, à intervenção militar e a quebra de nossa recente democracia se eleva em primeiro lugar nas intenções de votos.
E o pior é que o problema não está apenas no candidato, mas também no seu eleitorado, que aceita seu ideário retrógrado a ponto declarar intenção de votar nele, afinal existe uma identificação. Muito triste! 
Como historiadora, por muitas e muitas coisas, eu grito #EleNão...mas hoje, como pesquisadora da área de História da Infância e Juventude, eu faço isso em honra à memória de Janusz Korczak, mais uma das inúmeras vítimas do nazifascismo no século XX, cuja história deveria servir para aprendermos que aquelas ideias são as erradas, para internalizarmos que não devemos querer aquele inferno acontecendo  de novo .