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domingo, 17 de dezembro de 2023

BITUCA ENCONTRA PAUL, REFERÊNCIAS




Em 2023 não foi a primeira vez que Paul McCartney visitou o Brasil, inclusive esteve  aqui no Aliance Parque há poucos anos. 

Mas talvez tenha sido a primeira vez que ele encontrou Milton Nascimento  e os dois teriam  falado sobre "Para Lennon e McCartney"! Para  mim isso foi o mais importante dessa visita, porque embora eu também ame os Beatles como todo mundo, na minha vida de mulher negra brasileira o Bituca é mais importante. 

Mas eu sei que para ele Paul é uma referência e estar junto a um modelo  é muito importante!

Mudando o que deve ser mudado, essa semana Pedro Sérgio Pereira me enviou um meme sobre o roubo da cultura negra pelos museus britânicos e conversamos sobre. Pedro me deu aula  no Ensino Médio e foi meu segundo professor de História negro, antes dele, no Ensino Fundamental, tive a Helga, que em minha memória de menina se parece uma matriarca negra, como a  Conceição Evaristo!

Mas o Pedro  virou meu amigo e tenho orgulho quando ele tem interesse na minha posição, isso é muita coisa pra mim, e quando ele terminou nosso papo dizendo que gosta de conversar comigo, é como se Paul disse ao Bituca: também quero saber como é na América do Sul! Presentes 💕

domingo, 30 de maio de 2021

Capítulo 7


 

No impactante "O avesso da pele"(114), sobre o qual tenho muito a dizer, mas ainda não tenho tempo para escrever minhas considerações gerais, o narrador lembra uma passagem com o pai, quando contou que não sabia como se declarar a uma colega de faculdade . O pai empresta o "Jogo da Amarelinha" do Cortázar. Deveria emprestar o livro a ela? Claro que não, isso seria muito impessoal, ele deveria COPIAR O CAPÍTULO 7 (Quem leu já sabe qual é, quem não leu, ouça aqui) e entregar para ver como ela ia reagir. Não ficamos sabendo o fim dessa história, mas acho que ele nem chegou a entregar porque a moça, definitivamente, não estava afim dele.

Esta história me lembrou outra, da época da faculdade. Era o "geógrafo de olhos verdes", que sempre pegava ônibus comigo e que eu encontrava "ocasionalmente" todo fim de semana no cinema (como na música do Bituca "no cinema, na escola, cê não me dá bola"), e que incrivelmente, até gostava de prosear comigo, mas era meio tapado, sei lá (homens). Mas eu ia formar e, possivelmente, não o veria jamais, então achei que era bom dar uma de Elvis Presley: It's now or never! Com a letrinha bonitinha que eu tinha antes da EM detonar minha caligrafia, eu escrevi o trecho mais lindo de Herberto Helder

"Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram."

E fiquei estudando na biblioteca (naquela época ainda era no prédio da História) até passar o ônibus das 22 horas. Eu sabia que ele ia pegar no próximo ponto, pois estava fazendo licenciatura na Educação (mulheres sabem tudo, né). Pois então, dito e feito, sentei no banco "de sempre" ele subiu e sentou ao meu lado. Conversamos e eu entreguei para ele o papel.

Ele leu e me DEVOLVEU! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Putz, que fora!!!!!
Só disse para ele guardar com ele, eu tinha outras cópias. Quem nunca, né?
Se alguém me desse aquele poema eu nem sei o que faria! kkkkk




terça-feira, 7 de janeiro de 2020

"Coração americano: Um sabor de vidro e corte"



Faz tempo que tenho tido contato com africanos. É sempre rico, muita beleza, muitas cores, odores e sabores e também contato com outras culturas e outros sons. Embora pareça tanto, a cor da pele, o jeito de corpo, o toque, é sempre evidente que se trata de um  contato com o outro... falta um elo mais forte, que o contato pode até complementar por algum momento, mas não é regra.

O contato com essas diferenças acaba ressaltando tantas coisas que são muito nossas, resultado de nossa história e vivência que eles não saberão. Sobre San Vicente e a possibilidade de ser o que é , Eduardo Campos nos alerta que  mesmo um dos autores da canção, Fernando Brant, e tantos outros  brasileiros  brancos podem até vir a entender, mas não saberão o que é ter um  

"Coração americano: um sabor de vidro e corte" (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Para isso é preciso ouvir Milton Nascimento de vez em quando.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Negritude, música e ancestralidade em Milton Nascimento


3.      Negritude, música e ancestralidade em Milton Nascimento -  
Camila Rodrigues (publicado originalmente em 16 julho de 2018)

Estamos chegando do fundo da terra,
estamos chegando do ventre da noite,
da carne do açoite nós somos,
viemos lembrar(…)
Estamos chegando do chão da oficina,
estamos chegando do som e das formas,
da arte negada que somos,
viemos criar. (…)
Estamos chegando do chão dos quilombos,
estamos chegando no som dos tambores,
dos Novos Palmares nós somos,
viemos lutar.
A de Ó (estamos Chegando) – Milton Nascimento e  Pedro Casaldáliga
Existem vários caminhos para se abordar o tema da negritude na vasta obra musical de Milton Nascimento (Bituca), uma vez  que estamos falando de um dos artistas negros mais significativos do Brasil, pois mesmo que sua sonoridade seja mundialmente reconhecida pela grandeza de sua voz divinal, que segundo Paulo Thiago de Mello, apresenta um timbre de  
“rara extensão e densidade”, o que lhe permite “restituir a força do canto, do entoar majestoso (…) acrescentando a ela ritmos e linhas melódicas”  
e também  pelo  refinamento harmônico apresentado em suas composições e interpretações, olhando de perto, é possível perceber outras influências recebidas por um ouvido musical treinado a reconhecer nas tradições culturais e danças populares,  um material riquíssimo que é sintetizado e purificado em sua musicalidade. Naquela obra também  encontramos  apontamentos a respeito de uma vivência do que é ser negro no Brasil, juntamente com um  vasto conhecimento da história dos seus ancestrais que vieram nobres e fortes da África e aqui foram escravizados, mas que, ainda assim, foram e são capazes de criar e sustentar a cultura do  nosso país. Mesmo reconhecendo ser um dos muitos caminhos possíveis  a partir dos quais seria possível abordar  o tema da negritude em Bituca, para sintetizar neste breve texto esta forte manifestação expressa na música popular brasileira, escolhemos abordar duas personagens que aparecem naquelas canções: a Maria, Maria e o Pai Grande, que estariam diretamente relacionadas ao reconhecimento de uma ancestralidade africana presente em território brasileiro.

Maria é personagem principal da canção Maria, Maria, composta para a trilha sonora da coreografia de mesmo nome que foi a primeira peça apresentada pelo  grupo de balé  Corpo, de  Belo Horizonte, em 1976, com m´sica assinada por  Bituca, roteiro de Fernando Brant e coreografia do argentino Oscar Araiz,  que  ficou seis anos em cartaz e percorreu catorze países. No espetáculo conta-se a história de vida de uma mulher negra do interior de Minas Gerais, desde a sua infância, que é muito marcada por referências ao passado escravocrata do país, conforme o roteiro de Fernando Brant, que é lido enquanto os bailarinos dançam :

Maria Maria nasceu num leito qualquer de madeira. Infância incomum, pois nem bem ela andava, falava e sentia e já suas mãos ganhavam os primeiros calos do trabalho precoce. Infância de roupa rasgada e remendada, de corpo limpo e sorriso aberto. Infância sem brinquedos, mas cheia de jogos aprendidos com as velhas que lavavam roupa nas margens do Jequitinhonha. Infância que acabou cedo, pois já ao quatorze anos, como era normal na região ela já estava casada.

Sobre o casamento ela se lembraria pouco, “ou não quer muito se lembrar daquele homem estranho a lhe dar balas e doces em troca de cada filho”, que no total foram seis, em seis ano de casamento, até que enviuvou, o que para ela foi um alívio, que a permitiu se definir como “Maria solidária,solitária, operária e brincalhona”e alegre como na música:  “dança Maria Maria, lança seu corpo jovem pelo ar, ela já vem, ela virá, solidária nos ajudar”.

Á respeito da  trajetória de Maria Maria a dissertação de mestrado A negritude através de “Maria Maria” de Milton Nascimento, de Carlos Alberto da Silva nos lembra que, nascida em meio a uma sociedade machista ocidental, Maria recria o destino a ela destinado, que seria permanecer dedicando-se exclusivamente aos afazeres domésticos e aos cuidados dos filhos pacificamente, como se fosse uma negra amarrada e amordaçada ao modo de suas  ancestrais escravizadas,  mas ela quis ser mais, desejou se libertar  dos cativeiros aos quais estaria presa para sempre, por isso,  em uma atitude de rebeldia, sempre enxergava a vida de forma alegre e bondosa.

Já no final da vida, ela se despede  na bela canção de Bituca em parceria com Sérgio Sant’Anna:

Eu sou uma preta velha aqui sentada ao sol, não tenho um nome,nem idade, nem pátria, não vou à qualquer parte, não quero nada (…) eu vou morrer aqui sentada ao sol.

Através da figura de Maria Maria, o espetáculo conseguiu tratar de muitos assuntos de interesse aos afrodescendentes, como o sincretismo religioso, que no roteiro do espetáculo é apresentado em uma  imagem na   faixa Santos Católicos x Candomblé:

Experimentem tirar pela força aquilo que faz um homem. Era crença dos católicos, que os santos africanos deviam ser esmagados. Impossível para os negros esquecer quem veneravam. Iludindo todos os brancos eles apenas mudaram o nome de seus santos. E daí surgiu a mistura preto-branco, afro-europeu, mexido bem brasileiro, farofa de religião.

Embora já disponibilizado na íntegra no Youtube, este espetáculo ficou mesmo conhecido através da canção Maria Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que foi gravada e consagrada por Bituca no álbum Clube da Esquina 2 (1978) e então a experiência daquela mulher negra se apresenta como uma verdade para todas as mulheres fortes, que “misturam a dor e e a alegria” , pois  trazem “na pele essa marca” e possuem a estranha mania de ter fé na vida”, e merecem “viver e amar como outra qualquer do planeta”.

Mas se Maria Maria era uma Preta Velha cheia de sabedoria, também no conjunto de canções de Milton Nascimento encontramos sua versão masculina na figura do Pai Grande, que na música de mesmo nome é rememorado pelo filho:

Meu pai Grande,inda me lembro e que saudade de você
Dizendo: eu já criei seu pai, hoje vou criar você
(…) De minha saudade sem você cantar de onde eu vim
É bom lembrar todo homem de verdade
Era forte e sem maldade
O dia vai, o dia vem
Todo filho seu seguindo os passos
E um cantinho pra morrer
Pra onde eu vim não vou chorar
Já não quero ir mais embora
Minha gente é essa agora
Se estou aqui, trouxe de lá um amor tão longe de mentiras
Quero a quem quiser me amar.

Segundo Carlos Alberto da Silva, nesta canção surge a 
“figura masculina do curandeiro, do contador de estórias, do rememorizador das aventuras e desventuras de um povo sofredor e que, mesmo em meio ao sofrimento, canta, dança, brinca e se diverte”. 
A  memória do Pai Grande aparece aqui como a própria ligação com a África de origem, da qual se deve lembrar, inclusive para poder criar nesta nova terra um lugar de amor e longe de mentiras. Esta canção   já havia sido primeiro gravada no álbum álbum Milton Nascimento (Beco do Mota), de 1969, porém é na versão de 1970, depois de passar por um aperfeiçoamento no arranjo com a ajuda do grupo de músicos do Som imaginário,  que ela refinou-se na  harmonia, tornando-se ainda mais  sofisticada, especialmente em relação ao tratamento da percussão, que  ali já não aparece mais simplesmente como acompanhamento da voz do cantor, mas já atuava autonomamente na canção,tornando-se definitiva.

