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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Crianças. Nomes. Falas

VI
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.
VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para o som.
Então a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que voz de poeta, que é voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
(Manuel de Barros. Obras Completas. Pp. 300-01)
"nomear algo significa convocar, criar realidade da coisa, ou antes, reconhecer essa realidade. Trata-se do valor mágico da palavra, do poder da palavra, da palavra eficaz."
(Adélia Bezerra de Menezes. Cores de Rosa.P. 233)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Manoel de Barros ou Guimarães Rosa?

Quem assume ter uma paixão literária, como eu tenho por Guimarães Rosa, frequentemente é chamado a se JUSTIFICAR por sua "escolha". Isso é claro para mim, afinal já perdi a conta de quantas vezes tive de responder "Por que Guimarães Rosa e não... - a lista de comparações é enorme, mas os mais comumente usados são Machado de Assis, Goethe, João Cabral...)?
Ora, no filme "O Segredo dos seus olhos" a resposta a essa pergunta -seja qual for o escritor proposto para substituir minha paixão por Guimarães Rosa- é dada:
NINGUÉM MUDA O OBJETO DE UMA PAIXÃO. ISSO NÃO SE SUBSTITUI, NÃO SE TROCA, NÃO SE CONTROLA.
É isso.
Mas atualmente, talvez pelo lançamento do livro "Menino do Mato", sempre me perguntam por que faço doutorado sobre infância e uso Guimarães Rosa e não Manoel de Barros?
Ora, além da minha paixão, tenho outras 2 0u 3 colocações racionais :
1-Se trato de crianças em Rosa, devo lembrar que não são quaisquer crianças: são crianças pobres migrantes brasileiras, que tem, incrivelmente, sua delicadeza, sensibilidade e inteligência representadas ... as crianças de Barros são crianças, no geral. Não sou pedagoga, saca?
2-No universo de Rosa não tem só ele - o que já seria ótimo - mas tem também o sertão - emblema e alegoria do desconhecido - e os sertanejos - os moldadores de linguagem. E mesmo Barros era grande admirador de Rosa, como podemos ler aqui.
Em Rosa não só crianças vivem em "estado de infância", em barros só elas.
3- Não estou fazendo uma pesquisa sobre "crianças" e usando o Guimarães Rosa para isso.
A verdade é o oposto: FAÇO UMA PESQUISA SOBRE GUIMARÃES ROSA E, NESSE MOMENTO, ESTOU CENTRADA NO TEMA INFÂNCIA.
Para mim está mais do que claro, se a você não está, deixe-me em paz com minha paixão.
Obrigada!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Acabo de entrar no doutorado em História, no qual devo seguir a linha de pesquisa iniciada pelo meu mestrado.
Se no mestrado eu queria descobrir qual a concepção de História realmente adotada por Guimarães Rosa, e como esta aparece em sua obra literária, descobri que esta está mesmo mais voltada para a forma que pensaram o tempo durante a modernidade.
Ok,não muitas novidades até aqui - embora minha leitura seja uma bomba que vai contra a maioria das leituras da posição da História em Guimarães Rosa, porque ela não considera, de forma alguma, relações diretas entre o texto da "verdade do acontecido" e o texto ficcional . No doutorado eu propus uma pesquisa que se especificasse na abordagem de um dos temas caros aos que respiravam os ares da modernidade - como Guimarães Rosa - que é a atenção devotada ao olhar infantil para os processos históricos. Com esta mesma preocupação -delimitando pela época, inclusive - Rosa tem alguns companheiros de peso, como James Joyce, ou mesmo Walter Benjamin.
Interessantíssimo, não? Eu acho!
Porém meu orientador - que também deve ter achado tudo isso muito interessante,porque a proposta dá conta de discutir seriamente temas de TEORIA DA HISTÓRIA PURA, problematizando conceitos de temporalidades,de linguagem lúdica,e especialmente de duração,na forma específica como foram encarados pela modernidade - fez uma exigência prática,que obviamente tornará mais viável a pesquisa complicadíssima que estou propondo (que abarcará leituras em pedagogia,psicologia, história, lingüística, semiótica, etc...), mas é tão terrível atender a tal! Como acrescentar mais um autor a pesquisa?
Que autor brasileiro poderia dar as mãos a Guimarães Rosa nesse movimento todo?
Nenhum na prosa brasileira, eu suponho!
Mas me lembro do que escreveu Oswaldino Marques:

"Não se perturbe o leitor com o enquadramento indistinto de João Guimarães Rosa nas esferas da poesia e da prosa, pois a sua textura verbal cobre a dupla extensão dessas categorias. Não foi por acaso haver a ele cabido a primazia de gerar uma nova forma de expressão literária, onde se
fundem, de modo orgânico, a prosa e o poema. À falta de um termo corrente, fomos forçados a cunhar o vocábulo prosopoema, para nomeá-la."

[MARQUES, Oswaldino. Canto e plumagem das palavras.]

Ora, então posso brincar com poetas também? Parece que sim.
E o mais interessante deles parece ser Manoel de Barros, que sofreu assumida influência da escrita de Rosa - especialmente na relação com a linguagem que estabeleceu (Linguagem e vida são uma coisa só) e isso ambos também parecem ter aprendido com as crianças.


Ótimo, ótimo. então qual é o
problema?
O problema é que eu posso gostar muito de Barros, achar genial e
legal, MAS ELE NÃO É GUIMARÃES ROSA!
Pessoa fiel, é um horror!
Não rolou aquela paixão ainda, nem mesmo ao ler trechos lindíssimos e reveladores como este:


"Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos."
Mundo Pequeno (do livro "O Livro das Ignorãças")

Será que meu doutorado será uma aprendizagem da traição?
Vou começar relendo "Dom Casmurro" (risos)