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terça-feira, 19 de março de 2019

O espírito da ancestralidade


(Colagem Estúdio Nono/Superinteressante.
In:https://super.abril.com.br/historia/a-historia-dos-imperios-africanos/)

Ainda sobre o livro africano, tô reconhecendo tantas coisas que eu já tinha experimentado nas minhas poucas, porém intensas, experiências com o Candomblé  e, sobretudo, "aprendendo" tantas coisas.
Vejamos esse trecho interessante:


"Quando povos tribais falam de espírito, estão, basicamente, referindo-se à força vital que há em tudo. Podemos, por exemplo, citar o espírito de um animal, ou seja, a força vital daquele animal que nos ajuda a realizar o propósito de nossa vida e a manter nossa conexão com o mundo espiritual. 
O espírito humano é igual. Em nossa direção, cada um de nós é visto como espírito que tomo forma humana, para desempenhar um propósito. Espírito é a energia que nos ajuda a nos unir, que nos ajuda a ver além de nossos parâmetros racialmente limitados.

Também nos ajuda nos rituais e na conexão com nossos ancestrais. 
Os ancestrais também são chamados de espíritos. O espírito de um ancestral tem a capacidade de ver não só o mundo visível do espírito, mas também este mundo. Assim, serve como nossos olhos dos dois lados. É esse poder dos ancestrais que nos ajuda a direcionar nossa vida e evitar abismos.


Espíritos ancestrais podem ver o futuro, o passado e o presente. Eles vêem dentro e fora de nós. Sua visão cruza dimensões. Eles têm a sorte de não ter corpos físicos como nós, Sem a limitação do corpo, eles têm a fluidez de um olho que pode se voltar para várias direções e ver de muitas formas."(Sobonfu Somé. O Espírito da Intimidade - Ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar. Trad. Deborah Weinberg. 2a. ed.  Odysseus Ed., 2007,  p. 26).


Pensei tantas coisas lendo isso! Coisas referentes à nossa herança africana, como por exemplo o culto aos orixás (que são divindades que representam o tal elã vital (espírito) de elementos da natureza, não é isso?) e daí serem também representações da nossa ancestralidade...
Mas, pensando a partir do ponto de vista ocidental, a visão multifocal dos ancestrais, que vêem passado, presente e futuro num mesmo lapso de tempo, me faz lembrar "teorias" da História das mais modernas e interessantes, como a de Walter Benjamin ...
Tô pirando nesse livrinho, vocês nem imaginam! 

terça-feira, 16 de maio de 2017

Passagens, de Walter Benjamin


A obra historiográfica que me fez pirar desde o mestrado ... até hoje está de pé ao lado do computador para eu não esquecer nunca da fragmentação da narrativa (rs)
Aqui a referência completa do meu volume (com traduções e tudo mais):

BENJAMIN, Walter. Passagens. Trad. Irene Aron (alemão) e Cleonice Paes Barreto Mourão (francês). Belo Horizonte: Editora UFMG;São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.
Sempre me perguntei : A narrativa constelacional da História de Benjamin poderia ser uma possibilidade de entrada na abordagem da narrativa humorística (também ela toda fracionada)? ... Não sei a resposta ainda, mas li um texto manuscrito de Benjamin chamado "Un historie comique à l'époque oú il n'y avait pas encore d'hommes" e o 'comique' aqui é mesmo HQ (este texto está publicado e no volume Les Cahiers de l'Herne - Walter Benjamin (2013) ... para quem pira na narrativa da história como eu : é demais! 
Voltando ao Passagens, cabe reforçar que esse material chega até nós em forma de um livro de 1166 páginas, mas não vamos esquecer que, originalmente, trata-se de um conjunto de MANUSCRITOS DE WALTER BENJAMIN... realmente eu não fui estudar os manuscritos de Rosa à toa, não ... é todo um oxigênio mental respirado no século XX. Sobre manuscritos, fragmentação e História, confiram meu artigo "A indagação da História nos manuscritos literários de Guimarães Rosa", publicado no vol 2 no. 2 da Revista Intelligere - História Intelectual ....

