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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Glintch: nada demais na sciecefi!




​Talvez por ser ficção científica, a Netflix me indicou a série Glitch (2015) e eu a maratonei. Não porque ela seja do tipo viciante, mas porque me divertiu mesmo. Trata-se de um produto desenvolvido para a TV australiana (como é bom ver um ambiente diferente dos EUA!) e conta a história de sete defuntos que levantaram do túmulo. Mas não se trata de uma série de zumbis ou terror: a tentativa de explicação, nem sempre desenvolvida com sucesso, vem primeiro da ciência, de um possível erro em experimentos com células-tronco, mas que deu origem a muitos conflitos, afinal, nenhum ressuscitado tinha deixado suas pendências resolvidas quando morreram na pequena cidade de Yoorana  e usam a segunda chance pra se resolverem . No polêmico final, do qual devo ter sido uma das poucas pessoas que até gostou no contexto aerado do roteiro, foi o mais perto de um final feliz possível, onde vida e morte se enfrentam.


​Não é um roteiro robusto, nem mesmo uma execução de encher os olhos. Não se compara às melhores séries de ficção científica, como Dark, mas me distraiu por algumas horas... passou meu tempo divertidamente.

UM PLUS : Assistindo essa série lembrei muito dos "ressurgidos" romance "oração para desaparecer" , de Socorro Acioli... especialmente pela forma como os sujeitos ressurgem da terra e depois ficam como corpos vazios de memória, consciência, significados...no livro a protagonista ressurgindo precisou até encomendar uma história do " vendedor de passados "...


quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

"Oração para desaparecer" (2023), de Socorro Acioli: livro de outubro


Oração para desparecer : o livro de 2024

 Foi publicado em 2023 e como gosto muito da autora, pelas obras e pelo universo literário que a cerca, quis muito ler desde então. Era meu livro para 2024. E realmente foi. Eu li apenas no fim de outubro, mas pensei tanto nele que postei sobre desde março até novembro. 2024 será lembrando como o ano de Oração para desaparecer, não tem outra saída.

Mais ou menos na mesma linha do  primeiro romance da autora, A Cabeça do santo, mas com muito menos humor e mais referências simbólicas e literárias maravilhosas, Oração para desaparecer é um livro escrito por uma boa  escritora e sobretudo, uma grande leitora, que cita escondidinho, quem pegar pegou, ou então explicitamente, numa festa literária para quem gosta desse banquete, como eu.

O enredo é muito inventado, afinal Socorro, além de leitora,  é nordestina e bebe daquela cultura criativa desde sempre. Mas o mundo é tão grande que, o que ela acha que foi pura invenção, pode ter relação a alguma tradição cultural até então desconhecida, Tudo é um mistério. 

O livro  fala sobre uma "ressurecta", alguém que retornou da morte. Ela saiu de um buraco na terra, sem cabelo e com marcas de espancamentos e trouxe a imagem de uma nossa senhora, até que foi acolhida por um casal de idosos em Almofala, uma aldeia medieval portuguresa que existe de verdade.

"Almofala é uma palavra árabe, significa acampamento temporário. Al mohafala. Os mouros foram deixando muitos pelo caminho." p. 21

 Logo eles perceberam que ela "não tinha perdido as palavras" e "falava brasileiro". Era brasileira. Começamos sendo jogados na nossa própria história e discutindo as relações entre Portugal e Brasil. Tudo isso me lembrou muito o resultado do meu exame de DNA ancestralidade, muito África e Península ibérica. Não muito raramente alguém diz, talvez sem muita informação sobre, que tenho traços de MOURA. Uau!

A primeira parte do romance fala de como essa mulher tentou reunir pedaços de memórias e sonhos para saber quem era ela ou mesmo porque tinha morrido. Para continuar vivendo ela adotou o nome de Cida, pois havia aparecido e trazia nossa senhora. Cida se apaixonou pelo diplomata africano Jorge que gostaria de leva-la para conhecer o mundo .

Para viajar com Jorge, Cida precisava de documentos, um passado mais completo, daí que surge na trama Feliz Ventura,  personagem emprestada do romance "O vendedor de passados", de José Eduardo Agualusa. Feliz vai criar um passado para Parecida. Que teria nascido em 28 de outubro, seria de escorpião, novamente muito parecida comigo.

