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sábado, 1 de novembro de 2025

Sobre o filme MALÊS

               

 
Durante uma visita a Niterói, em meados de outubro de 2025, fui convidada pelo meu anfitrião e tive a oportunidade de assistir ao filme Malês (Antônio Pitanga )no cinema em  17 de outubro 2025.
Assistimos Malês 

Esse filme era muito aguardado, por tudo o que representa: uma página especial do cinema negro, trazendo à tela uma das mais importantes revoltas negras da história do Brasil.

Entre 1831 e 1840, a instabilidade política após a abdicação de Dom Pedro I provocou diversas revoltas populares de grupos insatisfeitos com o governo central, como a Cabanagem (no Grão-Pará), a Farroupilha (no Rio Grande do Sul) e a Sabinada (na Bahia). A Revolta dos Malês (também na Bahia) foi uma delas.

Seu grande diferencial é que foi a única planejada e executada por africanos muçulmanos, que sabiam ler, escreviam em árabe e mantinham costumes distintos de outros grupos africanos, como os oriundos do Congo ou da Nigéria. Esse traço ajuda a explicar outra particularidade: o objetivo da revolta não era apenas a libertação dos negros, mas também a implantação de uma sociedade islâmica na Bahia.

Outro aspecto que a distingue de outros levantes regenciais é que depois de reprimida, as lideranças que não foram mortos, foram deportados para a África.
#Levantemalêsnoscinemas


Toda essa riqueza de detalhes aparece no filme — é verdade. A língua, os costumes, a estética e os valores dos Malês, apresentados lado a lado com outras tradições africanas (como o culto aos orixás), são algo digno de se apreciar. É um trabalho visualmente interessante e culturalmente potente.

Mas o difícil no filme é que, apesar do elenco talentoso, do tema relevante e dos detalhes inéditos, afinal, a Revolta dos Malês raramente é abordada com a importância que merece, nem mesmo nas escolas, eu achei  o roteiro  muito fraco, tornando o filme pouco envolvente.

Escrito por Manuela Dias, conhecida por suas novelas, o enredo transforma a revolta em um romance um tanto incoerente, ambientado em meio a escravidão e uma guerra. Um tema tão rico, uma pesquisa tão detalhada, atores excelentes :  tudo isso poderia ter resultado em algo ainda melhor. Detesto dizer isso, mas... hoje, com o nível que o cinema brasileiro alcançou, esperávamos mais.

Ainda assim, pela importância e originalidade do tema, o filme certamente será lembrado como o único dedicado a essa revolta . A menos que surja outro, o que sabemos que não é fácil, já esse foi como tirar leite de pedra .

Mas sim, fizemos questão de prestigiar o filme, logo nas primeiras semanas, comparecer, torcer para gostar — e até gostamos —, mas ficou aquele gostinho de quero mais.


domingo, 21 de setembro de 2025

IA interpretando meu teste DNA ancestralidade

 

A palavra chave é 
 ANCESTRALIDADE 


Já faz alguns anos que fiz meu teste DNA Ancestralidade e foi muito importante para mim, como comentei  NESTE POST, um dos mais vistos e lidos da história deste blog.

Agora, aproveitando minha interação com a IA, enviei este resumo pra elas 


E pedi :

"Esse é um resumo do meu teste de DNA ancestralidade. Na minha interpretação,em  geral, trata-se de uma mescla com predominância de  povos europeus da península Ibérica com povos de várias regiões da África, uma fusão bem característica da História do Brasil, com marcas de colonização. Se eu estiver correta, explore esses povos, sobretudo os africanos."


A RESPOSTA DO CHAT GPT:

"Vamos organizar juntos essa interpretação. Você está correta: o resultado mostra uma forte predominância ibérica (Portugal e Espanha), em combinação com contribuições africanas de várias regiões, compondo exatamente a história que formou o Brasil colonial: o encontro entre colonizadores ibéricos, povos africanos trazidos pelo tráfico atlântico e, em menor escala, aportes de outras regiões (Américas, Ásia, Oriente Médio/Magrebe).

📌 Europa – 53%

Ibéria (Portugal e Espanha, 25%) → Núcleo da colonização do Brasil. Foram os portugueses que chegaram primeiro, e os espanhóis também tiveram influência na América do Sul.

