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| Ilustração de Carybé para "A morte constante para lá do amor" |
CÂNDIDA ERÊNDIRA : Neste livro de Contos fantásticos de Gabriel Garcia Márquez, o texto que mais gostei foi "Morte Constante para lá do Amor"(1970).
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| Ilustração de Carybé para "A morte constante para lá do amor" |
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| Quando chegou fazia frio e me abracei nele |
A premissa é bem simples: Depois de um casamento suntuoso como nunca havia acontecido no vilarejo, a noiva é devolvida à casa dos pais por não ser mais virgem e, relatando o nome daquele que a havia violado, cabe aos seu irmãos, dois gêmeos que trabalhavam como açougueiros, anunciarem a morte do violador. Na verdade, expectando a passagem do navio trazendo o bispo, que nem chegou a desembarcar no povoado, nada além do anuncio dessa morte disso acontece na trama e o mais impressionante é como Gabo consegue manter o livro de pé, mesmo quase sem acontecimentos.
Quando cheguei perto da metade escrevi um depoimento :
Na verdade, nada acontece na trama, só alguns fios que ficaram soltos (deve ter mais de 50 personagens, mesmo com lista, muitas vezes fiquei confusa) que precisam encontrar um final. depois me acostumei com a dinâmica. Mas no começo eu não estava reconhecendo o Gabo que eu amo, o das grandes histórias de famílias, o dos grandes amores por anos, o do REALISMO MARAVILHOSO. Esse é bom, mas diferente, sei lá, parecia um livro do Jorge Amado (histórias que o povo conta), ou um mistério como se fosse algum da Agatha Christie, embora não houvesse mistério algum: há a morte, há os assassinos e as versões...o livro é uma ode às narrativas, uma bela crônica, no sentido de ser um
“Conjunto de notícias que circulam sobre pessoas”
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| Ilustração da capa: a faca |
“Bastava-lhe fechar os olhos para vê-lo, ouvia-o respirar no mar, o calor de seu corpo acordava-a à meia noite na cama.” (p.136-7)
Passou então a lhe escrever cartas, uma por semana, durante metade da vida, mas nunca obteve qualquer resposta, até que, prossegue o narrador:
"Certa madrugada de ventos, no décimo ano, acordou-a a certeza de que ele estava nu em sua cama. Escreveu-lhe então uma carta febril de vinte páginas e na qual deitou sem pudor as amargas verdades que guardava apodrecidas no coração desde a sua funesta noite. Falou-lhe das marcas eternas que ele havia deixado em seu corpo, do sal de sua língua, da trilha de fogo de sua verga africana. Entregou-a à funcionária do correio que, nas sextas feiras, à tarde, ia bordar com ela para levar as cartas, e convence-se de que aquele desabafo final seria mesmo o último de sua agonia. Mas não houve resposta. A partir de então já não tinha consciência do que escrevia nem a quem escrevia; continuou escrevendo sem quartel durante 17 anos.
Em um meio-dia de agosto, enquanto bordava com as amigas, sentiu que alguém chegava à sua porta. Não precisou olhar para saber quem era. “Estava gordo, o cabelo tinha começado a cair e já precisava de óculos para ver de perto”, disse-me. “Mas era ele, porra, era ele!” Assustou-se porque sabia que ele a estava vendo tão decaída como ela o via, e não acreditava que tivesse tanto amor como ela para se conformar. (...) Baynardo San Román deu um passo à frente, sem se preocupar com as outras bordadeiras atônitas, e pôs os alforjes na máquina.
-Bem - disse- aqui estou.
Levava a mala da roupa para ficar e outra igual COM QUASE DUAS MIL CARTAS que ela lhe escrevera. Estavam ordenadas por suas datas, em pacotes amarrados com fitas coloridas, e TODAS SEM ABRIR. "(p. 139-41)
Podem me chamar de boba, mas achei tudo isso tão lindo, nó!
Um último comentário: a parte final do livro, o destino de Santiago Nasser, é bonito e me lembrou um tanto o clima de "Pedro Páramo", de Rulfo.
Gostei muito de ler o Gabo novamente, que autor sensacional, um autor da nossa época! Adoro!
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| As capas do livro, a da esquerda de papel e da direita da encadernação |
"-Esse negócio de força estranha. Você sabe o que é? (...)- Saber eu sei, só não sei explicar.- Adiantou nada.-Assim, eu acho que a gente sabe quando vem, a força estranha chefa e pá!, a gente sente. Quando ela toma conta, a gente faz o que quer fazer por cima de pau e pedra, não tem cão que segure. Acho que vem de Deus."(p.160)
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| Cabeça do Santo real, de Caridade https://www.youtube.com/watch?v=XHxl2pfj_ys |
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| Eu e minha linda edição azul |
Como já falei , O amor nos tempos do cólera, do Gabo, é um dos meus livros preferido, e é mesmo, Não só porque a edição azul que eu tenho acho DESLUMBRANTE, mas especialmente porque Gabo escreve ali do jeito que eu gosto, maravilhoso, debochado e sobretudo extremamente romântico. Quero dizer que é um livro que faz parte do meu cotidiano, é como um livro de cabeceira, mas como minhas releituras são sempre em fragmentos, com o tempo acho que eu perdi um pouco a noção do todo, o que me soa meio estranho, mas é sempre uma experiência.
