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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Guimarães Rosa Diplomata


Vamos ler uma carta escrita por Guimarães Rosa?Tem gente que fala que esta carta foi enviada por Rosa a João Cabral de Melo Neto, mas na verdade - como está no livro "Guimarães Rosa diplomata" p. 160-1 - ela foi escrita em resposta ao ao diplomata Jorge Kirchhofer Cabral, trata-se de uma correspondência profissional! De qualquer forma acho primorosa a carta.

"Consul caro colega Cabral,
.
Compareço, confirmando chegada cordial carta.

Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada consolidação confraria camaradagem co...nsular.
Conte comigo: comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente condições compendiadas cláusulas contexto clássico código. (Contristado, cumpre-me consolidação coligar cordialmente conjunto colegas?...crês?...crédulo!...considera:...”cobra come cobra!...” coletividade cônsules compatrícios contém, corroendo cerne, contubérnios cubiçosos, clãs, críticos, camarilhas colitigantes... contrastando, contam-se, claro, corretos contratipos, capazes, camaradas completos.) Concluindo: contentemo-nos com correspondermo-nos, caro Cabral, como coirmãos compreensivos, colaborando com colegas camaradas, combatendo corja contumaz!...

Contudo, com comedida cólera, coloco-me contra certos conceitos contidos carta caro colega, cujas conclusões, crassamente cominatórias, combato, classificando-as como corolários cavilosos, causados conturbação critério, comparável consequências copiosa congestão cerebral. Caso concordes cancelá-los , confraternizaremos completamente, com compreenção calorosa, cuja comemoração celebrarei consumindo cinco chopes (cerveja composta, contendo coisas capiciosas: corantes complicados, copiando cevada, causando cólicas cruéis...)

Céus! Convém cobrar compostura. Cesso contumélias, começando contar coisas cabíveis, crônica comtemporânea:
Como comprovo, continuo coexistindo concerto conviventes coevos, contradizendo crença conterrâneos cariocas, certamente contando com completa combustão, cremação, calcinação corpos cônsules caipiras cisatlânticos...

Calma completa? Contrário! Cessado crepúsculo, céu continuamente crepitante. Convergem cimo curvos clarões catanúvens, cobrindo campinas celestes, crivadas constelações.

Convidados comparecem, como corujas corajosas, contra cidade camuflada. Coruscam célebres coriscos coloridos. Côncavo celeste converte-se cintilante caverna caótica, como casa comadre camarada. Crebro, cavernoso, colérico, clama colossal canhonêio. Canhões cospem cometas com cauda carmesim. Caem coisas cilindro-cônicas, calibrosas, compactas, com carga centrífuga, conteúdo capaz converter casas cascalho, corpos compota, crâneos canjica. Cavam-se ciclópicas crateras (cultura couve-colosso...). Cacos cápsulas contraaéreas completam carnificina. Correndo, (canta, canta calcanhar!...) conjurando Churchil, conjeturando Coventry, campeio competente cobertura, convidativo cantinho, coso-me com chão, cautelosamente. Credo! (como conseguir colocar-me chão carioca Confeitaria Colombo, C.C., Copacabana, Catumbi???)
Cubiço, como creme capitoso, consulados Calcutá, Cobija!... Calma, calma; conseguiremos conservar carcaças.

Contestando, comunico cá conseguimos comboiar cobre captado (colheita consular comum), creditando-o cofres consignatário competente, calculo consegui-lo-ás, contanto caves corajosamente.

Conforme contas, consideras cós curtos como cômoda conjuntura, configuradora cinematográficoa contornos carnes cubicáveis. Curioso! Caso curtificação continue, conseguiremos conhecer coxas, calças?...Cáspite
Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conhêças:


CANTADA


Caso contigo, Carmela
Caso cumpras condição
Cobrarei casa, comida,
Cama, cavalo, canção
Carinho, cobres, cachaça,
Carnaval camaradão
Cassino (com conta certa)
Cerveja, coleira e cão,
Chevrole cinco cilindros
Canja e consideração,
Calista, cabelereiro
Cinema, calefação,
Chá, café, confeitaria,
Chocolate, chimarrão
Casemira – cinco cortes
Cada compra, comissão,
Conforto, comodidades,
Cachimbo, calma,... caixão,
Convem-te, cara Carmela?
Cherubim!...Consolação!...
(caso contrário, cabaças!
Casarei com Conceição.)
Caso contigo, Carmela,
Correndo com coração!...

