Mostrando postagens com marcador Mitologia dos Orixás. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mitologia dos Orixás. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Obaluaê tem feridas transformadas em pipocas por Iansã, por Reginaldo Prandi

Ilustração de Pedro Rafael 



Chegando de viagem à aldeia onde nascera,
Obaluaê viu que estava acontecendo
uma festa com a presença de todos os orixás.
Obaluaê não podia entrar na festa,
devido à sua medonha aparência.
Então ficou espreitando pelas frestas do terreiro.
Ogum, ao perceber a angustia do orixá,
cobriu-o com uma roupa de palha que ocultava sua cabeça
e convidou-o a entrar e aproveitar a alegria dos festejos.
Apesar de  envergonhado,Obaluaê entrou,
mas ninguém se aproximava dele.
Iansã tudo acompanhava com rabo do olho.
Ela compreendia a triste situação de Omulu
e dele se compadecia.

Iansã esperou que ele estivesse bem no centro do barracão.
O xirê[1]  estava animado.
Os orixás dançavam alegremente com suas equedes[2].
Iansã chegou então bem perto dele
e soprou suas roupas de mariô[3],
levantando as palhas que cobriam sua pestilência.
Nesse momento de encanto  e ventania,
as feridas de Obaluaê pularam para o alto,
transformadas numa chuva de pipocas,
que se espalharam brancas pelo barracão.
Obaluaê e Iansã Igbalé tornaram-se grandes amigos
e reinaram juntos sobre o mundo dos espíritos,
partilhando o poder único de abrir e interromper
as demandas dos mortos sobre os homens.
(Reginaldo Prandi. Miltologia dos Orixás, p. 206-7)



[1] Xirê:  brincar no candomblé, ritual em que os filhos e filhas-de-santo cantam e dançam numa roda para todos os orixás.
[2] Equede: literalmente, segunda (pessoa); na África, cargo sacerdotal do rei, que só estava abaixo do orixá daquela cidade, de quem se acreditava que o rei descendia diretamente; no Brasil,  iniciada no candomblé para cuidar dos orixás, vesti-los e dançar com eles.
[3] Mariô : folha nova da palmeira de dendê.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Sobre Oxum , por Van Sena Omoloji



Oxum "Òsun òyéyéni mò" (Oxum é cheia de compreensão).

Oxum, cortadora de cabeças

Oxum assumiu na diáspora o papel da mãezinha cuidadora pela necessidade dos pretos órfãos buscarem em seu colo o acolhimento necessário para sobreviver às violências da escravidão. ⠀⠀
⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
Sim, ela cuidava das suas subjetividades, das suas emoções enxugava as suas lágrimas. Oxum, entretanto, não é apenas sensibilidade e delicadeza. Quando ela traz a espada, a guerra se enche d’água que afoga. ⠀⠀
⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
Não existe homem capaz de vencer a sua lâmina afiada. Estrategista, ela vê o inimigo com olhar da paixão. O encanta. Seu feitiço entra pelos olhos. O que ela deseja, no entanto, é saber seu ponto vital. ⠀⠀
⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
Oxum não derruba para desequilibrar apenas. Em guerra, Oxum é a potência feminina que dar a rasteira e o homem caído jamais conseguirá se levantar. ⠀⠀
⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
A Oxum acolhedora traz o rio na espada. Defende seus filhos como leoa faminta. Ela não mais perguntará, pois já fez todas as perguntas antes e as corujas de olhos grandes lhe trouxeram as respostas. A verdade é o seu julgamento. ⠀⠀
⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
Quando toma seu inimigo não tem pena. A força da guerreira sai do fundo do seu útero. Ela elimina uma comunidade de aborós agressores de mulheres pela espada. ⠀⠀
⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
Montada em seu cavalo, afia sua lâmina em água corrente, brava e forte. Manda chuva, alaga a aldeia, os homens correm, e com espada em punhos, Oxum elimina um a um. Decepa suas cabeças, traz para os pés das iyabás e anuncia ao mundo o seu poder cuidador e mortal. ⠀⠀
⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
Assim, Oxum mostra que não existe uma dicotomia entre o ser sensível e o ser da guerra. Que o feminino não representa apenas sensibilidade e delicadeza, mas também é vigor, estratégia e luta. Oxum é a água doce que gera a vida e também é a água límpida que afoga e leva à morte.

