quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
UAKTI : Arrumação de Elomar Figueira de Melo
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
SOBRE O ELOMAR FIGUEIRA MELLO E VER TUDO COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ
Tentemos algumas definições pessoais rasas para esses conceitos:
*A idéia de 'infância' pode ser facilmente relacionada à 'duração' - que seria a união das camadas de tempo - passado, presente e futuro- em um só momento...Isso está teorizado em Bergson e seu conceito de ‘Durée’ , e também está em Benjamin –sem tanta conceituação- que a explicou como sendo um relâmpago em uma noite escura que, por alguns segundos, ilumina tudo: o que veio o antes, o que está acontecendo agora e também o que virá depois... eis uma boa alegoria sobre a condensação das camadas temporais!
*A 'epifania' é um comportamento usual de crianças, pois seria o momento do contato com o divino, o superior que, em literatura, aparece sempre que se experimenta uma surpresa que funciona como alguma espécie de suplência...isso está em Rosa o tempo todo: a manifestação de algo divino é sempre uma suplência em relação ao mundo histórico, e essa mediação costuma ocorrer pelo uso de formas da cultura popular.Isso está em Bosi! Mas para a expressão da linguagem das crianças, podemos identificá-lo no uso recorrente da ‘palavra mágica’ , que é quando elas começam a perceber que falando sobre seus desejos, eles acontecem (de ter a mãe perto,de comer, de brincar...), como se fosse uma “encantação mágica”, como teorizou Todorov. Assim, para as crianças, as relações entre o vivido no tempo e o percebido por elas ultrapassam a simples ficcionalização da qual falou Costa Lima (e eu adoro)...
Na minha dissertação sobre Tutaméia, eu chamei o tempo problematizado dos textos de Rosa de "não-história": um momento do tempo onde o próprio tempo fica em suspenso. Tem muito pano pra manga nisso aqui... é um doutorado! (rs)
Certo, e o que isso tema ver com o Elomar?
Como eu jpa tinha escrito aqui, quando eu tinha treze anos (uma criança!), ouvi pela primeira vez a "cantiga de arrumação" e fiquei morrendo de medo daquela música! Era estranha, assustadora, rude...e eu queria ouvi-la mesmo assim, muitas vezes, ouvir a "música do feijão" - que era a única palavra que eu entendia na letra... Vamos ouvi-la novamente:
Hoje em dia, eu sempre estou dizendo e pensando que gostaria muito de ouvir essa música “como eu a ouvia das primeiras vezes”: com todo aquele ar de estranhamento, porque é ouvindo Elomar agora - quando eu conheço bem a canção e até consigo cantar-, sinto vontade de ouvi-la "como se fosse a primeira vez", que era como eu a ouvi quando criança.
Será que é essa a busca do adulto que se volta ao olhar infantil? Reencontrar essa sensação? Poxa, isso é deveras interessante, não acham?
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
CANTIGA DE ARRUMAÇÃO
Em 2003 eu fiz uma viagem a Minas Gerais, passei dias seguido de Belo Horizonte até Diamantina e vivi muitas experiências estéticas, simbólicas, históricas, musicais e emocionais... Uma delas aconteceu em Diamantina, quando um casal que estava em lua de mel se contaminou com o clima seresteiro da cidade e começou a tocar e cantar em praça pública uma música que eu conhecia de muito tempo, e sempre chamou violentamente a minha atenção: era estranha, a letra era incompreensível e a sonoridade era toda nova, me dava medo... Era a cantiga de Arrumação, do cantador Elomar Figueira de Melo.
Recapitulado: Eu estava no norte de Minas- e um casal em lua de mel começou a cantar uma música que eu conhecia e que sempre me causou medo pelo estranhamento das linguagens utilizadas... deu para perceber, né? Estranhamentos lingüísticos sempre me chamaram a atenção. Eu lembro que eu escutava a finada Musical FM, a rádio MPB e foi nela que entrei em contato com a fina flor da música popular brasileira como Clube da Esquina, Chico e Caetano, Bossa Nova, Rita Ribeiro e... Elomar... Quando eu ouvia os acordes iniciais de Arrumação sentia um medo (medo do que eu não compreendia) mas não conseguia trocar de estação...só pensava “xi, de novo a música do feijão”, já que esta era uma das poucas palavras da letra que eu sabia o que era...(naquela época eu nem conhecia Guimarães Rosa ainda...) acabei me esquecendo dela, já que a Musical morreu e quando o casal começou a cantar, avisando que iam tocar uma música um tanto diferente da sonoridade das serestas dimantineiras, mas ainda assim com seu sentido para aquela viagem, já que estávamos a porta de entrada do sertão, quando Minas se aproxima da Bahia... Elomar é do sertão da Bahia, de Vitória da Conquista, cidade que está sempre aparecendo em minha vida, mas que ainda não conheci... Hoje senti saudade de um lugar que não conheço mas que eu sempre desejei, de Vitória da Conquista. Vamos ouvir a assustadoramente diferente canção de Elomar: