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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

BALANÇO DA FLIN 2O26

 

 

BALANÇO DA FLIN 2026: Como sabem, acompanhei a Feira Literária Internacional de Niterói, a FLIN. Eu estava em Niterói, mas apenas para isso, então não deu para acompanhar o evento o tempo todo. Mesmo assim, fiz questão de ir um pouco todos os dias.

Logo descobri que não conseguiria escolher as falas. Tudo muito concorrido, ingressos esgotados, especialmente os mais disputados, como Jefferson Tenório. Mas eu ainda tentei. Consegui assistir a Ana Maria Machado e Luiz Antonio Simas, e não me arrependi. Não consegui ver Ondjaki. Mas acompanhei mesas muito interessantes sobre arquivos de escritores, com o Fabrício Carpinejar, histórias para crianças e Guimarães Rosa, meu amor!

De tudo, destaco o autógrafo da Machado, que a menina leitora Camila esperou tantos anos e mereceu! 


Viva Camila!


Assisti Fabrício Carpinejar numa fala mais motivacional e menos poética do que eu gostaria, mas fez sucesso. 



Depois, a fala emocionante de Luiz Antonio Simas. Bateu uma saudade da História, de gostar de História,  da cultura popular, do Brasil! Chorei mesmo!


No último dia, Dunker e os questionamentos sobre sermos humanos: problemas do nosso século. De todos os séculos. 


E, no final, a leitura de trechos de Grande Sertão: Veredas, incluindo a morte de Diadorim: "não escrevo, não falo, para assim não ser". E tocou "Na Primeira Manhã", do Alceu Valença. Chorei mesmo!



Que maravilha de festa, FLIN! Já me inspirou a comprar dois livros no sebo: A Audácia Dessa Mulher, da Ana Maria Machado (só 10 reais!), e A Reinvenção da Intimidade, do Dunker, para aprofundar questionamentos sobre nossa humanidade nestes tempos que vivemos.

Melhor que isso, impossível!

Algumas reflexões posteriores 









segunda-feira, 23 de junho de 2025

Relendo "Alice e Ulisses", de Ana Maria Machado

 

 

Depois que reli "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", de Clarice Lispector, aquela leitura forte e cheia de esperanças que se faz aos vinte anos e percebi que o que realmente me importava eram mesmo aquiles trechos dos quais  me lembrava, não achei nada além daquilo e fiquei um pouco decepcionada com a RELEITURA.

Era questão de honra reler "Alice e Ulisses", que para a leitora que era , na época, tinha relação muito direta com o livro de Clarice, muito além de serem livros sobre um amor entre professoras primárias e um Ulisses. Teria mesmo? Fui reler.

Assim como o livro de Clarice, o  grosso do prazer da leitura já habitava minha memória, mas nesse caso ainda consegui outras impressões novas, como quando me encantei com o prólogo cheio de brincadeiras com as palavras e significados de Alice e Ulisses...

Em geral, acabei afastando maiores proximidades entre os livros. Se aquele é uma jornada de aprendizado, construção de amor e fenomenologia, este é a história de uma louca paixão, banhada nos textos clássicos da Odisséia de Ulisses e da Alice de Carroll.

Primeira edição, 1983. Minha edição.


Vejamos algumas poucas publicações que resgatei no processo de releitura:

9 junho

ALICE E ULISSES : Terminada a releitura de "Uma aprendizagem..." da Clarice, senti vontade de reler "Alice e Ulisses" da Ana Maria Machado (uma das minhas autoras favoritas na infância). Quando li esse livro adulto dela, publicado nos anos 80, eu tinha meus vinte e poucos anos e estava ainda muito impactada com a leitura de "uma aprendizagem", tanto que não passou pela minha cabeça que não fosse uma referência direta e ele: dois romances sobre a busca de um encontro erótico/amoroso entre Ulisses com  uma professora primária! Só isso já me bastava para ligar as duas obras. Mas será mesmo que existem mais ligações entre os dois livros? Só relendo pra saber. Vou devorar o livrinho (amo a escrita de Machado), depois lhes conto 😍


10 junho 

ALICE E ULISSES:  Como um cineasta ouve o "canto de sereia"?