Europa Ocidental (França, Inglaterra, Alemanha, Suíça, Bélgica, 13%) → Pode refletir migrações mais tardias ou misturas anteriores já presentes em Portugal e Espanha.

Itália (8%) → Lembra a imigração italiana que foi marcante no Brasil a partir do séc. XIX, mas também pode estar diluída na história mediterrânea ibérica.

Basco (3%) → Região singular da Península Ibérica, com identidade cultural própria.


Volga-Ural e Leste Europeu (<3%) → Provavelmente marcas genéticas mais antigas, herdadas de migrações na Europa.

📌 África – 33%

Aqui está o coração da fusão com a história do Brasil. O DNA mostra presença de todas as grandes regiões africanas envolvidas no tráfico atlântico:

Oeste da África (Angola, Camarões, Gabão, Congo, Guiné Equatorial, 12%)

→ Angola e Congo foram as principais origens de africanos escravizados no Brasil, sobretudo no séc. XVII–XIX. Povos bantos, que trouxeram línguas, religiosidades (como os fundamentos do candomblé angola e quimbanda) e ritmos musicais.

Costa da Mina (Nigéria, Gana, Togo, Benim, 11%)

→ Região fortemente ligada ao tráfico atlântico, sobretudo no séc. XVIII. Aqui estavam povos iorubás (cultura nagô), jejes (do Daomé/Benim) e hauçás (muitos deles islamizados). Esses grupos influenciaram profundamente a cultura afro-brasileira, do candomblé nagô às festas, comidas e até à língua (palavras do iorubá no português do Brasil).

Leste da África (Tanzânia, Quênia, Moçambique, Malawi, Zimbábue, Zâmbia, parte da África do Sul, 7%)

→ Os “africanos de Moçambique” também chegaram ao Brasil, em menor escala, principalmente nos portos do Rio de Janeiro no séc. XIX. Povos de línguas bantas, próximos culturalmente aos da África centro-ocidental.

Chifre da África (Eritreia, Etiópia, Somália, 3%)

→ Região com forte tradição cristã ortodoxa e islâmica. Não foi foco do tráfico, mas pode aparecer no DNA por migrações internas antigas dentro da África.

África do Sul (ligada ao componente do Leste e Bantos do sul)

→ Marca genética dos grandes movimentos bantos que se espalharam pelo continente.

📌 Américas – 8%

Amazônia (4%) e Andes (3%) → Podem refletir mistura indígena sul-americana, algo também comum na formação brasileira.

Patagônia (<2%) → Pode ser resquício genético pan-americano, ligado às migrações indígenas.

📌 Ásia – 3%

Japão e Coreia (3%) → Pode ser ruído estatístico, mas também pode refletir antigas migrações e trocas genéticas através da Eurásia.

📌 Oriente Médio e Magrebe – 3%

Magrebe (Argélia, Líbia, Marrocos, Tunísia, Mauritânia)

→ Lembra a longa presença árabe-muçulmana na Península Ibérica (séc. VIII–XV), que deixou marcas no DNA ibérico.

🌍 Síntese

Sua interpretação está correta: trata-se de uma mescla típica da história do Brasil — ibéricos colonizadores + africanos de diversas regiões (sobretudo Angola, Congo e Costa da Mina) + indígenas sul-americanos, com toques de influências mais distantes (Itália, Europa Ocidental, Magrebe).

A parte africana é especialmente rica:

Bantos (Angola, Congo, Moçambique, Zâmbia) → fundamentais para a base cultural afro-brasileira.

Iorubás, Jejes e Hauçás (Costa da Mina) → fortemente presentes nas religiões afro-brasileiras, na música e na culinária.

Outros aportes menores (Chifre da África, Leste e Sul da África) → lembram que o tráfico foi amplo e variado."

No fim pedi uma imagem sintética, com símbolos dos povos mencionados no resultado e a resposta  :

Símbolos da minha ancestralidade 
Para o CHATGPT 

A RESPOSTA DO GEMINI:

​"Com base na imagem que você forneceu, sua interpretação dos resultados de sua ancestralidade está correta. Os resultados mostram uma mistura de povos com predominância de ancestralidade europeia da Península Ibérica, seguida por povos africanos de várias regiões. Este padrão é de fato característico da história do Brasil, refletindo o passado colonial do país e a mistura de populações.