Na segunda parte Cida já se lembrou de bastante coisa da sua vida anterior. Lembrou que era uma mulher chamada Joana Camelo e vivia um amor com o biólogo Miguel,pesquisadora de cavalos marinhos. Joana  tinha sido abandonada pela mãe, em uma cidade também chamada Almofala, mas no Ceará , que existe de verdade. Essa cidade  é conhecida por ter tido uma igreja soterrada por areia por décadas e, provavelmente, sua passagem a ressurrecta teria se dado nessa ocasião.

Resumindo , foi o amor de Miguel que a manteve viva por tanto tempo,o mesmo tempo em que a igreja de Almofala CE ficou soterrada, e a história desse livro,na verdade, é sobre esse amor.

Deu spoiler? Alguns.mas juro que não contei nem metade. É um baita livro. Amei amei amei.

Vamos ver como eles estendeu no meu 2024 todinho:

NAS MINHAS REDES SOCIAIS DE MARÇO A NOVEMBRO:

 

16 MARÇO

MARTINS FONTES: Entrei na da Consolação só pra passar vontade. Lá estavam expostos livros muito importantes pra mim, que eu tenho, "a visão das plantas", " palavra que resta", "o avesso da pele", "Torto Arado"E dois dos livros do meu total interesse agora : "Oração para desaparecer" (próximo livro que vou comprar, se Deus quiser!), o novo do Gabo (nem perguntei o preço pq ele é até de capa dura,deve morrer nele uns 10 usados)... Se tudo mundo lê online,livro físico devia ser mais barato!



 

9 MAIO


24 JUNHO

Faz tanto tempo que desejo ler esse livro, desde antes de ficar doente, mas ainda não achei usado a preço justo (como eu prefiro) e de outro jeito: prioridades... Mas ainda quero muito!

 

29 JUNHO

PAQUERA: Já cheguei até a esquecer dele em maio, tempos difíceis, mas cada vez mais fico de paquera com esse livro. Toda vez que vou ao Sesc Consolação, procuro na Martins Fontes, está sempre fácil,pego, fico namorando, leio um trecho da última capa,nunca o texto todo, devolvo e vou embora. Por enquanto não achei um usado acessível, mas com fé, em breve chega minha vez 🥰

 

15 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Digo-lhes a verdade : faz tanto tempo que eu queria tanto ler esse livro da Socorro Acioli, todo azul, com cavalo marinho e tudo, mas ele era inacessível pra mim, quando achava um exemplar na livraria, eles são estavam no plástico, não  consegui nem folhear, uma frustração. Como revolta, nunca li o texto da última capa, deixei para quando eu tivesse o meu. Agora tenho! Ganhei de presente do Fábio Flora  e da Fernanda Duarte , e foi tão intenso que fiquei igual a menina do conto Felicidade Clandestina da Lispector: cheia de rituais com ele... Uma delícia. No dia que ganhei nem tirei do plástico. No dia seguinte, com muito cuidado, afinal é uma edição delicadíssima, lavei as mãos para não sujar, abri, admirei sua beleza,CHEIREI muito tempo aquele perfume de livro novo 🥰

Fui abrindo e degustando devagar. Antes de começar a leitura eu não quis ler a orelha, nem a última capa (qualquer "spoiler" pode destruir meu encontro com o meu desejado livro) e fui direto pro volume. Constatei que é um romance curto, dividido em três partes compostas por pequenos capítulos (o primeiro de Acioli, "A cabeça do santo" também é assim, acho) , esse vai dar para degustar palavra por palavra, como gosto. Li as epígrafes. A primeira do Guimarães Rosa :"Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas guardadas,a poder de minhas rezas."💕💕💕

Aí lembrei que é um livro da Acioli, tudo  que é literatura oral faz sentido ali. Especialmente as rezas. Estava me reconhecendo nesse lugar. Decidi ler bem devagar,um mini capítulo por noite, hoje vou ler o segundo . Sei que qualquer espectativa é irmã da decepção, mas por favor, me deixem me enamorar por esse romance, sentir o gozo de possuí-lo um pouco, pois ele é tão lindo, tão desejável que quando estamos juntos não dá pra não lembrar da Lispector:  "não era mais uma menina com o seu livro, era uma mulher com seu amante "


16 OUTUBRO

LENDO ORAÇÃO PARA DESAPARECER : Estou adorando. Não estou conseguindo ler tão devagarinho como planejei, mas estou degustando devagar, anotando,  deixando ele fazer parte do meu dia (hoje levei pra ler no metrô e ônibus,foi um deleite...) Como boa literatura de realismo maravilhoso, estamos sempre no limite entre vida e morte. Poucas páginas lidas ainda, mas muitas referências diretas ou transversais ao Guimarães Rosa e Juan Rulfo (que escreveram sobre montes perto do céu, os páramos...). Por enquanto, para usar uma palavra linda que apareceu mais de uma vez no livro, é uma Literatura de realismo insólito. Durante  a leitura desfilam na minha cabeça lembranças de  Kafka , Cortázar, Lygia Fagundes Telles, Poe, Murakami e tantas rezas e cantigas que a gente vem ouvindo ao longo da vida. Adoro os textos da Socorro Acioli, são a minha cara 😍

 

18 OUTUBRO

ORAÇÃO: Fazia  algum  tempo  que eu não lia um livro que eu realmente queria ler, um livro escolhido pra ser meu, como eram os que comprava para ler no hospital com minha mãe ou durante a pandemia e a maioria me agradavam. Nos últimos tempos tenho lido coisas boas também, mas apenas os disponíveis na biblioteca. Com "Oração para desaparecer", esse presente cheio de significados, revivo o gostinho de estar com ele e comigo mesma nessa aventura sublime pelas palavras. Desde que comecei a ler, toda hora tenho vontade de me trancar sozinha e ficar lendo, lendo... Não posso, por vários motivos, mas o principal é que se eu ler muito ele, que é curtinho, acaba logo. Que puxa! Literatura sempre foi minha melhor interlocutora na vida, só agradeço 🙏🏾

 

21 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Cheguei na metade do livro,mais rápido do que queria. Gosto muito dessas histórias de realismo fantástico, conversas com mortos, símbolos, ancestralidade. Cida, a personagem principal, se parece mais comigo do que eu gostaria. A única coisa que não gostei muito foi da história de amor com Jorge, que foi narrada tão apressadamente que, justo eu, uma romântica, não me sensibilizei como poderia, nem a belíssima canção "A lua girou", do Milton ,citada apenas pelo nome, amoleceu meu coração. Talvez eu tenha gostado mais do primeiro amor antigo que aparecia em sonhos com cavalos marinhos  para beijar-lhe os búzios! Temos meio livro inteiro, quem sabe eu passe a gostar do casal Cida e Jorge. Veremos...

 

22 OUTUBRO

SOCORRO ACIOLI: É a melhor autora brasileira para escrever realismo fantástico. Se em "A cabeça do santo" ela ficcionalizou de forma bonita e divertida aquela  cabeça oca descolada da imagem e Santo Antônio que ficou como monumento na cidade do CE. Em "oração para desaparecer" , só descobri agora com mais da metade do livro lido, ela também trata de um evento insólito do CE. Já disse que amo? Leia autore(a)s nordestino(a)s!


23 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Se a  primeira parte do livro foi marcada pelo insólito,nesta   segunda o livro começou a contar sobre o que realmente importa na vida humana, uma história de amor, digna dos grandes romances de Gabo e outros autores de realismo maravilhoso latino americano, muito do jeito que eu gosto

Só uma pena que, adorando assim, a qualquer momento concluo a leitura, daí fico numa ressacada literária kkkkkkk

 

24 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Acabei de terminar a leitura. Que delícia de livro fantástico! Sem dar muito spoiler eu digo que, ouvindo a recomendação da mãe Malba, não li em voz alta a "oração para desaparecer",  que encere o romance! Vai que eu transmuto e reapareço em algum lugar longe,longe! Afinal, "não sabemos nada mesmo sobre o mundo"... Mas às vezes o escutamos como uma prece salvadora!


25 OUTUBRO

Meu aniversário e comemorei com o livrinho 

Com o colar de búzios de  Joana

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Não é um livro fácil de ser resumido, ele  tem muitas camadas, mas talvez a mais bonita se concentre nesse trecho :  "A vida é essa coisa atropelada, que passa muito rápido e as únicas pessoas felizes são as que atravessam o tempo entregues ao amor." Socorro Acioli. "Oração para desaparecer", p 161

 

5 NOVEMBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Estou adorando acompanhar a recepção do livro. Já ouvi muita coisa interessante, informativa, interpretativa. Essa é uma leitura longa. Eu li o livro rapidamente, anotando e  "comentando"  nas margens. A intenção era "revisar" depois  as impressões iniciais e adicionar post-its. Comecei a fazer isso ontem, conferi a primeira metade do livro e tanta coisa que tinha passado na primeira leitura, depois de concluída, de ouvir opiniões, de saber mais coisas,ganhou novos significados. A minha leitura final no Pequenidades, que escreverei em breve, alimentada por tudo isso,vai ser com spoiler e muito, muito,muito ancorada na minha identificação SURPREENDENTE com a personagem principal. Coisa que, desde o início, eu gostaria de negar, porém só vem aumentando, conforme a narrativa se consolida na minha mente. Grande livro, daqueles capazes de revirar nossos ocultos, como só a literatura é capaz...

 

8 NOVEMBRO

LÉXICO DE ORAÇÃO PARA DESAPARECER : Estou tão envolta nessa leitura, a qualquer hora darei à luz um texto sobre ela. Quando tiver tempo. Por hora, fiquem com uma leitura possível quase estrutural : Que é um livro literalmente fantástico, que une antepassados, vivos e mortos , eu já cansei de falar. Eu adoro esses enredos.

Relendo,por alto, destaquei algumas poucas palavras ou expressões que ganham um sentido especial nessa trama, pois  dão sustentação ela :

GEOGRAFIA DO DESTERRO: Fenômeno contado por antepassados segundo o qual algo que  desaparece em Almofala (Ceará)  é encontrado em Almofala (Portugal), ou o contrário;

DELÍRIO DO DESVELO: Sonhos que dificultam a capacidade de diferenciar real e irreal, mas que também revelam faces até então ocultas;

ENVULTAR-SE  ou Encantar-se:  é morrer ou enfeitiçar-se ;

HIEROFANIA:  Manifestação do sagrado;

(Na foto eu estou usando um colar de búzios africanos , que numa trama de "hierofania", chegou até mim há muitos anos, como "herança" dos antepassados e até agora me protege)

 

19 novembro

Eu ganhei o presente.
Divulguei e mais gente também ganhou ♥️



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Octeto feminino do Brasil : a trompa mesclando erudito e popular

 

Um conjunto de mulheres trompistas 

Fui de preto, pagando de moderninha 


O ano começa depois do Carnaval, se assim for, essa foi a primeira terça feira grande do ano, com terapia e Sesc Instrumental.
A terapia foi tranquila, conversamos sobre fim de longos ciclos essa ano e como eu cada vez crio menos expectativas em vão e isso me cansa menos, a vida fica mais leve. 
Depois passei na Martins Fontes :


Aí fui jantar e,apesar do calor, como já estava mesmo de preto, tomei minha tradicional sopinha Sesc
Pequenos grandes prazeres

Depois ganhei um grande presente, encontrei a Ana Carolina, amiga que não via há anos e foi muito especial 


Só então fechei o dia com meu  primeiro instrumental pós carnaval. E foi uma apresentação tradicional, destinada a um público de música instrumental, mesclando música de concerto e música popular, como eu gosto :



O instrumento da vez era trompa, um instrumento todo lindo e dourado:  um octeto de mulheres trompistas, parecia uma reunião de musas clássicas de roupa clara e metais dourados, tudo isso faz parte da apresentação bem planejada.. 

  
O ano realmente começou, vambora viver!


quinta-feira, 6 de abril de 2023

Batiputá: uma história sobre pai Oxósssi

 


BATIPUTÁ : Nesse livro INCRÍVEL ,organizado por Marcelo Moutinho, temos 18 contos inspirados nos arquétipos dos orixás. Estava louca pra ler, emprestei da biblioteca do Sesc Pompéia e fui ler o primeiro. Não sei bem o motivo (mentira, óbvio que eu sei, meu pai é caçador de uma flecha só, ele lança e eu só sigo rs), ou talvez porque hoje é quinta feira, fui direto na história sobre meu pai Oxósssi, Batiputá, escrita pela minha querida autora Socorro Acioli. Muito bom ...
Antes do conto, se explica um pouco do arquétipo do orixá
Capa e ilustrações: Antônio Gonzaga

 O conto é cheio de detalhes referentes aos mitos de Oxósssi: o silêncio, as abelhas, a flecha salvadora e única,  fala da encantaria (comentei sobre isso aqui esses dias), das mensagens dos orixás através de sonho (sempre acontece comigo, inclusive com Oxósssi), fala sobre caminhar sozinho na mata (me remete a uma rica lembrança de infância, que só depois de adulta, vislumbrei ter sido meu primeiro contato acalentador com meu pai Oxóssi e minha mãe Oxum). Me lembrei que um aspecto do arquétipo de Oxóssi não citado nesse livro, mas que eu conheço: ele é o orixá do conhecimento. Refletia Martin Heidegger, em seu "Caminhos de floresta", sobre problemas e soluções que encontramos numa caminhada difícil, algo que podemos ler como metáfora da própria pesquisa (busca do conhecimento). Esse conto é maravilhoso, super indico. Vou ler o livro com calma, se outro conto me interessar, volto a comentar.
Ainda sobre o conto escrito por Socorro Acioli, temos esse trecho

No conto, uma jornalista acompanha um grupo de pesquisadores que vão colher na mata o Batiputá, que é o líquido sagrado dos índios, que cura tudo, e vem  de presente dos encantados. Nesse trecho da página 53 do livro, depois de tomar o mocororó (vinho dos índios) ela se descola do grupo, entra na mata sozinha, e é salva pela flecha única de um índio bonito, que depois fica sabendo ser Oxósssi 💙💚🏹
Acho linda a manifestação de Oxossi na mata...

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

"A palavra que resta" (2021), de Stênio Gardel e a "carta que guardava uma vida inteira"

 

O romance de estreia de Stênio Gardel, “A palavra que resta” (2021) me surpreendeu muito para o bem.

Indicação da querida autora Socorro Acioli, cujo livro havia me interessado muito, pois é bastante divertido como comento aqui.  Ela encontrou Stênio numa oficina literária que ministrou e o ajudou a despontar. Embora eu tenha gostado de ambos autores, que abordam em seu livros a questão do ouvir e escrever, tenho que confessar que do livro de Stênio gostei mais, porque o romance da Socorro parece uma obra infanto juvenil (conclui quando li, só depois soube que ela é autora infantil premiada!) e isso não é nada ruim, já o Stênio é mais poético e em seu breve livro, tive que pregar post its em quase todas as páginas, destacando belos trechos. Vou comentar um pouco aqui, mostrando a premissa e esboçando uma leitura do livro a partir de alguns pontos principais que, encantadoramente, se entrelaçam na trama, mas lembrando que estas são as mais evidentes e que chamaram a minha atenção, pois o livrinho levanta outras discussões. A premissa:


Antes de falar da HOMOFOBIA, preciso falar do amor entre Raimundo e Cícero, que é lindamente retratado no romance em trechos retirados da memória de Raimundo, como este :

“Um em frente ao outro. O rio correndo por eles. O mundo, lá,a rodar em torno deles. Raimundo girou o corpo e se encaixou no peito de Cícero, que o amarrou com os braços de pouca carne. O queixo largo, de barba mal formada, se aninhou nos ombros de Raimundo. Olhares pareados buscavam a nascente. Eles arquearam as costas, dobravam as pernas em direção ao torso e mergulhavam nas águas antigas do mundo, no líquido embrionário do homem."(p.25/6)

Eu vi algumas entrevistas de lançamento do livro e sei que Rosa não faz parte das primeiras referências de Stênio, mas para mim, como leitora, não deu para conhecer esse amor homossexual sertanejo e não me lembrar do Grande Sertão. Não apenas por ter que ser escondido, por aparecer representado no romance via linguagem em trechos assim:

“... E essa mania de desafundar memória velha? e uma vai puxando a outra, só atraso isso, de ficar lembrando, acaba se esquecendo do mundo, olha aí,vou me atrasar, tem jeito não, tem não, que tem lembrança que parece noda de caju, fica na gente nem que você não queira, ENUBLOU minha cabeça..." (p.24)

Stênio que me desculpe, mas é que com esse "enublou" (palavra linda, sonora! Em seu som tem nuvem? tem blues? tem neblina? Só deu pra lembrar de Riobaldo: "Diadorim era a minha neblina”. E outros pontos comuns também: por exemplo, só Riobaldo chamava Reinaldo de Diadorim, como só Cícero chamava Raimundo por seu nome do meio, Gaudêncio, nome “denso de saudade, as cinco vogais e acentuado” (p.11), era o seu nome para o amor perdido. Tem também a história do pacto com o demo, para trocar de corpo, que seu Baraúna contou ao Raimundo e Cícero lá na juventude e era muito “BOM DE OUVIR”(Ele usa essa expressão que eu ADORO!Grifo meu, p. 115), cheia de marcas orais “uma chance dessa na vida, de falar com o demo assim cara a cara, a gente não desperdiça, (sem ela) que história eu ia contar pra vocês?(grifo meu, p. 117) e a dúvida de Cícero era se não podia trocar, não o corpo, mas o que tinha por dentro, marcando o amor que sentiam  como algo da ordem do maligno.

Em uma comunidade rural, tradicional, mais ou menos por volta da década de 1950, um amor assim, mesmo adolescente, teria dificuldade em ser aceito e Raimundo sentiu isso nas costas feridas pela surra do pai, mas o que doía mais era o silêncio da mãe, que transformaram Raimundo em Imundo, pois ele mesmo chegava a achar, às vezes, que o desejo por outro homem o sujava e ele teve que abandonar a casa e viver nas estradas, como chapa de caminhoneiros, fazendo serviço braçal, de macho, sempre escondendo sua sexualidade e usando cines pornôs para se aliviar. Foi no cine que ele conheceu a travesti Suzzaný, que ele ,de início, obedecendo a cultura em que foi educado, também rejeitou , agrediu, chamou de aberração, até que na cena da farmácia (126-8), uma das que mais me emocionou, Raimundo é obrigado a se colocar no lugar dela e perceber o quanto ele próprio tinha sido implacável e preconceituoso.

 Outro ponto de meu total interesse, como leitora e pesquisadora, é a questão da  alfabetização e não alfabetização, que é tão ricamente abordada no romance. A questão do Cícero ter escrito uma carta a Raimundo, que nunca aprendeu a escrever, mas sempre prometia que ia ensiná-lo as letras, o mantinha preso à situação de, em um mundo todo escrito, “não saber (ler) é quase ser cego podendo enxergar” (grifo meu, p. 19), até que, já idoso, decidiu estudar, porque de menino não teve oportunidade, então as

“mãos que talvez merecessem um descanso, é verdade.O tanto que fizeram. Mas por quê? Se tinham força para agarrar mais, viver mais? Então que fosse! E se adaptaram que foi uma beleza à nova tarefa. Era o possível mais certo, o encontro mais interessante, esse, a mão, o lápis e a folha de papel.”(grifo meu p. 30)

E depois, em outro momento poético, decidiu trocar o documento, pois já sabia assinar,

“não tinha motivo para ficar com documento só com a marca do dedo e ainda um carimbo vermelho, analfabeto. Tinha que trocar, que ele era outro. Saber ler e escrever estava fazendo isso mesmo. Raimundo Gaudêncio de Freitas no papel. Alfabetizado. Palavra das grandes, tem “a” e “z”, a primeira e a última. Alfabetizado sabe do “a” ao z”. mas escrever nome é mais que saber as letras. Tinha que juntar uma na outra e se juntar a elas. Só assim faziam do nome completo mais que letras, todo ele, de “a” a “z”. ´(grifo meu, p.27)

Que linda essa parte! Eu, que no curso de licenciatura, fiz um estágio no curso de alfabetização dos funcionários terceirizados da USP (sim, muitos dos trabalhadores da maior universidade da América Latina eram analfabetos e se não fosse uma iniciativa discente, assim continuariam), sei mais ou menos o quando letramento significa, sim, DIGNIDADE!

Mas o caso do Raimundo, que decide estudar para ler, ele mesmo, a carta que, violentamente, Cícero havia escrito para ele, não estava resolvido, pois ele sabia ler, escrever, mas será que o suficiente para ler aquela carta que “se arrasta, está aqui, se duvidar mais inteira do que eu”(p.88), e não se resolve com a alfabetização, porque a carta foi escrita para ser ouvida, mas nunca que Raimundo dividiria essa intimidade com outros, mesmo que tivesse medo de ler e o sentido ficar todo furado.

A Isabela Lubrano, do canal Ler antes de morrer, fez uma resenha bastante azeda desse livro, defendendo que quem se interessa pela premissa nem precisa engrenar na leitura, pois o resultado final deixa a desejar. Eu, como quase sempre,discordo fortemente dela, pois temos gostos literários distintos. Na verdade, na polifonia de vozes da narrativa, a carta e seu significado pleno -que é elemento principal da vida de Raimundo e também do romance- acaba ficando um pouco “enublada” na trama, como se Stênio estivesse guardando esse segredo tão íntimo dos amantes só para eles mesmo. Mas isso não depõe contra o romance, são tantas coisas abordadas nele, como tentei mencionar algumas aqui, que acaba ficando um mero detalhe.

Enfim, que livro, meus amigos, parabéns e obrigada Stênio Gardel!

Um apêndice: Flor símbolo do amor juvenil entre Raimundo e Cícero, a papoula amarela e vermelha virou um signo que resistiu ao tempo e foi capaz de substituir a cruz à margem do rio, colocada há muitos anos devido a uma morte por homofobia. Esse livro tem sua simbologia

"Nas peles nuas, a saliva dos beijos e o suor dos abraços irrigavam, dentro deles,
raízes fortes, de agarrar as tripas e o que mais tivesse dentro. Até a alma. E as raízes
faziam das veias seiva e cresciam pelos poros como galhos trepadeiros em direção ao sol.
Quando se tocavam, se engarranchavam e viravam uma planta só, com flor que se abria
sobre o peito. Papoula amarela de cálice cor de sangue."(p.21)


PLUS: EM 28 DE AGOSTO: 

Stênio Gardel leu este post e comentou no Instagram. Eu respondi que é porque o texto dele me permite ler assim. Acho que eu achei 1.autor que é do meu tipo e ele achou uma leitora como gosta. FORMOU !

🤩 📚






 

 




sábado, 22 de maio de 2021

Era uma vez a cabeça oca do santo e o homem que morava nela, por Socorro Acioli


As capas do livro, a da esquerda de papel e da direita da encadernação

Na alegre capa amarela que reveste. A encadernação do livro "A cabeça do santo"(2014), da cearense Socorro Acioli, José Eduardo Agualusa diz que o primeiro romance de Acioli "é uma festa". Um livro que nasceu a partir de uma oficina literária ministrada pelo Gabo, que  Acioli participou, como conta aqui nesta entrevista deliciosa onde, entre outras coisas, ela revela que muito do "fantástico" narrado no livro realmente acontecia no Ceará. Assim é o realismo fantástico, quando o maravilhoso acontece na realidade. O fato é que o livro é para ele, uma gratidão gostosa de se ver
                               

Gabo, grande nome do chamado realismo maravilhoso latino americano, realmente frequenta as páginas de Acioli, em momentos como a descrição da família matriarcal, onde as matronas sempre sabiam o dia de sua morte, como se vivessem em Macondo, mas que Acioli jura que acontece na família dela!
Agora que terminei a leitura, sou obrigada a concordar com Agualusa: novamente voltamos ao berço da literatura: o conto maravilhoso e as alegrias da narrativa oral, até o clássico Pedro Páramo, de Juan Rulfo é citado na conversa do protagonista com sua mãe no começo do romance. Mas demorei pra concluir como era essa narrativa, e logo no começo da leitura já questionava:
                                           
Conforme fui avançando na leitura, tinha sensação que estava lendo um livro juvenil, fantástico mesmo, e   fui entendendo e gostando mais. O livro é bem curtinho, pouco mais de 150 páginas, dividido em quatro partes e com 3 breves capítulos, como se fosse mesmo uma história contada de boca a orelha. 
Conta a história de Samuel, que sai de Juazeiro do Norte e vai a pé até  uma  pequena cidade onde sua mãe nasceu, para atender uma promessa que ela fez para ele pagar, que consiste em procurar seu pai e avó na fictícia Candeia e acender 3 velas aos pés das imagens do Padre Cícero em Juazeiro; de Santo Antônio em Candeia e por último de Santo Antônio em Canindé. Reverenciando a "santíssima trindade" da fé popular nordestina. 

A ideia do filho pagar promessa que a mãe fez, pelejando e esmolando, me lembrou o Grande Sertão, na passagem em que Riobaldo estava esmolando na passagem do Rio De Janeiro para o São Francisco e  encontra um menino nessa travessia simbólica e cheia de significados, como uma passagem pra maturidade. 

Voltando ao romance de Acioli, depois de  acender a vela para padre Cícero, Samuel que sobrevivia de vender  relíquias aos romeiros, mas em santo não acreditava, segue para a fictícia Candeia, onde a trama se desenvolve, e que quando ele chega é quase uma cidade fantasma. O diferencial é que, por algum erro,  a estátua de Santo Antonio, padroeiro de lá, foi decapitada e a cabeça oca do santo, descansava ao lado do corpo e é lá que Samuel vai morar enquanto procura por gente de sua família.
Como é forasteiro, logo faz amizade com o adolescente Francisco que conhece todos na cidade e com  planeja golpes engraçados e fracassados  para sobreviver e, muito ao modo de João Grilo e Chicó de "O auto da compadecida", de Ariano Suassuna, pensam que "iam fazer estrago em Candeia. Riam das desgraças, suas e dos outros. Desgraça é tudo coisa de se rir"  (p.51)
Realmente o romance me arrancou gostosas gargalhadas, em momentos cômicos tão brasileiros  como quando um pai dá o nome de Madeinusa à sua filha,  pois era tão bonita quanto o rádio que comprara "Made in usa" e seu nome veio do estrangeiro, ele só fez "juntar as letras" ( p. 53) 

 Esse santo sem cabeça e a cabeça oca ficaram representado uma maldição para a cidade e qual não foi a surpresa do descrente Samuel, cuja lei era que "santos são pedras e só pedras" (p.48), começou escutar "a rezalhada das mulheres pedindo ao santo para casa e, falando de homem" p.38, e isso foi se tornando imenso, e "aos poucos aquela cabeça já se tornara um apêndice anômalo do seu corpo, um útero, um gigantesco saco gestacional ligado a ele por aquela absurda capacidade de ouvir orações e música" p.69. Coube ao rapaz tentar aprender a lidar com tais fenômenos.

Mas você pode perguntar onde está o Gabo? Em todo o romance, a ideia, o desenvolvimento, as narrativas cheias de sonho, maldições  e premunições, no entanto não tenho como não dizer que se trata de um romance nordestino, do começo ao fim. É como se Gabo fosse escrever em Juazeiro sobre a realidade local, uma delicia de livro!

(Nesse a partir deste parágrafo , pode haver spoiler) Ouvir e escutar são os verbos centrais do livro: ouve-se rezas, falas, cantigas, até de países africanos (na cabeça do santo Samuel ouve uma moça que canta mornas cabo-verdianas), afinal, palavras são cantigas, como já diria o Rosa. Como  trilha sonora de leitura, escolhi essa canção, do coração do Brasil, cujo significado é até "explicado" por uma personagem ao Samuel :

"-Esse negócio de força estranha. Você sabe o que é? (...)
- Saber eu sei, só não sei explicar. 
- Adiantou nada.
-Assim, eu acho que a gente sabe quando vem, a força estranha chefa e pá!, a gente sente. Quando ela toma conta, a gente faz  o que quer fazer por cima de pau e pedra, não tem cão que segure. Acho que vem de Deus."(p.160)

Enfim, trata-se de um romance fantástico propriamente dito, contando a história de um o herói (às vezes anti-herói), de  que é de origem humilde, sofre muito com a solidão e privações ou que passa por grandes privações, em determinados momentos, consegue triunfar na comunidade onde vive, lembrando sempre que, não importa quanto ele brigue com essa verdade, mas sempre "o santo estava ouvindo" (p.14)

Adorei mesmo essa passagem divertida pelo delicioso mundo do na narrativa maravilhosa, nesses tempos de quarentena e pandemia, não tem coisa melhor!
Obrigada Gabo, obrigada Acioli

P.S. Quer ver como as coisas incríveis acontecem MESMO na realidade? No nordeste existe mesmo o santo decapitado, na cidade de Caridade 

Cabeça do Santo real, de Caridade https://www.youtube.com/watch?v=XHxl2pfj_ys