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quinta-feira, 26 de junho de 2025

O prazer de uma companhia , por Gabriel Garcia Garcia Márquez

CAPA "A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada "

Tenho esse livro de contos há anos e apesar de gostar muito do Gabo ,nunca tinha lido por completo. Chegou o momento. Gostei, claro,mas não é de longe meu favorito.

Para um registro, comento um pouco mais o meu conto preferido dessa antologia.


Ilustração de Carybé para 
"A morte constante para lá do amor"


 CÂNDIDA ERÊNDIRA : Neste livro de Contos fantásticos de Gabriel Garcia Márquez, o texto  que mais gostei foi "Morte Constante para lá do Amor"(1970).

Conta a história do Senador Onésimo Sanchez, um homem poderoso,  casado, pai e aparentemente feliz, mas que na intimidade mostra-se um libriano e solitário. Já na primeira frase do conto, ficamos sabendo que morrerá em seis meses, mas antes conhecerá a mulher de sua vida e o conto é sobre esse encontro. Envolvido em trambiques políticos, Onésimo recebe do contrabandista Nelson Farina  o pedido de obter documentos falsos, o que é negado. Até que Nelson lhe manda de "presente" a sua filha, Laura Farina, certamente a mulher mais bonita do mundo, como paga pelo favor que ele não poderá mais negar. O senador estranha e repudia essa atitude , mas sabe que pelos acertos políticos, vai ter que aceitar a oferenda, mas não lhe atrai, acha que ela é uma criança,ao até a moça revida dizendo ter quase dezenove anos. Logo ao tocá-la,  percebe  que a Laura  veio vestida com  um cadeado prendendo as partes e a chave só virá quando o favor for garantido ao seu pai! Onésimo então , "fechou os olhos para relaxar e se encontrou na escuridão... 
-Esqueça-se da chave - disse-lhe e durma um pouco comigo. É bom ter alguém quando se está só.
Ela então o deitou no seu ombro, o senador a abraçou pela cintura, escondeu o rosto na sua axila de animal selvagem e sucumbiu ao terror. Seis meses e onze dias depois morreria na mesma posição, desmoralizado e repudiado pelo escândalo público de Laura Farina, e chorando de raiva por morrer sem ela."

Achei lindo 😍 
Como é importante uma cia para um solitário!
Mais um texto de Gabo envolvendo um homem, uma mulher e o  sono 😴

Também destaquei, em uma publicação à parte, uma belíssima descrição de Laura Farina:

"Laura Farina sentou-se como numa carteira escolar. Tinha a pele lisa e tensa, com a mesma cor e a mesma densidade solar do petróleo cru, e seus olhos imensos eram mais claros que a luz." Gabriel Garcia Márquez "Morte constante para lá do amor", p.65 

Qual é a cor e a densidade do petróleo cru?



 
Literatura: muitos caminhos...


sexta-feira, 16 de julho de 2021

A morte anunciada e uma história de amor

Quando chegou fazia frio e me abracei nele 


 Estava com duas longas biografias bacanas aqui pra ler - do Gabo e da Elza - mas embora sejam do meu interesse, sinto tanta falta de ficção, afinal eu estudei a questão da construção ficcional na escrita de G. Rosa, sei como ela é capaz de realçar pontos importantes da realidade que a gente nem sempre enxerga a olho nu. Daí que comprei "Crônica de uma morte anunciada" ()esse, que era uma das minhas faltas na obra do colombiano.

A premissa é bem simples: Depois de um casamento suntuoso como nunca havia acontecido no vilarejo, a noiva é devolvida à casa dos pais por não ser mais virgem e, relatando o nome daquele que a havia violado, cabe aos seu irmãos, dois gêmeos que trabalhavam como açougueiros, anunciarem a morte do violador. Na verdade, expectando a passagem do navio trazendo o bispo, que nem chegou a desembarcar no povoado, nada além do anuncio dessa morte disso acontece na trama e o mais impressionante é como Gabo consegue manter o livro de pé, mesmo quase sem acontecimentos.  