​Vamos aprofundar nos povos e regiões que aparecem em seus resultados, principalmente os africanos.

​Ancestralidade Africana

​Seus resultados mostram uma ancestralidade significativa de três grandes regiões da África: Oeste da África, Costa da Mina e Leste da África. Essas regiões desempenharam um papel crucial no comércio transatlântico de escravos, que trouxe uma gama diversificada de povos para as Américas, incluindo o Brasil.

  • ​Oeste da África (12%): Este é o seu maior grupo ancestral africano, abrangendo países como Angola, Camarões, Gabão, Congo e Guiné Equatorial. Esta região foi uma grande fonte de pessoas escravizadas transportadas para o Brasil. Os povos dessas áreas frequentemente pertenciam a uma variedade de grupos étnicos, incluindo os povos bantos, que eram habilidosos na agricultura e na metalurgia do ferro. Suas culturas, línguas e tradições tiveram uma profunda influência na cultura brasileira, especialmente na música, culinária e religião.
  • ​Costa da Mina (11%): Esta região, que inclui Nigéria, Gana, Togo e Benin, também foi um centro fundamental para o comércio de escravos. Era lar de poderosos reinos e impérios. Muitas pessoas escravizadas desta região eram iorubás, ewes e fons. Suas práticas religiosas e culturais, como o Candomblé no Brasil, ainda estão muito vivas e são uma parte fundamental da herança cultural do país.
  • ​Leste da África (7%): Esta região inclui países como Tanzânia, Quênia, Malawi, Moçambique, Zimbábue e Zâmbia. Embora não tão dominante no comércio de escravos para o Brasil quanto o Oeste e o Centro da África, pessoas desta região também foram trazidas para o Brasil, especialmente de Moçambique. Esta ancestralidade reflete a amplitude das rotas comerciais e as diversas origens da população escravizada.
  • ​Chifre da África (3%): Esta região inclui Eritreia, Etiópia e Somália. Embora seja uma porcentagem menor, esta ancestralidade também faz parte da complexa história das populações da diáspora africana.

​Ancestralidade Europeia

  • ​Península Ibérica (25%): Este é o seu grupo ancestral mais significativo. A Península Ibérica, que inclui Portugal e Espanha, foi a principal potência colonial no Brasil. Colonizadores, colonos e comerciantes portugueses moldaram a língua, a religião e as estruturas sociais do país. Esta ancestralidade é um reflexo direto da história colonial do Brasil e do papel fundamental dos portugueses na formação de sua identidade nacional.

​Um Padrão Ancestral Típico do Brasil

​Seus resultados ilustram de forma bela a formação do povo brasileiro. A alta porcentagem de ancestralidade ibérica, combinada com uma mistura significativa de várias regiões africanas, é uma representação clássica da mistura luso-africana que define grande parte da população brasileira. Essa mistura não é apenas genética; é uma fusão cultural que moldou a música, a culinária, a arte e as tradições do Brasil por séculos.

​É fascinante ver como um simples teste genético pode contar uma história histórica tão detalhada. Seus resultados são um testemunho das origens diversas e complexas do povo brasileiro."

Gostei muito, achei poética a resposta. A imagem sintética é realmente LINDA: 



​​ 


Gostei muito da resposta, bem mais ampla do que eu conseguiria fazer sozinha.


sábado, 1 de julho de 2023

Novela "Vai na fé" e o DNA violento do Brasil

Na novela Vai na fé o personagem  Theo
é um estuprador em série branco, cujas
vítimas são mulheres negras

