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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Um samba mais negro : Os Afro Sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes (1966)



Um samba mais negro : Os Afro Sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes (1966)
Camila Rodrigues (publicado originalmente em 5 de outubro de 2018)
“Tem sete cores sua cor
Sete dias para a gente amar”
(Canto de Xangô – Baden Powell e Vinicius de Moraes)

Ainda que já tenhamos abordado outros artistas na coluna História Cultural, é neste texto que trataremos daquele que é reconhecido oficialmente na história da canção brasileira como o álbum que introduziu a cultura negra na canção nacional, que é o disco ”Afro-Sambas”, do violonista Baden Powell e do poeta e diplomata  Vinicius de Moraes, primeiro gravado em 1966. Desde o início a ideia dos compositores  era a de gravarem um álbum conceitual, ou seja, que se propusesse a ser mais do que um simples  disco  musical, pois também abordaria, de forma bastante clara, pela sonoridade, o que  Isabela Silva (UNESP) chamou de questões “poético-políticas” importantes : o conteúdo conceitual dos Afro-Sambas versava sobre a  questão racial.

Mesmo que as historinhas sobre o nascimento deste álbum sejam marcadas por uma zona de penumbra, é o próprio Baden Powell quem, na entrevista para o programa Ensaio (TV Cultura), nos conta que seu encontro com Vinicius de Moraes se deu em meados da década de 1950, quando ele trabalhava como músico em uma boate  em Copacabana (RJ) e esta era frequentada por artistas como Vinicius de Moraes e seu então parceiro musical da Bossa Nova Tom Jobim, que estavam compondo para a  trilha sonora da peça teatral  Orfeu da Conceição (1954), escrita por Vinicius, o que faz desta peça um pano de fundo  para a própria ideia dos Afro Sambas.

Nesta peça, Vinicius transpõe a tragédia passional  grega de Orfeu à realidade das favelas cariocas. Segundo o blog Efemérides do éfemello, que apresenta algumas imagens de época, durante a exibição uma declaração de Vinicius era exposta ao público :

            Esta peça é, pois, uma homenagem do seu autor e    empresário, e de cada um dos      elementos que a          montaram, ao negro brasileiro, pelo muito que já     deu ao Brasil mesmo         dentro das condições mais     precárias de existência.– Vinicius de Moraes.”

Embora pouco conhecido atualmente, cabe lembrar que aquele espetáculo marcou a primeira vez que  todo o elenco de uma peça teatral, que era composto em sua totalidade de atores negros, pisava no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, causando reações encantadas mas também polêmicas por conta do racismo.  Vinicius parecia querer enfrentar a controvérsia usando a favor disso toda a visibilidade que seu nome de poeta e compositor lhe garantiam. Em 1959  a peça teatral, que Vinicius demorou doze anos para concluir, inspirou o francês Marcel Camus para escrever o roteiro de seu filme Orfeu Negro, que foi gravado no Brasil, contendo apenas atores negros e que depois ganhou uma série de prêmios como a Palma de Ouro e o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 2018, quando a questão da representatividade negra virou assunto capital pelo sucesso do filme de herói da Marvel, Pantera Negra, com seu elenco todo negro,  é interessante resgatar e problematizar a antiga película que conta a história de Orfeu nos morros cariocas .  Dizemos isso porque, ainda que estivesse ciente de que seu olhar para o negro residente no morro era externo, nos conta  Marina Malka, que  o próprio Vinicius, só assistiu ao filme de Camus quando ele estava pronto e o detestou por completo, alegando que o filme mostrava uma imagem estereotipada do brasileiro  como pobre alegre e alienado, o que não se encontraria em sua peça, ou seja, não bastava apresentar os negros, era preciso atentar para a forma como os representava. Trazemos tudo isso para começar a sublinhar o interesse de Vinicius na cultura negra e, consequentemente, em sua musicalidade.