domingo, 9 de abril de 2017

Por uma História da Criança

Outro dia vi no Facebook alguém lembrando do uniforme do pré primário que todas as crianças usavam nos anos 80 ... Eu  sabia que eu tinha uma foto usando ele, mas demorei tanto para achar que perdi a postagem. De qualquer forma, eis a foto comprobatória, diretamente de 1985:
Foto caseira de Camila Rodrigues indo à aula do pré-primário uniformizada em 1985
Eu vejo essas minhas fotos de criança e me lembro daquele livro que eu (será que só eu ?) considero uma obra prima para se pensar a história da criança no século XX, que é o "Infância em Berlim, 1900", de Walter Benjamin, no qual ele fala tanto das memórias das coisas do seu cotidiano infantil, as roupas que usava, os brinquedos, os lugares ... no meu pós-doc eu estou tentando iluminar isso: é preciso, porque depois do século XX já é possível, tentar contar a história da infância a partir das vivências dela...É essa minha proposta, construída lado a lado com Benjamin, que está na resenha que escrevi para outro livo dele, disponível aqui. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Retorno da Editora Nau sobre à resenha do livro de Walter Benjamin

Um dia você escreve uma resenha sobre o delicioso livro de Walter Benjamin e nas semanas seguintes ela só te dá alegrias! Acabo de receber um retorno da Editora Nau que publicou uma divulgação em sua página do Facebook. Estou MUITO, mas MUITO FELIZ MESMO 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

História em Walter Benjamin

"A recepção de Benjamin, principalmente na França, estava voltada prioritariamente para a vertente estética de sua obra, com uma tendência a considerá-lo sobretudo um historiador da cultura. Ora, sem neglicenciar esse aspecto de sua obra, é preciso reconhecer o alcance muito mais amplo de seu pensamento, que visa nada menos do que uma nova compreensão da história humana. Os escritos sobre arte e literatura podem ser compreendidos somente em relação a essa visão de conjunto que os ilumina a partir de dentro. Sua reflexão constitui um todo no qual arte, história, cultura, política, literatura e teologia são inseparáveis"
 Michel Löwy. Introdução a 'Walter Benjamin: aviso de incêndio- uma leitura das teses sobre o conceito de história", p. 14  

Concordo com o exposto. Mas, como  historiadora,  o Benjamin 'historiador da cultura' me chamou sempre a atenção, claro,  mas o que me encanta mesmo é  sobretudo o teórico. É pelas especulações teóricas que eu penso ser possível abordar todos os aspectos possíveis no que tange a arte, história, cultura, política, literatura e teologia. 
Além disso, essa teoria também pode abrir caminho para se pensar uma outra modalidade que, à época benjaminiana, não era assunto de interesse da historiografia: a história da criança.

sábado, 14 de junho de 2014

Sobre Benjamin, traduzido por João Barrento e publicado pela Editora Autentica

Como eu já falei muitas vezes, eu gosto muito do livro "Infância berlinenses, 1900" editados no Brasil em 2013. Muita gente não gosta, acha fraco, etc... mas eu acho muitas coisas naquela edição. Vamos ver um trechinho dela :

Este foi um dos trechos retirados por Walter Benjamin das versões originais mais conhecidas de seu livro "Infância Berlinense, 1900" e que constam nos anexos da edição brasileira da Editora Autêntica. Eu só conheço esse livro, mas sei que a Autêntica tem (re)editado também outras obras benjaminianas e, tomando por esse livro, eu  continuo dando o maior valor a essas edições. Especificamente sobre o  "Infância...", ela me apresentou dados que nós, aqui no Brasil, desconhecíamos (como correspondências,fontes de jornal, manuscritos que nos dão conta de acompanhar minimamente o ritmo da escritura ... coisas de total interessa a historiador). Não acho que essas coisas se apresentam para contrapor ou se sobrepor  ás traduções  que tínhamos aqui,e  muito menos  às interpretações de Benjamin mais conhecidas no Brasil ( Jeanne Marie Gagnebin ou Michel Löwy), até porque o forte deleas não é a interpretação, mas a pesquisa de Barrento que  nos trazem faces das  "notas e materiais" de Benjamin (lembrando a terminologia de Willi Bolle) referentes a composição do texto de "Infância...".  É um prato cheio aos que se interessam pela morfologia da história...

Sobre este pensamento, considero-o  simbólico do ideário do começo do século XX, especialmente   lembrando as descobertas de Freud e etc...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Passeios pela infância, com Walter Benjamin

Neste livro, em uma tradução e seleção diferente, eu achei neste livro outros flagras do que Walter Benjamin pensava sobre infância:


Belas imagens como :

"Como uma mãe que aperta ao peito o recém-nascido sem o acordar, assim a vida trata durante muito tempo a recordação ainda tênue da infância." (Walter Benjamin, Varandas. In:Infância berlinense 1900, trad João Barrento, p. 70.)

Ou mesmo :

"Todo mundo têm uma fada a quem podem pedir a realização de um desejo. Mas só poucos são capazes de se lembrar do desejo que formularam; e por isso só poucos reconhecem mais tarde, ao longo da vida, que o seu desejo foi satisfeito. (...) " Walter Benjamin, Manhã de inverno.In:Infância berlinense 1900, trad João Barrento,  p. 82-3. 

Inclusive, sobre esta imagem, achei neste link uma figura com ele todinha :


 E, voltando ao livo,  pude reler uma das mais belas :
Walter Benjamin, A Meia.In:Infância berlinense 1900, trad João Barrento,  p. 101.

Na minha opinião esta é uma das  imagens mais sublimes de Benjamin:
"nada me dava mais prazer do que enfiar a mão por elas adentro, o mais fundo possível. Não o fazia para lhes sentir o calor. O que me atraia para aquelas profundezas era antes 'o que eu trazia comigo', na mão que descia ao seu interior enrolado... "

Bela, cotidiana, sensual, literária,poética,  histórica, psicanalítica, filosófica, infantil... tudo isso que Benjamin via onde muitos de nós enxerga só uma criança e seus afazeres...  
Na minha opinião esta é uma das  imagens mais sublimes de Benjamin:

"nada me dava mais prazer do que enfiar a mão por elas adentro, o mais fundo possível. Não o fazia para lhes sentir o calor. O que me atraia para aquelas profundezas era antes 'o que eu trazia comigo', na mão que descia ao seu interior enrolado... "

Bela, cotidiana, sensual, literária,poética,  histórica, psicanalítica, filosófica, infantil... tudo isso que Benjamin via onde muitos de nós enxerga só uma criança e seus afazeres...  

Mas como Benjamin não para de abrir caminhos para pensar o tempo e a criança (em outras palavras, em História e Infância), vou lendo e garimpando preciosidades como esta descrição de um adulto do seu sentimento ao ter sido uma criança constantemente doente:
Walter Benjamin, A Febre.In:Infância berlinense 1900, trad João Barrento,  p. 88. 

Como vimos no trecho acima, quando fala da infância,Benjamin é  profundamente proustiano ao abrir seu  repertório de sensações. Neste, talvez o  diálogo mais direto seja com Henri Bergson e a ideia de tempo como  duração (durée), e portanto uma dialética com o espaço e as atuações cotidianas...