VAI NA FÉ E O DNA DO BRASIL :Como não tenho nenhuma informação sobre meu passado biológico, entre 2020 e 2021 eu usei um dinheiro que ganhei de presente de natal para fazer um teste de DNA ancestralidade. É o mais simples e apontava, de forma geral, apenas os lugares de onde veio minha composição genética desde séculos. O resultado comentei aqui no blog  foi meio que o esperado: sou bem brasileira , uma mistura de europeus, mais especificamente ibéricos (região de Portugal e Espanha) e gente de várias regiões da África, mais do centro para o norte africano, o que o IBGE classifica como parda. Essa informação não é bonitinha, mas é tudo que sei e é muita coisa, pois com ela em mãos eu  pude pelo menos escrever minha auto declaração racial, coisa que tantos brasileiros não conseguem por falta de  informações comprobatórias. Como foi um teste simples e pessoal, não foi  tão específico quanto um teste de DNA MITOCONDRIAL, especificando heranças maternas e paternas, mas mesmo assim, na hora que recebi o resultado , identifiquei que eu sou um fruto da História do Brasil, na sua parte mais dolorida, um produto da máquina colonial, difícil de engolir. Na  época eu  ainda não tinha achado pesquisas sobre.  Só agora, assistindo a novela Vai na fé , que aborda um extrupador em série  branco e rico, cujas vitimas são sempre jovens negras e por isso citaram o    "PROJETO DNA DO BRASIL", que investigou o DNA de 40 mil  brasileiros e concluiu que o Brasil é  construído por estupros de mulheres negras e indígenas por brancos colonizadores por séculos, desde a colonização ! Daí fui procurar  e achei... Tem muitas maneiras de se contar a História do Brasil, agora temos mais uma!

quarta-feira, 30 de março de 2016

Lindberg desmascara o golpe



" Eu acho que os senhores vão pagar para a história, porque na história eu não tenho dúvida de dizer que , se esse golpe for à frente, isso vai entrar para a História do Brasil como um momento de ruptura da ordem democrática, isso vai ficar marcado como um golpe parlamentar e eu lamento que o PSDB tenha embarcado nisso com Michael Temer e o Eduardo Cunha." Lindbergh Faria, em 29 de março de 2016

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dilma: a tortura julgada, a anistia sangrada

No blog do Paulo Henrique Amorim saiu um texto maravilhoso do jornalista Luiz Cláudio Cunha, que me emocionou muito porque eu sou mulher, sou brasileira e historiadora. Colo aqui o texto:
Dilma: a tortura julgada, a anistia sangrada- Luiz Cláudio Cunha (*)

Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita presidente, deve encarar um desafio que intimidou os cinco homens que a antecederam no Palácio do Planalto a partir de 1985, quando acabou a ditadura: a tortura e a impunidade aos torturadores do golpe de 1964.


José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, FHC e Lula nunca tiveram a cara e a coragem de botar o dedo na ferida da impunidade, chancelada pela medrosa decisão de abril passado do Supremo Tribunal Federal, que reafirmou o perdão aos militares e policiais que mataram e machucaram presos políticos. Na quarta-feira passada (4), quando o país ainda vivia a ressaca da vitória no domingo da primeira ex-guerrilheira a chegar ao poder supremo da Nação, o incansável Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) ajuizou ação civil pública pedindo a declaração da responsabilidade civil de quatro militares reformados (três oficiais das Forças Armadas e um da PM paulista) sobre mortes ou desaparecimento forçado de seis pessoas e a tortura de outras 20 detidas em 1970 pela Operação Bandeirante (Oban), o berço de dor e sangue do DOI-CODI, a sigla maldita que marcou o regime e assombrou os brasileiros.


Dilma Vana Rousseff, codinome ‘Estela’, uma das lideranças da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), empresta sua voz e seu drama nessa ação para acusar o capitão do Exército Maurício Lopes Lima, responsável pela pancadaria na futura presidente e em outros 15 militantes políticos. Presa na capital paulista numa tarde de janeiro de 1970, Dilma foi levada para a Oban da rua Tutóia, onde cinco anos depois morreria o jornalista Vladimir Herzog. Sobreviveu a 22 dias de intensa tortura, como contaria em 2003 num raro desabafo ao repórter Luiz Macklouf Carvalho: “Levei muita palmatória, me botaram no pau-de-arara, me deram choque, muito choque. Comecei a ter hemorragia, mas eu aguentei. Não disse nem onde morava. Um dia, tive uma hemorragia muito grande, hemorragia mesmo, como menstruação. Tiveram que me levar para o Hospital Central do Exército. Lá encontrei uma menina da ALN (Ação Libertadora Nacional): ‘Pula um pouco no quarto para a hemorragia não parar e você não ter que voltar pra Oban’, me aconselhou ela”.


