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Quem
é que não sabe como é que é? Filho, sobrinha, afilhado ou filha da
vizinha, todo mundo convive ou conviveu com uma criança. Com uma, com
duas, com muitas! Conviveu mais ou conviveu menos, por algumas horas,
por alguns dias ou por muitos anos, mas conviveu. Ninguém escapa!
Conviveu,
talvez – que sorte! – com uma criança aprendendo a falar. E, fruto
dessa convivência, pensou em voz baixa ou comentou com alguém que
criança diz cada uma...!
E diz mesmo! Pedro Bloch
(1914-2004) foi muito feliz ao dar este título aos textos/livros que
escrevia sobre a linguagem infantil. Pois é mesmo verdade: criança diz
cada coisa!
E o que elas dizem diz muito, ensina
muito – como funciona a cabeça humana no que respeita a línguas e a
linguagens. Porque, é claro, cabeça de criança, mesmo de criança
pequena, já está programada para aprender aqueles saberes de que se
precisa para sobreviver no planeta Terra.
E a
linguagem é o mais básico desses saberes. E seu aprendizado, uma das
coisas mais fascinantes da vida humana. Por isso é tão bonito e comove
tanto observar o processo da aprendizagem espontânea que a criança vive a
partir do que ouve à volta dela.
Sabe como?
Assim:
faz de conta que estamos com a Paula, mãe da Júlia, uma mineirinha de
pouco mais de 3 anos. Júlia ainda não fala os erres nem os chs. Mas fala
muito. Fala com a família, fala na escola, fala com as amigas, fala com
suas bonecas. Ou seja, Júlia é uma tagarelinha.
Pois
outro dia, a mãe ia levá-la para brincar na pracinha e tinha combinado
com a vizinha que levaria também a filha dela, Valentina, grande amiga
de Júlia. Saindo de casa, Júlia perguntou à mãe quem mais ia. Meio
distraída, arrumando garrafas de água e maçãs na sacola, Paula
respondeu:
– A Valentina também vai conosco.
Júlia olhou espantada para a mãe:
– Quem é o Nosco que vai com a gente?
A
cena, claro, passou a integrar o anedotário familiar. Pais, tios, avós
riram muito com a historinha do Nosco e foram passando adiante. Foi
assim que o caso chegou aos ouvidos do Zé Luiz, professor esperto e
informadíssimo que, além de rir muito da gracinha da Júlia, dias depois
comentou numa reunião pedagógica:
– Às vezes fico
pensando que é bobagem a gente achar que não deve ensinar gramática...
Não vê que a gente aprende gramática quando aprende a falar uma língua?
Os colegas discutiram, e ele espichou a história:
–
Teve o caso da filha de uma vizinha que quando ouviu a mãe falar vai
conosco, perguntou quem era o Nosco que ia com elas. Eu acho que ela
perguntou isso porque tinha aprendido que o verbo ir + a preposição com
vem seguido da indicação da pessoa (ou coisa) que acompanha(va) quem
está(va) falando. Acho que menina lembrou que a mãe falava frases como
Hoje você vai para a escola com sua tia , ou Seu irmão hoje vai com o
pai para a casa do avô, ou Não vai dar pra ir com o sapato branco
porque está chovendo. Júlia ouviu, processou, generalizou e concluiu:
deduziu uma regra do português: Nosco era alguém (ou alguma coisa) em
cuja companhia (ou com a qual) se ia a algum lugar.
A historinha é exemplar, não é mesmo?
Semana
seguinte, reunião pedagógica de novo, foi a vez de Mônica aparecer com a
historinha do Fábio, seu sobrinho. O menino tinha ganho uma fantasia
de Batman no aniversário, e a irmã ficou aporrinhando, pedindo
emprestada a fantasia.
Foi quando Fábio foi reclamar para a mãe, dizendo que a irmã queria uma fantasia de super-heroia.
Risadas
gerais, justificadíssimas, Fábio paparicado. Ele tinha acabado de dar
uma bela lição que deixou Mônica maravilhada: ele tinha, sozinho,
deduzido e aplicado a regra de que o feminino, em língua portuguesa, se
faz (quase sempre, só quase) substituindo o “O“ final por “A” , ou
acrescentando um “A” ao final de palavras que terminam em consoante.
E não é que a regra funciona mesmo muito bem para gato e gata, menino e menina, professor e professora, japonês e japonesa?
Repetindo
a frase, substituindo heroia por heroína, a mãe de Fábio mostrou ao
menino que as regras do idioma têm exceções. Mas a experiência do menino
ensinou que ele sabia que exceções não são tão numerosas que
desestimulem o emprego das regras que, na maior parte das vezes, funcionam.
Penso
que é a manipulação voluntária de regras e limites da língua que –
chamada de criatividade, inventividade – gera textos sensacionais como
Marcelo, Marmelo Martelo, de Ruth Rocha, e passagens maravilhosas de
Guimarães Rosa, como o trechinho de Grande Sertão Veredas em que o
leitor fica sabendo que Neco estrepuliu medroso mais que João Brandão.
Pois não é mesmo que criança e escritor têm cada uma...
Marisa Lajolo é professora, pesquisadora e autora de diversos livros, entre eles, Como e Por Que Ler o Romance Brasileiro