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sábado, 14 de dezembro de 2019

RELEMBRANDO 2019: Retrospectiva do blog (1o. semestre)



A tradicional retrospectiva do blog Pequenidades em 2019, o ano que não podia ter sido, mas será que foi? Vou dividir em duas partes, para caber no Blogger um comentário mês a mês. Vamos ao primeiro semestre:

JANEIRO - Comecei com muito medo da tragédia que o ano estava ensaiando ser, mas tentei levar de boa, como uma continuidade do ano de 2018, curtindo muito a Casa das Caldeiras, que eu sabia que me salvava a vida mas não sabia que seria por tão pouco tempo. Vale observar que no primeiro rolê do ano eu estava toda na defensiva, vestida com as roupas e as armas de Jorge
Pilantragi janeiro 2019

Desde o início 2019 era o  ano com gosto de  "até quando vou sobreviver"? O panorama político, que já ia de mal a pior, desde janeiro foi resumido pelo poema de  Augusto de  Campos

Poema de "O Mito", de Augusto de Campos, jan, 2019

FEVEREIRO – Desde o ano passado estava muito preocupada com a saúde de minha mãe, sabíamos que ela ia passar por uma cirurgia grande, estávamos esperando ser chamada. Mas em fevereiro eu ministrei uma palestra abordando cem anos de representação da menina negra na literatura infantil brasileira em  três momentos (Flor Encarnada de Arnaldo Oliveira Barreto, 1921; A Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado, 1986 e Menina Pretinha. da Mc Soffia, 2016), para o Sesc, começando a destacar a questão do ano: a ANCESTRALIDADE. 
personagens 
Ainda em janeiro ganhei um cd do raper Gui do Guetto rap na rua, e me voltei para essa cultura black. Mas ao  mesmo  tempo, como todos os anos nessa época,  eu já estava ansiosa para o carnaval, que seria só em março, eu  achava que seria bem na hora do carnaval, por isso quis aproveitar muito o pré carnaval e aproveitei todos os ensaios, foi muito gostoso.
Pré Carnaval TaradoNiVocê

MARÇO – Era carnaval e eu pulei os quatro dias, deliciosamente, escrevi detalhes sobre todos os dias aqui. Foi um carnaval sem palmitagem, glória a Deus! Ao mesmo tempo, li um livro  indicado pelo amigo Luiz Henrique, era Espírito da Intimidade e foi muito importante para pensar questões sentimentais entre pretos e pretas e novamente, sobre a palavra do ano, ancestralidade, com trechinhos lindos assim:
"A intimidade, em termos gerais, é uma canção do espírito, que convida duas pessoas a compartilharem seu espírito. É uma canção que ninguém pode resistir. Acordados ou dormindo, em comunidade ou sozinhos, ouvimos a canção. Não conseguimos ignorá-la."

(Sobonfu Somé. O Espírito da Intimidade - Ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar. Trad. Deborah Weinberg. 2a. ed.  Odysseus Ed., 2007,  p. 25.)



ABRIL- Cirurgia de mamãe. Foi muito tenso, mas estivemos todos juntos em nome de um bem maior que era a recuperação dela e tudo ocorreu da melhor forma. Afora isso, eu estava curtindo muito meu cabelão, mal sabia que, em breve, ele seria cancelado,  lamentavelmente. Mas com esse cabelão eu fui ao último Samba Rock plural na Casa das Caldeiras, querendo mais contato com a ancestralidade, mas ainda foram tentativas frustradas, só que renderam para o ano todo, como neste diálogo:
Sorrisos negros 

 Também em abril eu fui a uma festa de Hip Hop nas Caldeiras, foi amor à primeira vista...depois acabei me especializando um pouco nesse ritmo, mas tudo começou ali!
 

novos óculos
MAIO- Comecei a querer modificar meu visual, o que se estendeu o ano todo e nem sempre foi para melhor, mas em maio foi positivo, pois comecei a  usar óculos roxos, bem charmosos.
Mas era o mês da Virada Cultural e o Sesc Pompéia  fez uma linda homenagem à Cultura Africana, era perto e deu para curtir um pouco e voltar depressa para ficar com mamãe, e ter curtido foi ótimo, pois me  levou a retomar aquela essencial busca pela ancestralidade, sonhada há tanto tempo e que agora parecia estar mais próxima. Na Virada eu me diverti  no show Essênc'Iyá: lê Aiyê convida Paula Lima e Ellen Oléria
cartaz do show na Virada

Até que, infelizmente, chagamos no último rolê do projeto Todo Domingo Musical na Casa das Caldeiras e tentamos nos divertir ao máximo! 
JUNHO- Nesse mês as coisas começaram a ficar mais corridas, pois passei a acompanhar minha mãe no hospital para tratamento toda semana, o que me sugava muita energia. Como tinha tempo livre na sala de espera, usei para ler bastante, começando pela biografia Matinho da Vila: Reflexos no espelho,  que comentei neste post. Ainda nas leituras, preocupada com ancestralidade, conheci e comentei aqui sobre o conto de Conceição Evaristo, A gente combinamos de não morrer, que fala tanto sobre a realidade do negro no Brasil do atual governo. Ainda neste mês teve o lançamento de Almodóvar, muito bem acompanhada da minha amiga Rosane, sobre o filme, postei nesse link. Aliás, junho foi um mês que eu passei com  Rosane  algumas  vezes, numa delas conheci o belo Sesc 24 de maio, onde tirei essa foto, bela, mas cheia de melancolia
São Paulo, no Sesc 24 de maio

Assim foram os primeiros seis meses de 2019, muita coisa mudaria depois, mas elas só comento na semana que vem! :)




sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Criança crionça e o nonsense para crianças

Este CD é delicioso, eu amo! Se quiser saber mais, acesse este link. Hoje eu achei esta resenha, escrita por Carlos Adriano, que explica muita coisa sobre ele, copio ela abaixo:


CANÇÃO E POESIA
Nonsense para crianças
Por Carlos Adriano
Cid Campos faz versões musicais de textos de Edward Lear, Lewis Carroll, Augusto de Campos e Paulo Leminski

Fazer arte para criança não é brincadeira. Por mais que elas adorem artes, manhas, bricolagens e desmontagens de jogos (o prazer do batoteiro bakhtiniano), e os adultos teimem em tentar adivinhar como agradá-las, surpreendê-las e educá-las.
Se o desenho permite às crianças um grau de empatia imediata pelo reconhecimento (do) visível, a música opera em esfera abstrata e menos aparente, livre da representação do mundo. Sem as conveniências da identificação da visualidade e da absorção inconsciente da música, a literatura, por jogar justamente com palavras, enfrenta outras armações para falar à criança, do aparato lógico de código às convenções da linguagem verbal.
Os dois escritores que mais se empenharam em desmontar os artifícios das palavras e das gramáticas tendo como suposto público-alvo as crianças –e que lograram executar a tarefa com um artesanato de humor lúdico– são homenageados pelo músico Cid Campos em seu CD recém-lançado “Crianças Crionças”.
Poemas de Edward Lear (1812-1888) e de Lewis Carroll (1832-1898) traduzidos por Augusto de Campos, pai de Cid, formam o núcleo do disco lançado pelo Selo Sesc (R$ 15,20). Na ciranda-constelação, rodam ainda poemas do próprio Augusto, de Haroldo de Campos (1929-2003), de Luis Turiba, de Paulo Leminski (1944-1989) e de Walter Silveira.
Os textos dos dois escritores ingleses da era vitoriana eram destinados (ou assim se faziam crer, ou assim se queria acreditar) à leitura das crianças, mas, por outros sentidos graças a trocadilhos e jogos de linguagem, sua voltagem de invenção e ironia atraiu a literatura e a crítica da alta modernidade.
Edward Lear é considerado o criador do gênero “nonsense”. Suas obras “A Book of Nonsense” (1846) e “Nonsense Songs, Stories, Botany and Alphabets” (1871) contêm poemas e ilustrações de sua autoria. Lewis Carroll (1832-1898) é o celebrado criador de “Alice no País das Maravilhas” (1865) e “Alice Através do Espelho” (1872) e seu gosto pela fotografia ilustra seu escopo com a imagem.
Mas a era vitoriana não nos deu apenas o “nonsense”, os “limericks” de Lear e as “portmanteau words” de Carroll. Numa época em que assistiu as diversões assumiram-se como espetáculos urbanos e populares (teatros de variedades e projeções de lanterna mágica, por exemplo), o período foi pródigo em exibir uma sorte de gadgets e dispositivos de ilusão por imagens ópticas e mecânicas que conjuraria (n)o cinema.
Émile Reynaud (1844-1918) foi o criador do engenhoso Teatro Óptico, que apresentava no Musée Grévin (Paris) suas “pantomimas luminosas”. O papel de pioneiro do cinema imprimiu-se pelo seu dispositivo: a projeção de filmes pintados e desenhados sobre uma banda flexível com imagens sequenciais, de inspiração infantil e juvenil. Um de seus filmes mais famosos foi o poético “Pobre Pierrot!” (1892).
Não era um espetáculo propriamente para crianças, mas é impossível não se deixar encantar pela tentação de correspondências entre o olhar daqueles espectadores que testemunhavam a inauguração de uma forma de imagens em movimento (nos tempos do pré-cinema e do cinema dos primeiros tempos) e o olhar virgem de uma criança.
Não se insinua aqui uma analogia entre distantes e diferentes tempos históricos, mas sugere-se uma im/provável hipostasia poética. É óbvio e natural que a percepção de crianças do fim do século 19 guarda um abismo de especificidades e diferenças com relação à percepção de crianças do início do século 21.
Hoje as crianças já nascem dominando a cultura do “copy & paste”, a bricolagem digital é quase intuitiva e natural, não gera nenhum espanto ou maravilhamento como as invenções optico-mecânicas de cem anos atrás. Mas é curiosa a correspondência entre o olhar (por essência e natureza) tabula-rasa de uma criança e o olhar não-domesticado (e não ingênuo) do espectador que via nascer a projeção de imagens em movimento.
É possível entender a bricolagem digital ("copy, cut, paste") como uma extensão genérica do cinema de animação, que não é só desenho animado, mas, sobretudo, já na origem, efeito, truque, trucagem, expedientes que funcionam como plataformas da aventura da fantasia e fazem a imaginação viajar. O espírito da bricolagem não deixa de ser um contraponto à descontrução do espírito do batoteiro.
O primeiro artista do gênero foi Georges Méliès (1861-1938), prestidigitador amador que comprou o teatro de Robert-Houdini e encenava a magia do dispositivo, em filmes como “Viagem à Lua” (1902) e “Viagem Através do Impossível” (1904). Émile Cohl (1857-1938) foi pioneiro da animação, com filmes de desenho animado e filmes que usavam a colagem, como “Fantasmagoria” (1908) e “Drama Entre os Fantoches” (1909).
Pelo teor dos textos e o tratamento musical, “Crianças Crionças” evoca essa sensação de um leitor-ouvinte estar descobrindo algo em seu momento inaugural. Os arranjos filiam-se à operação de bricolagem, pelos procedimentos digitais de produção e composição de música atualmente. A sobreposição de melodias e timbres e o humor da mixagem propõem rimas ao nonsense, às rodas de brincadeiras, ao bricabraque das crianças.
Os poemas e jogos de linguagem e de sentido foram trabalhados musicalmente por Cid Campos em arranjos de balada e salsa, blues e bossa nova, xote e country. Das 15 faixas, 7 são compostas de traduções (ou versões) de Lear (“A Pata e o Canguru”, “A Mesa e a Cadeira”, “Alface”) e de Carroll (“Canção da Falsa Tartaruga”, “Recado aos Peixes”, “Poema-cauda”, “O Mocho e a Gatinha”), realizadas por Augusto de Campos.
As traduções de Lear feitas por Augusto são inéditas em livro, incluindo a quadra “Do ‘Auto-Retrato de Edward Lear’” (de “How Unpleasant to Know Mr. Lear”; a tradução do poema inteiro também permanece inédita), que funciona como epígrafe introdutória no encarte, mas não foi musicada.
As traduções de Carroll feitas por Augusto estão todas (a partir de trabalhos de 1971 e 1973) em “O Anticrítico” (1986), com o estudo em “prosa porosa” “Lewis Carroll: Homenagem ao Nonsense” e quatro traduções, entre elas a radical “Jaguadarte”, que Arrigo Barnabé musicou e Tetê Espíndola gravou em “Pássaros na Garganta” (1982).
“Canção da Falsa Tartaruga” e “O Mocho e a Gatinha” foram gravadas por Adriana Calcanhotto, em “Partimpim” (2004), com Cid fazendo a segunda voz. Calcanhotto entusiasmou-se ao ouvir “Alface” no estúdio do músico e gravou-a em “Partimpim 2” (2009), que traz ainda a composição de Cid para “As Borboletas” de Vinícius de Moraes.
“A Pata e o Canguru” (“'A minha vida é muito chata, / Estou cansada de ser pata. / Quero você pra meu guru!’ / Disse a pata pro canguru”) e “A Mesa e a Cadeira” (“‘Que tal dar uma saída, / Bater papo, isso é que é vida! / Vamos, chega de madeira!’ – Disse a mesa pra cadeira”) são duas baladas sobre improváveis cantadas de bichos e móveis.
Em “Alface” (“Alface! Ó alface! / Faça-se, ó faça-se. / Ó alface, afinal, / Faça-se o nosso al- / Moço, face a face, / Ó alface!”), a rotação da canção sobre si mesma (pela linha melódica e pela textura dos instrumentos) sugere o sentido espiral da figura da verdura e da aliteração das palavras.
A harmonia da “Canção da Falsa Tartaruga” parece mover-se no mesmo passo em falso do ralentar do réptil, fazendo da escansão dos versos e da defasagem na sobreposição de versos tateios de um rastro em busca de bocados (“Quem não daria tudo só para beliscar essa bela sopa?”).
Em “Recado aos Peixes”, a música sibilina em acorde com a hesitação da ação e a suspensão de sentido: “Saquei então de um saca-rolhas / E fui eu mesmo atrás das bolhas. / E ao ver a porta já cerrada, / Bati, toquei, topei, que nada! / E ao ver a porta ali, zás-trás, / Girei a maçaneta, mas...”.
A fisionomia gráfica de “Poema-cauda” equivale à divisão frásica de trocadilhos e à modulada escala vocal, em batida country: “Disse o / Rato pro / Gato: / – Um julga- / Mento / Tal, sem / Juiz nem / Jurado, / Seria um / Dispa- / Rate. / – O juiz / E o jurado / Serei eu, / Disse / O gato, / E tu, / Rato / Réu / Nato, / Eu con- / Deno / A meu / Prato”.
A harpa midi e o vibrafone em “O Mocho e a Gatinha” geram um contraponto de extrações sonoras para outro conto de namoro: “O mocho e a gatinha foram pro mar / Num lindo bote verde-ervilha. / Eles tinham mel e grana a granel / E uma nota de uma milha”.
Além das versões de Lear e de Carroll, o disco traz dois poemas inéditos de Augusto, feitos para este disco: “Criança Crionça”, inspirado nas palavras do poema-desenho de sua neta (e filha de Cid) Julie, e “A Gaita do Jabuti”, inspirado numa lenda tupi de “O Selvagem” (1876), de Couto de Magalhães, e adaptando-a para fazer soar a gaita, curiosamente um instrumento tocado por Augusto, na faixa “Flor da Boca” do disco de Cid “No Lago do Olho” (2001).
Outra letra de Augusto, “De Ninar” foi gravada por Cid em “Canções de Ninar” (1992) da dupla “Palavra Cantada” (Sandra Peres e Paulo Tatit), que viria a se especializar em músicas infantis. O novo CD de Cid traz ainda poemas de Haroldo de Campos (“A Gata Lady Bi”), Luis Turiba (“Ver (durinhas), Frutóides e Legu (mimosas)”), Paulo Leminski (“A Lua no Cinema”) e Walter Silveira (“O Desafio”, “Garça”).
A canção “Criança Crionça” vale-se da metamorfose de moda de viola, combinando violão, viola 10 cordas, mandolim e harpa midi às vozes de Cid e Leo Cavalcanti (que participa dos vocais em outras nove canções), nas pistas das manchas que camuflam e enganam os sentidos: “Mas uma criança / Chamou a responsa / Criou uma dança / A dança da onça / Criança crionça / Crionça criança / Dançando essa dança / A onça desonça / Despança / Dispensa / Sua comilança / E hoje só pensa / Em dançar a dança”.
Em “A Gaita do Jabuti” (“Jabuti tinha uma gaita / E saía pela mata, / Tocando todo janota. / A onça, invejosa-nata, / Queria, queria a gaita / ‘Me dá tua gaita, jabota!’”), o arranjo dispõe do instrumento do título e do banjo para deixar respirar e engraçar as rimas em “ata” e “ota”.
Para encerrar o CD, “De Ninar” (“Na água parada / O peixe não faz nada / Nada nada nada / E a criança o que faz? / Dorme dorme dorme / Que amanhã tem mais”), em que os sentidos de substantivos e de verbos embalam o acalanto composto por viola, sanfona e percussão.
Uma primeira audição geral dá a impressão de que as canções escapam de um previsível tom infantil que se convencionou adotar para produções do gênero. O teor da infância parece residir mais nas texturas dos textos, com suas brincadeiras de linguagem, e nas texturas musicais, com suas combinações de ritmos, melodias e harmonias, o que cria um tom de estranhamento afinado ao tom do nonsense.
No texto que apresenta o disco e consta do encarte, Adriana Calcanhotto, que adota a persona de Partimpim em seus discos para crianças, aponta a fluidez e a naturalidade das canções conseguidas por Cid a partir de poemas de métrica intrincada e invenção vocabular, e lembra a íntima convivência do músico com a poesia, já em família.
Neste ano, em que lançou na revista "Errática" o clip-poema “TVGRAMA 3” e o poema-filme “Statue of Victory: Profilograma” (roteiro sousandradino de bricolagem de imagens que contou com a contribuição musical de Cid) e publicou dois livros de tradução de poesia – “Byron e Keats: Entreversos” (ed. da Unicamp) e “August Stramm: Poemas Estalactites” (ed. Perspectiva) –, Augusto de Campos também assina o projeto gráfico do CD, como costuma fazer com seus livros.
Além de ilustrações de sua autoria, Augusto valeu-se dos desenhos de Lear e de John Tenniel (1820-1914), considerado o melhor ilustrador de Carroll. Na capa do CD e reproduzido no encarte com variações cromáticas, um poema-desenho de Julie Bozon de Campos, filha de Cid e neta de Augusto, feito quando tinha sete anos.
Por que um CD como “Crianças Crionças” não é adotado como material didático nas escolas? O selo Sesc já atesta o estatuto educacional do produto e o timbre da literatura musicada, com o lastro de criação e competência de um dos maiores poetas e tradutores da língua portuguesa, é outro atributo que justificaria que um CD como este tocasse nas salas de aula e tocasse também com outros sons o processo de aprendizagem.
Com seus poemas e desenhos, mas também com seu projeto ideológico, o “Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade” (1927) apontava para um sentido órfico que faria, de cada um e de todos, alunos de poesia, alunos de música, alunos de artes. Ver com olhos livres, ver o novo com olhos novos.
Talvez haveria aí um ideal romântico, à la Rousseau, de tomar a “criança” como depositária de uma nostalgia progressista, parâmetro de uma condição de pureza do olhar e da escuta (ainda que “impuros” sejam os meios e as formas, no sentido que a mixagem e miscigenação digital propagam a contaminação de formas e suportes).

terça-feira, 15 de março de 2011

PARTIMPIM DOIS é show. Será?

Assisti ao DVD do show Partimpim 2 e não gostei tanto. Tenho aqui o do Partimpim 1 e gosto muito mais, porque as crianças menores são muito mais "lembradas" e referidas.
Novamente trata-se de um belissimo trabalho, mas nesse aqui as puras referências aos primeiros tempos da infância ficam mais leves e acaba virando um misto de peça teatral infantil com show adulto da Adriana Calcanhotto...faltou "Na Massa", que é a minha música favorita do CD e uma tentativa frustrada de repetir as músicas mais queridas do Partimpim 1 (só que com arranjos diverentes, meio que tranformando tudo em um carnaval de rua...)não sei ainda porque me incomodou, mas não gostei muito. A própria Partimpim me dá uma resposta quando pergunta várias vezes "se tem crianças, bichos E ADULTOS" na platéia, quando no primeiro show ela perguntava só das crianças (que deliravam na platéia! Até bebês de colo!) Não sei se é a edição do DVD que quis passar ao show um ar de maior seriedade ou se era mesmo mais sério.Claro que é tudo muito sofisticado (como tudo com a Adriana Calcanhotto), mas talvez a idéia (bem intecionada, eu sei) de incluir mais adultos e privilegiar crianças bem maiores no Partimpim 2 tenha apagadado um pouco da graça do primeiro...
De qualquer forma recomedo, e Augusto de Campos também o faz:

