Mostrando postagens com marcador Revista Carta Capital. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revista Carta Capital. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de junho de 2011

Como Sorôco, sua mãe, sua filha, Guimarães Rosa ensinou-me que um poeta precisa garimpar as letras

Meu orientador me "recomendou" este texto. Ele não sabia, mas o texto tem mais relação direta comigo do que podia pensar... eu também conheci Rosa nessa fase, entre os 11 ou 12 anos e não me lembro direito qual foi o conto que li primeiro (se foi a terceira margem do rio, ou a estória do Soroco... e deu no que deu. Eis o texto:


Primeiras estórias
Postado Por Guilherme Mansur Em 3 de junho de 2011 (11:37) Na Categoria Carta Fundamental
Como Sorôco, sua mãe, sua filha, Guimarães Rosa ensinou-me que um poeta precisa garimpar as letras

Sôroco, sua mãe, sua filha é um dos contos clássicos de Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa. Foto: FolhapressTudo começou por acaso, quando peguei na estante o livro Pequenas Estórias, de um certo João Guimarães Rosa. Naquele tempo, ali pelos 11 anos de idade, eu não passava de um voraz leitor de histórias em quadrinhos. O meu quarto era povoado pelo Recruta Zero e os Sobrinhos do Capitão. Não lia Monteiro Lobato. Por outro lado, sabia de cor as façanhas do Zorro. A turma de Walt Disney também não escapava aos meus olhos famintos por quadrinhos.
Abri o livro Pequenas Estórias. O nome do conto escolhido era Sorôco, sua mãe, sua filha. Comecei a ler com muito estranhamento. Não imaginava que alguém pudesse escrever frases como “as muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar”. Ou “a hora era de muito sol – o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro”. O texto foi me conquistando por ser algo diferente de tudo o que eu havia lido até ali. Uma linguagem que soava como um toque contínuo de sinos.
O conto Sorôco, sua mãe, sua filha é a curta história de um homem da roça que leva, de braços dados, uma de cada lado, sua mãe e sua filha até o vagão de trem na estação, para uma viagem sem volta a um hospício. Assim que o trem parte, Sorôco volta sozinho para casa, a cantar a mesma canção sem sentido que sua mãe e sua filha cantavam ao partir. De repente, todo o povoado que acompanhava o sofrimento do homem desde o princípio, passa a cantar a mesma canção: “…todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquêle canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos caminhando com êle, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação… A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dêle, de verdade. A gente, com êle, ia até aonde que ia aquela cantiga”.
E foi assim. Embalado pela “cantiga” de vanguarda do escritor-inventa-línguas Guimarães Rosa, que fui garimpando letras, pois um poeta é como um garimpeiro: vive de procurar aquilo que não perdeu.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A MORTE DE OSAMA BIN LADEN


Escreveu aqui Noam Chomsky sobre o assassinato de Osama Bin Laden:

Chomsky: “Minha reação diante da morte de Osama”

Chomsky: "Minha reação diante da morte de Osama"

Poderiamos perguntar a nós mesmo como reagiríamos se um comando iraquiano pousasse de surpresa na mansão de George W. Bush, o assassinasse e, em seguida, atirasse seu corpo no Oceano Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um "suspeito", mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que "tomou as decisões", quem deu as ordens de cometer o "supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto".

Noam Chomsky - Guernica Magazine

Fica cada vez mais evidente que a operação foi um assassinato planejado, violando de múltiplas maneiras normas elementares de direito internacional. Aparentemente não fizeram nenhuma tentativa de aprisionar a vítima desarmada, o que presumivelmente 80 soldados poderiam ter feito sem trabalho, já que virtualmente não enfrentaram nenhuma oposição, exceto, como afirmara, a da esposa de Osama bin Laden, que se atirou contra eles.

Em sociedades que professam um certo respeito pela lei, os suspeitos são detidos e passam por um processo justo. Sublinho a palavra "suspeitos". Em abril de 2002, o chefe do FBI, Robert Mueller, informou à mídia que, depois da investigação mais intensiva da história, o FBI só podia dizer que "acreditava" que a conspiração foi tramada no Afeganistão, embora tenha sido implementada nos Emirados Árabes Unidos e na Alemanha.

O que apenas acreditavam em abril de 2002, obviamente sabiam 8 meses antes, quando Washington desdenhou ofertas tentadoras dos talibãs (não sabemos a que ponto eram sérias, pois foram descartadas instantâneamente) de extraditar a Bin Laden se lhes mostrassem alguma prova, que, como logo soubemos, Washington não tinha. Portanto, Obama simplesmente mentiu quando disse na sua declaração da Casa Branca, que "rapidamente soubemos que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram realizados pela al-Qaeda".

Desde então não revelaram mais nada sério. Falaram muito da "confissão" de Bin Laden, mas isso soa mais como se eu confessasse que venci a Maratona de Boston. Bin Laden alardeou um feito que considerava uma grande vitória.

Também há muita discussão sobre a cólera de Washington contra o Paquistão, por este não ter entregue Bin Laden, embora seguramente elementos das forças militares e de segurança estavam informados de sua presença em Abbottabad. Fala-se menos da cólera do Paquistão por ter tido seu território invadido pelos Estados Unidos para realizarem um assassinato político.

O fervor antiestadunidense já é muito forte no Paquistão, e esse evento certamente o exarcebaria. A decisão de lançar o corpo ao mar já provoca, previsivelmente, cólera e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.

Poderiamos perguntar como reagiriamos se uns comandos iraquianos aterrizassem na mansão de George W. Bush, o assassinassem e lançassem seu corpo no Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um "suspeito", mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que "tomou as decisões", quem deu as ordens de cometer o "supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto" (citando o Tribunal de Nuremberg), pelo qual foram enforcados os criminosos nazistas: os centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, destruição de grande parte do país, o encarniçado conflito sectário que agora se propagou pelo resto da região.

Há também mais coisas a dizer sobre Bosch (Orlando Bosch, o terrorista que explodiu um avião cubano), que acaba de morrer pacificamente na Flórida, e sobre a "doutrina Bush", de que as sociedades que recebem e protegem terroristas são tão culpadas como os próprios terroristas, e que é preciso tratá-las da mesma maneira. Parece que ninguém se deu conta de que Bush estava, ao pronunciar aquilo, conclamando a invadirem, destruirem os Estados Unidos e assassinarem seu presidente criminoso.

O mesmo passa com o nome: Operação Gerônimo. A mentalidade imperial está tão arraigada, em toda a sociedade ocidental, que parece que ninguém percebe que estão glorificando Bin Laden, ao identificá-lo com a valorosa resistência frente aos invasores genocidas.

É como batizar nossas armas assassinas com os nomes das vítimas de nossos crimes: Apache, Tomahawk (nomes de tribos indígenas dos Estados Unidos). Seria algo parecido à Luftwaffe dar nomes a seus caças como "Judeu", ou "Cigano".

Há muito mais a dizer, mas os fatos mais óbvios e elementares, inclusive, deveriam nos dar mais o que pensar.

(*) Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofía del MIT. É autor de numerosas obras políticas. Seus últimos livros são uma nova edição de "Power and Terror", "The Essential Chomsky" (editado por Anthony Arnove), uma coletânea de seus trabalhos sobre política e linguagem, desde os anos 1950 até hoje, "Gaza in Crisis", com Ilan Pappé, e "Hopes and Prospects", também disponível em áudio.