Quando cheguei perto da metade escrevi um depoimento :

Na verdade, nada acontece na trama, só alguns fios que ficaram soltos (deve ter mais de 50 personagens, mesmo com lista, muitas vezes fiquei confusa) que precisam encontrar um final. depois me acostumei com a dinâmica. Mas no começo eu não estava reconhecendo o Gabo que eu amo, o das grandes histórias de famílias, o dos grandes amores por anos, o do REALISMO MARAVILHOSO. Esse é bom, mas diferente, sei lá, parecia um livro do Jorge Amado (histórias que o povo conta), ou um mistério como se fosse algum da Agatha Christie, embora não houvesse mistério algum: há a morte, há os assassinos e as versões...o livro é uma ode às narrativas, uma bela crônica, no sentido de ser um

 Conjunto de notícias que circulam sobre pessoas

Ilustração da capa: a faca


E é exatamente isso o livro... tem cenas fortes do “trabalho” dos assassinos com as facas, afinal eram açougueiros, tem cenas engraçadas e misteriosas, mas tem ainda um dos momentos mais lindos.Agora, se você ainda vai ler o livro e não gostar de spoiler, pare de ler aqui porque vou falar de quando o meu velho Gabo apareceu na narrativa, se quiser ouça este tema tradicional colombiano  enquanto lê. 
 Foi quando Ângela Vicário, a noiva que teria sido deflorada pelo Santiago Nasser e por isso devolvida após a noite de núpcias, descobriu-se apaixonada pelo marido que havia perdido e o narrador nos conta que

“Bastava-lhe fechar os olhos para vê-lo, ouvia-o respirar no mar, o calor de seu corpo acordava-a à meia noite na cama.” (p.136-7)

Passou então a lhe escrever cartas, uma por semana, durante metade da vida, mas nunca obteve qualquer resposta, até que, prossegue o narrador:

"Certa madrugada de ventos, no décimo ano, acordou-a a certeza de que ele estava nu em sua cama. Escreveu-lhe então uma carta febril de vinte páginas e na qual deitou sem pudor as amargas verdades que guardava apodrecidas no coração desde a sua funesta noite. Falou-lhe das marcas eternas que ele havia deixado em seu corpo, do sal de sua língua, da trilha de fogo de sua verga africana. Entregou-a à funcionária do correio que, nas sextas feiras, à tarde, ia bordar com ela para levar as cartas, e convence-se de que aquele desabafo final seria mesmo o último de sua agonia. Mas não houve resposta. A partir de então já não tinha consciência do que escrevia nem a quem escrevia; continuou escrevendo sem quartel durante 17 anos.

Em um meio-dia de agosto, enquanto bordava com as amigas, sentiu que alguém chegava à sua porta. Não precisou olhar para saber quem era. “Estava gordo, o cabelo tinha começado a cair e já precisava de óculos para ver de perto”, disse-me. “Mas era ele, porra, era ele!” Assustou-se porque sabia que ele a estava vendo tão decaída como ela o via, e não acreditava que tivesse tanto amor como ela para se conformar. (...) Baynardo San Román deu um passo à frente, sem se preocupar com as outras bordadeiras atônitas, e pôs os alforjes na máquina.

-Bem - disse- aqui estou.

Levava a mala da roupa para ficar e outra igual COM QUASE DUAS MIL CARTAS que ela lhe escrevera. Estavam ordenadas por suas datas, em pacotes amarrados com fitas coloridas, e TODAS SEM ABRIR. "(p. 139-41)


 Podem me chamar de boba, mas achei tudo isso tão lindo, nó!

Um último comentário: a parte final do livro, o destino de Santiago Nasser,  é bonito e me lembrou um tanto o clima de  "Pedro Páramo", de Rulfo.

Gostei muito de ler o Gabo novamente, que autor sensacional, um autor da nossa época! Adoro!






sábado, 22 de maio de 2021

Era uma vez a cabeça oca do santo e o homem que morava nela, por Socorro Acioli


As capas do livro, a da esquerda de papel e da direita da encadernação

Na alegre capa amarela que reveste. A encadernação do livro "A cabeça do santo"(2014), da cearense Socorro Acioli, José Eduardo Agualusa diz que o primeiro romance de Acioli "é uma festa". Um livro que nasceu a partir de uma oficina literária ministrada pelo Gabo, que  Acioli participou, como conta aqui nesta entrevista deliciosa onde, entre outras coisas, ela revela que muito do "fantástico" narrado no livro realmente acontecia no Ceará. Assim é o realismo fantástico, quando o maravilhoso acontece na realidade. O fato é que o livro é para ele, uma gratidão gostosa de se ver
                               

Gabo, grande nome do chamado realismo maravilhoso latino americano, realmente frequenta as páginas de Acioli, em momentos como a descrição da família matriarcal, onde as matronas sempre sabiam o dia de sua morte, como se vivessem em Macondo, mas que Acioli jura que acontece na família dela!
Agora que terminei a leitura, sou obrigada a concordar com Agualusa: novamente voltamos ao berço da literatura: o conto maravilhoso e as alegrias da narrativa oral, até o clássico Pedro Páramo, de Juan Rulfo é citado na conversa do protagonista com sua mãe no começo do romance. Mas demorei pra concluir como era essa narrativa, e logo no começo da leitura já questionava:
                                           
Conforme fui avançando na leitura, tinha sensação que estava lendo um livro juvenil, fantástico mesmo, e   fui entendendo e gostando mais. O livro é bem curtinho, pouco mais de 150 páginas, dividido em quatro partes e com 3 breves capítulos, como se fosse mesmo uma história contada de boca a orelha. 
Conta a história de Samuel, que sai de Juazeiro do Norte e vai a pé até  uma  pequena cidade onde sua mãe nasceu, para atender uma promessa que ela fez para ele pagar, que consiste em procurar seu pai e avó na fictícia Candeia e acender 3 velas aos pés das imagens do Padre Cícero em Juazeiro; de Santo Antônio em Candeia e por último de Santo Antônio em Canindé. Reverenciando a "santíssima trindade" da fé popular nordestina. 

A ideia do filho pagar promessa que a mãe fez, pelejando e esmolando, me lembrou o Grande Sertão, na passagem em que Riobaldo estava esmolando na passagem do Rio De Janeiro para o São Francisco e  encontra um menino nessa travessia simbólica e cheia de significados, como uma passagem pra maturidade. 

Voltando ao romance de Acioli, depois de  acender a vela para padre Cícero, Samuel que sobrevivia de vender  relíquias aos romeiros, mas em santo não acreditava, segue para a fictícia Candeia, onde a trama se desenvolve, e que quando ele chega é quase uma cidade fantasma. O diferencial é que, por algum erro,  a estátua de Santo Antonio, padroeiro de lá, foi decapitada e a cabeça oca do santo, descansava ao lado do corpo e é lá que Samuel vai morar enquanto procura por gente de sua família.
Como é forasteiro, logo faz amizade com o adolescente Francisco que conhece todos na cidade e com  planeja golpes engraçados e fracassados  para sobreviver e, muito ao modo de João Grilo e Chicó de "O auto da compadecida", de Ariano Suassuna, pensam que "iam fazer estrago em Candeia. Riam das desgraças, suas e dos outros. Desgraça é tudo coisa de se rir"  (p.51)
Realmente o romance me arrancou gostosas gargalhadas, em momentos cômicos tão brasileiros  como quando um pai dá o nome de Madeinusa à sua filha,  pois era tão bonita quanto o rádio que comprara "Made in usa" e seu nome veio do estrangeiro, ele só fez "juntar as letras" ( p. 53) 