Só uma pergunta: dá para não amar? 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Resumo do projeto de doutorado " Infância é coisa, coisa?- Crianças inventam sentidos para a História na obra de Guimarães Rosa" (PROVISÓRIO)

"A proposta desta pesquisa de doutorado é a de tentar encontrar um lugar legítimo para a História na obra de João Guimarães Rosa, considerando as possibilidades e conflitos do seu tempo. Sugerimos que um dos diferenciais mais fortes da escrita rosiana está em sua aproximação do ponto de vista infantil, que aparece em representações lingüísticas e imagéticas em sua escrita literária e também em documentos paralelos como correspondências. Nosso enfoque supõe que esta preocupação com a percepção infantil,para dar conta de novos olhares sobre a História em um período no qual sua legitimidade sofreu forte questionamento, também foi algo percebido por outros nomes importantes do século XX, como James Joyce e Walter Benjamin, entretanto ainda não foi tema de nenhuma pesquisa de grande fôlego a partir
da obra rosiana, como estamos projetando."

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Acabo de entrar no doutorado em História, no qual devo seguir a linha de pesquisa iniciada pelo meu mestrado.
Se no mestrado eu queria descobrir qual a concepção de História realmente adotada por Guimarães Rosa, e como esta aparece em sua obra literária, descobri que esta está mesmo mais voltada para a forma que pensaram o tempo durante a modernidade.
Ok,não muitas novidades até aqui - embora minha leitura seja uma bomba que vai contra a maioria das leituras da posição da História em Guimarães Rosa, porque ela não considera, de forma alguma, relações diretas entre o texto da "verdade do acontecido" e o texto ficcional . No doutorado eu propus uma pesquisa que se especificasse na abordagem de um dos temas caros aos que respiravam os ares da modernidade - como Guimarães Rosa - que é a atenção devotada ao olhar infantil para os processos históricos. Com esta mesma preocupação -delimitando pela época, inclusive - Rosa tem alguns companheiros de peso, como James Joyce, ou mesmo Walter Benjamin.
Interessantíssimo, não? Eu acho!
Porém meu orientador - que também deve ter achado tudo isso muito interessante,porque a proposta dá conta de discutir seriamente temas de TEORIA DA HISTÓRIA PURA, problematizando conceitos de temporalidades,de linguagem lúdica,e especialmente de duração,na forma específica como foram encarados pela modernidade - fez uma exigência prática,que obviamente tornará mais viável a pesquisa complicadíssima que estou propondo (que abarcará leituras em pedagogia,psicologia, história, lingüística, semiótica, etc...), mas é tão terrível atender a tal! Como acrescentar mais um autor a pesquisa?
Que autor brasileiro poderia dar as mãos a Guimarães Rosa nesse movimento todo?
Nenhum na prosa brasileira, eu suponho!
Mas me lembro do que escreveu Oswaldino Marques:

"Não se perturbe o leitor com o enquadramento indistinto de João Guimarães Rosa nas esferas da poesia e da prosa, pois a sua textura verbal cobre a dupla extensão dessas categorias. Não foi por acaso haver a ele cabido a primazia de gerar uma nova forma de expressão literária, onde se
fundem, de modo orgânico, a prosa e o poema. À falta de um termo corrente, fomos forçados a cunhar o vocábulo prosopoema, para nomeá-la."

[MARQUES, Oswaldino. Canto e plumagem das palavras.]

Ora, então posso brincar com poetas também? Parece que sim.
E o mais interessante deles parece ser Manoel de Barros, que sofreu assumida influência da escrita de Rosa - especialmente na relação com a linguagem que estabeleceu (Linguagem e vida são uma coisa só) e isso ambos também parecem ter aprendido com as crianças.


Ótimo, ótimo. então qual é o
problema?
O problema é que eu posso gostar muito de Barros, achar genial e
legal, MAS ELE NÃO É GUIMARÃES ROSA!
Pessoa fiel, é um horror!
Não rolou aquela paixão ainda, nem mesmo ao ler trechos lindíssimos e reveladores como este:


"Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos."
Mundo Pequeno (do livro "O Livro das Ignorãças")

Será que meu doutorado será uma aprendizagem da traição?
Vou começar relendo "Dom Casmurro" (risos)