Chega. Caceteei? Consola-te: concluí.

Com cordial, comovido: colega constante camarada,

Consul, capitão, clínico conceituado.

Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.


João Guimarães Rosa"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uma antologia dos bilhetes que as crianças italianas mandavam ao Menino Jesus




No Natal de  2008 Elias Thomé Saliba publicou esta resenha de um livro interessantíssimo, especialmente para historiadores que se dedicam a infância e história, como eu:

''Quero seu autógrafo, eu faço coleção''
Editora italiana reúne em antologia bilhetes enviados por crianças a Jesus
Elias Thomé Saliba

E, na Itália, Jesus desbancou o Papai Noel como patrono de tantos pedidos, sonhos e esperanças infantis. É o que se conclui depois que a Editora Sonzogno anunciou a publicação da terceira antologia que reúne as melhores cartas que as crianças italianas, de até 11 anos, escreveram, no final de 2007, ao menino Jesus - Querido Jesus, Poderia Tirar o Gosto de Alho do Aspargo? (Caro Gesu, Potresti Cambiare il Sapore Agli Asparagi?, Sonzogno, R$32). Cartas de crianças nos levam sempre a desconfiar: será que os pais não "ajudaram" na tarefa? A reprodução fiel dos manuscritos, sem nenhuma intervenção gráfica, elimina tais dúvidas. Seguindo o mesmo formato adotado em todos os volumes, os editores reproduziram os cem melhores bilhetinhos, mantendo fielmente os erros e a hesitante caligrafia original, incluindo os desenhos rabiscados pelas crianças. A tradição de enviar pedidos escritos para o menino Jesus é, entretanto, bem mais disseminada do que parece - pelo menos em países de tradição cristã. Desde 1950, em várias cidades da Áustria, o sistema de correios chegou a criar até uma seção especial - o "Correio do Menininho Jesus" (Christkindl Postamt) - aberta apenas nos três últimos meses do ano, que recebe milhares de cartas de crianças. Mas até agora, ninguém tinha realizado um trabalho editorial tão apurado, transcrevendo e coligindo, com paciência, tato e delicadeza, os bilhetinhos espontâneos escritos pelas crianças. 



Revelando uma lógica pertinaz e inusitada, a grande maioria dos bilhetes não se limita às costumeiras solicitações de brindes e presentes - embora comecem quase sempre com pedidos diretos e imediatos, como: "Querido Jesus, por favor, me mande o seu autógrafo. Faço coleção. (Cristina)". Ou então, aproveitam a deixa para incluir também um pedido de presente: "Querido Jesus, quero pedir-lhe apenas uma coisa: mais paz no mundo! E, aproveitando o embalo, um par de tênis novos no Natal. Beijos. (Edoardo)". Já o menino Carlo, de 10 anos, imaginando Jesus como seu parceiro de futebol, em vez de pedir, apenas oferece o que tem nas mãos: "Querido menino Jesus, posso mandar-te a nova tabela no campeonato italiano?".




Nos limites de sua linguagem - de uma honestidade quase chocante, pois ignoram malícias veladas ou desvios metafóricos -, muitas crianças preocupam-se, à sua maneira, até mesmo com os mistérios da onisciência divina. Como Aleksandra, que pergunta: "Querido Jesus, você comparece em todos os casamentos ou só em alguns?". Ou Manu, de 10 anos, que interroga: "Querido menino Jesus, você vê tudo mesmo, como na televisão? Há um canal só para Roma, onde eu moro?". Já Eleonora, livrando-se, por antecipação, de ser tachada de enredeira, escreve: "Caro Jesus, o que você faz com aqueles que não vão à missa? A família de um amigo meu não vai mais. Mas não te digo o nome dele de jeito nenhum". E por fim, uma menina de Milão, Débora, incapaz de esconder um certo exibicionismo, desafia: "Querido Jesus, você era poderoso quando caminhava sobre a água, mas devia mesmo ver-me quando estou esquiando!". 