 Esse santo sem cabeça e a cabeça oca ficaram representado uma maldição para a cidade e qual não foi a surpresa do descrente Samuel, cuja lei era que "santos são pedras e só pedras" (p.48), começou escutar "a rezalhada das mulheres pedindo ao santo para casa e, falando de homem" p.38, e isso foi se tornando imenso, e "aos poucos aquela cabeça já se tornara um apêndice anômalo do seu corpo, um útero, um gigantesco saco gestacional ligado a ele por aquela absurda capacidade de ouvir orações e música" p.69. Coube ao rapaz tentar aprender a lidar com tais fenômenos.

Mas você pode perguntar onde está o Gabo? Em todo o romance, a ideia, o desenvolvimento, as narrativas cheias de sonho, maldições  e premunições, no entanto não tenho como não dizer que se trata de um romance nordestino, do começo ao fim. É como se Gabo fosse escrever em Juazeiro sobre a realidade local, uma delicia de livro!

(Nesse a partir deste parágrafo , pode haver spoiler) Ouvir e escutar são os verbos centrais do livro: ouve-se rezas, falas, cantigas, até de países africanos (na cabeça do santo Samuel ouve uma moça que canta mornas cabo-verdianas), afinal, palavras são cantigas, como já diria o Rosa. Como  trilha sonora de leitura, escolhi essa canção, do coração do Brasil, cujo significado é até "explicado" por uma personagem ao Samuel :

"-Esse negócio de força estranha. Você sabe o que é? (...)
- Saber eu sei, só não sei explicar. 
- Adiantou nada.
-Assim, eu acho que a gente sabe quando vem, a força estranha chefa e pá!, a gente sente. Quando ela toma conta, a gente faz  o que quer fazer por cima de pau e pedra, não tem cão que segure. Acho que vem de Deus."(p.160)

Enfim, trata-se de um romance fantástico propriamente dito, contando a história de um o herói (às vezes anti-herói), de  que é de origem humilde, sofre muito com a solidão e privações ou que passa por grandes privações, em determinados momentos, consegue triunfar na comunidade onde vive, lembrando sempre que, não importa quanto ele brigue com essa verdade, mas sempre "o santo estava ouvindo" (p.14)

Adorei mesmo essa passagem divertida pelo delicioso mundo do na narrativa maravilhosa, nesses tempos de quarentena e pandemia, não tem coisa melhor!
Obrigada Gabo, obrigada Acioli

P.S. Quer ver como as coisas incríveis acontecem MESMO na realidade? No nordeste existe mesmo o santo decapitado, na cidade de Caridade 

Cabeça do Santo real, de Caridade https://www.youtube.com/watch?v=XHxl2pfj_ys




sábado, 15 de maio de 2021

"O amor nos tempos do cólera" : Uma trolagem literária?


Eu e minha linda edição azul


 Como já falei , O amor nos tempos do cólera, do Gabo, é um dos meus livros preferido, e é mesmo, Não só porque a edição azul que eu tenho acho DESLUMBRANTE, mas especialmente porque Gabo escreve ali do jeito que eu gosto, maravilhoso, debochado e sobretudo extremamente romântico. Quero dizer que é um livro que faz parte do meu cotidiano, é como um livro de cabeceira, mas como minhas releituras são sempre em fragmentos, com o tempo acho que eu perdi um pouco a noção do todo, o que me soa meio estranho, mas é sempre uma experiência.

Nesse meu breve momento de "retorno ao Gabo", assisti alguns vídeos comentando os livros que eu li e em um deles foi no canal literário favorito, o da Tatiana Feltrin



Tatiana apresenta uma leitura muito legal : Para ela esse livro é uma grande trolagem da ideia comum de cólera e de amor, desde o título, até o conteúdo: Não é um livro que trata propriamente do cólera, ou da cólera, ainda que estes elementos estejam na trama, e sejam centrais. Assim como o amor, que está presente, mas de uma maneira diferente, talvez oposta, ao que se pode pensar inicialmente, ela diz que ele aparece para "disfarçar atrocidades" e a gente aceita, mesmo que se pareça mais com uma obsessão, como neste trecho:

"Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único instante desde que Firmina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então 51 anos, 9 meses e 4 dias. Não tivera que manter a conta d esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes do calabouço, porque não se havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela" P. 71

Ou, ao invés de amor, pode ser uma doença, talvez propriamente cólera, etc... Mas como lembra Alexandre Martins na orelha da minha edição, o livro é sobretudo um "tratado do amor", em todas as suas complexidades que, aqui, é apresentado na história dos septuagenários. Mas como é literatura, está lado a lado à história da grande epidemia do cólera na Colômbia. Tem gente que não gosta mas, desculpe, eu acho o livro FANTÁSTICO. Especialmente porque o texto é belíssimo, o mais bonito do Gabo que eu conheci, mesmo que os elementos mais próprios ao "amor romântico" (cartas de amor, juras, promessas....) sejam sempre descritos junto a algo que os contradiz: em meio ao surto da cólera, à guerra, à traições e abusos...).

Adoro sempre voltar ao Gabo e a esse livro!

quarta-feira, 12 de maio de 2021

"Do amor e outros demônios"(1994), de Gabo: Uma história fantástica da América colonial dos setecentos

Detalhe da capa do meu livro, edição Record 1996

Enfim terminei de ler o livro do Gabo, que como pôde, me ajudou a enfrentar abril, o mês mais desafiador do ano para mim atá agora. Como comentei aqui, reli esse romance muitos anos depois e foi uma grande descoberta. Fiquei até com vontade de escrever um artigo sobre História da América Colonial a partir dele, mas aqui quero fazer um comentário meio resenhista porque agora o livro, como um todo, está bem fresco na minha cabeça.

Quando terminei ontem a noite, como acontece com os bons livros, eu senti um vazio, já uma saudade daquele universo e escrevi umas palavras :

 


    O que acho mais fantástico na história da Sierva María de Todos Los Ángeles é que esta personagem  é tão incrível que eu receio que se Gabo fosse tivesse escrito este livro ,do jeito que escreveu, mas para o público leitor brasileiro do século XXI (todo cheio de ânsias para que tudo possa responder às suas questões no Brasil atual) , seria cancelado. Quem teria inteligência e paciência para entender uma personagem complexa como a marquesinha,    que é  "de branca só tinha a cor" e os longos cabelos cor de cobre, mas que tinha nome de negra "Maria Mandinga" ,"nunca se despojava de seus colares sagrados", falava e cantava em Congo, em Mandinga e em  Iorubá com as escravas negras do convento onde tinha sido "enterrada viva" numa cela que fora do Santo Ofício para ser exorcizada. Só imaginando os comentários : por que não uma marquesinha negra na Colômbia colonial? (eu falo isso porque sempre lembro que quase  "morri" quando vi gente questionar  na internet  o motivo de terem chamado a Lucélia Santos para ser a protagonista  na novela e não uma atriz negra para ser escrava. Será que ninguém leu nem o resumo do romance do Bernardo Guimarães para sacar que a questão era exatamente esta: Isaura era uma escrava branca!) 

        Mas voltando ao romance de Gabo, o que  eu achei mais bonito, uma bela imagem que guardei desde a primeira leitura, foi a das gaivotas de papel que o Marquês de Casalduero, pai de Sierva, recebia de sua primeira paixão, Dulce Olivia, internada no asilo das loucas.