Texto: Van Sena Omoloji - @nagoterapia ⠀

Imagem, Arte: Breno Loeser

sábado, 27 de abril de 2019

O amor de Oxum e Oxóssi

Oxum e Oxóssi

Mônica Rosa está  se sentindo encantada.
"LINDO POEMA SOBRE O AMOR DE
OXÚM e OXÓSSI "💛💚💙
O REINO DOS RIOS E DO MATO 🌻🍃
Ele é príncipe do mato, rei formoso.
Ela rainha encantada, tesouro precioso.
Ele é rei de Ketu, cheio de peles e caças.
Ela rainha do Ijexá, cheia de jóias caras.
Ele é caçador, muito esperto e inteligente.
Ela é feiticeira, mulher muito envolvente.
Ele é senhor da lua, um eterno sonhador.
Ela é senhora dos rios, a mãe de todo amor.
Ele ama o selvagem, tudo que é complicado.
Ela ama o delicado, tudo que é refinado.
Ele adora a liberdade e voa livre no ar.
Ela ama seus filhos e adora na casa mandar.
Ele é difícil de conter, vive para o mundo.
Ela é difícil de agradar, sentimentos profundos.
Ele quando se irrita sai de casa.
Ela quando se irrita chora de raiva.
Ele quando feliz ama muito mais.
Ela quando feliz se entrega demais.
Ele quando partido sofre por dentro.
Ela quando ferida deságua em tormento.
Ele quando em dúvida se põe a pensar.
Ela quando em dúvida se põe a chorar.
Ele e ela são bem diferentes.
Mas o amor é mais forte quando olham pra gente.
Cada um, cada qual, no seu reino encantado.
Ela rainha nos rios, e ele o rei do mato.
Lindo, né? Esse poeminha foi iluminado por mamãe Oxum e pai Oxóssi. Quando ela fala comigo surgem coisas tão delicadas, mas muito certeiras quanto ao relacionamento de pessoas desses Orixás. Como os pais vivem em reinos e mundos diferentes, mas com amor são capazes de vencer qualquer obstáculo.
Yêyê Oxúm! 💛
Okê Aro! 💚💙
Credito: Magia do axé.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Um mito da princesa Oxum

Princesa Oxum, de branco para Oxalá!

Um mito dos orixás que, como tantos, se assemelha muito a histórias que a gente conhece desde criança. No caso tratamos da princesa Oxum, sua narrativa tem semelhanças grandes à da de Aurora, a Bela Adormecida, confiram:

Porque Oxalá usa o Ekodidé
Conta a lenda que Oxalá, numa de suas caminhadas pelo mundo, iria passar pela aldeia de Oxum, onde pretendia parar e descansar.
Exú, mensageiro dos orixás, correu para avisar Oxum que o grande orixá fun-fun estava a caminho de sua cidade. Era preciso organizar uma grande recepção, pois a visita era muito importante para todos. Ela, então, apressou-se com os preparativos da festa, ordenando a limpeza de todas as casas e lugares públicos da aldeia, bem como que os enfeites utilizados fossem da cor branca. Oxum cuidou pessoalmente da ornamentação e limpeza de seu palácio, pois tudo tinha que estar perfeito, à altura de Oxalá.
Com tantos afazeres importantes, em tão curto espaço de tempo, Oxun não se lembrou de convidar as Iya-mi para a grande festa.
As feiticeiras não perdoaram essa desfeita. Sentindo-se muito desprestigiadas, resolveram desmoralizar Oxum perante os convidados.
No dia da chegada de Oxalá à cidade, Oxorongá entrou disfarçada no palácio para colocar, no assento do trono da Oxum, um preparado mágico, que não fora notado por ninguém.
Toda a cidade estava impecavelmente limpa e ornamentada. O palácio de Oxum, que fora caprichosamente preparado, tinha seus móveis e utensílios cobertos por tecidos de uma alvura imaculada. Branca também seria a cor das roupas utilizadas na cerimônia.
Oxalá finalmente chegou, sendo respeitosamente reverenciado numa grande demonstração de fé e admiração ao grande mensageiro da paz.
Oxun, sentada em seu trono, esperava com impaciência a entrada de Oxalá em seu palácio, quando iria oferecer-lhe seu próprio assento. Mas, ao tentar levantar-se, percebeu que estava presa em sua cadeira e, por mais força que fizesse, não conseguia soltar-se. O esforço que empreendeu foi tão grande, que, mesmo ferida, conseguiu ficar em pé, mas uma poça de sangue havia manchado suas roupas e também sua cadeira.
Quando Oxalá viu aquele sangue vermelho no trono em que se sentaria, ficou tão contrariado, que saiu imediatamente do recinto, sentindo-se muito ofendido.
Oxum, envergonhada com o acontecido, não conseguia entender porque havia ficado presa em sua própria cadeira, uma vez que ela mesma tinha cuidado de todos os preparativos.
Escondendo-se de todos, foi consultar o oráculo de Ifá para obter um conselho. O jogo, então, lhe revelou que Oxorongá havia colocado feitiço em seu assento, por não ter sido convidada.
Exú, a pedido de Oxum, foi em busca do grande pai, para relatar-lhe o ocorrido.
Oxalá retornou ao palácio, onde a grande mãe das águas estava sentada de cabeça baixa, muito constrangida. Quando ela o viu, começou a abanar seu abebe, transformando o sangue de suas roupas em penas vermelhas, que, ao voar, caíram sobre a cabeça de todos os que ali estavam, inclusive a de Oxalá. Em reconhecimento ao esforço que ela empreendeu para homenageá-lo, ele aceitou aquela pena vermelha (ekodide), prostrando-se à sua frente, em sinal de agradecimento.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O tipo de pessoa que satisfaz Oxum ...

Mais uma narrativa MITOLÓGICA dos orixás : 

Xangô oferece  mil  riquezas  a Oxum
Tudo o que Xangô viu e quis ele sempre conseguiu.
Um dia, Xangô viu uma mulher muito bonita
e a desejou ardentemente.
Mesmo já sendo casado com Iansã,
começou a persegui-la.
Era Oxum, mulher de Ogum, um pobre caçador,
que pouco podia oferecer à sua mulher.
 Xangô era um negro belo, forte e rico.
E ele foi em seu encalço e lhe falou:
“Se ficares comigo, abro um tapete de ouro sob teus pés,
que é para nunca mais pisares no chão.
E todas as minha riquezas serão tuas”.
Logo que ouviu falar em ouro,
Oxum foi embora com Xangô.
Ele era rico, atrevido e charmoso.
É esse o tipo de pessoa que satisfaz Oxum.
E ambos são doidos um pelo outro,
E todas as mulheres que foram de Ogum foram tomadas por Xangô.”

Reginaldo Prandi. Mitologia dos Orixás, p. 270

sábado, 9 de dezembro de 2017

Uma lenda de Oxum : por que o amarelo?

Xangô e Oxum

Oxum fica pobre por amor a Xangô

Oxum era conhecida como amante ardorosa. Tinha um corpo belo, de formas finas. Sua cintura deixava-se abraçar por um único braço. Por muitas noites Oxum teve em seu leito amantes, aos quais proporcionava momentos de raro prazer.
Oxum teve muitos amores, de quem ganhou presentes preciosismos. Oxum era rica. Tinha joias, ouro, prata, vestidos maravilhosos, batas que causavam inveja, e mais, pentes de marfim, espelhos de madrepérola, e tantos berloques e panos-da-costa.
Um dia chegou à aldeia um jovem tocador de tambor. Era Xangô, um belo homem, que desde logo atraiu o desejo de Oxum. Inescrupulosamente, ofereceu-se a ele, mas foi prontamente rejeitada. Usando de todos os artifícios, Oxum foi se aproximando de Xangô, até que um dia ele a tomou numa calorosa relação sexual. Mesmo assim Xangô não deixou de humilhar e desdenhar a linda jovem.
Tempos depois,  a fama e a fortuna de Xangô lhe fugiram das mãos e ele se viu empobrecido e esquecido, ainda que continuasse a ser um excelente  alabê[1]. Envergonhado ele fugiu dali. Foi viver longe do lugar e longe do som dos atabaques. Mas continuava o glutão de sempre, a viver com conforto e prazeres.
Oxum seguiu sendo sua amante e o consolou, sacrificando por ele tudo o que tinha. De tudo se dispôs Oxum, para o conforto de Xangô. Primeiro as joias, depois  os vestidos, as batas, depois os pentes, os espelhos, de tudo foi se desfazendo Oxum. Restou-lhe nada mais que seu vestido branco.
De tudo de se desfez Oxum pelo amor de Xangô. Ficou pobre por amor a Xangô. Restou a Oxum apenas um vestido branco. Que era tudo o que tinha para vestir. Mas todo dia no rio lavava Oxum a veste branca. De tanto lavar a única peça que lhe restara, a roupa branca tornou-se amarela. Desde esse dia, Xangô amou Oxum.
Reginaldo Prandi. Mitologia dos Orixás, p. 335-6
  




[1] Dono da navalha, encarregado das escanificações, rituais, no Brasil, ogã,tocador de atabaque, chefe  da orquestra  do candomblé.