Foi neste contexto que ocorreu a aproximação entre os parceiros musicais Vinicius e Baden, o que o instrumentista  explica  em um depoimento disponível no Youtube:

 (certa vez) nós conversamos sobre a Bahia, que eu também já conhecia e um pouco essa coisa de Candomblé, Vinicius também,  e eu por outro lado tinha mais acesso a isso porque eu era do subúrbio, Vinicius era diplomata e eu sabia dos negócios de Candomblé, essas coisas.

Conta-se que a dupla de músicos ficou internada no apartamento de Vinicius no Rio  por cerca de três meses até terminarem de compor as faixas que seriam gravadas de forma ainda muito rudimentar pelo Selo Forma, de Roberto Quatin resultando em uma sonoridade  cheia de ruídos para nossos ouvidos no seculo XXI.

O disco contém oito faixas em LP e por isso dividido em duas partes, ou lados, com quatro músicas cada um e embora não  possamos  recriar exatamente o impacto daquele álbum para um ouvinte na década de 1960,  na leitura do álbum  feita por Isabela  Silva (UNESP), considerar a  divisão dos dois lados pode nos ajudar a sintetizar e conceber uma opinião geral sobre o disco. Segundo ela o lado A nos apresentaria uma sonoridade muito ligada a referências e musicalidades mais baianas e o lado B mais cariocas.

O disco começa com “Canto de Ossanha”, sua faixa mais famosa, regravada por outros interpretes e bastante conhecida , sua letra  faz referência a lendas do orixá Ossanha,  que segundo a Mitologia dos Orixás, era  invejado por conhecer todos os segredos das folhas e que no samba  aparece como alguém cujo canto se deve temer :

Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor

Na faixa seguinte, “Canto de Xangô”, ouvimos uma das mais fortes representações de negro na canção popular,aquele  que carrega em si uma rica ancestralidade:

Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de Rei
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só amor em mim

Também nesta canção somos introduzidos à ideia que vai sustentar as letras dos Afro-sambas em geral, a de que a vida é amar e  amar é sofrer :

Mas amar é sofrer
Mas amar é morrer de dor

Nas duas últimas canções do primeiro lado do LP entramos diretamente nas referências ao tema marítimo do cancioneiro de Dorival Caymmi, mais especialmente o desenvolvido em seu álbum Canções Praieiras (1954), no qual Caymmi revoluciona a forma de tocar violão pela influência sutil de formas refinadas da musicalidade popular como o jazz, aliada a canções inspiradas nas cantigas de trabalho dos pescadores baianos, que certamente influenciaram muito nosso violonista fluminense. Porém cabe lembrar que, apesar de reconhecido como grande músico popular brasileiro, Baden Powell estudou muito os compositores clássicos e esse tema era um dos que o uniu  a Vinicius de Moraes, conforme ele mesmo conta na sua entrevista para o programa Ensaio. Mas no que se refere ao repertório popular, um diálogo com o imaginário marítimo da Bahia de Caymmi nas Canções Praieiras se faz presente ali. No belo tema “Bocochê”, sofrendo de amor, uma moça busca reencontrar  seu perdido amado, nos braços da morte, no fundo do mar:

Menina bonita, pra onde é “qu’ocê” vai
Menina bonita, pra onde é “qu’ocê” vai
Vou procurar o meu lindo amor
No fundo do mar

Podendo responder diretamente à narrativa de tantas letras do disco Canções Praieiras (1954) de Caymmi, nas quais muitas vezes se narra o desaparecimento  de pescadores no fundo do mar. Na canção dos  Afro-sambas, além da letra, também a melodia nos leva ao fundo do mar quando entoa :

nhem nhem nhem
é a onda que vai
nhem nhem nhem
é a onda que vem,

remetendo ao vai e vem das ondas do mar. Como já estávamos no fundo do mar , a última canção do lado A é o belo  “Canto de Iemanjá”, um lamento de amor e morte:

Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir lemanjá
A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar/
Bem mais além
Do que o fim do mar
Bem mais além

Mas para além das influências baianas e considerando que todo samba tem em si uma raiz afro, é preciso destacar que o som que Baden estava instituindo ali era um tipo que ele chamou de “afro-brasileiros” e que, em depoimento disponível no Youtube,  assumiu ter sido ele  quem começou  a criar, numa interpretação de fora a respeito da cultura do negro:

fui até eu que dei uma levantada no tipo de samba, porque tem um samba mais escuro, mais negro, que tem raízes mais negras. Tem um tipo de samba que é assim, é um samba lamento, esse samba é que tem as raízes mais próximas ao afro.

E reforçando que estava falando de negros brasileiros, conclui com uma referência a História do Brasil ao afirmar que o afro samba é um lamento especial devido ao estilo do cântico, que vem dos cantos gregorianos, que quem trouxe para o Brasil foi os Jesuítas, quando vieram catequizar os índios aqui. Tudo isso tem uma ligação.

Musicalmente, além de Caymmi, os compositores dos Afro-Sambas também foram diretamente afetados pelo LP  Sambas de Roda e Candomblés da Bahia (196?), que hoje está disponível na íntegra no Youtube, e que na época Vinicius havia ganho de um amigo baiano  e mostrou a Baden, encantando- o com a beleza da sonoridade daquele som tão próximo ao que se ouve em rituais e festas do Candomblé e também da Umbanda.

Como já apontamos, nas faixas do lado B vemos aparecer mais referências  ligadas ao cenário afro-brasileiro do Rio de Janeiro. Na primeira faixa temos uma das mais sofridas canções do álbum, “Tempo de amor”, onde ressurge a ideia de que amar é sofrer, que perpassa todo o álbum, e aqui ressurge com toda força:

Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar
Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar
Ah, mundo enganador
Paz não quer mais dizer amor

Para o professor de literatura José Miguel Wisnik (USP), na década de 1960 o então poeta de livro Vinicius de Moraes devassou a fronteira entre a poesia escrita e a cantada, gerando gerações de poetas letrista.  Nós lembramos que este compositor também inaugurou uma espécie de educação sentimental que aposta na vida como uma experiência de amor e paixão, com suas alegrias e sofrimentos, o que é uma característica das composições populares de Vinicius de Moraes e certamente conversava bastante com o ideário poético de autores como o  poeta chileno Pablo Neruda, que era seu amigo.

A segunda música do lado B, “Canto do Caboclo Pedra Preta” traz à tona uma experiência que teria sido recolhida num terreiro carioca, cujo pai de santo era o polêmico Joãozinho da Goméia, sendo o Pedra Preta a entidade que este incorporava. Segundo a leitura de Isabela Silva (UNESP),

A canção começa com a voz de Vinicius de Moraes cantando solo “Olô Pandeiro”, e então ouvimos o soar dos atabaques, e então “Olô Viola”, quando ouvimos o dedilhar do violão de Baden, numa relação direta entre a evocação do instrumento percussivo e som do atabaque, e do instrumento de cordas, e o violão de Baden,

remetendo a todo um imaginário musical popular brasileiro. Segundo levantamento do IPHAN lembrado por Silva, o samba de roda e também  a viola são muito utilizados nos cultos aos caboclos de todo o Brasil. Na terceira faixa deste lado, “Tristeza e Solidão” canta-se:

Sou da linha de umbanda
Vou  no babalaô
Para pedir pra ela voltar pra mim
Porque assim eu sei que vou morrer de dor,

retomamos à temática do viver é sofrer por amor, mas dessa vez citando a “linha de Umbanda”, que pode ser a própria  religião afro brasileira  ou mesmo o Candomblé nação Angola, que também cultua entidades como os caboclos.

Por último temos o belo e triste “Lamento de Exu”, uma peça instrumental, pontuada por lamentações vocálicas, abrindo os caminhos de saída deste  álbum,  que desde o início procurou desvendar as sete cores contidas na pele negra, o que na década de 1960 era, e ainda é, uma questão política séria a ser abordada.

