Ia sair, mas desisti pois estava com dores e estava frio
Passei um domingo enfurnada em casa, não animei sair, muita cólica e dor de cabeça...
Quando fui dormir, sonhei com a música Asa Branca, na sua versão original com Luiz Gonzaga, de 1947. Foi um sonho muito forte, acordei bem arrasada. Escrevi sobre:
"Eu sonhei com essa música, nessa versão original que não lembro de ter ouvido. No sonho com "Asa minha sensação de desolação e desespero era real. Eu via mesmo "a terra ardendo, qual fogueira de São João", uma sensação de morte, não sabia o que fazer. Não conheço a realidade da seca, nem de narrativas de amigos ou família, mas foi como se fosse algo tão meu! Uma pena que acordei antes da parte de "quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação", como Diadorim, fiquei só com a tristeza e a falta. Inconsciente é foda! 🤔"
Como podem ver, não está sendo fácil, mas se eu sonhei com a dificuldade, é sinal de que estou trabalhando as feridas! Amém 🙏🏾
Conhecemos a história social da infância, aquela que se debruça sobre os lugares que as crianças vieram ocupando no decorrer do tempo em diversas sociedades. Ou então, história da infância, que pode corresponder ao processo de invenção da criança como a conhecemos hoje e que é uma idéia moderna. Sabe-se que chamamos de História tudo o que foi registrado como ocorrido no tempo após a invenção da escrita. Segundo autores contemporâneos, infância é um fenômeno que não pode ser considerado independentemente da linguagem, que para as crianças, seria oral. (AGMBEN, Giogio.Infância e História: Destruição da experiência e origem da história.Belo Horizonte: Humanitas. UFMG.2008) Então como pensar numa história da criança, se a criança é pura vivência e a História pressupõe reflexão e narrativa? Apesar de esforços como o de Mary DelPriore e seu livro muito ao modo dos franceses da História da Vida Privada, ouviu vozes de pesquisadores, sociólogos, historiadores, pedagogos, etc, para organizar seu livro "História das crianças no Brasil", onde, como vocês podem imaginar, vemos um excelente livro sobre história da infância no Brasil, não sobre história da criança brasileira. Atualmente -e isso cabe aqui como o registro inicial de um processo de pesquisa- acho que se a criança pode ser conceituada como uso/não uso de linguagem e sua linguagem não considera a escrita, talvez possamos pensar com mais propriedade em uma pré-história da criança. Como seria isso? (ótima pergunta, não acharam?) rs Penso que para respondê-la teríamos que recuar para muito antes do advento da linguagem escrita e até mesmo da linguagem oral, quando tudo era silêncio e ruído:
Mas acredita-se, hoje em dia, que o cérebro humano possui um "módulo de linguagem", que seria inato e corresponderia a comunicação não verbal (daí a hipótese do ser humano ser possivelmente um ser narrativo), ou à fala. Para podermos falar, precisamos regular a passagem do ar (preciso estudar mais sobre isso). Ora, o que é regular e sistematizar a passagem do tempo? É adquirir ritmo! A primeira linguagem da criança pode não ser nem escrita nem oral, mas sim rítmica. Crianças são muito atraídas por experiências rítmicas, não são? Elas adoram músicas ritmadas, que conseguem seguir facilmente... sim, estamos no mundo pré histórico, no máximo de primitivo possível.Eu estudo um escritor que se voltou para a linguagem não verbal de sertanejos, ou seja, linguagem de seres que vivem no sertão (que é alegoria do primitivo, do desconhecido, do pré histórico?), uma linguagem que não deve ser considerada sem valorizar o que nela está expresso pelo ritmo... por isso que deve ler Guimarães Rosa em voz alta e atentar para o que nele pulsa ritimicamente! Vocês devem achar que eu estou louca, não duvido dessa possibilidade...mas tudo isso ainda está muito no começo. Veremos no que vai dar.
Ambientado em Salvador, ou "Cidade da Bahia", no início do século XX. Nele lemos a história dos meninos abandonados que moram nas ruas. Antes do começo do livro temos uma representação de reportagens de jornal sobre a vida dos meninos que nos dá a impressão de que o livro vai se contruir sobre dor e as limitações da vida deles... mas não é isso que observamos no romance, observamos também o despertar para a vida...
Uma personagem que sempre me chamou a atenção é o Volta Seca - o menino que tinha vindo do sertão - que quando voltou ao seu lugar de origem nos proporcionou um dos momentos mais interessantes do livro (pelo que me lembro, eu li em 1993, quando eu tinha 13 aninhos ...) Volta Seca é um encantado com Lampião,segue pra servir no seu exército, mas acaba sendo perseguido e morto, depois de ter matado muitos... O cangaço oferecia a guerra, a capacidade de guerrear, a polícia, aos fazendeiros, a quem oferecesse melhor preço a cada momento, e como isso era pouco ou nada divulgado, grande parte da população achava que ele era o seu líder ideal, o rei dos cangaceiros! Esse movimento acabou com a implantação do Estado Novo de Getúlio Vargas, quando foi preciso controlar todo foco de desodem... mas os sertanejos não tinham essa visão na época, como encontramos no romance de Jorge Amado:
"Agora é o sertão. Perfume das flores do sertão. campos amigos, aves amigas, magros cachorros nas portas das casas. Velhos que parecem missionários indianos, negros de longos rosóarios no pescoço. Cheiro bom de comidas de milho e mandioca. Homens magros que lavram a terra para ganhar mil e quinhentos dos donos da terra. Só a caatinga é que é de todos, porque Lampião libertou a caatinga, expulsou os homens ricos da caatinga, fez da caatinga a terra dos cangaceiros que lutam contra os fazendeiros. O herói Lampião, herói de todo o sertão de cinco Estados. Dizem que ele é criminoso, um cangaceiro sem coração, assassino, desonrador, ladrão. Mas para Volta Seca, para os homens, as mulheres e as crianças do sertão é um novo exército. Porque a liberdade é como o sol, o bem maior do mundo. E Lampião luta, mata, deflora e furta pela liberdade. Pela liberdade e pela justiça para os homens explorados do sertão imenso de cinco Estados: Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia. O sertão comove os olhos de Volta Seca. O trem não corre, este vai devagar, cortando as terras do sertão. Aqui é tudo lírico, pobre e belo. Só a miséria dos homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes, que conseguem criar beleza dentro da miséria. Que não farão quando Lapeão libertar toda a caatinga, implantar a justiça e a liberdade?..."
Jorge Amado. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Record. 1993. P.211
Toda vez que eu ouço Elomar, sinto uma coisa boa... uma espécie qualquer de orgulho de ser brasileira, terra onde esses pequenos milagres como a existência dele acontecem: um arquiteto, fazendeiro, musico, musicólogo, cantador, trovador, que infelizmente tão pouca gente conhece! Mas também sinto uma dor, um banzo qualquer roubado dos olhos cor de terra seca deste sertanejo. Um sertanejo como ele roubou a luz dos meus olhos e me levou a executar violências imperdoáveis contra mim mesma, uma dor sem fim! Mas como alertava Guimarães Rosa, o sertão é "uma espera enorme", eu esperei por meu trovador a vida toda, em 2008 duas figuras me remeteram diretamente a essa imagem, mas só uma delas foi "lua nova do céu que já não me quer".
É porque Vitória da Conquista - terra de Elomar - sempre aparece em minha vida, mas nunca consegui realizar completamente a experiência de Conquista, porque o evento que eu ia visitar em julho acabou não ocorrendo e o amor que eu guardei para lá acabou por aqui mesmo! Mas eu desejei muito. Será que ainda desejo? Acho que sim, por isso ouço Elomar sem parar,por enquanto, é a saudade, que Rosa explicou que é "ser depois de ter". Reparem nos olhos trstes dele:
Em 2003 eu fiz uma viagem a Minas Gerais, passei dias seguido de Belo Horizonte até Diamantina e vivi muitas experiências estéticas, simbólicas, históricas, musicais e emocionais... Uma delas aconteceu em Diamantina, quando um casal que estava emlua de mel se contaminou com o clima seresteiro da cidade e começou a tocar e cantar em praça pública uma música que eu conhecia de muito tempo, e sempre chamou violentamente a minha atenção: era estranha, a letra era incompreensível e a sonoridade era toda nova, me dava medo... Era a cantiga de Arrumação, do cantador Elomar Figueira de Melo.
Recapitulado: Eu estava no norte de Minas- e um casal em lua de mel começou a cantar uma música que eu conhecia e que sempre me causou medo pelo estranhamento das linguagens utilizadas... deu para perceber, né? Estranhamentos lingüísticos sempre me chamaram a atenção.Eu lembro que eu escutava a finada Musical FM, a rádio MPB e foi nela que entrei em contato com a fina flor da música popular brasileira como Clube da Esquina, Chico e Caetano, Bossa Nova, Rita Ribeiro e... Elomar... Quando eu ouvia os acordes iniciais de Arrumação sentia um medo (medo do que eu não compreendia) mas não conseguia trocar de estação...só pensava “xi, de novo a música do feijão”, já que esta era uma das poucas palavras da letra que eu sabia o que era...(naquela época eu nem conhecia Guimarães Rosa ainda...) acabei me esquecendo dela, já que a Musical morreu e quando o casal começou a cantar, avisando que iam tocar uma música um tanto diferente da sonoridade das serestas dimantineiras, mas ainda assim com seu sentido para aquela viagem, já que estávamos a porta de entrada do sertão, quando Minasse aproxima da Bahia... Elomar é do sertão da Bahia, de Vitória da Conquista, cidade que está sempre aparecendo em minha vida, mas que ainda não conheci... Hoje senti saudade de um lugar que não conheço mas que eu sempre desejei, de Vitória da Conquista. Vamos ouvir a assustadoramente diferente canção de Elomar:
"Ele (Germano Neto) nos empresta seu olho - e o olho da sua câmara, sua objetiva- para dirigir o nosso olhar para uma realidade que pede socorro.(...) Porque são lugares à beira do risco, em vias de desaparecimento(...)mostra veredas que secam o seu verde por conta da agressão feita pela monocultura do eucalipto, da soja, do capim; veredas violentadas, com as águas estancadas para servirem à irrigação das grandes fazendas, em que apodrecem os buritizais."
Adélia Bezerra de Menezes. Apresentação de "Saudades de Rosa e sertão"