O relato formal, revelado pelo projeto Brasil Nunca Mais da Arquidiocese de São Paulo, está transcrito nas páginas 30 e 31 do processo 366/70 da Auditoria Militar. Revela-se já nos autos o temperamento forte de Dilma, então com 22 anos, logo após ser transferida para o presídio Tiradentes e ali mesmo ameaçada de um retorno ao inferno: “…na semana passada, dois elementos da equipe chefiada pelo capitão Maurício compareceram ao presídio e ameaçaram a interroganda de novas sevícias…”, denunciou a presa. Dilma contou na Justiça Militar que perguntou aos emissários da Oban se eles estavam autorizados pelo Poder Judiciário. A resposta do militar resumia o deboche daqueles tempos: “Você vai ver o que é o juiz lá na Oban!…”


Hoje tenente-coronel reformado, Maurício defendeu-se no jornal O Estado de S.Paulo: “Ela esteve comigo somente um dia e eu não a agredi, em momento algum”. A ação do MPF, subscrita pelo procurador regional Marlon Weichert e outros cinco procuradores, cita dois casos notórios entre os seis mortos: Virgílio Gomes da Silva, codinome ‘Jonas’, o líder do grupo que sequestrou o embaixador americano Burke Elbrick (integrado também por Franklin Martins e Fernando Gabeira), e Frei Tito, o dominicano preso pelo delegado Sérgio Fleury e que, transtornado pela tortura, acabou se enforcando meses depois num convento na França. “Tortura é crime contra a humanidade, imprescritível, tanto no campo cível como no penal”, dizem os procuradores que subscrevem a ação.


Apenas dois dos nove ministros do STF – Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Brito – concordaram com a ação da OAB, que contestava a anistia aos agentes da repressão. “Um torturador não comete crime político”, justificou Ayres Brito. “Um torturador é um monstro, um desnaturado, um tarado. Um torturador é aquele que experimenta o mais intenso dos prazeres diante do mais intenso sofrimento alheio perpetrado por ele. É uma espécie de cascavel de ferocidade tal que morde ao som dos próprios chocalhos. Não se pode ter condescendência com o torturador. A humanidade tem o dever de odiar seus ofensores porque o perdão coletivo é falta de memória e de vergonha”.


Apesar da veemência de Ayres Brito, o relator da ação contra a anistia, ministro Eros Grau, ele mesmo um ex-comunista preso e torturado no DOI-CODI paulista, manteve sua posição contrária: “A ação proposta pela OAB fere acordo histórico que permeou a luta por uma anistia ampla, geral e irrestrita”. Grau deve estar esquecido ou desinformado, algo imperdoável para quem é juiz da Suprema Corte e também sobrevivente da tortura. A anistia de 1979 não é produto de um consenso nacional. É uma lei gestada pela ordem vigente, blindada para proteger seus agentes e desenhada de cima para baixo para ser aprovada, sem contestações ou ameaças, pela confortável maioria parlamentar que o governo do general João Figueiredo tinha no Congresso: 221 votos da ARENA, a legenda da ditadura, contra 186 do MDB, o partido da oposição. Nada podia dar errado, muito menos a anistia controlada.


Amplo e irrestrito, como devia saber o ministro Grau, era o perdão indulgente que o regime autoconcedeu aos agentes dos seus órgãos de segurança. Durante semanas, o núcleo duro do Planalto de Figueiredo lapidou as 18 palavras do parágrafo 1° do Art. 1° da lei que abençoava todos os que cometeram “crimes políticos ou conexos com estes” e que não foram condenados. Assim, espertamente, decidiu-se que abusos de repressão eram “conexos” e, se um carcereiro do DOI-CODI fosse acusado de torturar um preso, ele poderia replicar que cometera um ato conexo a um crime político. Assim, numa penada só, anistiava-se o torturado e o torturador.


