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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

" Na idade da inocência", François Truffaut (1976) no Cinesesc

 


Fui porque já tinha comprado o ingresso,porque o dia não estava nada favorável a ir ao Cinesesc na rua Augusta, planalto de Sampa.

Os óculos eram pra esconder olheiras,
Porque sol mesmo não tinha


Tentei não ficar muito desarrumada, afinal o mundo não merece pagar pelo meu desânimo. Fui de mantinha nas costas e levei o coração (de quartzo rosa) fota do peito. Aquela história de "uns agostos por dentro" do Caio Fernando Abreu, vindo da friaca de fora.

Claro que valeu a pena, no cinesesc demore vale, especialmente se for para assistir a um filme clássico!

Foto da tela do Cinesesc 


"A idade da inocência" de Truffaut é um filme muito gostoso de ver, porque mostra aquilo que em geral gostamos de ver :as crianças agindo e reagindo no seu mundinho particular no meio do mundo adulto. Essa é uma diferença de postura para a história da infância a partir da segunda metade do século XX, o advento da História da criança. Nesse filme isso é evidente.

Crianças vivendo os conflitos com adultos e vencendo tantas vezes, porque são capazes de viver o tempo do instante com uma facilidade que adultos não conseguem mais.

Lembrei muito das discussões teóricas do meu pós doc, da experiência em escolas democráticas, meu oxigênio crianças século XX. Hoje me sinto como se tivesse sobrevivido a ele e já não acho mais os sentidos que achava antes. Enfim.

Se tiverem oportunidade, assistam ao filme, pode aquecer seu coração 💓 


sexta-feira, 24 de abril de 2020

Mais do que anedotas infantis: Pedro Bloch e os escritos que contam uma História da Criança

Minha pequena biblioteca de
de Robert Darnton


Solicitaram-me um texto sobre "Escritos e impressos: Literatura e historicidade" para ser entregue daqui poucas semanas, como está tudo fechado na quarentena, inclusive as bibliotecas, tive que me voltar ao material que tenho: As edições de Pedro Bloch e o universo da minha pesquisa de pós-doutorado. Para mim ficou claro e espero ter conseguido demonstrar, que no campo da “história intelectual”, a atuação bloquiana com a meninada (de ouvir as crianças, transcrever seus ditos, publicar em livros e revistas, divulgar e incentivar que outros artistas, escritores,jornalistas, etc., também o fizessem no século XX) estava diretamente ligada ao moderno ideário iluminista, pois nosso autor seria propriamente o que o historiador do século XVIII francês Robert Darnton chamou de “homem de letras”, os debatedores e divulgadores de ideias. Embora Darnton tivesse sido sempre uma referência para meus estudos em História Cultural, lia muito os exemplares da biblioteca, então minha biblioteca pessoal desse autor não é muito grande, pois só fui conviver mais com suas ideias sobre história editorial mais diretamente no pós doc, para entender a que tradição  qual poderia estar  ligada a prática de Pedro Bloch, e isso foi ótimo.

No relatório final da minha pesquisa de pós-doc concluí que esse tipo de atuação nos abria caminho para um trabalho histórico diferente do que vinha sendo executado pelos historiadores da infância (que se dedicam a estudar história da relação da sociedade e da cultura com as crianças), já que  a partir deste material temos o contrário, pois ainda que de forma humorística, as publicações bloquianas nos mostram flashs reveladores da percepção de como os próprios pequenos percebem o mundo que os cerca (eu escrevi sobre isso na página 8 do artigo sobre os dicionários infantis de Pedro Bloch, disponível neste link ).
Retomando essas ideias, só posso aplaudir os livros de Pedro Bloch como minhas fontes de pesquisa, porque elas me permitiram e ainda me permitem, fazer pura História do jeito que eu mais gosto!  

sábado, 7 de outubro de 2017

PENSANDO EM UMA HISTÓRIA DA CRIANÇA


Pensando em uma História da criança, que levem em conta suas vivências, narrativas, experiências e valores, achei essa citação da contracapa desse livro sublime (destaques meus) :

"Brincadeiras, bordados, avós e netos se encontram no caminho construído pela dimensão criativa, expressiva e lúdica que ultrapassa o enredamento da vida comum. Os encontros entre gerações para brincar CRIAM UM TEMPO DE SUSPENSÃO DAS AMARRAS SOCIAIS VOLTADAS PARA O UTILITARISMO E ABREM ESPAÇOS PARA A REITERAÇÃO E O EXTRAORDINÁRIO ENVOLTOS NO MISTÉRIO DO DOMÍNIO DO CONHECIMENTO E NO FASCÍNIO DO IMPROVÁVEL, NUMA TRAMA DE DIVERTIMENTO, COMICIDADE E IMAGINAÇÃO. Entre gerações, as brincadeiras preservadas na memória permitem realizar o desejo de estar juntos, explorando tessituras que confrontam o certo e o incerto, ordem e a desordem na busca do belo, mas também e muitas vezes a prazerosa repetição do mesmo. Benjamin nos ensina que as crianças (próximas aos mágicos e aos loucos), refazem a história de cada peça, pedra, toco, retalho e resto. Bordadeiras também. Brincadeiras oferecem aos avós, chances redobradas de rebordar a vida nos encontros com seus netos."

(Eloisa Acires Candal Rocha.Contracapa de EVANGELISTA, Olinda; DURAN, Olga (org). Netos e avós, memórias de brincadeiras. UEM: Maringá. 2015. Netos e avós, memórias de brincadeiras. UEM: Maringá. 2015)

Vejamos, quando netos e avós criam um tempo próprio de convivência e diversão, estão modelando o tempo, criando suas próprias Histórias, a partir do compartilhamento cultural. Para mim, que sou uma historiadora da área de Teoria, isso é precioso.

domingo, 9 de abril de 2017

Por uma História da Criança

Outro dia vi no Facebook alguém lembrando do uniforme do pré primário que todas as crianças usavam nos anos 80 ... Eu  sabia que eu tinha uma foto usando ele, mas demorei tanto para achar que perdi a postagem. De qualquer forma, eis a foto comprobatória, diretamente de 1985:
Foto caseira de Camila Rodrigues indo à aula do pré-primário uniformizada em 1985
Eu vejo essas minhas fotos de criança e me lembro daquele livro que eu (será que só eu ?) considero uma obra prima para se pensar a história da criança no século XX, que é o "Infância em Berlim, 1900", de Walter Benjamin, no qual ele fala tanto das memórias das coisas do seu cotidiano infantil, as roupas que usava, os brinquedos, os lugares ... no meu pós-doc eu estou tentando iluminar isso: é preciso, porque depois do século XX já é possível, tentar contar a história da infância a partir das vivências dela...É essa minha proposta, construída lado a lado com Benjamin, que está na resenha que escrevi para outro livo dele, disponível aqui. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Nada contra - Marcos Piangers

Colo aqui mais uma das deliciosas contribuições de Marcos Piangers sobre crianças no Facebook. 


Nada contra
Quando uma criança nos brinda com sua visão de mundo é uma delícia tão grande que devemos ficar bem quie- tos. É como olhar unicórnios se alimentando. Você quer ficar vendo aquilo sem espantar a magia do ambiente. Estávamos no carro, eu dirigindo, minha mulher no banco do carona e minha pequena no banco de trás, sentada no meio. Lá fora as pessoas desrespeitavam outras pessoas no trânsito. O que podemos chamar de um dia normal.

“O que eu não entendo é que uma mulher pode se vestir com cal- ça jeans e até com camisas masculinas. Isso é aceito pela sociedade,” ela tem oito anos e está falando sobre a sociedade. “E um homem não pode se vestir com roupas de mulheres que todo mundo fala mal. Não que eu tenha alguma coisa contra travestis.” Eu explodi em risos. “O quê, pai?!”, protestou a Anita. A Anita sempre diz que não tem nada contra determinada minoria, sempre que fala delas.

“Por que as pessoas tratam os pobres mal, pai? Não que eu tenha alguma coisa contra os pobres.” Ela sempre parece preocupada com a possibilidade de ser considerada racista, elitista, sexista, machista ou preconceituosa. Deve ser uma preocupação muito atual entre as crianças. Porque o mundo está politicamente cor- reto. E imagino que isso seja uma coisa boa. Mas quando eu tinha oito anos, nossa principal preocupação era conseguir a maior quantidade de doces entre a hora de acordar e a hora de dormir.
“Eu só acho que os homens deveriam poder se vestir com saia e salto alto se quisessem. As mulheres podem fazer isso. Os homens não, porque são considerados gays. Nada contra os gays,” ela diz novamente, antes que seja mal interpretada.
Estávamos no carro ouvindo a Anita falar sobre a sociedade. Lá fora as pessoas desrespeitavam outras pessoas no trânsito. O que podemos chamar de um dia normal.

Nos conta Piangers que, aos seus  8 anos, suas preocupações não eram tão "politicamente corretas" quanto as da filha de Anitta aos 8 anos, que respira o oxigênio mental do início do século XXI. Esse texto é muito interessante para demonstrar porque devemos pensar em uma História da criança, pois nem sempre elas foram do mesmo jeito...