Mas outros momentos  também me interessaram, envolvendo personagens muito interessantes que, só por existirem ao redor de Sieva, serviam para destacar mais a sua presença no livro, porque seus pais, Ygnácio e Bernarda, a desprezaram toda a vida, alguém tinha que acolher a menina. A primeira a fazer isso, com a força e devoção de uma mãe, foi a escrava Dominga de Adviento, que governou a casa do marquês e teve a ideia de criar a menina no pátio dos escravos, onde ela aprendeu tudo daquela cultura, inclusive técnicas de não se fazer ser notada (como uma fantasma), ou a regra de sempre mentir para os brancos, mas nunca entre eles...coisas que levavam todos a pensar que algo de estranho havia com ela, o que no século XVIII quando o demônio, imposto pela religião católica,  era presente no cotidiano das pessoas, espanta ter demorado doze longos anos para que se falasse de possessão demoníaca, pois na época, a tudo se atribuía esse motivo...inclusive ela fora mordida por um cachorro que, segundo o que diziam, estaria com raiva! Uma personagem ilustrada do romance, em pleno século XVIII,  esclarece que: 

"desde a origem da humanidade, sobre seus estragos impunes e a incapacidade milenar da ciência médica para impedi-los, há exemplos lamentáveis de como fora confundida com a posessão demoníaca, assim como certas formas de loucura e outras perturbações do espírito".p 172. 

Seu fim era inevitável.

uma capa de edição em espanhol, destancando a cabeleira ruiva e o cachorro raivento


Às vésperas do exorcismo de Sierva María muita gente até estava esta empenhada em impedir que isso aconteça,  mas acho incrível entrar nas perturbações daquele jovem padre ilustrado, Cayetano Delaura, de então 36 anos,  que foi designado para exorcizar uma garota de doze anos (normal para a época) , mas que em dado momento  do romance,  se arde de amor pela menina que outros julgam  estar "possuída pelo demônio", mas não ele, que leu tudo disponível sobre casos de possessão e entedia que muito das peculiaridades de Sierva devia-se ao fato da sua imersão na cultura negra. Para ele, padre, tudo era um grande sacrificio, vejamos um  trecho:

 "Cayetano Delaura tentou a purificação anterior ao exorcismo e fechou-se a bolo de aipim e água na biblioteca. Não conseguiu. Passou noites de delírio e dias de vigília escrevendo versos descomedidos que eram o seu único sedativo para as ânsias do corpo.Alguns desses poemas foram achados num maço indecifrável quando a biblioteca foi desmantelada perto de um século depois." P. 148.

Cayetano, o padre bibliotecário do convento,  não era o único que compreendia como Sierva era mais uma vítima de tanta ignorância, outro era o  médico ateu  Abrenuncio, que mantinha uma biblioteca particular imensa, contendo inclusive livros proibidos pelo Santo Ofício, e que menteve com Cayetano uma longa conversa, umas  das  mais ricas do romance,na qual temos traçado um desenho incrível do complexo imaginário colonial, só que ambos sabiam que nenhum deles poderia fazer muita coisa para livrar Sierva da fúria do Santo Oficio, infelizmente.

Mas Caeytano foi designado pelo bispo do convento Santa Clara, para ser  o exorcista de Sierva, que então tinha 12 anos, mas eles acabaram se apaixonando  e vivendo com ela um breve amor real e verdadeiro, sobre o qual não vou comentar muito porque gostaria que lessem o livro.

 Havia também uma outra mulher importante na  história de Sierva, a Martina Laborde, que também era prisioneira no convento e que estabeleceu com a menina uma boa relação de cumplicidade, daquelas que só se descobre nas adversidades, muito bonita de se ver e que nunca, nem em sonho, Sierva estabeleceu com sua própria mãe, que a odiava!

Como acabei de escrever, eu não queria dar spoiler  falando  muito do amor real entre Sierva e Cayetano, então vou dizer em medo de falar muito que  o  fim do livro  não é bom, nem poderia ser (com inquisição, Diabo e cachorro raivoso no meio), e também o  livro já começa com a história (real ou imaginada) de quando, tempos depois em 1949, o jornalista Gabo teria sido designado para cobrir a abertura de uns túmulos em um convento colonial que seria demolido para se tornar um hotel 5 estrelas e ai que ele assiste a descoberta do cadáver de uma menina, adolescente chamada Sierva María de Todos Los Ángeles , de cujo crânio saltava uma cabeleira esplendida, medindo 22 metros e 11 centímetros. Isso o teria levado a lembrar das histórias que lhe contavam sobre a marquesinha de cabelos imensos que fazia até alguns milagres... e anos depois, surge esse romance.  Essas histórias lindas, o realismo fantástico em um de seus melhores representantes, pulsa nesse livro.