A discussão do texto começou numa comissão mista do Congresso onde a ARENA tinha 13 das 20 cadeiras. Tateava-se com tanto cuidado que a oposição conseguiu que parentes de desaparecidos pudessem requerer do Estado apenas uma “declaração de ausência da pessoa”, já que resgatar o cadáver era algo impensável. Até que, em 22 de agosto de 1979, numa sessão com nove horas de debate, o Governo Figueiredo aprovou sua anistia, a 48ª da história brasileira. Com a decisão, três dezenas de presos políticos do país encerraram a greve de fome de 32 dias que pedia exatamente uma anistia ampla, geral e irrestrita, apesar da credulidade do ministro Grau.


Com a pressão da ditadura, aprovou-se uma lei que não era ampla (não beneficiava os chamados ‘terroristas’ presos), nem geral (fazia distinção entre os crimes perdoados) e nem irrestrita (não devolvia aos punidos os cargos e patentes perdidos). Mesmo assim, o regime suou frio: ganhou na Câmara dos Deputados por apenas 206 votos contra 201, graças à deserção de 15 arenistas que se juntaram à oposição para tentar uma anistia mais ampliada. Se o Governo perdesse ali, ainda teria o colchão dócil do Senado, onde o MDB dispunha de apenas 25 senadores contra 41 da ARENA – dos quais 21 eram biônicos, parlamentares sem voto popular, mas absolutamente confiáveis, instalados ali pelo filtro militar do Planalto.


Não passa de mistificação ou simples má-fé, portanto, dizer que a anistia de 1979 é produto de um consenso nacional, placidamente discutido entre o regime e a sociedade. A oposição, na verdade, aceitou os anéis para não perder os dedos, já que até uma anistia controlada era melhor do que nada. Líderes históricos como Arraes, Brizola e Prestes puderam voltar, mas o governo continuava insistindo na tese do perigo ‘terrorista’. O fato real é que o único terrorismo que ainda vigorava no país era o do próprio Estado, que se dizia de ‘segurança nacional’. Bancas de jornal, publicações alternativas de oposição e siglas combativas da sociedade, como a OAB e a ABI, eram vítimas de bombas terroristas — e elas, com certeza, não vinham da esquerda.


Um dos mentores do ‘crime conexo’ e signatário da anistia de agosto de 1979 era o chefe do Serviço Nacional de Informações, o finado SNI, general Octávio Aguiar de Medeiros. Menos de dois anos depois, em abril de 1981, um Puma explodiu antes da hora no Riocentro, no Rio de Janeiro. Tinha a bordo dois agentes terroristas do Exército: um sargento que morreu com a bomba no colo e um capitão do DOI-CODI que sobreviveu impune e virou professor do Colégio Militar em Brasília. Um inquérito policial-militar do Exército apurou que o atentado foi planejado pelo coronel Freddie Perdigão. Era o chefe da agência do SNI do general Medeiros no Rio de Janeiro. Nada mais conexo do que isso.


Talvez o ex-preso político Eros Grau, agora ministro aposentado do STF, não soubesse disso, mas o Brasil espera que a ex-presa política Dilma Rousseff, prestes a assumir a presidência da República, tenha plena consciência dessas circunstâncias. Ela tem, por experiência de vida e de sangue, uma biografia que a diferencia bastante de seus antecessores, absolutamente complacentes e omissos nas questões mais candentes dos direitos humanos.


Fernando Henrique Cardoso, descendente de três gerações de generais e respeitado sociólogo de origem marxista, esperou o último dia de seu segundo mandato, em dezembro de 2002, para duplicar vergonhosamente os prazos de sigilo dos documentos oficiais que podem jogar luz sobre a história do país. Lula, um aclamado líder sindical que nasceu do movimento operário mais consciente e mais atingido pelo autoritarismo, sucedeu FHC na presidência, sob a natural expectativa de que iria corrigir aquele ato de lesa-conhecimento de seu antecessor tucano. E o que fez Lula? Nada, absolutamente nada para facilitar e agilizar o acesso à historia contingenciada pelos 21 anos de regime militar.