Aliás, o álbum Milton, de 1970, marca uma transformação visível de Bituca, no sentido de assumir sua identidade negra, o que começa ficando claro através da capa e no encarte do disco, feita pelo designer Kélio Rodrigues, nos quais Milton aparece desenhado como um belo rei negro. No que se refere a sonoridade, segundo nos explica o professor de canção popular brasileira Ivan Vilela (USP), essa nova maneira de lidar com os batuques inaugurada por Bituca naquele  no álbum  trouxe uma nova sonoridade africana para a música brasileira, esta não mais ritmada e malemolente como a expressa pelo samba, mas mais clara e direta.  Vilela nos esclarece,ainda, que isso  seria explicado em trabalhos de história antropológica como Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro, de Roberto Moura, que lembra as diferenças culturais entre os grupos de africanos que vieram viver na Bahia e no Rio de Janeiro, que em geral seriam negros “islamizados, alfabetizados e muito organizados em suas lutas” para preservar ao máximo sua cultura de mesclas e interferências;  e Vilela exclarece que  os que se instalaram em Minas Gerais,  para  
“sobreviverem, mesclaram seus traços à cultura dominante, ao catolicismo. Suas religiões foram amalgamadas a elementos do catolicismo popular para assim preservarem a sua essência. É essa a África que vem com Milton. A África dos congados e moçambiques, catopés e marujadas, caiapós, candombes e vilões.”
 Destacando o aguçado ouvido musical do nosso Bituca.

Em nossa viagem panorâmica sobre a obra de Milton Nascimento, em busca de marcas da negritude ali registradas, nos guiaram dois anciões, uma Preta e um Preto Velho, que cheios de sabedoria, foram nos mostrando cada lugar onde se escondiam marcas de uma tradição africana renovada, na letra e na melodia das canções, comprovando que Bituca  é, sim, um forte representante da negritude na cultura brasileira, porque não apenas retoma experiências culturais  africanas até então não divulgadas,  como também as recria devido a convivência com estímulos sentidos aqui, o lugar onde todos merecemos viver e amar.

Referências Milton Nascimento
                              
CORPO, Grupo. Histórico. Disponível em          http://www.grupocorpo.com.br/companhia/historico     
BORGES, MÁRCIO. Os sonhos não envelhecem: Histórias do Clube da Esquina.             3ª.ed.São Paulo:          Geração Editorial, 1996.
MELLO, Paulo Thiago de. Clube da esquina: Milton Nascimento e Lô Borges. Rio de        Janeiro:     Cobogó, 2018.(Coleção Livro do disco)
MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro. 2. ed. rev. Rio de        Janeiro : Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Data de       Publicação1995. ( Biblioteca carioca ; v. 32. Série Publicação científica)
NASCIMENTO,Milton. Pai Grande (1970).
SILVA, Carlos Alberto da. A negritude através de “Maria Maria” de Milton           Nascimento.     2003.120f. Dissertação (Mestrado em Literatura)- Universidade Federal de Santa  Catarina, Florianópolis.
VILELA, Ivan. Nada ficou como antes. Revista USP, São Paulo, n.87, p. 14-27,            setembro/novembro 2010.



terça-feira, 20 de novembro de 2018

5 TEXTOS SOBRE INFLUÊNCIA AFRO NA CANÇÃO POPULAR BRASILEIRA


1."O simbolismo afro-brasileiro no cancioneiro de Jorge Ben" - 14 de maio d 2018
[https://blog.loja-axe.com/…/o-simbolismo-afro-brasileiro-no…]
2."Tecnomacumba: 15 anos de um canto de resistência contra a intolerância religiosa" - 19 de junho de 2018
[https://blog.loja-axe.com/…/tecnomacumba-15-anos-de-um-cant…]
3."Negritude, música e ancestralidade em Milton Nascimento" - 16 julho de 2018
[https://blog.loja-axe.com/…/negritude-musica-e-ancestralida…]
4."Um samba mais negro : Os Afro Sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes (1966)"- 5 de outubro de 2018
https://blog.loja-axe.com/…/um-samba-mais-negro-os-afro-sam…]
5."'Afro é todo o Brasil e está dentro da gente' : Os Afro Sambas de Baden Powell (1990)" - 16 de outubro de 2018
[https://blog.loja-axe.com/…/afro-e-todo-o-brasil-e-esta-den…]

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Nota da ANPUH pelo não apagamento da História da Ditadura Militar no Brasil

COLO AQUI A NOTA DA ANPUH CONTRA O APAGAMENTO DA HISTÓRIA DA DITADURA MILITAR, para NEM precisar nem entrar no site https://anpuh.org.br/…/4930-nota-da-anpuh-brasil-sobre-a-te…
"Segundo fontes da imprensa brasileira divulgadas no dia 20/10/2018, incluindo os jornais O Globo, Folha de São Paulo e UOL[1], entre outros, o ministro Luís Felipe Salomão, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), decidiu suspender a exibição na TV de um programa de campanha eleitoral que mostra cenas e depoimentos sobre a prática da tortura no período da Ditadura Militar, relacionando-os a várias falas do outro candidato que aprovam a prática da tortura e homenageiam militar Carlos Alberto Brilhante Ustra. A Associação Nacional de História - ANPUH-Brasil vem, através desta nota, repudiar a tentativa de apagamento da História da Ditadura instituída em 1964 no Brasil, que foi conhecida pelo desrespeito aos Direitos Humanos, pela prática de prisões, desaparecimentos e torturas, que foram recentemente comprovados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada pela Lei 12.528, de 18 de novembro de 2011, e que encerrou suas atividades em 10 de dezembro de 2014, com a entrega de seu Relatório Final, que pode ser consultado no site http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/

A ANPUH-Brasil se posiciona assim contra o apagamento da história da ditadura.

Ditadura Nunca Mais! #ditaduranuncamais
Tortura Nunca Mais"

Esta História não vai se apagar, está em livros, em filmes  e ESPECIALMENTE NUM RICO E TRISTE CANCIONEIRO.
Já sabemos, inclusive na Academia, que uma legítima narrativa nacional é contada pelo cancioneiro popular. Pensando nas tentativas de APAGAMENTO DA HISTÓRIA DA DITADURA CIVIL MILITAR (1964-1985), devo dizer que isso será impossível, pois a narrativa do período está devidamente contada em livros, filmes e ESPECIALMENTE NO RICO CANCIONEIRO NACIONAL que tão bem a retratou em composições e interpretações maravilhosas de Chico Buarque a Odair José, passando pela voz da Elis, Milton Nascimento,Belquior, Aldir Blanc, Secos e Molhados, Novos Baianos, Clube da etc, etic, etc
Infelizmente aquela ditadura existiu sim, não foi um movimento como a Semana de Arte Moderna de 22, foi um golpe de Estado que matou e oprimiu muita gente e sua História foi contada de diversas formas e não pode ser esquecida.
Todos contra o fascismo! 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Show dos 40 anos do disco Clube da Esquina 2


Entre 31 de agosto e 02 de setembro de 2018 o SESC Vila Mariana promoveu uma mini turnê em comemoração pelos quarenta anos do disco Clube da Esquina 2 (1978), em três shows de Wagner Tiso e Flávio Venturini, com convidados : Toninho Horta, Nelson Ângelo e Zé Renato.
O disco de Milton Nascimento, como o primeiro Clube da Esquina, em parceria com Lô Borges de 1972, contou com a presença de um extenso grupo de músicos, todos aglutinados em torno de Milton, o grande guru do Movimento Musical.
No  curso que assisti sobre o Clube da Esquina, a partir do artigo sensacional “Nada ficou como antes” do professor Ivan Vilela só foi abordado o primeiro disco e suas saídas musicais criativas, apesar de nós pedirmos muito para falar do disco 2, para Vilela o segundo disco não apresentava novidades frescas como o primeiro, seria apenas uma celebração da ideia daquele movimento musical. Se é verdade ou se é mentira, o certo é que em determinado momento do curso Vilela, que propunha um método auditivo para tratar das canções,  separou  três minutos e meio para ouvirmos a segunda faixa do segundo disco, ” Nascente” na voz de Milton Nascimento, e todos ficamos extasiados e emocionados.
O fato é que o disco Clube da Esquina 2, tanto quando o primeiro disco de 1972, tem seu lugar definido na memória afetiva e musical dos admiradores  da música mineira daquele álbum composto por vinte e duas faixas e tantas delas foram interpretadas no show. Como eu tenho o álbum todo preservado na memória, percebi que não foram interpretadas as faixas mais tristes do disco (que é também fruto da ditadura, como todo o Clube da Esquina), como “Olho dágua”, “e daí?”, “cancion por la unidad de latino America”, “Dona Oimpya”, “a sede do peixe”(essa é outra do meu coração porque tem Rosa),”Toshiro” e “que bom amigo”(que se eu escutasse ao vivo iria soluçar!)...
Além de boa quantidade de canções do disco, tocaram músicas simbólicas que estão no primeiro disco  como “Clube da Esquina 2”, “Paisagem na janela” , esta a única que a plateia, visivelmente não composta apenas de clubeiros (senti  isso porque sempre vou a shows do clubem sei como é quando tem clubeiros)  pareceu cantar com força).

Em geral, Wagner Tiso brilhou no piano  nos arranjos  para uma banda muito boa executar e todos se emocionaram muito. Uma canção, “o que foi feito devera” foi tocada duas vezes  e apesar de ter esquecido algumas letras, Flavio Venturini se saiu até que bem interpretando as clássicas do Bituca. Foi el quem contou a anedota  mais saborosa: quando o disco foi lançado, em 1978, a música de trabalho que puxava o álbum foi a sua composição “Nascente”, que já tinha sido gravada pelo Beto Gudes no seu primeiro disco “A página do relâmpago elétrico” (‘977), mas na voz do Bituca tornou-se definitiva. Achei interessante porque hoje, como o Clube da Esquina 1 e 2 são álbuns clássicos, nunca pensei em quais  teriam  sido suas músicas de divulgação ...  
Como sempre, super valeu ouvir música mineira, que eu amo, e estar entre clubeiros...
Agradecimento final 



segunda-feira, 16 de julho de 2018

Negritude, música e ancestralidade em Milton Nascimento

Mais um texto de Camila Rodrigues para a coluna "História Cultural" no Site da Loja Axé. Leia aqui  e divulgue! 

segunda-feira, 14 de maio de 2018

"Um clube no céu do Brasil", por

Capa do álbum Clube da Esquina 1972



Um clube no céu do Brasil
Posted by Radiola Urbana on ago 7, 2017 in Arquivo, Matérias | 12 comments

O ensaísta e psicanalista Tales Ab’Saber escreve sobre “Clube da Esquina” (1972), a obra-prima de Milton Nascimento e Lô Borges, que completa 45 anos em 2017 e é lembrada sempre como uma das mais inspiradas da música brasileira. Beto Guedes, Márcio Borges, Wagner Tiso, Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Toninho Horta também participam dessa gravação histórica.
Por Tales Ab´Sáber

Se olharmos antes para Milton Nascimento, o Clube da Esquina parece ter sido o desdobramento natural, mesmo que em um outro patamar, altíssimo, de sua primeira aparição musical já bastante significativa no final dos anos de 1960. Desde o primeiro instante Milton estabeleceu suas características de modo claro, e contínuo, surpreendendo com o retorno ao acento forte no afeto pessoal, mesmo que ele também fosse signo de um movimento mais amplo, expressão de uma real melancolia social que nomeava o pior da história de seu tempo. De modo muito autônomo, Milton retornava alguns passos e liberava um tom a mais na ordem do canto e do nome da dor pessoal, reafirmando uma tradição que, então, parecia ter sido banida da música brasileira moderna feita por jovens. Imenso lírico, situado em relação ao país e ao local, “eu sou do mundo, eu sou Minas Gerais”, músico das tendências harmônicas e melódicas mais trabalhadas existentes entre nós, explorando a tradição musical pós bossa nova de modo muito singular – “a palavra inventivo não o define tão bem quanto a palavra original”, diria Caetano Veloso a seu respeito – e sempre marcando o momento de música pura de suas canções, atraindo assim grandes músicos para o seu trabalho, do Tamba Trio a Toninho Horta, Eumir Deodato a Herbie Hancock…, além de todas estas qualidades sociais, também, desde o início, ficou claro que a força de sua música se duplicava no maior e real mistério concreto de sua voz.

De todos os compositores e autores que configuraram a ideia da moderna MPB nos anos de 1960 e 1970 nenhum foi conhecido tão imediatamente pelo valor de sua voz – este real do corpo particular que atravessa a música e a vida – como Milton Nascimento de fato sempre o foi. O apelo significativo ao drama, à dor e a beleza presentes em sua voz sempre pareceu dizer algo de muito próprio de uma certa experiência estética e humana, brasileira, algo que ainda poderíamos pensar tendo raízes na vida musical portuguesa, da afetação da canção e do lirismo acentuado, elegíaco, na esfera própria da saudade. Além disso, sua música carregava traços de um material histórico específico, concreto, percussivo, popular, religioso, que atravessava o espaço subjetivo de sua voz com mínimos elementos épicos, mas de uma vida social ainda contida, um pouco ao modo de uma paisagem mineira, de pequenas igrejas, de céu obscuro e de abismo, de Guignard.

Logo, em 1967, Milton Nascimento foi reconhecido em um festival internacional como melhor cantor, e sua voz, articulada à sua música expressiva, tenderia, desde o início, a ser a matéria de um mito. Um mito que prosseguiria ativo ao longo de pelo menos 20 anos. Músico muito especial, a sua lírica triste e concreta, o seu melodrama modernizado, com inconscientes traços e ecos religiosos, em canções que se desdobravam para a vida da sua interpretação, derramada e marcada por um forte eu lírico, encontrou precisa formação em sua única e própria voz.

A voz, sempre a evocação e a atualização de um corpo e de um caráter, era percebida, no caso, como sendo particularmente rara. E o canto de Milton se encarnava em um corpo historicamente situado. Aquela voz transbordava o seu sujeito para se constituir em um índice social mais amplo, uma entidade e um emblema de algo do Brasil que impunha sua presença. Ela era um estranho amálgama de um grave que não é grave, um grave reduzido e atravessado com lindos timbres femininos, que fez de Milton um contralto único, cujo canto natural, de plena intensidade e precisão, era também um falsete natural, dispersivo e incisivo a um tempo, de modo que nunca se pode evitar a metáfora, de correspondência histórica e onírica com o mundo de sua origem, de estarmos ouvindo algo como a possível voz de um anjo. Havia algo de contraditório naquela voz linda, que forçava e que conquistava a um tempo. Um contralto desde o céu, e de sua terra brasileira, um anjo menino negro, de uma Igreja de Minas Gerais e do chão da terra, que cantou o seu tempo e lugar para todo o mundo.

Aquela voz de homem, de mulher e de criança marcava a personalidade de uma música que poderia ser prosaica, dado os seus vínculos passadistas com o local e com o interior, o seu ar e chão de província e o seu caráter de drama pessoal, que transbordava. Eram marcas algo tradicionais, que deveriam ficar para traz no processo da modernização brasileira que acelerava naquele final dos anos 1960. Todavia, ao contrário, ela era fortemente universal, musical e socialmente expansiva. Desde a experiência do jovem do interior do Brasil aquela voz visava imediatamente o todo, pela força da composição mais ampla: música, arranjos e performances espantosas. Neste ponto Milton realizava de um modo muito pessoal o valor de expressão global, ainda crítico, próprio da arte brasileira dos anos de 1960. Os jovens que estreavam na musica brasileira na segunda metade dos anos 1960 colhiam o fruto da desprovincianização criadora que o modernismo e, principalmente, a bossa nova, a modalidade musical industrial de nosso modernismo, haviam produzido e legado ao país.

Assim, do primeiro disco, do sucesso imediato e permanente de “Travessia” – para muitos uma espécie de hino melancólico do Brasil – ao segundo disco em Nova York, “Courage”, o passo parece ter sido mínimo e justo. Milton soltou a voz, em sua Minas mundo, e também era músico entre músicos, particular, gentil e forte – como a singela e belíssima “Catavento”, onde ele canta e toca com o Tamba Trio, com o arranjo para cordas e sopro de Luiz Eça, não permitia a ninguém esquecer. Me lembro de, ao ouvir esta música aos cinco ou seis anos de idade, ficar impressionado pelo efeito profundo que ela fazia em mim: eu a percebia tão bela e inteligente que, olhando desde hoje, posso dizer que o menino a sentia como talvez a música mais bonita existente no mundo. Não é uma tarefa simples, além do mistério do ato, produzir um real samba jazz brasileiro, oriundo dos grupos instrumentais pós bossa dos anos 1960, como sendo também e simultaneamente uma música para crianças… há muita coisa moderna condensada neste gesto, além do imenso conhecimento musical realizado. Creio que, do mesmo modo, os músicos de jazz que viriam tocar com Milton ao longo do tempo, de Wayne Shorter, Herbie Hancock, Hubert Laws, da gravação da “Canção do Sal” por Stanley Turrentine, até Esperanza Spalding, apenas reconheciam a sua real inscrição em um espaço musical bastante amplo, que simplesmente os interessava, como também interessou ao menino que crescia na virada dos anos 1960 para 1970.

E, como homem muito amado que sempre foi, Milton Nascimento, o anjo barroco moderno, que cantava de modo único a tristeza e a solidão nacional em pleno choque da revolução mais ampla do mercado e da indústria das comunicações que acontecia ao redor, articulou com a força de sua presença artística e humana aquele que seria um dos momentos mais poderosos da arte brasileira do século XX. O anjo lírico e triste, o bom moço negro – filho adotado de uma família de classe média do interior de Minas, como Grande Otelo, de uma mãe que ensinava música, tocava piano e estudara com Villa Lobos –  agregou ao seu poder musical o grupo de compositores, cantores e instrumentistas, de fato todos muito jovens, parceiros da rua, a geração de amigos, que sonhavam e que sabiam tocar com precisão e liberdade a verdadeira complexidade de um dos mais fortes discos de todos os tempos, o “Clube da Esquina”.

Surgia ali uma outra beleza jovem que desdobrava e multiplicava as dimensões próprias da obra de Milton, feita de talho e de corte, de cavaleiros naturais, de vento solar, de pedra e chão, banhados em ribeirão, prontos para cantar o próprio tempo desde suas próprias e precocemente dolorosas experiências, entre o Brasil interior e a vida contemporânea. O disco veio ao mundo sobre o signo amplo de tudo o que eles conseguiam ser, em conjunto com uma precoce consciência da perda da própria continuidade da experiência histórica, numa dissipação dolorosa e negativa do campo contracultural de até então, que se realizava em uma explosão musical maravilhosa. O disco era a potência real de um país barrado, em que tudo ou nada estavam de fato, mais do que nunca, em jogo.

De fato, Milton já havia sinalizado a importância dos amigos, os irmãos Lô e Márcio Borges e Fernando Brandt, para o deslocamento de sua própria lírica rumo ao presente, no célebre manifesto periférico – rock and roll, latino americano, global, porque crítico – que denunciava com alguma precisão e fúria a condição de violência da periferia do capitalismo brasileira vista desde uma geração perdida de jovens, o lixo ocidental, aos ídolos universais do amor pop e industrial, presentes ausentes do destino dos jovens  constrangidos por uma ditadura local, de origem global, nestas paragens históricas. Tudo isso dito em uma única e poderosa canção em seu terceiro disco, “Para Lennon e McCartney”.

Pois naquele novo Clube da arte o anjo popular moderno, com seu canto longo e estruturado que embriaga, iria encontrar definitivamente a força da vida do jovem menino lindo, o amigo real, o hippie mais triste do mundo, o jovem, muito jovem, das melodias que fazem chorar e das letras epifânicas, mesmo que sintéticas, que ainda levavam a vida para um lugar desconhecido e forte, com cheiro de estrada e natureza, nas quais ela pega o trem azul, o sol na cabeça pega o trem azul e é hora de você achar o seu lugar no trem e não sentir pavor dos ratos soltos na casa, sua casa e, ainda, das canções de amor mais belas e tristes, porque emocionalmente reais, de toda a música popular brasileira. Lô Borges.

O jovem de voz humana – derivada, eu acho, da leitura de Caetano Veloso do canto sem excesso de João Gilberto – de pouca força, que canta baixo desde a dor real e encarnada, que parece estar sempre se recuperando de um íntimo choro, e que projetava sua voz numa topologia moderna, da imaginação e da liberdade contracultural, porém barrada, dimensão constrita como horizonte histórico que voltava a impactar a própria música, o que só aumentava a radicalidade de seu humanismo. O verdadeiro músico muito sofisticado de “Nuvem Cigana”, em que a melodia se desdobra constantemente sobre si mesma de modo livre, surpreendente, como o verdadeiro movimento de um sonho estruturado, meu nome é nuvem, pó poeira, eu danço com você o que você dançar…

De onde vem os traços eruditos, por vezes quase sinfônicos, das estruturas musicais sintéticas de Lô Borges? Qual foi a sua formação? De onde veio este músico tão verdadeiramente rico, real e humano, que com poucas canções impactou a história do cancioneiro moderno brasileiro? Se você deixar o coração bater sem medo deve surgir uma resposta imaginativa para este enigma, do jovem hippie triste brasileiro dos anos 1960/1970 e músico único, de uma imaginação negativa, como preferia o próprio artista… Vida afetiva, procurando plena expressão, mas também sitiada, de forma que expansão e medo andam juntas o tempo todo, na beleza musical extrema de Lô.

O jovem genial, mais um da geração de jovens gênios dos anos 1960 e 1970, e Milton sabia bastante bem disso, que com seu irmão Márcio, com Fernando Brandt e com o próprio Milton fez “Um Girassol Da Cor Do Seu Cabelo”, “Clube da Esquina no. 2”, “Trem de doido”, “Trem Azul”… Um notável conjunto de canções marcadas por algo do rock e do folk internacionais, que novamente, mas em outro diapasão, mais sintético e modernizado, deram o timbre, uma poética de maravilhamento e tristeza, de uma lírica que sabe bem dizer o que dói de real, no amor pela mulher e pela vida, com elementos muito reais das relações humanas talvez nunca ditos de modo assim claro, preciso e direto. Ao mesmo tempo que aquela música envolvia tudo com tristeza.

Assim, na sua construção mais forte, o verso simples, bandeiriano, você ainda quer morar comigo?, articulado ao sentido geral elegíaco e delicado, muito dedicado imaginariamente ao objeto da canção, que toma tudo no sujeito e que se condensa na voz de quem canta sabendo que tudo está perdido – tudo transmitido sem nada ser dito – é capaz de recuperar imaginariamente o que uma história de amor produz, de modo simultâneo à dor de seu fim, de tudo perder. É uma das experiências do amor complexas, na sua face negativa, no extremo da perda de si e do outro, que o verso e a canção transmitem de forma impressiva, em uma voz realista. Lô era o cantor do luto e da melancolia da vida comum de um jovem de Minas Gerais e do mundo de 1970 e a expressava – e lá se vai, mais um dia… – em uma linguagem que ia claramente da concretude do rock, de Lennon e McCartney, ao próprio amigo Milton Nascimento, passando pelo canto modernizado de Caetano Veloso. De fato, “Um Girassol Da Cor Do Seu Cabelo” era a sintética e ainda mais melancólica “For no One” jovem brasileira. Uma beleza.

eixar o coração bater sem medo… A tristeza que marca o “Clube da Esquina”, e a qual se reage com todas as forças do conhecimento da música que aqueles músicos de fato tinham, era o nome de um medo transfigurado, que habitava o todo social, que desejou beleza e vida naquela passagem histórica muito obscura. O país estava sobe o signo do AI5, de uma ditadura extremada, e os cavaleiros marginais, banhados em ribeirão, que conheciam os homens e os seus velórios, que encontravam amigos num hotel no céu, que era o seu próprio Clube, que buscavam não sentir pavor diante dos ratos soltos na casa, cantavam com expressão e contenção a uma pura beleza sem motivo, o desencanto de uma geração linda e livre que se via em recesso, contida na força de alguma ação possível, despedindo-se definitivamente do tempo festivo da contra cultura de ainda ontem, sustentando a beleza suspensa sobre toda a realidade histórica ao redor, um mundo impossível, um verdadeiro campo de medo.

O que vocês diriam dessa coisa que não dá mais pé, o que vocês fariam pra sair dessa maré… o que era pedra virou homem… O sonho do hotel da arte, situado no céu, de seu trem azul, do clube da esquina, era um sonho suspenso, elevado, como um dia foi o Claro Enigma de Drummond, sobre a realidade histórica que desabava com força em outro mundo, avesso, de choque, ruído, violência e vulgaridade. No mundo do clube, os homens que ficam calmos, calmos, calmos, calmos, calmos, por causa do gás lacrimogênio a que se acostumaram, são os homens cantados em uma graça e inteligência musical esplendorosa, uma homenagem limite de jovens à sua própria humanidade perdida. Aqueles homens tristes e paralisados mereciam o trabalho extremo e amoroso de um grupo de amigos artistas, para ainda continuarem sendo homens, Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso…

Os pontos de vista melancólicos da obra, como a lindíssima e então instrumental “Clube da Esquina no.2” – que posteriormente ganharia letra e o verso dos homens calmos diante do gás lacrimogênio do tempo, no Via láctea de Lô Borges – eram de fato a presença da beleza, e da percepção da realidade social barrada no plano do lirismo, que desafiava o próprio mundo concreto liquidado ao redor. A fragilidade afirmativa da beleza e do conhecimento confrontava o tempo degradado, exatamente como um dia esta razão da forma poética dialética apareceu, deste modo, em Drummond. A utopia da beleza, que fala de outro lugar – daí as constantes referências aos lugares imaginários enigmáticos e solares de Lô Borges –  e sua torção negativa na própria vida subjetiva das canções, era a forma limite de falar a verdade e confrontar a ordem da história em um único movimento, da música e do espírito. Tão forte quanto tão fraca, tão frágil quanto tão poderosa.

A dialética entre a voz divina que tem contato com o chão da terra, de Milton Nascimento, e sua lírica específica, e a voz da vida, que eleva sua dor real ao céu e até o sol, de Lô Borges, é um dos segredos mágicos do “Clube da Esquina”. O encantamento transcendental de Milton, que também é mundo, se reverte no mundo real de Lô, que, ao fim do próprio movimento, pega um trem direto para o céu aberto e solar. A dialética entre imanência e transcendência alcançou assim um grau único, de quase paroxismo na obra dos jovens músicos mineiros. Podemos evocar, para dar conta deste descompasso que se tornou pura produção, um dos tantos comentários ao advento desse trabalho de arte e do impacto dessa obra em tantos de nós. Podemos lembrar o modo como uma das personagens importantes, fontes dessa história, sujeito maior do processo da modernização da música e da canção brasileira, se posicionou diante dos dois jovens gênios do Clube. Tom Jobim um dia afirmou, sobre Milton Nascimento: “Meu Yauretê, minha onça verdadeira, você é o rei da floresta, o rei da mata brasileira, meu taquaraçu de espinho, meu carioca mineiro, meu amor e meu carinho, uirapuru verdadeiro.”

Tom Jobim, que é uma medida histórica clara para a música popular brasileira, se referia a Milton, em registro de Mário de Andrade e de Guimarães Rosa, como uma força da natureza, advinda da particularidade do Brasil. De fato uma força inventada pelos códigos de acento ideológico de nosso romantismo e modernismo. O próprio Tom, ao longo de sua vida, passou a acentuar mais e mais o aspecto telúrico e encantado de uma natureza brasileira mítica, suspensa no limite da condenação, evitando com a metáfora de fonte real cuidadosamente dar nome ao Brasil moderno que projetara com a sua arte e que se degradava realmente na história catastrófica da modernização conservadora nacional. Ele incluía Milton na própria matéria e força daquilo que lhe era mesmo mais caro: o Brasil, a sua força encantatória de diferença, da tradição inventiva e letrada de nosso modernismo e seu compromisso. Para ele, Milton era simultaneamente uma realização do projeto estético e político que era também o seu e ainda mais, a coisa mesma deste projeto. Carioca mineiro, uirapuru verdadeiro.

E sobre Lô Borges? Tom Jobim se posicionou de outro modo a seu respeito. Ele nunca falou nada sobre o hippie lindo e triste, rei das estradas de Minas até o mundo. Não havia porque falar. No entanto, ele simplesmente retrabalhou, retraduziu e rearranjou ao seu modo cosmopolita e muito elegante “Trem Azul”, e a gravou em seu último disco… Uma versão duplamente maravilhosa, de uma música maravilhosa, que ligava as pontas históricas do processo da música popular brasileira moderna, do gênio musical da bossa nova dos anos de 1950, que recebeu o jazz no samba, ao jovem livre já marcado na carne e na alma pelo rock e pelos Beatles, dos anos de 1970. De fato, não me recordo efetivamente de Tom gravar nenhuma canção de nenhum músico brasileiro posterior à sua própria geração. Com a exceção evidente das suas próprias parcerias com Chico Buarque, um músico moderno que se formou sobre o seu impacto, nenhum músico do processo acelerado de transformação de nossa MPB chamou particularmente a sua atenção. Apenas aquele Trem de Lô interessou de fato à consciência musical e histórica do maestro brasileiro, em um ato claro de crítica de artista, e de amor, que fala demais dos vínculos internos e arcanos, de desejo e de sonho, da história moderna de nossa música. Tom Jobim, Lô Borges… Dito assim, poucos acreditariam haver um canal subterrâneo significativo de experiência musical brasileira ligando artistas aparentemente tão diferentes… No entanto o próprio Tom revelou a existência desta história de continuidades e deslocamentos.

Haveria ainda muito o que falar do disco, em outras chaves de sua performance e aparição. Dos arranjos percussivos, e de sua natureza, por exemplo. Das guitarras acentuadamente estranhas e seu impacto sobre quem ouve. Das camadas sonoras cuidadosamente preparadas para a camada sonora irradiante da voz de Milton. Dos tempos escandidos e subitamente acelerados das melodias de Lô – como aquela nota longa que sustenta o verso mais radical da história da música brasileira, em “Trem de Doido”, um simples “É”, que organiza toda a dinâmica imprevisível da melodia e da canção.


Mas também, temos muito o que não falar deste disco… Os brasileiros sempre tivemos muito cuidado para ouvir e conversar sobre o “Clube da Esquina”. Há um consenso de estarmos diante de uma espécie de limite, de um verdadeiro máximo de dotação de forma para uma experiência e tempo. Um limite que além de genial formalmente transcendia a experiência do ouvinte em um outro campo das coisas humanas. Dos nossos importantes discos de culto, os discos sempre ouvidos em um espaço de encantamento único e com o maior respeito imaginável, como “Transa”, “Jards Macalé” (ambos, aliás, também de 1972) ou o álbum branco de João Gilberto (de 1973), o “Clube da Esquina” sempre deu a impressão, e produziu a prática social desse efeito, de estar ainda em uma outra região das coisas do sentido. Dos grandes discos de experiência de culto da moderna música brasileira, o Clube avançou abertamente sobre o campo do sagrado. Diante dele há uma reverência e um silêncio, que precisam ser mantidos, e que ele impõe com toda justeza. É um fato musical e humano importante que muitos de nós, e eu mesmo, sempre tenhamos evitado ouvir em demasia este disco. O impacto profundo e amplo do disco, fortemente afetivo, que colore o mundo de enigma, tristeza e beleza, em formas musicais únicas e sem referente, de alta consciência do próprio fazer, tinha efeito aprofundado sobre seus ouvintes desde sempre, e os mantinha suspensos a respeito de seu mistério e do mistério da própria vida. Era preferível guardar aquela impressão absolutamente irreprodutível, mantê-la no ponto original do encontro de uma matéria tão especial a respeito da vida que fazia da sua forma a vida mesma.

E esta experiência certamente não era a da repetição. Ela não era afeita à reprodução vazia e infinita, própria da obssessividade industrial tentando sempre preencher com a experiência de baixa intensidade o mundo empobrecido criado pela própria vida sob o regime da indústria. O “Clube da Esquina” nos afetava em profundidade, atravessando inteiramente o sujeito como um verdadeiro sonho desconhecido, e nós, que sabíamos do lixo ocidental, simplesmente éramos aquilo que ouvíamos. Nos éramos o “Clube da Esquina“.

*Tales Ab´Sáber, ensaísta e psicanalista, autor de, entre outros, A música do tempo infinito (Cosac Naify), Lulismo e carisma pop (Hedra) e Ensaio, fragmento (Editora 34).
(Disponível em http://www.radiolaurbana.com.br/um-clube-no-ceu-do-brasil/)

quarta-feira, 29 de março de 2017

Convite : falem para mim sobre essa capa


Lembram do famigerado artigo sobre o Disco Minas que eu comecei a escrever faz mais de um ano? O problema é que eu fico muito sensibilizada ouvindo e não consigo escrever sobre,  mas  a ideia ainda  é terminá-lo, agora quero pedia ajuda .. 

Essa é a capa do álbum, uma foto de Cafi retratando Milton Nascimento (1975). Tenho que descrevê-la e falar algo sobre ela, mas acho que ela é tão definitiva que mal posso comentar. 
Gostaria de ouvir outras pessoas comentando sobre ela antes de concluir minha definição. Alguém pode ajudar?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Milton Nascimento rocker




Para mim, pessoalmente, o fato do Milton Nascimento ser rocker importa muito pouco, mas esta é uma informação que surpreende muitos e pode, sim, inaugurar uma nova sensibilidade e compreensão do som do Bituca e da sua turma (Clube da Esquina) , ou seja, pode mudar a narrativa da sua participação na História da Música, como desejava o professor Ivan Vilela neste artigo ...