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domingo, 3 de maio de 2026

As preces são imutáveis, Tuna Kiremitçi

 

​Acabei de ler este livro curto, emprestado da biblioteca do SESC Pompeia, e gostei bastante. A obra conta a história da octogenária Rosella Galante, que publica em um jornal da cidade europeia onde vive o seguinte anúncio: “Procuro alguém que saiba turco”. O chamado é atendido pela jovem estudante Pelin. A partir desse encontro, inicia-se uma conversa entre duas mulheres aparentemente distintas, mas que guardam semelhanças incontestáveis. Tudo gira em torno da importância de não perder a vitalidade do idioma que já foi sua identidade, mas que o tempo, a vida e a história podem desbotar. Como em uma peça teatral, esse tema é tratado no romance, todo escrito na forma de diálogo, sobre a vida e as crenças, a vibrante cidade de Istambul na realidade  e na memória e, sobretudo, a prática de ouvir e falar o turco. O enredo aborda  temas humanos como amor, família, o envelhecimento, o papel feminino ao longo do tempo. Achei uma graça de romance, sendo meu primeiro contato com a literatura turca. Recomendo!

                              ***

Algumas palavras de Rosella a Pelin: 

"Mesmo que os deuses sejam diferentes,as preces são imutáveis, mademoiselle. Não há diferença tão grande quanto supomos entre uma oração feita a Buda ou a Alá... Saudades, esperanças, medos...No fundo, se parecem... Aliás, um poeta de Jerusalém disse: 'Os deuses vêm e vão embora,mas as preces são imutáveis. " (p.77-8)


"Talvez você tenha razão, ao contar tudo isso a você posso estar enfeitando as cenas com descrições e frases. Talvez porque já pensei tanto nessas cenas em minha vida e as repeti tantas vezes na minha mente que, com o tempo, elas se tornaram descrições fixas de uma peça teatral. O que você está ouvindo, com certeza podem ser as descrições escritas na mente de uma idosa que se distanciaram da sua origem (...) Com o tempo você perceberá com horror que agora está vivendo no mundo dos outros. Nenhum homem, nenhuma mulher, nenhum gato ou cachorro, ou nenhuma criança de sua juventude estará vivo mais... E eu lhe garanto, senhorita, que viver numa época estranha é muito pior do que viver numa cidade estranha. Mesmo quando você vive numa terra estranha, como um exílio, você tem a esperança de voltar para a sua terra um dia. Porém, a menos que inventem a máquina do tempo de que você falou, não há esperança de se livrar de uma época estranha. É uma saudade tão forte que não dá para explicar...” (p.124-5)


domingo, 12 de outubro de 2014

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito. Hilda Hilst

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância, sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar
De tédio).
As casas estão cheias. As mulheres parindo
Sem cessar, os homens amando sem amar
Ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor, serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo ?
Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O HOLOCAUSTO E BENTO XVI

Emerge nesta semana a polêmica sobre o posicionamento do Papa Bento XVI a respeito do holocausto, quando reabilitou bispos que teriam defendido a não existência daquele evento. Não vou colocar o dedo em assunto que não é de meu mínimo domínio, mas como historiadora tudo isso me chama atenção para o tratamento dos discursos neste jogo entre “verdades” e “mentiras” sendo fabricadas em virtude de alguma questão política, econômica, moral, religiosa, etc...

Isso remete ao trabalho dos historiadores, os que tem de lidar com esses temas tão espinhosos em diferentes temporalidades, lidando com o registro de testemunhos contrastantes, econômicos demais, inacreditáveis ou mesmo a não existência de testemunho nenhum: Eis algumas das dificuldades a serem enfrentadas pelos pesquisadores da história.

No caso do Papa Bento XVI a primeira pergunta seria "qual seria seu real interesse quando resgatou a legitimidade dos bispos com posições hoje quase impossíveis de serem aceitas como essa da não existência do holocausto?"

Essa pergunta é interessante se lembrarmos que na Alemanha atual, pregar a não existência do holocausto é crime! O Papa está se posicionando a partir de qual lugar? O de uma figura de extrema direita - o que a meu ver é péssimo, pois assim ele já começa mal, pois não gosto de extremos, extrema direita e extrema esquerda são, para mim, igualmente perigosos porque os extremos abrem mão da linguagem, do dialogo... - e a verdade, já disse Riobaldo não está nem no começo nem no final, ela aparece no meio da travessia (ou seja, nada de extremos...), o fato que interessa é que com esse tipo de atitude, Bento VI interrompe violentamente o diálogo entre as comunidades cristãs e judaicas que demorou séculos até ser considerado possível.

Hoje já temos o conflito entre judeus e palestinos em Israel e mais esta interrupção no diálogo entre diferentes é mais um posicionamento arbitrário. E a sensibilidade para o uso inteligente da linguagem, com objetivo de nos preservar de abusos e violências está cada vez menos sendo utilizada.

E agora? Agora, historiadores, vamos ler mais Carlo Ginzburg e os levantamentos sobre as relações entre o verdeiro, o fictício, ou se quisermos, entre a História e a Literatura, só refletindo muito sobre isso é possível nos protegermos da montagem vária de discursos que está sempre sendo executada sobre nós.