Para terminar, sem muitos detalhes, gostaria de transcrever um trecho bem interessante, sobre o  amor entre Sierva e Cayertano ( eu sei que acabei que declarar que não ia falar disso, mas só um trecho, para mostrar como ele foi verdadeiro, mas também muito sofrido, ao ponto do padre, em um momento de grande agonia,  chegar a dizer ao bispo que seu mal era o "demônio, o mais terrível de todos"P. 177) .  Leiam esse livro, saibam melhor sobre essa história de amor demoníaca :

"Então Cayetano Delaura a beijou nos lábios pela primeira vez. O corpo de Sierva María estremeceu com um gemido, e ela soltou uma tênue brisa marinha e se abandonou à própria sorte. Ele passou por sua pele as gemas dos dedos, tocando-a muito de leve, e viveu pela primeira vez o prodígio de se sentir em outro corpo. Uma voz interior o fez ver quão longe tinha estado do diabo em suas insônias de latim e grego, nos êxtases da fé, nos ermos da pureza, enquanto Sirva María convivia com todas as potências do amor livre na senzala dos escravos. Deixou-se guiar por ela, tateando no escuro, mas se arrependeu no último instante e desmoronou num cataclismo moral.Ficou deitado de costas, com os olhos fechados. Sierva María se assustou com seu silêncio e sua quietude de morte, e o tocou com um dedo.

-O que houve? - perguntou.

-Deixe-me agora - murmurou ele- estou rezando." P.191-2

 

eu, agarrada no meu livrinho

Acho que é isso,  até o próximo livro ! Acho que , em breve, volto ao fantástico mundo do Gabo, veremos!  

Um último comentário:

Sierva Maria

Essa é mais uma representação de Sierva Maria de Todos Los Angeles em alguma capa. Mas dessa eu não gostei muito. A menina tem mesmo uma cabeleira enorme, mas é muito escura (no livro Gabo fala de cor de cobre ou quase loiro) , ela usa tranças, mas não assim, são tranças afro (não esqueçamos que "de branca ela só tinha a cor)... é. Que é tão difícil representar tranças afro, né?


Detalhes :)

RECEPÇÃO 

POR ESSA EU NÃO ESPERAVA - Tinha comentado sobre possíveis comentários do século XXI  sobre Sierva Maria de  Todos  Los Angeles ser uma marquesinha que se branca só tinha a pele, né? 

Pois vendo um pouco da recepção do livro no YouTube e esse "detalhe" não foi mencionado, já o fato dela ter doze anos e seu amor ser um homem adulto e isso não é passado com crítica pelo Gabo sempre aparece e por essa eu não esperava.

Bom, para mim isso não foi problema tão grande assim, principalmente por dois pontos que se entrelaçam no romance  : 1 Gabo se propôs a escrever de um romance histórico mais clássico, ambientado no século XVIII e por isso o que vale são os modos de época e dai temos o ponto 2 : naquele longínquo período colonial  essa diferença de idade não era um escândalo,  a ideia de infância era mesmo outra (sim, existe uma história da infância) não tanto quanto a presença ou ausência do demônio na vida das pessoas. 

Ou seja, discutir isso é colocar uma perspectiva válida para nossa época  como mediadora de uma história do século XVIII, Sei lá, não gosto muito!

 Na faculdade de História a gente aprende que o passado é como um país estranheiro, nele as pessoas fazem coisas de um jeito diferente do que nós fazemos: