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terça-feira, 20 de junho de 2017

Apreensão infantil e o humor


PINKER, Steven. Toca do coelho adentro. In: Do que é feito o pensamento – a língua como janela para a natureza humana. Trad. Fernanda Ravagnani. São Paulo:Cia das Letras,2008.

Neste livro, Steven Pinker escreve um capítulo excelente sobre como as crianças costumam empreender extensas explorações de linguagem e por isso analisar seu discurso pode nos ajudar a compreender sua cosmologia e, claro, gerar situação engraçadas ao empregar “o código da linguagem com segurança suficiente para entender coisas improváveis como uma vaca pulando sobre a lua e um pato fingindo com a colher, ou expressar suas percepções infantis como ‘thinkthe Wind wants to get in out of the rain” [“acho que o vento quer entrar e sair da chuva”] ou “Ioften Wonder when people pass me by do they wonder about me” [“Sempre fico pensando quando as pessoas me passam elas ficam pensando em mim] (PINKER,2008, p. 43)

[Pinker esclarece que essas apreensões infantis que utilizou foram feitas pelo escritor Lloyd L.Brown do discurso de sua filha]


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Marisa Lajolo escreve sobre Pedro Bloch

Ilustração de Mariana Massarani  sobre fala de criança para
o "Dicionário de Humor Infantil" de Pedro Bloch (1998)
Encontrei este artigo de Marisa Lajolo sobre o trabalho de Pedro Bloch com as crianças e publicado na Revista Carta Fundamental em Novembro de 2013:

Pois é: criança diz cada coisa!

É comovente observar o processo de aprendizagem espontânea 
que vivem os pequenos no que respeita a língua e a linguagens
http://www.cartafundamental.com.br/single/show/116
Quem é que não sabe como é que é? Filho, sobrinha, afilhado ou filha da vizinha, todo mundo convive ou conviveu com uma criança. Com uma, com duas, com muitas! Conviveu mais ou conviveu menos, por algumas horas, por alguns dias ou por muitos anos, mas conviveu. Ninguém escapa!
Conviveu, talvez – que sorte! – com uma criança aprendendo a falar. E, fruto dessa convivência, pensou em voz baixa ou comentou com alguém que criança diz cada uma...!
E diz mesmo! Pedro Bloch (1914-2004) foi muito feliz ao dar este título aos textos/livros que escrevia sobre a linguagem infantil. Pois é mesmo verdade: criança diz cada coisa!
E o que elas dizem diz muito, ensina muito – como funciona a cabeça humana no que respeita a línguas e a linguagens. Porque, é claro, cabeça de criança, mesmo de criança pequena, já está programada para aprender aqueles saberes de que se precisa para sobreviver no planeta Terra.
E a linguagem é o mais básico desses saberes. E seu aprendizado, uma das coisas mais fascinantes da vida humana. Por isso é tão bonito e comove tanto observar o processo da aprendizagem espontânea que a criança vive a partir do que ouve à volta dela.
Sabe como?
Assim: faz de conta que estamos com a Paula, mãe da Júlia, uma mineirinha de pouco mais de 3 anos. Júlia ainda não fala os erres nem os chs. Mas fala muito. Fala com a família, fala na escola, fala com as amigas, fala com suas bonecas. Ou seja, Júlia é uma tagarelinha.
Pois outro dia, a mãe ia levá-la para brincar na pracinha e tinha combinado com a vizinha que levaria também a filha dela,  Valentina, grande amiga de Júlia. Saindo de casa, Júlia perguntou à mãe quem mais ia. Meio distraída, arrumando garrafas de água e maçãs na sacola, Paula respondeu:
– A Valentina também vai conosco.
Júlia olhou espantada para a mãe:
– Quem é o Nosco que vai com a gente?
A cena, claro, passou a integrar o anedotário familiar. Pais, tios, avós riram muito com a historinha do Nosco e foram passando adiante. Foi assim que o caso chegou aos ouvidos do Zé Luiz, professor esperto e informadíssimo que, além de rir muito da gracinha da Júlia, dias depois comentou numa reunião pedagógica:
– Às vezes fico pensando que é bobagem a gente achar que não deve ensinar gramática... Não vê que a gente aprende gramática quando aprende a falar uma língua?
Os colegas discutiram, e ele espichou a história:
– Teve o caso da filha de uma vizinha que quando ouviu a mãe falar vai conosco, perguntou quem era o Nosco que ia com elas. Eu acho que ela perguntou isso porque tinha aprendido que o verbo ir + a preposição com vem seguido da indicação da pessoa (ou coisa) que acompanha(va) quem está(va) falando. Acho que menina lembrou que a mãe falava frases como Hoje você vai para a escola com sua tia , ou Seu irmão hoje vai com o pai para a casa do avô,  ou Não vai dar pra ir com o sapato branco porque está chovendo. Júlia ouviu, processou, generalizou e concluiu: deduziu uma regra do português: Nosco era alguém (ou alguma coisa) em cuja companhia (ou com a qual) se ia a algum lugar.
A historinha é exemplar, não é mesmo?
Semana seguinte, reunião pedagógica de novo, foi a vez de Mônica aparecer com a historinha do Fábio, seu sobrinho.  O menino tinha ganho uma fantasia de Batman no aniversário, e a irmã ficou aporrinhando, pedindo emprestada a fantasia.
Foi quando Fábio foi reclamar para a mãe, dizendo que a irmã queria uma fantasia de super-heroia.
Risadas gerais, justificadíssimas, Fábio paparicado.  Ele tinha acabado de dar uma bela lição que deixou Mônica maravilhada: ele tinha, sozinho, deduzido e aplicado a regra de que o feminino, em língua portuguesa, se faz (quase sempre, só quase) substituindo o “O“  final por “A” , ou acrescentando um “A” ao final de palavras que terminam em consoante.
E não é que a regra funciona mesmo muito bem para gato e gata, menino e menina, professor e professora, japonês e japonesa?
Repetindo a frase, substituindo heroia por heroína, a mãe de Fábio mostrou ao menino que as regras do idioma têm exceções. Mas a experiência do menino ensinou que ele sabia que exceções não são tão numerosas que desestimulem o emprego das regras que, na maior parte das vezes, funcionam.
Penso que é a manipulação voluntária de regras e limites da língua que – chamada de criatividade, inventividade – gera textos sensacionais como Marcelo, Marmelo Martelo, de Ruth Rocha, e passagens maravilhosas de Guimarães Rosa, como o trechinho de Grande Sertão Veredas em que o leitor fica sabendo que Neco estrepuliu medroso mais que João Brandão.
Pois não é mesmo que criança e escritor têm cada uma...

Marisa Lajolo é professora, pesquisadora e autora de diversos livros, entre eles, Como e Por Que Ler o Romance Brasileiro

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

DOCUMENTÁRIO: Guimarães Rosa : O mágico das palavras

 
"...então o Guimarães Rosa, através do sertão, entra dentro do coração selvagem da língua, no caso o português, mas é algo a mais do que o português do Brasil, quem já fica enriquecido de elementos de todas as linguagens: é o fenômeno da linguagem humana." Willi Bolle (47'51" - 48'15")
"... Guimarães Rosa incorpora à linguagem culta a pala popular. Um outro recurso técnico é que Guimarães Rosa desenvolve a sensação para a língua, como algo que está ainda se construindo, algo que não está pronto..."Willi Bolle 18:10 - 18'35"
"... aquele elementos todos: biblioteca, cadernetas de viagem, listas de palavras ajudam, são elementos  subsidiários para entendermos o processo de criação. Mas, na câmara íntima da criação de Guimarães Rosa eu acho que ninguém penetrou." Willi Bolle  21'28" - 21'51" 
"... aí está um desafio para a classe culta brasileira, que se acha tão acima do universo da cultura popular, que é tolerado, como uma coisa interessante, mas não realmente admitido. Esta postura é radicalmente questionada pela introdução deste interlocutor (mudo e letrado de Riobaldo em Grande Sertão Veredas) a quem Guimarães Rosa ENSINA A OUVIR"  Willi Bolle 37: 41 -38:10 
  
Será que eu gosto do Willi porque ele tem esta leitura do Rosa, ou eu tenho esta leitura do Rosa porque ele tem? Depois de tantos anos, tudo já se confundiu para mim! rsrsrs
Mas, em minha tese, cada vez mais emerge uma hipótese que se torna cada dia mais sólida: o humano é o estabelecimento de uma relação (sempre complexa) com a linguagem. Isso é história, estória (conta história)... é humano, travessia!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A VERDADEIRA HISTORIA DO ALFABETO, de Noemi Jaffe

Muito interessante este lançamento, tem tudo a ver com a minha pesquisa. Mal posso espera para ler:

sábado, 9 de janeiro de 2010

A GRAMÁTICA E OS PROBLEMAS DE LINGUAGEM

Eu não sou uma pessoa ignorante ou preguiçosa, sou uma leitora assumida desde a infância, e uma estudante quase profissional e qual não é minha surpresa ao perceber que eu - e não sou a única nessa situação na pós graduação - tenho sérios problemas em me expressar na forma escrita.
Não me faia muito mal levantar este questionamento aqui neste blog: Qual o motivo disso?
Quero entender, de verdade... seria um problema de má formação? Até pensei nisso e,humildemente, comecei a refaze "cursos" de gramática e redação e qual não foi minha surpresa ao observar que o problema não é "não saber as regras", mas que elas - por algum motivo inexplicável- não foram completamente automatizada na minha comunicação! (sim, acho que sou uma rebelde gramatical)
Mas e se eu não quiser mais isso? Não adianta, não tenho a menor possibilidade de escolha.
Também tem a relação com o tempo da escrita... esse tempo imediato do mundo "internético" me afoga de informações e eu penso que a cabeça dos cientistas humanos são como árvores que precisam de duração para produzir bons frutos.
Mas esse problema - em uma pessoa como eu- é no mínimo um paradoxo: Amo a linguagem escrita!
No interessantíssimo livro de Lewis Carrol Alice no país do Espelho, viajando em um trem onde deveria pagar o bilhete ao maquinista e era muito caro, ela pensa "Ora, nem vale a pena falar" e as vozes não reponderam em voz alta, porque ela só havia pensado, então todos responderam 'em coro' de pensamento "Melhor não dizer coisa alguma. A linguagem vale mil libras por palavra!"
E as minhas? Por enquanto não estão valendo nada.
Mas então faço a pergunta mais vezes formulada pela humanidade: Para que estou viva se não posso formular minha narrativa? Eu posso fazer isso aqui... apenas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

LER O LIVRO DO MUNDO = DECODIFICAR LINGUAGENS

Os pensamentos que me atraem podem parecer bastante diversos (Caetano Veloso, Guimarães Rosa, Walter Benjamin, Tom Zé, Carlo Ginzburg...), mas para mim eles são atraentes porque se dedicam a produzir uma linguagem de signos e decodificá-los...

Caetano Veloso, nas suas palavras, lê processos de História do Brasil o tempo todo: somos um país mulato (cheio de “musas híbridas”, “pretas chiques”, “jaboticabas brancas”...), preso a uma mentalidade colonial (em pleno século XXI, somos apenas mulatos "natos no sentido lato mulato democrático do litoral: Sugar Cane Fields Forever) e embora estivermos cientes disso, ele alerta claramente:” E a crítica que não toque na poesia". Esse é Caetano pensador poeta. Isso é poesia.
Guimarães Rosa era um Peter Pan (eis a idéia do meu doutorado), ele nunca deixou de "ver o mundo como se fosse a primeira vez" - que é tarefa das crianças - e o mais interessante: exatamente como elas fazem o tempo todo, ele representava esse estado de catarse constante na linguagem (por isso as palavras tão herméticas de Rosa parecem - e são - ao mesmo tempo moderníssimas e arcaicas), e ele está percebendo os tempos e decodificando-os na linguagem. Isso é arte.
Walter Benjamin queria ler o livro do mundo, que é perceber que cada momento apresenta possibilidades de futuro e de passado, ou seja, “ler” o livro do mundo é encontrar diversas épocas em momentos alegóricos e demonstrar isso na linguagem. Isso é História.
Tom Zé é o mais complicado de entender (pelo menos para mim), porque ele usa diversas linguagens - muitas delas eu não domino nem um pouco-, mas todas elas possuem ligações diretas com os sentidos do tempo (sons, ruídos, psicanálise, poesia, culturas, danças, etc...). Isso é música.
Carlo Ginzburg é meu mestre - como historiadora - e o que ele pensa é muito simples, não existem ligações diretas entre a História e a realidade que não sejam pobres... Para ele, entre essas esferas encontram-se diversas camadas de sentidos inventadas e fabricadas, e decifrar esses códigos da linguagemé fazer narrativa da História. Isso é historiografia.

Resumindo, meu grupo é o grupo dos que se voltaram com amor e atenção para a linguagem. O que eu vou fazer com isso eu não sei... Ainda.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

PORQUE NÃO GOSTEI DO TWITTER

Sim amigos, eu não gostei do Twitter.
Não me interessou muito desde o início, mas não ia falar nada antes de experimentar direito. Experimentei. E não gostei.
Que linguagem excessivamente sintética é essa que agora faz sucesso? Vamos ter que nos comunicar por manchetes? Que mundo sem graça!
Que a internet causou mudanças sérias na linguagem escrita todos sabemos, mas Twitter é raso demais.Pareceu-me uma forma moderninha de fazer fofoca.. to fora. Para não ficar totalmente no ostracismo virtual, ainda prefiro o Orkut, no qual se pode trocar diversos tipos de informação e o melhor SEM LIMITE DE PALAVRAS.
Para alguém como eu , que trocou deliberadamente a faculdade de comunicação pela de história, porque sempre preferiu conhecimentos aprofundados, o Twitter é uma coisa lamentável... e o valor da duração no comunicar?
Essas modernidades ou pós modernidades... Eu estudo Guimarães Rosa, um super crítico dos processos de esvaziamento trazidos pela modernidade, mas ele não chegou a assistir ao enterro total da linguagem...
Pode ser que nem o “canto de cisne” de Sorôco caberá nos toques restritos do Twitter.
Essa é apenas uma opinião, mas é a minha...que só consegui expressar completamente por aqui,pois lá no Twitter só coube a frase

“EU NÃO GOSTEI DO TWITTER”...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Tropicália: Alegoria alegria


Comecei a ler um livro queue tenho faz muito tempo, já havia começado a leitura, mas desistia logo no começo, não sei bem por qual motivo, mas esses dias eu o encontrei novamente, é o que originalmente foi uma dissertaçãode mestrado em filosofia, sob orientação de Olgária Matos, em 1979 (coicidentemente o ano que eu nasci!)o livro chama-se Tropicália alegoria alegria, de Celso Favaretto. Eu penso que talvez eu não estivesse prepaparada pa ler esse livro quando o comprei, mas decobri agora, com muito encanto, que este autor fez, ou tentou fazer, com a interpretação da obra dos tropicalistas, algo semelhante ao que eu também tentei fazer coma de Guimarães Rosa: perceber que as possíves críticas e conteúdos mais fortes estão mais presentes na composição formal, do que nas mensagens diretas expressas pelos artistas.

No caso de Rosa, por exemplo, ao meu ver é uma opção ingênua e pobre querer estabelecer ligações diretas entre texto e contexto, porque a riqueza está presente muito mais fortemente no trabalho intenso com a liguagem!

Logo na introdução do seu texto, Faveretto explica que no contexto dos festivais da canção, as melhores classificadas foram Ponteio,de Edu Lobo e Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda -


"músicas mais conteudísticas e mais próximas do gosto e dos
critérios do sistema dos festivais, em que o arranjo servia de acompanhamento ou
reforço de uma 'mensagem'. "


[Celso Favaretto. Tropicália alegoria alegria. P.23]


Mas frente no livro, elee xplica por qual motivo o Tropicalismo representou uma forma de composição que trouxe a canção popular o status de grande interpretadora da realidade brasileira (e também externa), mas ainda no começo nos deparamos com trechos belíssimos como:


"Procurando articular uma nova linguagem da canção partir da tradição da música
popular brasileira e dos elementos que a modernização fornecia, o trabalho dos
torpicalistas configurou-se como uma desarticulação das ideologias que, nas
diversas áreas artísticas, visavam a interpretar a realidade nacional, sendo
objeto de análises variadas - musical,literária, sociológica, política. Ao
participarem de um dos períodos mais criativos da sociedade,os tropicalistas
assumiram as contradições da modernização, sem escamotear as ambiguidades
implícitas em qualquer tomada de posição. Sua resposta à situação distiguia-se
de outras da década de 60,por ser auto-referencial, fazendo incindir as
contradições da sociedade nos seus procedimentos. Empregava as produções
realizadas ou em processo, pondo-as em recesso, deslocando-as de um modo a
subtrair sua prática à redução a um momento particular do processo de evolução
das formas existentes, com o que fica marcada uma posição de ruptura."


[Celso Favaretto. Tropicália alegoria alegria. Pp.25-6]


Além disso, ele trouxe um recorte de uma fala de Caetano , de 1968,que eu achei maravilhosa:

"Não posso negar o que já li,nem posso esquecer onde vivo. Nego-me a folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas."

Como sempre, Caetano de tirar o ar! Os tropicalistas são de quem eu mais gosto, Gilberto Gil, Tom Zé e sobre todos CAETANO VELOSO!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

HOMEM: SER BIOLOGICAMENTE NARRATIVO!

Mais um trechinho da minha dissertação, talvez um dos que eu goste mais ...

"A narrativa vem sendo assunto de pesquisas neurológicas que têm levantado a possibilidade do ser humano ser, biologicamente, um ser narrativo, pois embora sejamos seres anatomicamente parecidos, historicamente cada um de nós é uma narrativa singular, que deve ser recontada sempre a fim de que possamos construir nossa identidade e visualizar nosso possível lugar no desenvolvimento humano através do tempo, ou em outras palavras, do nosso corpo na história. Sobre isso confira algum trabalho de Oliver Sacks, como "Tempo de Despertar".
Mas se é fundamental narrar, não podemos deixar de lembrar que as possíveis formas de fazê-lo foram ficando cada vez mais rarefeitas, pois as linguagens nos parecem cada vez mais herméticas, sobre isso confiram o livro "Depois de Babel", de George Steiner. É nesse contexto que olhamos novamente para os textos de Tutaméia, que podem parecer assustadoramente difíceis em um primeiro momento, mas devemos cogitar também que a existência desse tipo de construção narrativa está dialogando com tônicas da percepção e do pensamento contemporâneo: se o mundo nos parece cada vez mais insustentável, mas ainda estamos vivos, também é preciso narrar para continuar construindo a nossa história."

(Camila Rodrigues. "Mãos vazias e pássaros voando: Memória, invenção e não-história em Tutaméia de Guimarães Rosa". P.122)

Foi por acreditar nessa idéia, que sustenta o quarto e último capítulo da minha dissertação, que eu fui atrás de descobrir qual a minha narrativa. Para uma bacharel em história não seria difícil, mas como era A MINHA HISTÓRIA, o déficit emocional tornou tudo mais complicado, mas agora eu também tenho a minha narrativa, a que me tona um ser singular dentre tantas outras gentes nesse mundo. Quando eu aprender mais sobre linguagens, talvez eu a conte a quem quiser conhece-la.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O HOLOCAUSTO E BENTO XVI

Emerge nesta semana a polêmica sobre o posicionamento do Papa Bento XVI a respeito do holocausto, quando reabilitou bispos que teriam defendido a não existência daquele evento. Não vou colocar o dedo em assunto que não é de meu mínimo domínio, mas como historiadora tudo isso me chama atenção para o tratamento dos discursos neste jogo entre “verdades” e “mentiras” sendo fabricadas em virtude de alguma questão política, econômica, moral, religiosa, etc...

Isso remete ao trabalho dos historiadores, os que tem de lidar com esses temas tão espinhosos em diferentes temporalidades, lidando com o registro de testemunhos contrastantes, econômicos demais, inacreditáveis ou mesmo a não existência de testemunho nenhum: Eis algumas das dificuldades a serem enfrentadas pelos pesquisadores da história.

No caso do Papa Bento XVI a primeira pergunta seria "qual seria seu real interesse quando resgatou a legitimidade dos bispos com posições hoje quase impossíveis de serem aceitas como essa da não existência do holocausto?"

Essa pergunta é interessante se lembrarmos que na Alemanha atual, pregar a não existência do holocausto é crime! O Papa está se posicionando a partir de qual lugar? O de uma figura de extrema direita - o que a meu ver é péssimo, pois assim ele já começa mal, pois não gosto de extremos, extrema direita e extrema esquerda são, para mim, igualmente perigosos porque os extremos abrem mão da linguagem, do dialogo... - e a verdade, já disse Riobaldo não está nem no começo nem no final, ela aparece no meio da travessia (ou seja, nada de extremos...), o fato que interessa é que com esse tipo de atitude, Bento VI interrompe violentamente o diálogo entre as comunidades cristãs e judaicas que demorou séculos até ser considerado possível.

Hoje já temos o conflito entre judeus e palestinos em Israel e mais esta interrupção no diálogo entre diferentes é mais um posicionamento arbitrário. E a sensibilidade para o uso inteligente da linguagem, com objetivo de nos preservar de abusos e violências está cada vez menos sendo utilizada.

E agora? Agora, historiadores, vamos ler mais Carlo Ginzburg e os levantamentos sobre as relações entre o verdeiro, o fictício, ou se quisermos, entre a História e a Literatura, só refletindo muito sobre isso é possível nos protegermos da montagem vária de discursos que está sempre sendo executada sobre nós.