Nesse meu breve momento de "retorno ao Gabo", assisti alguns vídeos comentando os livros que eu li e em um deles foi no canal literário favorito, o da Tatiana Feltrin
Tatiana apresenta uma leitura muito legal : Para ela esse livro é uma grande trolagem da ideia comum de cólera e de amor, desde o título, até o conteúdo: Não é um livro que trata propriamente do cólera, ou da cólera, ainda que estes elementos estejam na trama, e sejam centrais. Assim como o amor, que está presente, mas de uma maneira diferente, talvez oposta, ao que se pode pensar inicialmente, ela diz que ele aparece para "disfarçar atrocidades" e a gente aceita, mesmo que se pareça mais com uma obsessão, como neste trecho:
"Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único instante desde que Firmina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então 51 anos, 9 meses e 4 dias. Não tivera que manter a conta d esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes do calabouço, porque não se havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela" P. 71
Ou, ao invés de amor, pode ser uma doença, talvez propriamente cólera, etc... Mas como lembra Alexandre Martins na orelha da minha edição, o livro é sobretudo um "tratado do amor", em todas as suas complexidades que, aqui, é apresentado na história dos septuagenários. Mas como é literatura, está lado a lado à história da grande epidemia do cólera na Colômbia. Tem gente que não gosta mas, desculpe, eu acho o livro FANTÁSTICO. Especialmente porque o texto é belíssimo, o mais bonito do Gabo que eu conheci, mesmo que os elementos mais próprios ao "amor romântico" (cartas de amor, juras, promessas....) sejam sempre descritos junto a algo que os contradiz: em meio ao surto da cólera, à guerra, à traições e abusos...).
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| Detalhe da capa do meu livro, edição Record 1996 |
Quando terminei ontem a noite, como acontece com os bons livros, eu senti um vazio, já uma saudade daquele universo e escrevi umas palavras :
Mas voltando ao romance de Gabo, o que eu achei mais bonito, uma bela imagem que guardei desde a primeira leitura, foi a das gaivotas de papel que o Marquês de Casalduero, pai de Sierva, recebia de sua primeira paixão, Dulce Olivia, internada no asilo das loucas.
Mas outros momentos também me interessaram, envolvendo personagens muito interessantes que, só por existirem ao redor de Sieva, serviam para destacar mais a sua presença no livro, porque seus pais, Ygnácio e Bernarda, a desprezaram toda a vida, alguém tinha que acolher a menina. A primeira a fazer isso, com a força e devoção de uma mãe, foi a escrava Dominga de Adviento, que governou a casa do marquês e teve a ideia de criar a menina no pátio dos escravos, onde ela aprendeu tudo daquela cultura, inclusive técnicas de não se fazer ser notada (como uma fantasma), ou a regra de sempre mentir para os brancos, mas nunca entre eles...coisas que levavam todos a pensar que algo de estranho havia com ela, o que no século XVIII quando o demônio, imposto pela religião católica, era presente no cotidiano das pessoas, espanta ter demorado doze longos anos para que se falasse de possessão demoníaca, pois na época, a tudo se atribuía esse motivo...inclusive ela fora mordida por um cachorro que, segundo o que diziam, estaria com raiva! Uma personagem ilustrada do romance, em pleno século XVIII, esclarece que:
"desde a origem da humanidade, sobre seus estragos impunes e a incapacidade milenar da ciência médica para impedi-los, há exemplos lamentáveis de como fora confundida com a posessão demoníaca, assim como certas formas de loucura e outras perturbações do espírito".p 172.
Seu fim era inevitável.
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| uma capa de edição em espanhol, destancando a cabeleira ruiva e o cachorro raivento |
Às vésperas do exorcismo de Sierva María muita gente até estava esta empenhada em impedir que isso aconteça, mas acho incrível entrar nas perturbações daquele jovem padre ilustrado, Cayetano Delaura, de então 36 anos, que foi designado para exorcizar uma garota de doze anos (normal para a época) , mas que em dado momento do romance, se arde de amor pela menina que outros julgam estar "possuída pelo demônio", mas não ele, que leu tudo disponível sobre casos de possessão e entedia que muito das peculiaridades de Sierva devia-se ao fato da sua imersão na cultura negra. Para ele, padre, tudo era um grande sacrificio, vejamos um trecho:
"Cayetano Delaura tentou a purificação anterior ao exorcismo e fechou-se a bolo de aipim e água na biblioteca. Não conseguiu. Passou noites de delírio e dias de vigília escrevendo versos descomedidos que eram o seu único sedativo para as ânsias do corpo.Alguns desses poemas foram achados num maço indecifrável quando a biblioteca foi desmantelada perto de um século depois." P. 148.