PARTIMPIM DOIS é show

Augusto de Campos

Com a sua voz clara, afinada e refinada, a sua graça natural e a sua versatilidade, Adriana Calcanhotto, de novo Partimpim — em “persona” infantil —, canta e encanta crianças e não-crianças.
O que sobressai nas duas faces do seu trabalho é a inquietação artística com que consegue mostrar-se ao mesmo tempo comunicativa e sofisticada. Pois Partimpim não hesita em trazer para o convívio das crianças produções ligadas à alta cultura, rubricadas com os nomes de Lewis Carroll ou Edward Lear, Villa-Lobos ou Vinicius de Moraes, ao lado de outras, de autores menos ou mais conhecidos, poetas e compositores do melhor repertório da música popular, que ela recria ou revela, sempre sob o signo da renovação.
Não abdica da qualidade – exigência das duas Adrianas — quer na escolha do repertório, quer na dos excelentes músicos que formam a sua banda. Com estes a cantora ousa mesmo recriar músicas — diriamos — intocáveis ou irretocáveis, como a bossanovíssima e pioneira "Bim Bom", de João Gilberto, que ressurge, lúdico-lúcida, com o seu mantra cristalino e monossilábico invocado sob o afrossom primal do Olodum baiano. Ou religando o clássico quebra-línguas “Lig-lig-lig-lig-lé” para ouvidos velhos e novos.
O DVD do seu show é duplamente comunicativo, porque Adriana é uma “performer” completa, que se reinventa a cada música, metamorfoseando-se borbo-e-letricamente, como que sem esforço — sempre com a maior naturalidade. Ora particundum, um pé no chão, um pé no ar, ora dança-esvoaçante, chapéu beijaflorido de borboletas. Ora mandarínica e carnavalizante china-na-ponta-do-pé, ora alçada em trapezista, “nuvoletta” a subir ou a descer pelos “baluastros”. Eletrizante cantatriz de paisagens imaginárias. Partimpim participante.
Jovial e plural, a cantora-compositora-instrumentista se multiplica em novas personagens. Surpresas e presentes capazes tanto de empolgar as crianças como de envolver a todos nós, fãs de fábulas e sons.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Qual o lugar de Guimarães Rosa?

Augusto de Campos, em 1959, já apontou uma verdade com a qual eu concordo plenamente: Guimarães Rosa deu prosseguimento a uma escola de escritores que se debruçaram sobre experimentações lingüíticas na Literatura Brasileira e que se iniciou com Mario de Andrade e seu Macunaíma, seguiu-se com Oswald de Andrade e seus Serafim Ponte Grande e Memórias sentimentais de João Miramar, até chegarmos no Grande Sertão: Veredas, que se colocou como um marco, já que:

"Ninguém poderá construir qualquer coisa em prosa brasileira, pretetendendo
ignorar Grande Sertão: Veredas. E quando se considera a situação geral
da ficção nacional, onde de um lado pontificam os romances ingenuamente
realistas e carticato-regionais, de outro lado o grupo pretensioso dos
intimistas alienados, a figura de Guimarães Rosa avulta com desmesura grandeza,
isolando-se, muito acima dos demais.
Ao invés do realismo simplista e
simplório, ao invés do subjetivismo delirante e falsamente revolucionário,
dá-nos Guimarães Rosa algo positivo e palp[avel. 'Che si può mangiare', como
diria Ezra Pound. Uma experiência de convívio com as palavras, as coisas e os
seres que reduz a maior parte da prosa de ficção ao estado de subliteratura." (Augusto de Campos.Um lance de dês do Grande Sertão)

Qual é a do Guimarães Rosa ? (ótima pergunta)....
Sempre achei que A "escola de Guimarães Rosa" era a mesma de Rabelais- essa coisa de colher na liguagem popular oral aspectos que nos levaiam ao nascimento das palavras, em um procedimento arqueológico ...
Continuo achando isso, claro, mas outras influências somaram-se a essa...
Como todo mundo já deve ter ouvido falar, Rosa também tem muito de James Joyce (algo que eu, como historiadora, sempre repito), e devo lembrar que Joyce também deve ter bebido na fonte de Rabelais... mas, Guimarães Rosa parece ligado a outras fontes também!
As técnicas rosianas de recriação e utilização do léxico me parecem muito próximas às apresentadas pela personagem Humpty Dumpty, de Lewis Carroll, que explica sua idéia assim:

"Quando eu utilizo uma palavra, ela significa exatamente o que
quero que signifique, nem mais, nem menos"
...

Essas palavras de Carroll me lembram demais o que Wittgeinstein que teorizou :

"o significado das palavras são explicados por seus usos"

Eis uma atitude cara linguagem rosiana e também a contrução e compreensão da linguagem infantil. Faz sentido?
Preciso pensar e organizar tudo isso, mas como vêem, minha cabeça está funcionando à mil por hora! UAU!