Muitas cartinhas expressam o desejo de que Jesus intervenha apenas como um simples mediador. Como Martina, que escreve: "Querido menino Jesus, minha avó morreu ano passado, e meu pai disse que este assunto é contigo. Por favor, poderia entregar-lhe esta carta?"; e emenda logo com um outro bilhete, que diz: "Querida Vovó, a escola é boa e tenho muitos amigos. Portanto, tudo vai bem. Um beijão". Longe das trivialidades consumistas, as frases curtas, cerradas, incisivas, revelam uma renitente intensidade afetiva, quando não uma lógica que beira ao implacável: "Querido menino Jesus, diga-me: os santos ainda existem ou já foram extintos, como os dinossauros?". "Meu jesuscristinho, com que cara ficamos quando você faz um milagre? Não te dá vontade de cair na risada?". Mas há também aquelas que dispensam quaisquer mediações e pedem apenas um gesto de boa vontade, como Carlotta, que relata seus sonhos: "Querido Jesus, sonho sempre contigo. Te reconheço porque está sempre com a sua auréola e sempre pescando. Da próxima vez que apareceres, será que poderia me acenar?". 




É bem possível que teólogos sisudos venham a torcer o nariz diante de tantas puerilidades. É possível também - a um leitor com pendores voltairianos - ironizar, assegurando que tudo isto não passa de uma "correspondência passiva" de Jesus, que permanece em silêncio diante de tantas perguntas e nos deixa na dúvida e na resignação. Já um leitor de Pascal provavelmente argumentaria que as próprias perguntas das crianças já trazem, em si mesmas, a insondável presença divina. Seja como for, suas frases simples e tocantes produzem um duro contraste com a tortuosa retórica dos adultos, garantindo um humor lúdico, espontâneo, sem ferrugem - cheio de leveza e graça. Graça divina ou humana, à escolha do leitor. 

Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de Raízes do Riso

SALIBA, Elias Thomé. Quero seu autógrafo, eu faço coleção.Caderno 2 de O Estado de S.Paulo, São Paulo, p. D-8, 24 dez. 2008.

sábado, 31 de março de 2012

Lidar com manuscritos: Questionamentos éticos!

“... na cultura contemporânea que a questão dos limites se faz ainda mais necessária diante do desejo de transparência, do culto da auto-exposição ou da constância da pergunta "como você escreve?". Quando não há qualquer coisa que seja produzida na intimidade que não alcance um valor mercadológico no instante seguinte (premência que sofrem com muita força os manuscritos de trabalho, as cartas, etc.), seria interessante que o crítico genético se perguntasse pelos limites de sua própria pesquisa. Isto é, o trabalho do geneticista, com mais força do que qualquer outro trabalho crítico, é um trabalho que depende do questionamento constante de seus próprios pressupostos."
Roberto ZULAR. CRÍTICA GENÉTICA, HISTÓRIA E SOCIEDADE.
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252007000100017&script=sci_arttext


Eu não sou crítica literária, nem tampouco geneticista, mas também pesquiso produções manuscritas e sempre, sempre me pergunto "qual a minha legitimidade em consultar estes textos produzidos para permanecerem em âmbito privado (como cartas e Cadernos de Estudo) e que agora, eventualmente, já foram até publicados?
Será que me questionar sobre isso quer dizer dar uma super atenção às questões individuais? Sei não...
Ainda na graduação eu estudei um pouco sobre a lida do pesquisador com cartas e me dei conta de que este gênero é bem mais complexo do que parece: se eu leio as cartas escritas, devo ter noção que quem as escreve nunca é diretamente o seu autor, mas um ser fictício que ele criou para se comunicar com seu destinatário naquele momento. Portanto, tem seu alto grau de ficção e isso deve sempre ser levado em conta, só que historiadores costumam ter grande dificuldade em lidar com ficção...
Claro que, à medida que exponho esses meus questionamentos internos, muitos poderão retrucar de imediato. Não me importo. São as marcas do meu processo de pensamento em ação...