Porque este disco é tão importante,  lembramos que na década de 1990 Baden Powell regravou a obra, iniciando uma nova fase para o projeto e sobre isso trataremos em um próximo texto. Por hora deixamos o convite para você compartilhar e comentar este post sobre um disco tão sensacional como é este.

Refências

Filme, discos e vídeos

CAYMMI, Dorival. Canções praieiras Odeon, 1954.
Orfeu (Filme) Direção: Marcel Camus. Produção Sacha Gordine. França, Itália e Espanha , 1959.
Bibliografia

MÁXIMO, João. A reinvenção de dois mestres do Afro samba. Rio de Janeiro, O Globo, 07 out, 2016.
NERUDA, Pablo. Cem sonetos de amor. Trad. Carlos Nejar – Porto Alegre (RS) : L & PM, 2007.
OS AFRO-SAMBAS DE BADEN E VINÍCIUS. Revista Piauí, 18 de mar 2015. 
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
SÁ, Elvis de. Muito além da representatividade, Pantera Negra é histórico. SILVA, Isabela Martins de Morais. É,não sou : Ensaios sobre os afro-sambas no tempo e no espaço.2013. 290f.Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual Paulista, Araraquara.
TORRES, Roberto. Sambas de Roda e Candomblés da Bahia – O disco que inspirou os Afro Sambas em Baden e Vinicius. In Jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, em 06/12/2003.
WISNIK, José Miguel. A Gaia ciência – Literatura e música popular no Brasil. In: MATOS, C. N.; MEDEIROS,F.T e TRAVASSOS, E. (org). Ao Encontro da palavra Cantada: poesia, música e voz. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001.


terça-feira, 20 de novembro de 2018

5 TEXTOS SOBRE INFLUÊNCIA AFRO NA CANÇÃO POPULAR BRASILEIRA


1."O simbolismo afro-brasileiro no cancioneiro de Jorge Ben" - 14 de maio d 2018
[https://blog.loja-axe.com/…/o-simbolismo-afro-brasileiro-no…]
2."Tecnomacumba: 15 anos de um canto de resistência contra a intolerância religiosa" - 19 de junho de 2018
[https://blog.loja-axe.com/…/tecnomacumba-15-anos-de-um-cant…]
3."Negritude, música e ancestralidade em Milton Nascimento" - 16 julho de 2018
[https://blog.loja-axe.com/…/negritude-musica-e-ancestralida…]
4."Um samba mais negro : Os Afro Sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes (1966)"- 5 de outubro de 2018
https://blog.loja-axe.com/…/um-samba-mais-negro-os-afro-sam…]
5."'Afro é todo o Brasil e está dentro da gente' : Os Afro Sambas de Baden Powell (1990)" - 16 de outubro de 2018
[https://blog.loja-axe.com/…/afro-e-todo-o-brasil-e-esta-den…]

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crianças, Partimpim e Vinicius de Moraes

Partimpim (1, 2 e 3) foi o grande tema musical musical do meu trabalho com História Cultura de crianças de  2004 até 2014! No DVD do primeiro disco é apresentada uma versão musicada por Toquinho do poema O Poeta aprendiz, de Vinícius de Moraes, com essa animação ao fundo, mas que Calcanotto apresenta da seguinte forma :
Boa tarde! Tem crianças na plateia? É um prazer muito grande estar cantando aqui mais uma vez, e vocês devem achar que eu digo isso em todos os lugares, em todas as tardes, e eu digo mesmo, mas aqui é verdade! A gente vai fazer uma canção que conta a história de um menino que sonhava em se tornar poeta e ele não só sonhou em se tornar um poeta, como de fato se tornou um grande, um imenso poeta, e ele não só se tornou um imenso poeta, como modificou a maneira de se escrever poesia e de se escrever canções no Brasil, entre muitas outras coisas que ele modificou no Brasil. Só é possível que este espetáculo exista porque ele existiu. O nome dele era Vinícius, e a história dele é assim. (PARTIMPIM, 2004, 11’ 25’’ até 16’ 40’’, grifo nosso)




Viva o Vinicius de Moraes! 

domingo, 23 de julho de 2017

Vinicius de Moraes, Guimarães Rosa e o Humor


Um texto do poetinha que acho que tem tudo a ver com HUMOR:

"Realmente, quando em meio a um discurso lógico nos deparara um grão de 'não senso', somos inconscientemente tocados pelo riso, que é o tédio da lógica ou pela poesia, que é a lógica do mistério. Um nó qualquer se desfaz em nosso espírito e vivemos um instante de liberdade no seio de uma ordem sem nenhum dogma."

(Vinicius de Moraes - "A poesia do não senso" - trecho de uma fotocópia de jornal colada em um dos cadernos manuscritos de Guimarães Rosa em seu acervo no IEB, sem indicação de data ou veículo em que foi publicado. Mais sobre este texto, humor e Rosa, confira o artigo "ANEDOTÁRIOS NOS CADERNOS DE ANOTAÇÕES: UMA VEREDA ESPIRITIUOSA NOS MANUSCRITOS DE GUIMARÃES ROSA"

sexta-feira, 24 de março de 2017

Sou filha de Oxum :Ora ei ei ô


Agora a pouco na Academia eu perguntei a um amigo de longa data:
"Carlos, por que você sempre me chama de "Camilinha bonitinha? Tá dizendo que eu sou uma feia arrumadinha?"
Ele respondeu:
"Não, é que você é sempre toda meiga, delicada,até seu jeito de falar é cheio de dengo, você mesmo a Camilinha bonitinha"}
Então tá, né? Acho que só agora  ele descobriu que sou de Oxum, cheia de fé fé xorodô" :
"Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem-nhem-xorodô
Nhem-nhem-nhem-xorodô
É o mar, é o mar
Fé-fé xorodô..."

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Um show da Mônica Salmaso, a DIVA!




Em pleno carnaval assisti a um dos shows mais emocionantes da minha vida:



Gente, o que é um show da Mônica Salmaso cantando um inusitado Vinicius de Moraes ?
Ela explicou que a ideia desse show surgiu quando, em 2013, no centenário do poetinha, ela foi convidada a cantar Vinicius mas sem serem parcerias com Baden Powell (a dos afrosambas);Tom Jobim ou Chico Buarque ...ai ela teve pesquisar mais sobre as composições dele, e então  descobriu coisas inusitadas! Muito emocionate... 
 Chorei do começo ao fim... e olha que nem teve nenhum afrosamba com o Baden... mas teve A Arca de Noé, lindamente ela cantou São Fanscisco e  esse arranjo sensacional de A CASA (a música que melhor representa o que eu chamo de infância) com flautas, piano etc, bem infantil :

... eu achei que foi covardia ... só lamentamos que, no final, ela não tenha vendido nada que ela fez com Vinicius e a gente queria mais, claro ! 
Ai como é com assistir os sensacionais shows no SESC, amo amo amo os shows no Pompéia...
Mais sobre Salmaso canta Vinicius achei no blog do Nyldo Moreira, que copio aqui :
"Mônica Salmaso canta o universo de Vinícius de Moraes

Nyldo Moreira

Um palco todo preparado para um pequeno concerto, de sopros, piano e uma voz que rebate a seda e exalta como flores desabrochando exibindo o som da abertura de suas pétalas ao tocar da sensibilidade do vento. Mônica Salmaso despejou, na última terça-feira (28), no palco do Theatro NET SP, as salivas de Vinícius de Moraes em notas. O show, ao lado de Teco Cardoso (sopros) e Nelson Ayres (piano) distribuiu a bossa em uma melancolia lírica.
Mônica rasgou o palco escancarando o endereço de Vinícius de Moraes, sim... Vinícius sempre morou na música. Seus olhos penetram nas pautas e mantém o homem em gole a gole de uísque ainda vivo. Costurando parcerias com Tom Jobim, Carlos Lyra, Chico Buarque, Ary Barroso e Francis Hime, Mônica foi embebedando o público com o sulco licoroso de sua voz serena e que parece encontrar finos espaços para deixar a boca. A cantora interpreta com o timbre canções que já empoeiravam e outras que domaram as rádios brasileiras.
Ela ousou duplicar a interpretação, que antes era de Ângela Maria, e genuinamente entregou-se ao "Rancho das Namoradas", parceria de Vinícius com Ary. "Olha, Maria", da parceria com Chico, escorreu pelos dedos como um pranto que não se pode segurar. Aquelas que a gente fica cantarolando por ai também encontraram na voz de Salmaso um jeito diferente de esboçar a bossa. "Derradeira Primavera" e "Coisa Mais Linda" foram doses homeopáticas que perduraram lindamente no silêncio do teatro.
Foi uma bossa autoral, descaracterizada, sobretudo no piano, para que encontrasse na voz da cantora um aconchego clássico e perdurasse suas características no que saia dos sopros. Fazia falta alguma nota das partituras reais esculpidas pelo piano da bossa nova, mas Mônica calava essa falta com a voz que delineava nossos ouvidos.
Os trabalhos da cantora parecem completar o anterior, seguem uma mesma linha de produção, como se andassem juntos. Isso, de repente, causa uma sensação de ouvirmos a mesma coisa e, ainda que com outro repertório, a impressão de que sua voz entoa as mesmas canções permanece. Os arranjos distinguem-se muito bem, mas os elementos utilizados pela artista não são renovados. É um estilo que ela adotou, e isso tem muito a sua beleza."

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Casa de Vinicius de Moraes


Comprei esse livro porque tem um capítulo SÓ SOBRE A ARCA DE NOÉ! Nele são contadas aquelas histórias sobre o projeto que eu já sabia (do fato de, ao final, ter durado 30 anos, etc) e também tem comentários e as historinhas de algumas canções... como a minha preferida A CASA ...
Que a tal casa existe de verdade em Montevidéu, se chama "Casapueblo" e é projeto do artista Carlos Páes Vilaró e depois virou um hotel, com um quarto com o nome de Vinicius de Moraes e o mais interessante: a cantiga foi composta naturalmente, em uma das estadias do poeta, onde ele brincava com as filhas de Vilaró dizendo: "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto não tinha nada" e terminava com os versos "Mas era feita com pororó (termo indígena que significa palavras ocas, lenga-lenga)/ Era a casa de Vilaró. " 

Wagner Homem & Bruno de La Rosa - "Histórias e Canções- Vinicius de Moraes", p. 172-3 

Não é fofo demais? 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre A Arca de Noé de Vinicius de Moraes


Estou ouvindo a versão de 2013 de A Arca de Noé, e que emoção!
Pelo que se sabe, "foi em 1950 que Vinicius de Moraes "Começou a escrever, sem a preocupação reuni-los  em livro, poemas infantis inspirados na Biblia. Salvo um ou outro, como o dedicado a São Francisco de Assis, os poemas tinham como base a história de  Noé  e sua arca ... "  Sendo seu último projeto em vida o de transformar estes poemas em  música, que virou disco postumamente, sei de uma canção que foi gravava  em 1956 por Paulo Soledade, mas que acabou ficando de fora do disco, mas talvez tenha sido o primeiro registro de que aqueles poemas foram compostos para serem canções (a cara do Vinicius isso!)

Com isso, reparem, estamos pensando cerca de trista anos  para a realização do projeto!  Quem, como Vinicius, "perderia" tanto tempo na produção de um objeto cultural para crianças, sabendo que a infância  é tão transitôria, quando se vê, já passou ... 

São referências assim que eu quero na minha tese :  só me interessam os adultos que respeitam as crianças, que não desconsideram sua sabedoria e perspectiva de vida! 
Quem quer saber mais sobre a história de A Arca de Noé, ouça este programa maravilhoso, um dos episódios em homenagem ao centenário do poetinha, que está disponível neste link da rádio Cultura AM:



domingo, 20 de dezembro de 2009

Adriana Calcanhotto, no DVD do show Partimpim diz que aquele espetáculo só aconteceu porque Vinícius de Moraes existiu... acho muito belo e muito verdade, quem atenta para crianças (como eu), não esquece do Poetinha (que por ser diminutivo, não é menor que os outros, como as crianças, que não sabem menos, mas sabem outra coisa, como pensou uma antropóloga...
Por ele ter existido, nós e todas as crianças temos coisas como isso:


domingo, 8 de fevereiro de 2009

UMA VOLTA DE 360 GRAUS!

ESSE FINAL DE SEMANA MINHA VIDA DEU UMA VOLTA DE 360 GRAUS. É, 360: NÃO PERGUNTE COMO ESTOU, PORQUE EU DEI A VOLTA NOS ACONTECIMENTOS, REVISITEI VÁRIAS POSSIBILIDADES E VOLTEI AO PONTO ONDE ESTAVA. SE UM POUCO MUDADA, É PARA PIOR.
HOJE BUSQUEI MELANCOLIA, ACHEI NO MAIS MELANCÓLICO DE TODOS, VINICIUS DE MORAES:

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

VESTIBULAR 2010: LIVROS OBRIGATÓRIOS USP/UNICAMP

Saiu no dia 14 de janeiro a lista de livros obrigatória para o vestibular 2010 da USP e UNICAMP.
Somente três obras foram substituídas. Saíram Sagarana de Guimarães Rosa, A Rosa do povo de Drummond e Poemas escolhidos de Alberto Caeiro, e estraram Capitães de areia de Jorge Amado, Antologia 1960 de Vinicius de Moraes e O Cortiço, de Aluisio Azevedo.
Penso que a opção por Capitães da Areia, de Jorge Amado, ao invés de Sagarana me parece mais adequado para um vestibulando, pois não é um livro raso, mas também não exige uma interpretação tão profunda quando pede uma obra de Guimarães Rosa... Claro que Rosa é (para mim) incomparável, mas justamente por isso sou contra a obrigatoriedade de sua leitura. Se for para ler obrigado, acho bem melhor que seja Jorge Amado, que também tem muito pano para manga, pois trás sempre conflitos culturais e sociais a serem discutidos.

Já em relação à retirada de A Rosa do Povo, de Drummond, sou contra. Claro que é um livro bastante denso como todo Drummond, mas é de agradável leitura (apesar da densidade de alguns poemas...) e tem em sua base todo um contexto histórico (a Segunda Guerra) e todas as insatisfações frementes nesta época, o que poderia ser muito mais explorado, apesar de eu também ser a favor da entrada do poetinha nesta lista (poetinha sempre foi discriminado academicamente, mas ele também é um dos "grandes poetas do Brasil", como Drummond...) neste livro que foi indicado temos alguns dos meu favoritos dele,como Pátria minha e Operário em construção... talvez se ao invés de apostar na poesia de Vinicius para a inserção do autor no contexto da academia, pudéssemos ter apostado na prosa de Vinícius (que é forte também!) e mantido Drummond ... mas para começo, está bom.
Sobre o livro de Aluízio Azevedo, penso que é uma escolha padrão - embora o realismo já estivesse representado por Eça de Queirós com A Cidade e as Serras, mas Brasil já não é mais Portugal na época do realismo, então é interessante que apareçam as duas faces.
Resumindo eu achei a lista boa, espero dar muitas aulas sobre esses livros todos esse ano (porque as de literatura são as aulas que eu mais gosto de dar, apesar de eu estar redescobrindo o gosto bom da história, que pode ser muito divertida). Um dos nove livros da lista eu nunca li, o do Eça, mas como ele continua firme na indicação, acho que vou animar ler.
Esta nova lista de livros de leitura obrigatória, ao que me parece, apresenta alguma espécie de mudança na mentalidade pois derruba preconceitos tolos, mas vejamos como esses autores que sempre estiveram à margem serão aproveitados.