"Ulisses ouvia vagamente a história comprida que a moça contava em palavras que fluíam tranquilas e seguras em cima de um leito de hesitação.  Prestava atenção era na voz dela. O canto das sereias devia ser assim. Não era só um timbre agradável, uma modulação harmônica. Eram as qualidades não auditivas que o envolviam. Uma voz quente, macia, temperada. Dava vontade de pegar. De ver, filmar, fotografar. Tinha que conseguir um dia botar em imagens essa voz visual, plástica." (P.17-8)


Está aí um momento interessante do livro. Tal qual o da Odisseia, esse Ulisses também ouve o canto da sereia que pode matá-lo. Mas esse não resiste: acaba doente (de paixão)


17 junho

COMEÇA ASSIM: Primeiro livro para adultos de Ana Maria Machado (a dama da nossa literatura infantil), Alice e Ulisses (1983) começa com uma introdução muito saborosa, onde a autora vai mesclando as referências centrais : as personagens  Alice de Carroll  e Ulisses, de Homero. Ao mostrar que vai contar uma história de amor na mescla  desses dois universos (ALUCINADA LUCIDEZ), Machado começa trabalhando as palavras (destaquei algumas evidentes em caps), depois cita os universos de espelhos, maravilhas, a odisséia, o pathos e o logos,etc. Adorei a introdução, especialmente porque o livro não será todo escrito assim, o que acharia soberbo, tolo e desnecessário, mas a título de introdução  serve muito pra entrar no clima do romance. Vejamos:


"ALICIADA, ela foi, vá lá. Mas porque quis, das DELÍCIAS ao SUPLÍCIO. Vai ver que achou que tinha ALICERCE. E tanto tinha que não perdeu a ALUCINADA LUCIDEZ, nem mesmo na alegria inicial do cio, por mais variados que tenham sido os desvairados desvãos e os deslizantes desvios.

Claro,teve clima de vertigem, de JOGO DE ESPELHOS, cada um mergulhando no outro e se  reencontrando filtrado ao inverso. Explorando verso e reverso nas palavras tontas e nas levras tantas, pavanas livres ou nirvanas parvos, rolando na cama e fodendo feito sapo, como dizia, que dispara e não para mesmo que lhe curtem a perna. Descobrindo salgados garimpos do corpo e lambendo versos de Salinas no fundo do ouvido,resfolegados, entre um espasmo novo e um orgasmo seco.

Só que não dava mesmo. Ilícito e não solicitante não podia ser mesmo esquema de Ulisses, enredado na roda que se deslancha e retece, sem despachar ou retesar. Escolhendo o tear e encolhendo o tentar. Pré -ferindo, preferindo fugir espantado do "pathos" e se amparando no "logos" como desculpa para se paralisar. Fingindo razões éticas como ilusões óticas para não enxergar o mascar mesquinho da ruminante da ODISSÉIA, do ramerrão que rema para longe do PAÍS DAS MARAVILHAS, ou que teme a desarrumação do OUTRO LADO DO ESPELHO. Avesso que para Alice acabava sendo uma revelação, rebelde a cada novo véu, clareando a intriga, separando o trigo do jogo verbal."

   No final 

Agora encerrei o ciclo com os Ulisses.

Ao final, nem a narrativa amorosa  de Clarice, nem a  passional de Machado combinam com essa mulher de meus idade que sou hoje . Sou muito mais a menina de Felicidade Clandestina, meu livro favorito de Clarice.


FELICIDADE CLANDESTINA: Postei um registo da releitura de "Uma aprendizagem..." concluindo que, embora seja um livro bonito, ainda prefiro os contos de "Felicidade Clandestina". Quando li o romance aos vinte anos, comecinho da vida , é claro que eu acreditava que poderia  um dia viver aquela plenitude do amor à primeira vista e ao mesmo tempo aprendido de Lóri e Ulisses . Agora já não acho. Hoje já sei que sou uma leitora e meu melhor amante será sempre um livro, ainda que emprestado de biblioteca, ainda que seja de outra pessoa,  será meu e eu o lerei com "orgulho e pudor": 

"A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia."

Ave, Clarice ...


Momentos...

domingo, 26 de novembro de 2023

Invenção e memória : livro do mês de novembro

a dama 

                             

Quando emprestei estava
muito calor no Sesc Pompéia 


Totalmente atrasada nas leituras, só fui escrever sobre o livro de outubro em meados de novembro e só depois disso escolhi a leitura do mês.
 
Nesse meio tempo vim lendo e relendo trechinhos de vários livros de estudo, especialmente o Segredos Guardados , do Reginaldo Prandi
Esse é um livro da vida, para mim

Ou outros contos brasileiros como Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector

Meu favorito da Clarice

 E isso vem me ajudando a viver. 

Mas o livro do mês, mesmo, é outro.

Novamente emprestei o volume de contos Invenção e Memória, de Lygia Fagundes Telles, da biblioteca do Sesc Pompéia e achei que leria rapidinho. Só que não. Lygia é Lygia e é, para mim, uma das melhores escritoras do Brasil. Ainda não terminei a leitura, ela deve abarcar o mês de dezembro, pois não posso ler com pressa.

Só o primeiro conto, Que se chama solidão me desconcertou.
Memórias inventadas de uma menina interiorana abastada, cuja infância teria acontecido no século XX, como a de Lygia, entre os temas está sua relação com o suas babás, que chama de pajens,o conto é uma pequena joia, me dá vontade de aplaudir, como quase todos da Lygia.

O conto se desenvolve em torno de uma cantiga, da ciranda infantil "se essa rua fosse minha", que representa a relação da protagonista com as pajens. No conto é transcrito o trecho final 

"Nesta rua nesta rua tem um bosque
Que se chama que se chama Solidão
Dentro dele dentro dele mora um  Anjo
Que roubou que roubou meu coração "

Escrevi sobre o conto depois que li, recortei o seguinte trecho sobre os cabelos crespos de sua Pajem Maricota, que é negra



Escrevi sobre uma capa do livro
Que não é a que eu emprestei 


 E quando a menina lhe pede para cortar mais cana (cana remete ao ciclo do açúcar, sustentado pelo trabalho escravo no Brasil colônia) ela reage enfurecida "pensa que sou sua escrava, pensa? A escravidão já acabou" (p. 10). Isso levou a menina a perguntar ao pai o que era escravidão, ele respondeu recitando uma poesia  que falava de um "navio cheio de negros presos em correntes que ficavam chamando Deus"(p.10)
Apesar da explicação ter sido tão etérea, Maricota mostrou que não era escrava e fugiu com seu namorado trapezista, deixando sua "madrinha" , a mãe da protagonista, que nunca lhe ensina a ler e escrever, indignada com sua ingratidão.

A outra pajem, Leocádia ,era branca e afinada , era quem cantava como soprano, a ciranda que sintetiza  o conto . Mas sua solidão não era menor, como a conclusão do conto nos mostrará.

Gosto das edições de Lygia da  Cia das Letras, como mostrei acima,  porque as capas trazem detalhes ampliados  de quadros  maiores, como enfocando temas importantes neles. Assim também é obra de Lygia são focos em realidades maiores, mostrando textos  às vezes tão impalpalveis que nem parecem dizer nada. Mas como doem.

Nessa imagem da capa de Invenção e Memória  o quadro me  mostra  a  referência a  ciranda de meninas no círculo pontuado de rosa à esquerda, vemos a indicação do sol negro entre os leques a direita. Ainda em relação à ciranda, no conto, a menina vai a procissão no sábado vestida de anjo, com asas de penas brancas, não de crepom como os outros e isso desperta sua soberba infantil.

Ainda sobre  essa leitura eu postei:

LYGIA É LYGIA: Faz uma semana que emprestei o  breve "Invenção e memória" , contos de Lygia Fagundes Telles da biblioteca do Sesc Pompeia. Ingenuamente achei que leria rapidamente, mas Lygia é Lygia, li apenas o primeiro conto "Que se chama solidão" e não consigo sair dele. Ali tem memória de infância ,meninas, escravidão, servidão, solidão das meninas, afetos e o mundo inexplicável dos adultos. Inesperadamente esse conto dialogou tanto com a literatura preto brasileira que conheço e está fresca em minha cabeça, especialmente o romance Torto Arado (2019) e a questão dos cabelos crespos, e da amizade meio agridoce entre meninas. Pensei aleatoriamente que gostaria de já ter lido mais Conceição Evaristo e preciso resolver isso. Mas pelas minhas referências atuais, lembrei mais do amor espinhoso das irmãs do romance de  Itamar, do que da "menina bonita do laço de fita" de Ana Maria Machado, que é uma autora branca como Lygia.  Estabelecer esse tipo de relação é pouco, mas é válido, afinal, estamos aprendendo a lidar com a literatura preto brasileira (como quer Cuti) e seu diálogo com os cânones e, como  sabemos, Lygia é Lygia. Lygia é majestade, é referência (pelo menos pra leitora que sou).👏🏾

É só um conto.  São tantas coisas e deve ter muito mais.

Viva Lygia, minha contista brasileira favorita 😍

Quando terminei a leitura escrevi :
INVENÇÃO E MEMÓRIA, DESPEDIDA: Terminei minha primeira viagem pelo breve porém denso livrinho de contos de Lygia, que visitei em novembro e dezembro. Contos inéditos de Lygia foi uma escolha ruim no fim do ano,quando estou física e emocionalmente esgotada, com certeza nem sempre aproveitei o melhor da obra, por isso devo voltar a ele mais tarde. Ao mesmo tempo esses contos me sustentaram nesse momento difícil do ano, quando no meio do calor extremo, das frustrações e do cansaço, sei que renasci ao ler pequenas joias como a quase cantiga infantil "que se chama solidão"; o quase conto de fadas mesclando memória, invenção e desejo de "a dança com o Anjo"; a citação a tradição de leitura e releitura de Machado de Assis em "Rua Sabará, 400", o quase onírico (amo narrativas de Lygia onde o real e o irreal se misturam, ou "a memória emerge como sobrenatural" como li na internet) como "a chave na porta"; belo e amargo "O Cristo na Bahia", citando diretamente o conto Príncipe Feliz de Oscar Wild "como se sobre ele tivessem espargido ouro em pó"; o libertador "história de passarinho", a fantástica história do vampiro que aprende a língua do ser que mordeu e que se apaixona por uma bela índia na época da colonização em "Potyra", etc.
Quando voltar a esse livro, quando estiver menos desconcertada, espero olhar mais profundamente para outros contos e aproveitar melhor a obra dessa grande autora, pois ela sempre merece
😍

sexta-feira, 26 de abril de 2019

A imagem das meninas negras



Meninas negras leitoras . In: Google imagens

Como sabem, desde pelo menos minha tese, eu amo falar sobre as meninas (crianças do sexo feminino),tenho artigos sobre isso , como este sobre as personagens meninas nas estórias, ou este sobre a correpondência desenhada entre o Vovô Joãozinhho e sua netinha Ooó .
Em fevereiro desse ano eu falei no SESC CPF, por breves trinta minutos, sobre a representação da menina negra na literatura infantil brasileira em três momentos que julguei importantes no que tange o tema da representatividade da criança negra nesse recorte de cerca de cem anos: a Princesa Flor Encarnada (1921), texto adaptado por Arnaldo de Oliveira Barreto, ilustração de F. Richter ; A Menina Bonita do Laço de Fita (1986), texto de Ana Maria Machado, ilustrações de Walter Ono e Claudius Ceccon e Menina Pretinha (2016), de MC Soffia. Na comparação, interessou-me observar e problematizar quem eram essas meninas, como e porque foram representadas como foram, nos textos e nas figuras a elas relacionadas, etc.

A discussão é cada vez mais pertinente, pois se hoje ainda é difícil representar adequadamente as pessoas negras (as dificuldades vão desde a falta de vontade ou a inabilidade, ou proibição mesmo como no caso do comercial do BB vetado pelo governo federal, até a falta de materiais próprios como paleta de cores, pro exemplo), imagina como era isso no passado. Mesmo que não tivemos tempo para discutir esses temas na ocasião, alguns pontos chegaram a ser levantados para reflexões futuras, e lembro que escrevi um texto que deve ser publicado em breve.

Como hoje eu já comecei a pesquisar outro tema relacionado aos meus estudos sobre História Cultural da infância, por ora me despeço desse assunto mostrando algumas figuras (diferentes das que eu analisei na palestra e no texto) dessas meninas, como aperitivo.
Flôr Encarnada (1921), por F. Richter



Menina Bonita do Laço de Fita (1986),
 por Walter Ono

Menina Bonita do Laço de Fita (1999)
por Claudius Ciccon


















Menina Pretinha (2016), Mc Soffia

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Conversando sobre Literatura infantil...


No comentário de 13 páginas (quase um elogio) que meu artigo sobre os 'Dicionários infantis de Pedro Bloch' recebeu, o/a analista começa com um comentário quase melancólico, que ressente pela falta da citação ao grupo de escritores infantis da revista Recreio e dos anos 1970 (Ana Maria Machado, Joel Rufino, etc), que segundo o aparecer, conversariam sem maior dificuldade com o trabalho de Bloch.

É verdade, sim, mas em relação àqueles 'Dicionários',nesse primeiro momento, preferi não pensar o Bloch como autor de livros infantis, porque isso ele também foi mesmo e muito, mas eu quis destacar (até como fontes de pesquisa) os dicionários e os anedotários bloquianos como um grupo autônomo da produção literária infantil de Bloch, afinal eu percebo que nesse grupo de anedotas e compêndios, vejo que as crianças aparecem não só como destinatárias, mas como co-autoras dos livros e isso é o que me chama atenção. Mas é claro que, se as crianças puderam ser efetivas co-autoras daquelas obras, isso tem relação direta com um oxigênio de ideias que circulava desde aquela década de 1970 e por isso os autores citados serão lembrados em outros trabalhos meus, frutos da pesquisa de pós-doc. Afinal aqueles foram SIM os autores que eu li na infância (especialmente a Ana Maria Machado e a Ruth Rocha - as quais eu leio até hoje). E são deliciosos os livros daquela galera, não?

Sobre esse grupo, achei na internet um texto delicioso aqui.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Contar a história de um Tirano?

Maria Machado nos escreveu sobre :
"Uns dizem que esta história aconteceu há muitos e muitos anos, num país muito longe daqui. Outros garantem que não, que aconteceu há poucos e poucos dias, bem pertinho. Tem também quem jure que está acontecendo ainda, em algum lugar. E há até quem ache que ainda vai acontecer.É que quando a História tem documento, papel escrito na época, coisas que deixam pista, dá para a gente ter mais ou menos certeza decomo tudo se passou. É só ler os jornais daquele tempo, ou as cartas das pessoas, ou as ordens do rei, ou os tratados. Mas numa história como a nossa...não sei não... fica muito difícil saber.Porque ninguém escreveu nada. A história só passou da boca de um para o ouvido do outro, daí saiu pela boca para outra cabeça. E às vezes quem conta também muda um pouquinho. Se um dia vocês ouvirem este caso de outro jeito, já podem ir sabendo que a culpa não é minha.É do tal Tirano. Desde que ele proibiu tudo, não se podia ter mais papel escrito,nem desenho, nem cantiga, nem música, nem dança que contasse nada. Por isso,uns se esqueceram de tudo. Outros confundiram tudo. E, se não fosse pelas três crianças, nem sei o que aconteceria...
Mas já estou falando de coisas lá do meio da história, antesde começar pelo começo. É porque não podia começar assim: ‘Há muitos e muitos anos, num reino muito longe daqui...’Então vou começar de outro jeito. Com ‘Era uma vez’. Lá vai.”

MACHADO, Ana Maria.Era uma vez um tirano. 12ª. Ed. Rio de Janeiro: Salamandra. 1982