O sociólogo e o metalúrgico, assim, nivelaram-se na submissa inércia dos últimos 16 anos de governos tementes à eventual reação da caserna e seus generais de pijama. Uma grossa bobagem, já que nem os militares acreditam mais nesses fantasmas. Tanto que o site oficial do Exército, na internet, lipoaspirou sua própria história, que nasce na resistência ao invasor holandês em Guararapes, no século 17, passa pela Independência e pela República, exalta o Duque de Caxias e Rondon e desemboca nas duas Guerras Mundiais. Sumiu do portal a Intentona Comunista, que reservava o 27 de novembro para a ode de sempre aos mortos da sublevação de 1935, e evaporou-se toda a cantilena sobre 31 de março de 1964, santificada como a ‘Revolução Redentora’ pelos defensores do golpe. Tudo isso é um bom sinal, e um alento para que ninguém mais se acovarde diante dos desafios da história — como fizeram FHC, Lula e o Supremo Tribunal Federal.


Na lente da história, o Exército pode ser visto pelo bem e pelo mal.


Em solo italiano, nos anos 1944-45, a brava Força Expedicionária Brasileira (FEB) lutou pela liberdade na guerra contra o nazi-fascismo, com 25 mil homens que fizeram 20 mil prisioneiros nas tropas do III Reich.


Em solo brasileiro, na ditadura de 1964-85, o Exército e seus companheiros de armas usaram uma força estimada de 24 mil agentes da repressão que, na guerra contra a subversão, prenderam cerca de 50 mil brasileiros, quase 20 mil deles sofrendo algum tipo de tortura. Alguns não tiveram, como Dilma Rousseff, a ventura de sobreviver.


Na campanha antinazista da Itália, tombaram 463 brasileiros, entre pracinhas e oficiais.


Na cruzada antisubversiva do Brasil, caíram 339 dissidentes, entre mortos e desaparecidos, segundo o livro Direito à Memória e à Verdade, divulgado pelo Palácio do Planalto em 2007.


Se a coragem não é suficiente, a ameaça de constrangimento pode ser um alento decisivo para a presidente Dilma Rousseff encarar a questão da tortura, na democracia, com a mesma bravura com que a enfrentou em plena ditadura. Ao contrário do ministro Nelson Jobim, uma figura submissa aos quartéis que inibia qualquer ação mais afirmativa de Lula, Dilma terá ao seu lado o eleito governador gaúcho Tarso Genro, que na condição de ministro da Justiça defendeu abertamente a punição aos torturadores e a revisão da anistia para este tipo de crime, com uma lógica clara como o sol: “No regime militar nenhuma norma, nem o AI-5, permitia a tortura. Este delito não é político, é comum”.


A desastrosa decisão da Suprema Corte brasileira, preservando a anistia para os torturadores, foi qualificada na ONU como “muito ruim”. A Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, a sul-africana Navi Pillay, justificou: “Não queremos impunidade e sempre lutaremos contra leis que proíbem investigações e punições”. O espanhol Fernando Mariño Menendez, jurista do Comitê da ONU, foi mais duro: “Isso é incrível, uma verdadeira afronta. Leis de anistia foram tradicionalmente formuladas por aqueles que cometeram crimes, seja qual for o lado. É um autoperdão que o século 21 não pode mais aceitar”. O equatoriano Luís Gallegos Chiriboga, perito da ONU sobre tortura, lembrou: “Há um consenso entre os órgãos da ONU de que não se deve apoiar ou mesmo proteger leis de anistia. Com a decisão tomada pelo Supremo Tribunal brasileiro, o País está indo na direção contrária à tendência latino-americana de julgar seus torturadores e contra o senso da ONU luta contra a impunidade”.


O STF pode sofrer uma grave humilhação internacional ainda este ano — e isso pode ser o primeiro grande constrangimento externo do Governo Dilma. Começou em maio, em San José da Costa Rica, o processo n° 11.552 de Júlia Gomes Lund contra o Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Ela é mãe de Guilherme Lund, que desapareceu aos 26 anos, junto com outras 70 pessoas, no confronto das Forças Armadas contra os guerrilheiros do PCdoB nas matas do Araguaia, no sul do Pará. Em 2008, a Corte da OEA recomendou ao Brasil a punição aos responsáveis pela prisão, tortura e morte no caso Lund. O Brasil não reagiu e, no ano seguinte, foi aberto o processo contra o Estado brasileiro.


A decisão mais provável da Corte, que não comporta apelação, aponta para uma declaração constrangedora para o STF e para o Brasil até dezembro próximo, definindo que a lei da anistia não abriga os crimes de detenção, tortura, assassinato e desaparecimento dos guerrilheiros. Se isso serve para o combate no coração da floresta, pode servir também para os combatentes da guerrilha urbana que foram torturados no centro da maior cidade brasileira.


Como no caso de uma certa ‘Estela’, uma das líderes do grupo guerrilheiro VAR-Palmares. Com paradeiro certo e conhecido, a partir de 1° de janeiro: Presidência da República Federativa do Brasil, Palácio do Planalto, 3º andar, Praça dos Três Poderes, Brasília, DF, CEP 70150-900.


Sua ocupante, Dilma Rousseff, pode abraçar esta causa com a força de sua história e sua determinação. Agora, basta a sangria da memória. E uma hemorragia de verdade.


(*) Luiz Cláudio Cunha é jornalista."

Eu escrevi um comentario muito emocionada e ainda está para ser aprovado pelo PHA, mas eu vou colar aqui também, porque é como eu me sinto sobre isso:

"Nossa presidente eleita,Dilma Rousseff,é a mulher, que foi guerrilheira, que sofreu tortura etc e justo ela foi, e ainda é, culpabilizada por alguns pela violência que sofreu.A lei da anistia é também uma das justificativas para que o brasileiro não sinta tanta indignação com os abusos aos direitos humanos e que, muitas vezes, encha-se de razão para malbaratar "os direitos humanos". A herança da ditadura militar é viva em nossa sociedade, especialmente na sensibilidade do brasileiro. Isso porque, neste país cuja história se construiu usando a violência como força motriz, atos injustificáveis de violência como a tortura puderam ser esquecidos tranquilamente, em nome de uma "paz" injusta e absurda. Eu espero que nossa presidente consiga tocar de forma mais firme essa nossa sensibilidade amortecida. "


quarta-feira, 17 de março de 2010

O BRASIL AINDA PRECISA SE ENCONTRAR!


Fala-se muito - especialmente no meio acadêmico- que precisamos encontrar Brasil, e tal...
Acho que isso é pular etapas... penso que o Brasil é como o diabo do Grande Sertão:"não queria existir"! Ele ainda é tão fluído!
Isso me (re) lembra o filme que eu amo "Central do Brasil" -e, aquele cujo subtítulo podia ser a"a verdadeira História do Brasil"- que começa e termina com o samba "Preciso me encontrar"... e esse "deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar rir pra não chorar..."
Sentir/pensar isso é, para mim, uma razão de vida!
Pensei muito isso no meu mestrado, agora no início do doutorado, penso no Brasil mais profundamente: Como tudo aqui ainda está em fase inicial!
Assim como pensava Oswald de Andrade nos anos 1920, o Brasil é um Estado criança, a ser formado, e ainda é? Acho que sim!
Aqui ainda existe esse tipo de coisa:





O que faremos ? O que podemos fazer?



domingo, 13 de setembro de 2009

BRUXAS E O IMAGINÁRIO INFANTIL



Quando eu trabalhava como voluntária na biblioteca de uma escola pública, os livros infantis eram divididos por temas e o que fazia mais "sucesso" eram os das histórias de bruxas e fadas, por aí, para mim, o imaginário das crianças sempre foi povoado por serem fantásticos... um exemplo disse é o sucesso de Harry Potter e etc...
Pesquisando a história da cultura e da produção cultural, "descobri" o óbvio: no Brasil - o lugar que desde sempre era considerado o paraíso - o imaginário é uma das forças motrizes da história e ele tem se manifestado desde sempre, pelos mitos e lendas, pelas feiticeiras coloniais das Minas Gerais, mil outros exemplos interessantíssimos que me levam a não ter nenhuma religião: quero saber e entender de todas, todas, todas...
Uma pena que algumas pessoas (e até crianças) abraçam uma religião e a tomam como uma espécie de monopólio da felicidade... com isso acabam perdendo todo um imaginário riquíssimo que veio crescendo antes dela ... é uma perda cultural sem precedentes!
Sinto muito que isso esteja cada vez mais forte.