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sábado, 17 de dezembro de 2022

Seminário "Livros e histórias infantis II: Rússia e outras paragens

 


Foram deliciosas manhãs para eu voltar a USP e desenferrujar de eventos presenciais.

                                 (De cima pra baixo, da esquerda pra direita palestrantes do dia: Aurora Bernardini,  Karin Mellone, Raquel Toledo e  Ricardo Ramos Filho)

No primeiro dia, além da emoção de voltar à USP desde o fim do meu pós doutorado em 2017, o primeiro dia do encontro foi uma delicia completa. Rever presencialmente a professora Aurora Bernardini, que não ia se lembrar, mas eu jamais esquecerei que me ajudou tanto em 2005, quando eu precisei e ela me acolheu tão bem, sem nunca ter me visto pessoalmente, sem eu ser das letras. Que mulher maravilhosa! Fique muito feliz de reencontrá-la tão bem! Ela apresentou o evento, mas me deu uma dica de leitura e estudo preciosa sobre um livro que ela prefaciou, o "Contos da nova Cartilha", uma oficina literária com crianças, experienciada pelo escritor Liev Tolstói e os alunos de uma escolinha rural que ele criou na segunda metade do XIX e que, em certa parte, pode se parecer  com a oficina que ministrei sobre Guimarães Rosa e as crianças. No mesmo dia comprei um dos 4 livros escritos sobre a atividade e hoje ele  me chegou, estou louca pra ler, estudar
Contos da nova cartilha, Tolstói

Em seguida ouvimos a emocionante fala de Karin Mellone sobre a autora de livros infantis Tatiana Belinky. Karin é da área do teatro e conheceu Tatiana, trouxe livrinhos, leu trechos, mostrou vídeos de peças infantis, foi a fala mais emocionante para mim. Porque ela leu um trecho delicioso de "A menina transplantada", livro meio autobiográfico de Tatiana, eu também comprei e recebi ontem

Quando chegou eu tinha acabado
de sair do banho e fui logo fotografar

Fiz um vídeo lendo esse texto
mas não consigo mais postar vídeos aqui, então...

Depois ouvimos Raquel Toledo, uma jovem pesquisadora de literatura russa que falou sobre escritoras russas que eu desconhecia.
Enfim falou Ricardo Ramos Filho, neto do Graciliano Ramos, que falou sobre uma reconstrução do Brasil pós governo Bolsonaro e sobre Monteiro Lobato...
No dia seguinte eu já estava mais ambientada 

No segundo dia fui vestida de estudante
da infância, toda garotinha 👧

Tivemos as seguintes palestrantes

(De cima pra baixo, da esquerda pra direita, palestrantes do dia:
Isabel Lopes Coelho , Flávia Moino, Lúcia Hiratsuka e a dupla Daniela Montian e Erika Aoki) 

Isabel Lopes Colho falou sobre a experiência de ter editado os contos populares dos irmãos  Grimm pela Coscac Naify, que é uma das obras que eu tenho mais afeição de tão linda. Porém o melhor foi que ela nos mostrou um livro que nunca chegou a ser publicado, mesmo que a obra estivesse pronta, porque a editora fechou, que é uma antologia de textos de Alexander Afanasyev, o desconhecido "irmãos Grimm russo", que também montou uma coletânea de contos populares , que foi a maior influência para obras de conhecidas de autores referenciais como "Morfologia do conto maravilhoso",  escrita por Vladimir Propp. No fim desejamos que, um dia, essa ora chegue a ser publicada.

Depois continuamos a falar de Afanasyev, com Flávia Moino, que o pesquisou e nos introduziu a essa obra interessantíssima. 

Representações de Baba-Yaga
Personagem da cultura popular russa

Depois ouvimos a ilustradora  Lúcia Hiratsuka, que trouxe um pouco das belas ilustrações que fez para livros infantis
Algumas ilustrações de de Lucia

Por fim, a dupla Daniela Montian e Erika Aoki trouxeram um livro infantil dos anos 1920, não para ser lido, mas para ser construído pelos leitores 



Enfim, foi uma bela jornada pelo mundo dos livros infantis! Ame!



sexta-feira, 17 de abril de 2020

"A rejeição mais coletiva da morte já registrada na história" - Julián Fuks


Colo aqui um dos textos mais bonitos que li sobre a epidemia.


Primeiro pensei que fosse medo da morte, e sim, ainda penso, é claro que era medo da morte. Um medo que surgiu num ponto ignorado de Wuhan e logo tomou conta de toda a cidade, afugentando seus habitantes e com eles se alastrando mundo afora. Não era um medo qualquer, me pareceu, tinha a sua peculiaridade. Era mais que medo: em sua expressão mais aguda veio a tornar-se uma inconformidade, uma inaceitação da finitude da vida, própria ou alheia, a rejeição mais coletiva e sumária da morte de que já se teve notícia. 
Nada poderia ser mais compreensível do que isso, pude ponderar. As circunstâncias eram mesmo dramáticas, e são cada vez mais. Havia algo de indecoroso na morte a um só tempo massiva e solitária, e sempre haverá. Não faltam os que definem a humanidade justamente por essa indignação, pela repulsa que nos provoca qualquer prenúncio do fim, que dirá de um fim trágico. E, no entanto, não, nem toda a história está atravessada por essa rejeição absoluta do desconhecido, do imensurável. Foi nos últimos séculos, nas últimas décadas, nos últimos anos, que acabamos nos tornando mais hostis à certeza da finitude, que decidimos prolongar ao máximo cada vida e lamentar cada perda como inaceitável.
A literatura, mesmo em sobrevoo, talvez possa dar pistas dessa progressiva mudança de perspectiva. Por milênios os escritores mataram os seus personagens livremente, nos beligerantes épicos gregos, nas tragédias, nos romances de cavalaria. Em algumas peças de Shakespeare, chegado o desfecho, ficamos nos perguntando se terá sobrado algum personagem vivo.
E então veio o romance realista, veio Flaubert com seu rigor científico, matando sua maior protagonista em páginas numerosas e lentas. Veio Tolstói e escreveu "A morte de Ivan Ilitch", uma das mais precisas tentativas de apreender o inapreensível, de entender a morte em sua concretude, em sua vertigem. Em suas páginas intuímos que não há morte dos outros, que toda morte é sempre, em alguma medida, do outro e de si. Se sofremos ao ler Tolstói, é pela percepção perturbadora de que naquela morte se inscreve a nossa, de que na morte de Ivan Ilitch morremos todos.
Em nosso tempo a morte se fez tabu, já não conseguimos sequer falar a palavra sem que a nossa boca se consuma em morbidade. Talvez não seja disparatado propor um estudo sobre a dificuldade que hoje acomete escritores de matar os seus personagens, de condená-los ao insólito fim. Não ouço falar dessa dificuldade, apenas desconfio que exista, e a sinto em minha própria escrita. Tão grandiosa se fez entre nós a ideia da morte que as páginas dos livros já não a comportam, não conseguem acomodá-la sem convocar um princípio de revolta, e a presumível acusação de extravagância, de arbitrariedade. Já não somos capazes de contemplar em imagens ou palavras o mais comum dos acontecimentos, , humanos ou não, o mais fatal.
Primeiro pensei que fosse medo da morte, eu disse. Agora penso que não, que é medo da morte e algo mais. Se entre tantos, tão coletivamente decidimos que estas específicas mortes são inaceitáveis, e decidimos que todo empenho é válido para impedi-las, para reduzir sua ocorrência ao mínimo que toleramos, talvez não seja só por esse medo da morte que há algum tempo nos tomou de assalto. O medo é quase sempre uma experiência solitária - algum grau de solidão talvez seja sua condição primordial. Suspeito que apenas o medo não seria capaz de gerar uma reação tão comunitária.
Nesta disposição nova que temos testemunhado, nesta grande pandemia do não, pode haver exatamente o contrário do medo, tenha isso o nome que tiver. Foi pelo medo e por um equivocado instinto de defesa que se alçou ao poder, em tantos lugares, a política da brutalidade, da indiferença, da perversidade - necropolítica é o nome que alguns têm lhe dado. Se é contra essa política que tantos agora se levantam, ou melhor, que tantos agora se recostam e permanecem em casa, fazendo-se ruidosos quando a noite cai, não será por medo da morte. Será, sim, por respeito à vida, por apreço a toda esta incerteza vital em que estamos imersos, feita de som e de fúria mas também de beleza, antes que se consume a certeza do fim.