Mostrando postagens com marcador Sorôco sua mãe sua filha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sorôco sua mãe sua filha. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de julho de 2017

É uma história de Orpheu? De Sorôco? Não : é do Tim Maia!

Ilustração de Luís Jardim para a estória "Sorôco, sua mãe e sua filha", de Guimarães Rosa (1962)

Estou me aproximando do fim da biografia do Tim Maia, um grande cancionista brasileiro, mas já posso dizer que de toda ela a anedota mais bonita é essa aqui, que fala do poder aglutinador da canção, que remete ao mito de Orpheu cujo som da lira aglutiva toda a natureza, ou a chirimia  da estória de Guimarães Rosa, que era 

"a cantiga que avocava* que  era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois" (Primeiras Estórias, 1962, p. 15).
*avocar = atrair, chamar a atenção.

Aqui vai a narrativa sobre Tim:


“Tim estava popularíssimo, e foi o amor do público que o salvou quando , mais uma vez, foi detido em seu carro com substâncias tóxicas ilegais. Foi levado para o 13º. DP , no final da avenida Nossa  Senhora de Copacabana, em frente à galeria Alaska, um tradicional ponto gay carioca, com grande movimento por volta de uma da madrugada.

Ao subir as escadas da delegacia, empurrado por dois canas, Tim viu que tinha muita gente na calçada em frente e que já o haviam visto. Parou e soltou a voz:

Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar, dizer que aprendi
E na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri

O povo começou a cantar junto, a bater palmas e gritar seu nome. Os tiras tentavam empurrar 128 quilos escada acima, mas ele não se movia nem parava de cantar. Mais gente chegava, as putas e os travestis gritavam, todos cantavam, a voz querida e poderosa de Tim Maia enchia a noite de Copacabana.

Diante da avassaladora solidariedade popular, da barulheira infernal e do adiantado da hora, o delegado reagiu com bom senso e bom humor:
“Libera o elemento”. 
(Nelson Motta. “Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia”, p.217-8) 


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Aquela cantiga


Esse fim de semana me perguntaram de novo "Mas por que você gosta tanto de 'Sorôco, sua mãe, sua filha'? ", e "sete e setenta" vezes eu não pude explicar o que esse texto provoca em mim ...ai optei por deixar o próprio Rosa responder: é que "a gente, com ele (Sorôco), ia até aonde ia aquela cantiga"...
E que cantiga é aquela:
" ...Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçôo (sic) do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes,pelo depois.Sorôco. "

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Filme Outras Estórias (1999)


(Direção e roteiro: Pedro Bial/Elenco: Paulo José, Giulia Gam, Marieta Severo, Anna Cotrim, Walderez de Barros, Cacá Carvalho, Antônio Calloni, Enrique Diaz, Sílvia Buarque, Juca de Oliveira, Rodolfo Vaz, Jonas Torres.Outras estórias é um filme brasileiro, do gênero drama, inspirado em contos de Guimarães Rosa, dirigido por Pedro Bial.)
Olha só o que já está disponível no Youtube... usei muito a parte do Sorôco (tem cerca de 15 minutos e começa em 1:29:31) com as crianças na Escola Lumiar e também quando dei aulas de sociologia no Ensino Médio em 2008 ... porque eu nem gosto dessa história, nem deu para reparar rsrsrs

domingo, 26 de julho de 2015

Sepultamento do homem da minha vida e Guimarães Rosa

Nesse dia ensolarado de 26 de julho de 2015 deu-se o velório e o sepultamento do meu pai no arvorejado cemitério do Jaraguá. Claro que foi difícil, tive várias crises de choro (especialmente quando chegamos no velório no frio das 4 da matina e não tinha ninguém) e também perder o pai não é qualquer coisa. Mas, por outro lado, não posso deixar de dizer que foi tudo muito bonito! Primeiro que ele estava lindo, sereno, em paz, do jeito que eu queria voltar a vê-lo (diferente daquele rosto com aquela máscara de oxigênio do hospital e todos aqueles tubos), com muitas coroas de flores das filhas e netas e do genro e nora e de amigos carinhosos... e ai por volta do meio dia, houve um "caso sem comparação... de não se sair mais da memória": quanta gente veio dar o último adeus ao seu Hermelindo ! Não tenho certeza, mas devia ter cerca de 100 pessoas naquele velório! Parentes, vizinhos de toda a redondeza dos 40 anos que moramos nesta casa, amigos de 76 anos de uma vida muito bem vivida desse senhorzinho sensacional! Revi e abracei pessoas que tinha visto há muitos anos, revi amigos meus, da minha mãe, da infância da minha irmã, parentes dos mais diferentes quilates subiram o morro para o sepultamento, numa espécie de procissão de amor pelo "seu Hermelindo"... como ele mereceu essa homenagem póstuma!
Como confortou a gente esse amor todo, não tenho palavras para retribuir e, se eu soubesse como agradecer, eu o faria porque só eu sei como aquilo nos deu uma reavivada e nos fez ter vontade de seguir a vida.
Viva seu Hermelindo, o homem da minha vida! 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Cantando a nossa história, por Ivan Vilela

Já faz tempo que eu baixei a tese do Ivan Vilela,  mas ainda não tinha dado tempo de ler direito. Hoje, visitando a livraria da Brasiliana lá estava o livro, até com um CD da viola mágica de Vilela. Só de pensar eu choro : é a história dos meus pais, paulistas do interior, que ouviam "música caipira"logo cedo , bem baixinho, num radinho de pilha, toda a vida. Na minha memória sonora, aquilo não ficou registrado, propriamente, como música, era um som distante, distante, como a canção da estória de Sorôco:
 "uma chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois."
Muita emoção.

sábado, 13 de abril de 2013

A estória de Sorôco põe o dedo na ferida novamente...

 
 
Que livro lindo! Comprei ontem e ele já foi todo molhado de lágrimas de emoção.  Vamos ler um belo trecho:
“Quando o homem fala, tenta dar um sentido, um significado, ao que estava em estado instintivo no som. O verbo quer classificar, selecionar, ordenar os sons gerados pela tensão visceral do corpo. Mas aquele signo, aquela canção, quer permanecer proto, latente. Mais do que mediar, o que é proferido pelas personagens é exibido, exposto.

O canto não é reproduzido (porque não reproduzível) pelo escritor, é pura potencialidade: - “era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum. É o terreno do ‘poder ser’, do ‘vir a ser’ – ‘podiam doer’- sem qualquer lei - ‘sem jurisprudência’ (...)
O canto em “Sorôco...” é gerundinal. Ele espraia-se. (...) Quando as duas partem, Sorôco, solitário, ‘ afora essas não se conhecia o parente  dele nenhum, separa-se da ascendência – a mãe – e da descendência – a filha- (...)  O mundo inteiro era aquele canto, aquela dor. Sorôco sai do tempo, sem mãe e sem filha, sem passado e sem futuro. Presente absoluto que é a própria eternidade.  Sorôco é um só oco, como sugere a etimologia de seu nome. A libertação temporal é também espacial: ‘ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras...’”
Gabriela Reinaldo. “Uma cantiga de se fechar os olhos...”, p. 217.
 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A estória do Sorôco no Facebook


Hoje de manhã entrei no Facebook e recebi logo meu bom dia:

Assim não tem como o dia não ser bom, não é?

terça-feira, 1 de maio de 2012


Eu sempre fui uma aluna tipo"copista". Não me arrependo disso, ainda mais quando encontro um caderno do curso de História da Cultura que assisti em 2002 (dez anos atrás!) com o Sevcenko.
Ali eu fiquei sabendo de trabalhos sobre etnomusicologia, que estavam tentando resgatar sons da Roma Antiga, como neste:
http://www.youtube-nocookie.com/v/f0IpxYUi2Dk?version=3&hl=pt_BR"> name="allowFullScreen" value="true"> http://www.youtube-nocookie.com/v/f0IpxYUi2Dk?version=3&hl=pt_BR" type="application/x-shockwave-flash" width="420" height="315" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true">
Também naquele curso, cujo tema era  Cultura popular/oral (muito Havelock) Nicolau  dizia coisas como:
"A CRIANÇA SE COMUNICA, ANTES DE TUDO, PELA VOZ DA MÃE (VOZ FEMININA), dai vem a idéia de que, no imaginário popular oral, é a mulher e sua voz a figura  responsável por guardar os elementos que vão alimentar a memória coletiva, pois é o SOM da sua voz que funciona como elemento de contágio e desencadeia o que chamamos de  COMOÇÃO (SOM+EMOÇÃO) COLETIVA. Um exemplo disso está na estória 'Sorôco sua mãe sua filha', onde a voz da mãe e da filha que entoam aquela canção que "a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras" e que conseguiu COMOVER A COMUNIDADE QUE ANTES O REJEITAVA: "A gente se esfriou, se afundou - um instantâneo.
A gente... E foi sem combinação em ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Soroco,. principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão.
E com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Soroco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar."
(Guimarães Rosa)
Como percebem, ali os bichinhos da cultura oral em Guimarães Rosa  devem ter me mordido e até agora, no doc, estou imersa nele!

sábado, 18 de junho de 2011

Como Sorôco, sua mãe, sua filha, Guimarães Rosa ensinou-me que um poeta precisa garimpar as letras

Meu orientador me "recomendou" este texto. Ele não sabia, mas o texto tem mais relação direta comigo do que podia pensar... eu também conheci Rosa nessa fase, entre os 11 ou 12 anos e não me lembro direito qual foi o conto que li primeiro (se foi a terceira margem do rio, ou a estória do Soroco... e deu no que deu. Eis o texto:


Primeiras estórias
Postado Por Guilherme Mansur Em 3 de junho de 2011 (11:37) Na Categoria Carta Fundamental
Como Sorôco, sua mãe, sua filha, Guimarães Rosa ensinou-me que um poeta precisa garimpar as letras

Sôroco, sua mãe, sua filha é um dos contos clássicos de Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa. Foto: FolhapressTudo começou por acaso, quando peguei na estante o livro Pequenas Estórias, de um certo João Guimarães Rosa. Naquele tempo, ali pelos 11 anos de idade, eu não passava de um voraz leitor de histórias em quadrinhos. O meu quarto era povoado pelo Recruta Zero e os Sobrinhos do Capitão. Não lia Monteiro Lobato. Por outro lado, sabia de cor as façanhas do Zorro. A turma de Walt Disney também não escapava aos meus olhos famintos por quadrinhos.
Abri o livro Pequenas Estórias. O nome do conto escolhido era Sorôco, sua mãe, sua filha. Comecei a ler com muito estranhamento. Não imaginava que alguém pudesse escrever frases como “as muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar”. Ou “a hora era de muito sol – o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro”. O texto foi me conquistando por ser algo diferente de tudo o que eu havia lido até ali. Uma linguagem que soava como um toque contínuo de sinos.
O conto Sorôco, sua mãe, sua filha é a curta história de um homem da roça que leva, de braços dados, uma de cada lado, sua mãe e sua filha até o vagão de trem na estação, para uma viagem sem volta a um hospício. Assim que o trem parte, Sorôco volta sozinho para casa, a cantar a mesma canção sem sentido que sua mãe e sua filha cantavam ao partir. De repente, todo o povoado que acompanhava o sofrimento do homem desde o princípio, passa a cantar a mesma canção: “…todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquêle canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos caminhando com êle, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação… A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dêle, de verdade. A gente, com êle, ia até aonde que ia aquela cantiga”.
E foi assim. Embalado pela “cantiga” de vanguarda do escritor-inventa-línguas Guimarães Rosa, que fui garimpando letras, pois um poeta é como um garimpeiro: vive de procurar aquilo que não perdeu.