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sexta-feira, 15 de março de 2024

Canto da sereia e o cancioneiro para os Orixás

 
Um dos meus livros da vida 😍

O CANTO DA SEREIA: De todas as decepções amorosas que tive na vida (quem nunca?), as mais dolorosas foram/são as com negros, que me contaram histórias, dizem revelar "segredos" desse passado ancestral que nos foi roubado. Quando se acha que essa busca de toda uma vida pode ter chegado ao fim, mas foi só mais uma ilusão, a punhalada é violenta. Como dói...

Aí eu volto a um dos meus livros da vida e vou buscar os orixás no belo cancioneiro brasileiro e tudo vale à pena.

Orô pandeiro

Orô viola 🎶

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Mito iorubá da criação para jovens, por Reginaldo Prandi

 


Esse trecho é de um livro infanto juvenil, escrito pelo antropólogo Reginaldo Prandi (pesquisador do candomblé),  que conta de forma acessível  lendas da mitologia iorubá que aqui se preservou contadas de boca em boca e são parte constitutiva da nossa cultura.


Quando Olorum incumbiu Oxalá de criar a humanidade, este o fez usando bonecos de lama:


"Oxalá modelou sua criatura e lhe deu vida. Fez corpo, cabeças e membros. Recheou com o coração, os pulmões, as tripas e os demais componentes que preenchem a barriga. Fez dois modelos quase iguais. Num pôs pênis e testículos; no outro, ovários, útero e vagina, e seios cheios de leite. Para que a criatura dotada de pênis penetrasse a criatura dotada de vagina, e suas sementes se misturassem e produzissem outras criaturas, sem mais trabalho para Oxalá, que assim poderia descansar.
Caprichou o quanto pôde. Só esqueceu de pôr alguma coisa dentro da cabeça. 
Dotados de vida, os seres, que foram chamados homem e mulher, não pensavam, não agiam, nem mesmo se interessavam um pelo outro. Bela reprodução! Pensou Oxalá desolado.
Foi consultar o adivinho Ifá para saber onde errara. (...)
O resultado da consulta ao oráculo foi bastante promissor. Disse Ifá:
"Está tudo certo, meu irmão. Você apenas esqueceu de dar a cada ser humano um DESTINO, as VONTADES e o RACIOCÍNIO PRÓPRIO.
"Ah, bom!", reagiu Oxalá aliviado.(...)
Combinou com o oleiro Ajalá que ele forneceria para cada homem ou mulher o recheio do crânio, que conteria o DESTINO e a PERSONALIDADE de cada um.
Assim foi feito.
Bastou que as criaturas recebessem o que está dentro da cabeça para saírem pelo mundo como seres humanos prontos para a vida.

De seu palácio, Olorum sorriu para Oxalá, agradecido e se retirou para seus aposentos. 

Oxalá estava cansado, muito cansado, mas a obra, enfim, estava feita." Reginaldo Prandi. "Contos e lendas afro-brasileiras: A criação do mundo" .São Paulo: Cia das letras, 2007 P. 36-8

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Obaluaê tem feridas transformadas em pipocas por Iansã, por Reginaldo Prandi

Ilustração de Pedro Rafael 



Chegando de viagem à aldeia onde nascera,
Obaluaê viu que estava acontecendo
uma festa com a presença de todos os orixás.
Obaluaê não podia entrar na festa,
devido à sua medonha aparência.
Então ficou espreitando pelas frestas do terreiro.
Ogum, ao perceber a angustia do orixá,
cobriu-o com uma roupa de palha que ocultava sua cabeça
e convidou-o a entrar e aproveitar a alegria dos festejos.
Apesar de  envergonhado,Obaluaê entrou,
mas ninguém se aproximava dele.
Iansã tudo acompanhava com rabo do olho.
Ela compreendia a triste situação de Omulu
e dele se compadecia.

Iansã esperou que ele estivesse bem no centro do barracão.
O xirê[1]  estava animado.
Os orixás dançavam alegremente com suas equedes[2].
Iansã chegou então bem perto dele
e soprou suas roupas de mariô[3],
levantando as palhas que cobriam sua pestilência.
Nesse momento de encanto  e ventania,
as feridas de Obaluaê pularam para o alto,
transformadas numa chuva de pipocas,
que se espalharam brancas pelo barracão.
Obaluaê e Iansã Igbalé tornaram-se grandes amigos
e reinaram juntos sobre o mundo dos espíritos,
partilhando o poder único de abrir e interromper
as demandas dos mortos sobre os homens.
(Reginaldo Prandi. Miltologia dos Orixás, p. 206-7)



[1] Xirê:  brincar no candomblé, ritual em que os filhos e filhas-de-santo cantam e dançam numa roda para todos os orixás.
[2] Equede: literalmente, segunda (pessoa); na África, cargo sacerdotal do rei, que só estava abaixo do orixá daquela cidade, de quem se acreditava que o rei descendia diretamente; no Brasil,  iniciada no candomblé para cuidar dos orixás, vesti-los e dançar com eles.
[3] Mariô : folha nova da palmeira de dendê.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Um livro sobre o Candomblé


Fui la na FFLCH buscar este que é o último empréstimo de livro como ex aluna que me cabe e comecei a ler. Trata-se de "um livro sobre o candomblé", o "Segredos guardados: orixás na alma brasileira" de Reginaldo Prandi. Escrito por um professor e pesquisador (claro que é só uma percepção da coisa, um pouco de fora, bem acadêmica, mas é importante também, especialmente este bem claro, quase didático), uma leitura muito interessante! Só lamento que este, como a maioria das coisas sobre a cultura negra no Brasil seja tão mais caro! Só em biblioteca mesmo para conseguir pelo menos experimentar a leitura, enfim!
Faz tempo que estou fora das salas de aula, nesse país que rejeita seus especialistas, mas tenho muita saudade de dar aula. Recortei esse trechinho do livro porque ele é rico em questões para se discutir, dá panos para mangas, o que acham:


“Mesmo  quando o negro se expressa para afirmar a negritude, a condição africana, não resta a ele fazê-lo senão como um brasileiro. Ainda que o passado ancestral perdido seja a África pluriétnica, multicultural, o passado recuperável  é aquele que o Brasil logrou incorporar  na construção de uma nova civilização, passado que só pode ser reinventado, memória  recriada. Entre o Brasil contemporâneo e a velha África, bem como  entre a antiga Europa e as perdidas civilizações indígenas, situa-se a nossa própria história, que nos impede ou auxilia no reencontro do nosso ponto de partida, nos meandros da civilização que ela mesma engendrou. Do Brasil de hoje se faz  raiz África de ontem, África simbólica que é memória e identidade possíveis dos afro-brasileiros. O candomblé, nesse processo, deixa de ser religião e passa a funcionar apenas como fonte idealizada de identidade, mesmo porque o candomblé não tem a menor disposição   de se enfileirar com o movimento de afirmação do negro; pais e mães-de-santo, muitos deles brancos ou mestiços, querem ser apenas líderes religiosos, longe de qualquer outra instituição que possa interferir na comunidade que eles formam e dirigem com mão-de-ferro. Do outro lado, embora alguma parcela do movimento negro possa escolher o candomblé como símbolo de identidade africana, dificilmente o conjunto todo estará disposto a assumir uma religião e submeter-se às suas orientações. Candomblé e movimento negro têm a mesma origem, mas já não podem ser juntados. O candomblé tornou-se religião universal, já não pertence a raça ou etnias definidas, é religião “para todos nós”, para todos os brasileiros. “ Reginaldo Prandi. "Segredos guardados: orixás na alma brasileira", p. 172-3        

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O tipo de pessoa que satisfaz Oxum ...

Mais uma narrativa MITOLÓGICA dos orixás : 

Xangô oferece  mil  riquezas  a Oxum
Tudo o que Xangô viu e quis ele sempre conseguiu.
Um dia, Xangô viu uma mulher muito bonita
e a desejou ardentemente.
Mesmo já sendo casado com Iansã,
começou a persegui-la.
Era Oxum, mulher de Ogum, um pobre caçador,
que pouco podia oferecer à sua mulher.
 Xangô era um negro belo, forte e rico.
E ele foi em seu encalço e lhe falou:
“Se ficares comigo, abro um tapete de ouro sob teus pés,
que é para nunca mais pisares no chão.
E todas as minha riquezas serão tuas”.
Logo que ouviu falar em ouro,
Oxum foi embora com Xangô.
Ele era rico, atrevido e charmoso.
É esse o tipo de pessoa que satisfaz Oxum.
E ambos são doidos um pelo outro,
E todas as mulheres que foram de Ogum foram tomadas por Xangô.”

Reginaldo Prandi. Mitologia dos Orixás, p. 270

sábado, 9 de dezembro de 2017

Uma lenda de Oxum : por que o amarelo?

Xangô e Oxum

Oxum fica pobre por amor a Xangô

Oxum era conhecida como amante ardorosa. Tinha um corpo belo, de formas finas. Sua cintura deixava-se abraçar por um único braço. Por muitas noites Oxum teve em seu leito amantes, aos quais proporcionava momentos de raro prazer.
Oxum teve muitos amores, de quem ganhou presentes preciosismos. Oxum era rica. Tinha joias, ouro, prata, vestidos maravilhosos, batas que causavam inveja, e mais, pentes de marfim, espelhos de madrepérola, e tantos berloques e panos-da-costa.
Um dia chegou à aldeia um jovem tocador de tambor. Era Xangô, um belo homem, que desde logo atraiu o desejo de Oxum. Inescrupulosamente, ofereceu-se a ele, mas foi prontamente rejeitada. Usando de todos os artifícios, Oxum foi se aproximando de Xangô, até que um dia ele a tomou numa calorosa relação sexual. Mesmo assim Xangô não deixou de humilhar e desdenhar a linda jovem.
Tempos depois,  a fama e a fortuna de Xangô lhe fugiram das mãos e ele se viu empobrecido e esquecido, ainda que continuasse a ser um excelente  alabê[1]. Envergonhado ele fugiu dali. Foi viver longe do lugar e longe do som dos atabaques. Mas continuava o glutão de sempre, a viver com conforto e prazeres.
Oxum seguiu sendo sua amante e o consolou, sacrificando por ele tudo o que tinha. De tudo se dispôs Oxum, para o conforto de Xangô. Primeiro as joias, depois  os vestidos, as batas, depois os pentes, os espelhos, de tudo foi se desfazendo Oxum. Restou-lhe nada mais que seu vestido branco.
De tudo de se desfez Oxum pelo amor de Xangô. Ficou pobre por amor a Xangô. Restou a Oxum apenas um vestido branco. Que era tudo o que tinha para vestir. Mas todo dia no rio lavava Oxum a veste branca. De tanto lavar a única peça que lhe restara, a roupa branca tornou-se amarela. Desde esse dia, Xangô amou Oxum.
Reginaldo Prandi. Mitologia dos Orixás, p. 335-6
  




[1] Dono da navalha, encarregado das escanificações, rituais, no Brasil, ogã,tocador de atabaque, chefe  da orquestra  do candomblé.