Cayetano, o padre bibliotecário do convento, não era o único que compreendia como Sierva era mais uma vítima de tanta ignorância, outro era o médico ateu Abrenuncio, que mantinha uma biblioteca particular imensa, contendo inclusive livros proibidos pelo Santo Ofício, e que menteve com Cayetano uma longa conversa, umas das mais ricas do romance,na qual temos traçado um desenho incrível do complexo imaginário colonial, só que ambos sabiam que nenhum deles poderia fazer muita coisa para livrar Sierva da fúria do Santo Oficio, infelizmente.
Mas Caeytano foi designado pelo bispo do convento Santa Clara, para ser o exorcista de Sierva, que então tinha 12 anos, mas eles acabaram se apaixonando e vivendo com ela um breve amor real e verdadeiro, sobre o qual não vou comentar muito porque gostaria que lessem o livro.
Havia também uma outra mulher importante na história de Sierva, a Martina Laborde, que também era prisioneira no convento e que estabeleceu com a menina uma boa relação de cumplicidade, daquelas que só se descobre nas adversidades, muito bonita de se ver e que nunca, nem em sonho, Sierva estabeleceu com sua própria mãe, que a odiava!
Como acabei de escrever, eu não queria dar spoiler falando muito do amor real entre Sierva e Cayetano, então vou dizer em medo de falar muito que o fim do livro não é bom, nem poderia ser (com inquisição, Diabo e cachorro raivoso no meio), e também o livro já começa com a história (real ou imaginada) de quando, tempos depois em 1949, o jornalista Gabo teria sido designado para cobrir a abertura de uns túmulos em um convento colonial que seria demolido para se tornar um hotel 5 estrelas e ai que ele assiste a descoberta do cadáver de uma menina, adolescente chamada Sierva María de Todos Los Ángeles , de cujo crânio saltava uma cabeleira esplendida, medindo 22 metros e 11 centímetros. Isso o teria levado a lembrar das histórias que lhe contavam sobre a marquesinha de cabelos imensos que fazia até alguns milagres... e anos depois, surge esse romance. Essas histórias lindas, o realismo fantástico em um de seus melhores representantes, pulsa nesse livro.
Para terminar, sem muitos detalhes, gostaria de transcrever um trecho bem interessante, sobre o amor entre Sierva e Cayertano ( eu sei que acabei que declarar que não ia falar disso, mas só um trecho, para mostrar como ele foi verdadeiro, mas também muito sofrido, ao ponto do padre, em um momento de grande agonia, chegar a dizer ao bispo que seu mal era o "demônio, o mais terrível de todos"P. 177) . Leiam esse livro, saibam melhor sobre essa história de amor demoníaca :
"Então Cayetano Delaura a beijou nos lábios pela primeira vez. O corpo de Sierva María estremeceu com um gemido, e ela soltou uma tênue brisa marinha e se abandonou à própria sorte. Ele passou por sua pele as gemas dos dedos, tocando-a muito de leve, e viveu pela primeira vez o prodígio de se sentir em outro corpo. Uma voz interior o fez ver quão longe tinha estado do diabo em suas insônias de latim e grego, nos êxtases da fé, nos ermos da pureza, enquanto Sirva María convivia com todas as potências do amor livre na senzala dos escravos. Deixou-se guiar por ela, tateando no escuro, mas se arrependeu no último instante e desmoronou num cataclismo moral.Ficou deitado de costas, com os olhos fechados. Sierva María se assustou com seu silêncio e sua quietude de morte, e o tocou com um dedo.
-O que houve? - perguntou.
-Deixe-me agora - murmurou ele- estou rezando." P.191-2
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| eu, agarrada no meu livrinho |
Acho que é isso, até o próximo livro ! Acho que , em breve, volto ao fantástico mundo do Gabo, veremos!
Um último comentário:
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| Sierva Maria |
Detalhes :)
RECEPÇÃO
POR ESSA EU NÃO ESPERAVA - Tinha comentado sobre possíveis comentários do século XXI sobre Sierva Maria de Todos Los Angeles ser uma marquesinha que se branca só tinha a pele, né?
Pois vendo um pouco da recepção do livro no YouTube e esse "detalhe" não foi mencionado, já o fato dela ter doze anos e seu amor ser um homem adulto e isso não é passado com crítica pelo Gabo sempre aparece e por essa eu não esperava.
Bom, para mim isso não foi problema tão grande assim, principalmente por dois pontos que se entrelaçam no romance : 1 Gabo se propôs a escrever de um romance histórico mais clássico, ambientado no século XVIII e por isso o que vale são os modos de época e dai temos o ponto 2 : naquele longínquo período colonial essa diferença de idade não era um escândalo, a ideia de infância era mesmo outra (sim, existe uma história da infância) não tanto quanto a presença ou ausência do demônio na vida das pessoas.
Ou seja, discutir isso é colocar uma perspectiva válida para nossa época como mediadora de uma história do século XVIII, Sei lá, não gosto muito!
Na faculdade de História a gente aprende que o passado é como um país estranheiro, nele as pessoas fazem coisas de um jeito diferente do que nós fazemos: