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segunda-feira, 17 de junho de 2024

Livro de junho : " Oito contos de amor", Lygia Fagundes Telles e outras tentativas

 

Edição quase paradidática, mas um grande livro

Embora esteja lendo sempre, admito que enfrento bastante dificuldade em concluir as leituras que começo em 2024. empresto os livros da biblioteca mas as leituras não me prendem, sinto muita falta de um cenário como o de 2019/2020. quando eu podia escolher as leituras e tudo o que eu lia era bom e empolgante. Hoje em dia está difícil. empresto os livros da Biblioteca  do Sesc Pompéia, sem saber se vou conseguir concluir as leituras, como aconteceu.

Três livros ótimos, mas só conclui a leitura dos contos de Lygia,
que mais me apeteceu literariamente.


Embora não seja propriamente uma admiradora da cultura japonesa em geral, tinha lido ótimos escritores de lá, então dessa vez  emprestei o de uma autora japonesa, a Hiro Arikawa , o  "Relatos de um gato viajante" , que é um livro para gateiros e certamente um best seller no Japão, pois o tema dos animais é muito fofo. Fofo até demais, o livro não me prendeu. 
O "Contos crespos", de Cuti, que tem uma capa linda, eu tinha muita expectativa, afinal Cuti é o teórico que escolhi como base para falar da Literatura negro brasileira e  quando  comecei a ler, muito empolgada, cheguei a comentar que estava adorando :
"CONTOS CRESPOS: Em um grupo de leitura virtual, pediram uma foto do livro que estamos lendo,mesmo que eu esteja ainda no começo, foi com muito prazer que fotografei e comentei:  A capa é maravilhosa. Cada vez que eu  interrompo a leitura e depois retomo, antes de abrir, fico olhando aquela cabeça negra trançada, aquele couro cabeludo de onde nascem cabelos crespos de gente que vive e sabe muito bem sobre  tudo aquilo que Curti narra em seus agridoces "contos crespos".
Estou adorando!"
E estava adorando mesmo, mas logo percebi que não via nada de diferente para uma obra da literatura negro-brasileira em minhas pesquisas. Mas a ficção dele, infelizmente, não me prendeu, foi uma  leitura muito emperrada e acabei largando. Talvez  eu seja uma leitora mal acostumada, tolere!  

E tinha ainda a pequena seleta de contos de amor de Lygia. Desse, muito dificilmente eu não iria gostar, pois se trata de uma das minhas escritoras favoritas:

Eu que me atento para a forma como se escreve, amo Rosa e Lygia

De fato os contos me chamaram mais a atenção.

A capa


Última capa


Antes deles, adorei que a edição conta com trechos de um depoimento  de Lygia sobre seu trabalho literário  na Sorbonne,Paris,1993, durante um seminário sobre a autora. Amei alguns trechos como


E continua : "Mas o amor (e desamor) não estás sempre presente? Recorro ao humor, que é nossa salvação, ninguém é perfeito - e a loucura? Com suas infiltrações na rejeição. Um perguntador me olha agora com desconfiança, quer saber porque falo tanto na morte. Não sou inocente (o escritor não é inocente) e começo a dourar a pílula substituindo a perda, encerrado para o mistério."


Adorei também o trecho de depoimento que conclui a seleção , pois muito me identifico: 

"... o escritor que pode ser louco, mas não enlouquece o leitor, ao contrário, pode até desviá-lo de sua loucura. O escritor que pode ser corrompido, mas não corrompe. Que pode ser solitário e triste, mas ainda assim vai alimentar o sonho daquele que está na solidão." (Lygia Fagundes Telles. Depoimento na Sorbonne,Paris,1993)


 E não é a literatura nossa melhor companhia? Grande escritora essa dama Lygia 



Pois vamos aos contos. o índice da edição: 




Quando terminei de ler comentei :



Vamos comentar brevemente conto a conto:

1 As cerejas 
Agora eu tenho a grande sorte de não ter lido todos os contos Lygia Fagundes Telles, tenho muito a explorar. Quando li As cerejas hoje, percebi logo que é um dos grandes! Talvez o mais erótico dela que li (mais até que aqueles dos fálicos saxofones ). Tantas camadinhas: memória da infância x realidade, aparência x essência ,dúvidas, símbolos (cereja e sua "vermelhidão de loucura", cavalo x cavaleiro colados "formando um corpo só ", calor, relâmpago que, por um instante, ilumina tudo, os olhinhos estrábicos sem óculos da Madrinha que preferia não ver, o escorpião pegando fogo, perfume forte, decote, anjo cego,etc). E a visão da menina: será que viu mesmo aquilo? Será que "aquela gente teria existido"? A narradora não sabe ,nem nós. Mas a imagem iluminada pelo relâmpago ,do cavaleiro galopando "agarrado à crina do cavalo, agarrado à cabeleira da tia Olívia, os dois tombando ligeiramente azuis sobre o divã", real ou não a adoeceu e a marcou profundamente. Como tantas imagens da infância!

2 Pomba enamorada ou uma história de amor

Achei o conto mais irônico, até humorístico, da antologia. Não que deixe de abordar a terrível dor de amor, de forma bem romântica (no sentido literário, com tentativa de suicídio e tudo mais). A Pomba enamorada, protagonista, apaixonada pelo estúpido Antenor, é obcecada pelo moço,  mas tudo acontece de um jeito meio roteiro de folhetim, algo que não esperava de Lygia. No fim era para tudo terminar bem porque as coisas se acertaram aos poucos, mas o amor mal vivido, mal resolvido persegue a gente por muito mais tempo do que possamos supor. É disso que trata o conto.

3 As pérolas  (impressão de 2021)

Achei as pérolas bonito, gostei das imagens: As pérolas "rosadas e falsas" de Lavínia "cujo "entrechocar das contas produzia um som semelhante a uma risada", a varanda, o "Chopin de bairro", a lembrança da mãe de "olhos poderosos", que sempre já sabia de tudo e o ciúme doentio de Tomás, que justifica o clima de falsificação da trama (nossa única certeza está nas coisas assumidamente falsas, o resto pode ser suposição de uma mente ciumenta. Sim, há fortes referências ao Dom Casmurro, embora para mim Lygia seja mais palatável, então eu só posso aplaudir.


4 Herbarium
Um texto  belíssimo sobre amor e amadurecimento, remete a contos de fadas (Chapeuzinho Vermelho) ou aventuras fantásticas vividas em bosques, como "Sonho de noite de verão", de Shakespeare. No conto lygiano, uma jovem  que mora próximo a um bosque e recebe a visita de um primo botânico convalescente que não pode colher por si folhas, mas  a quem ela ajuda selecionando algumas para que, se ele as julgar raras , venham compor seu Herbarium. Acontece é que a jovem se apaixona por ele e, entendendo sua linguagem, lhe faz uma declaração de amor :"quando lhe entreguei a folha de hera com formato de coração, um coração de nervuras tementes se abrindo em leque até as bordas verslde-azuladas, ele ele beijou a folha e levou ao peito. Espetou-a na malha do suéter: 'Esta vou guardar aqui'. Mas não me olho nem mesmo quando sai tropeçando no cesto."(P.46) O primo gostava da garota, mas não da mesma forma que ela. O  amor lygiano tem mesmo esse gosto amargo do quase correspondido, mas não o suficiente! Mas a menina entendeu o botânico e tentou até o fim modificar o fúnebre destino do seu amor, ao tentar lhe esconder a folha solitária, com a  "forma aguda de uma foice, o verde do dorso com pintas vermelhas irregulares como  pingos de sangue"(47-8) sob a qual havia morrido um besouro. Ela colheu a folha/foice e foi andando "solene porque no mesmo bolso onde levara o amor levava agora a morte". (48) Mas tinha prometido a ele sempre dizer a verdade e quando lhe perguntou o que estava escondendo, sabia que era a hora de decretar, simbolicamente, a morte de seu amor!
 Uma rara joia, talvez a mais bela da pequena antologia!

5 A chave (impressão de 2021)

Um conto ótimo, a gente vai pela cabeça de Tom, o senhor que não está mais conseguindo acompanhar a jovialidade de sua esposa. O personagem  "velho"  diz  insistentemente a esposa mais jovem que se prepara para sair,  que precisa dormir, dormir, dormir... Chega a sonhar: "Se pudesse dormir ao menos aquela noite, enfiar-se na cama com uma botija, uma delícia de botija, criando assim aquela atmosfera terna entre seu corpo e as cobertas... Ô! A melhor coisa do mundo era mesmo dormir, afundar com uma âncora na escuridão, afundar até ser a proporia escuridão, mais nada." Nunca me identifiquei tanto!

6 Apenas um saxofone (impressão de 2021)

É um dos conto bem fechado em si mesmo, precisei ler mais de uma vez, porque ainda queria entender a narrativa, com o tempo fui aprendendo a ouvir a dicção de Lygia, mais vale apreender o que primeiro chama a atenção, porque o mais importante não é dito, às vezes nem mostrado! Essa prostituta,  apelidada Luisiana (berço do jazz) por seu antigo amante Xenofonte, o moço que era jazzista e tocava saxofone, do qual ela sentia tanta falta... mas onde estaria ele?


7 O encontro

O Encontro é mais um conto fantástico de Lygia, acontece quando a protagonista retorna ao bosque que tanto conhece, mas resolve explorar o que havia além do vale, se aproximar dos penhascos, que de alguma forma inexplicável ela conhecia, mesmo que nunca tenha pisado ali. Ao chegar lá, mergulha numa constante indecisão entre previsão do que aconteceria e memória do já acontecido, em um cenário assustador, mas ela sabia que era preciso “que eu não buscasse esclarecer o mistério, que não pedisse explicações para o absurdo daquela tarde tão inocente na sua aparência. Tinha apenas que aceitar o inexplicável até que o nó se desatasse, na hora exata”. Até que acha uma resposta possível que muito me interessou: Não, não estava sonhando. Nem podia ter sonhado, mas em que sonho podia caber uma paisagem tão minuciosa? Restava ainda uma hipótese: e se eu estivesse sendo sonhada? Perambulava pelo sonho de alguém, mais real do que se estivesse vivendo. Por que não? Daí o fato estranhíssimo de reconhecer todos os segredos do bosque, segredos que eram apenas do conhecimento da pessoa que me captara em seu sonho. “Faço parte de um sonho alheio” - disse e espetei um espinho no dedo. Gracejava mas a verdade é que crescia minha inquietação: “se for prisioneira de um sonho, agora escapo.” Uma gota de sangue escorreu pela minha mão, a dor tão real quanto a paisagem. O clímax é quando ela encontra uma moça vestida de amazona, esperando por um amor que nunca vinha, e que parecia viver em outro tempo e que não lhe era desconhecida. A identidade dessa personagem é o grande final do conto sensacional.  


A estrutura da bolha de sabão

Este texto eu  conheço e adoro faz tempo, mas não me lembro de ter escrito alguma coisa sobre ele. . Lembro vagamente de ver a Lygia pela primeira vez, sendo entrevistada em um programa de aTV do Serginho Groisman nos anos 90, eu devia ter uns 11 ou 12 anos, nunca me esqueço dela falar que o amor é frágil, lindo e leve como uma bolha de sabão, que pode ter sua estrutura rompida por qualquer coisa. Para mim este  é a imagem e o “conto de amor” de Lygia por excelência! É uma introdução sobre como adentrar no universo da sua ficção: nos jogos de ditos e não ditos entre a protagonista, seu ex marido e a atual esposa vemos surgir e se desenvolver a delicada estrutura da bolha de sabão : não é preciso muita coisa para ela voar e brilhar translucida, mas é preciso menos ainda para que ela estoure e vire uma espuma no chão; assim é o amor, nessa imagem poética LINDÍSIMA.

Que livro, senhoras e senhores, que livros!

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Hamlet pela Cia Teatro La Plaza

Na entrada do Teatro 


Domingo frio...mas fui pro rolê, no caso teatro!


Eu marrom, dourada


Excepcionalmente domingo não fui ao samba, mas assisti a encenação de HAMLET, pela Cia Teatro Plaza, composta por atores argentinos com Síndrome de Down. 



Foi uma grande experiência, a começar pelo fato de estar novamente no meu querido Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, pela primeira vez após a quarentena. Quis fazer o trajeto como desde muito antigamente,  descendo na Estação Santa Cecília do metrô e caminhando pelo centro até o Teatro, pensando em quantas vezes me perguntei se teria essa chance novamente! Muita emoção

                                                    

Mas a peça né guardava outras sensações.
Muito moderna, usavam vários enfoques, vídeos, jogos de cena, participação do público, música, dança, muito humor, romance e dramas. A intenção era conhecer esses atores adoráveis, conhecer como o teatro e  os ajudaram e ajudam a viver e entender melhor a vida. Foi muito divertido e terminou com todo mundo dançando, inclusive no palco ou na plateia, cuja imagem aparece ao fundo.  Vamos pensar tantas coisas...







Que legal esse clima, né? 
"Ser ou não ser, eis a questão..."

Como não se trata de uma encenação da história de Shakespeare propriamente dita, mas a adaptação que esses meninos fazem dela e a leitura que construíram para entenderem suas vidas, é interessante saber um pouco da obra original para não perder algumas associações. 
Como li e estudei Hamlet no ano passado, para entender melhor o romance O avesso da pele,  de Jeferson Tenório, que também usa o drama shakespeariano dessa forma, estava tudo bem claro na minha cabeça, inclusive as cenas escolhidas. Mas, se em "O avesso..." se retorna ao drama da corte da Dinamarca para discutir o racismo no Brasil, na peça da Cia Teatro La Plaza, o tema é a vida de uma pessoa com Down na nossa sociedade. Ambos me emocionaram demais! Viva Hamlet, pois sempre "há algo de podre no reino da Dinamarca"!

Voltando pra casa, no Metrô Barra Funda, peguei um trechinho da apresentação da Maria Bethânia no Coala Festival 2022, que da rampa até consegui ver pelo telão, mas meu celular não conseguiu registrar, mas aconteceu 




quarta-feira, 2 de junho de 2021

O avesso da pele do pai preto morto

 

Eu e O avesso

Fácil não foi, desde que terminei de ler Marrom e Amarelo em janeiro muita gente recomendou que eu lesse o romance O Avesso da pele do Jeferson Tenório, mas que eu fosse com cuidado porque ele carregava mais nas tintas. Como adorei o livro de Paulo Scott, mesmo o achando bem pesado,  ao mesmo tempo que tive muita curiosidade de ler o Tenório, também tive medo. Pois em fevereiro tive que parar as leituras por prazer, tinha um grande trabalho a ser feito, mas em março e abril, assim que tive mais tempo, não foi ao Tenório que voltei, eu achava que não estava preparada. E não estava. Mas ouvi metade de algumas entrevistas como esta  (não via inteiras porque não queria saber demais, mas precisava saber alguma coisa). Desse período de investigação, o que trouxe comigo foi uma dica do próprio Tenório em algum lugar: para escrever o romance, ele voltou  ao Hamlet, à ideia do filho que vinga o pai morto. Baixei a peça e fui ler todinha, que delicia entrar em contato com aquela excelente literatura que, depois, foi fundamental para guiar minha leitura, a "presença de Hamlet" não é acessória, é fundamental e eu achei isso excelente.

Ilustração de Dani (1986) com o príncipe Hamlet falando com espectro do rei Hamlet

O fato foi que eu comprei o romance de Tenório, um livro novo, chegou da Amazon, com cheirinho de novo, mas demorei muito para abri-lo, ficava olhando a caixinha: 

me aguardou por muito tempo

Sabia que não ia ter tempo de ler como eu gostaria, preferi antes reler o Gabo, aqui e aqui e depois até uma homenagem a ele, marcando maio como mês de Gabo, o que de fato aconteceu. Mas no finalzinho do mês, com muita coragem, mergulhei no livro de Tenório. Que experiência, meus senhores!

Começou um arraso, e Hamlet aparece logo na epígrafe 



E publiquei as primeiras impressões :

O AVESSO DA PELE, CAP.1 - Esta epígrafe sheakesperiana, informando que quem está aqui é Hamlet (o rei morto)  cria o ambiente da história para o leitor do romance, o que é reafirmado naquele primeiro capítulo,  MUITO BEM ESCRITO, tratando da percepção do pai já morto na casa, que tanto me impactou, e que termina  reafirmando esta presença pairando sobre a história contada por J.Tenório. O primeiro capítulo foi uma experiência ímpar, tive que transcrever um trecho

"Às vezes você fazia um pensamento e morava nele. Afastava-se. Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si. Era esse o seu modo de lidar com as coisas. Hoje, prefiro pensar que você partiu para regressar a mim. Eu não queria apenas a sua ausência como legado. Eu queria um tipo de presença, ainda que dolorida e triste. E apesar de tudo, nesta casa, neste apartamento, você será sempre um corpo que não vai parar de morrer. Será sempre o pai que se recusa a partir. Na verdade, você nunca  soube ir embora." O avesso da pele, Jefferson Tenório,p. 13. 😱  

O livro começa assim! Um dos mais incríveis começos de livro de que me lembro! Reli inúmeras vezes, deixando as palavras me  invadirem pelos meus ouvidos. Sabia que ia me demorar na leitura,  mas nunca esquecendo que o capitulo termina reafirmando a presença do pai morto :

"Olho para tudo isso e percebo que serão esses objetos que vão me ajudar a narrar o que você era antes de partir . Os mesmos utensílios que te derrotaram e que agora me contam sobre você.  OS OBJETOS SERÃO O TEU FANTASMA A ME VISITAR."p. 14.

Para além deste início, o livro se desenvolve muito bem: logo após a morte do pai, por uma batida policial, o narrador Pedro, tal qual o príncipe Hamlet, visita a casa do pai morto e narra ao espectro do seu pai a vida de seus pais , da família de negros em Porto Alegre ,  numa mistura bem temperada de realidade, invenção e depoimento. Centrado na trajetória paterna,  um professor de literatura negro às voltas com os conflitos raciais em uma das cidades mais frias e  conhecida como racista do país.  Em um dos vários trechos em que o narrador fala de uma investida policial que o pai passou narra da seguinte forma: "era o mês de junho. As ruas estavam desertas. Fazia frio, mas você não sentia frio por fora, o frio estava dentro" (150). A ideia do frio por dentro me lembrou uma das mais tristes e belas crônicas do Caio Fernando Abreu, Agostos por dentro, na qual,  embora ele  tenha vivido sua agonia em POA, essa escreve do Rio, mas o frio do hotel  não era por "viver em outra cidade", era de dentro. (Pequenas epifanias, p. 161-2).  

Mas voltando ao livro do Tenório. não é brincadeira de se ler. Ainda que tenhamos retratos belos da cultura black no Brasil, quando são citados alguns músicos de destaque como Milton Nascimento, Racionais MC, Itamar Assunção, Jardes Macalé e especialmente para mim, Luiz Melodia, pois é dele a trilha sonora da minha leitura, a sua Abundantemente Morte :  "...sou um morto que viveu, corpo humano que venceu, ninguém morreu..."

Mais ou menos na metade do livro, ele já tinha me feito pensar tantas coisas, chorar, me indignar, ter raiva e amor, eu fiz a seguinte reflexão :

  De algum jeito esse livro se parece com "Marrom e Amarelo" (os dois tratam da questão racial na Porto Alegre contemporânea), embora a experiência de leitura seja outra. Se no "Marrom" temos o colorismo e a força motriz é o ódio do narrador Federico por esse lixo de  sociedade racista e a leitura é eletrizante; neste, até pela sinopse fúnebre de revisitar a vida do pai morto, temos uma melancolia, uma tristeza profunda embrenhada em cada página, tanto que é até resignada, como que cansada de carregar quatrocentos anos de racismo nas costas. Uma fala do narrador Pedro ao espectro de seu pai , logo na primeira página, resume o que estou dizendo:"você entrou e saiu da vida  e ela continuou áspera".

Ainda bem que não sorri na foto de quando abri a caixa da Amazon, pois tenho quase certeza de que termino esse belo livro (apesar de tudo) num grande banzo

Dureza, como tudo envolvendo o racismo. Mas ainda preciso explicar melhor o que quer dizer o título do romance, se você achar que pode ser  spoiler, pode parar de ler aqui . No livro o narrador lembra o dia que o pai explicou o que era o avesso da pele:

"Você me dizia que os negros tinham de lutar, pois o mundo branco havia nos tirado quase tudo e que pensar era o que nos restava. É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito  e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas  atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afeto  que nos mantém vivos." (grifo meu,p.61)

Para o pai de Pedro,  o professor de literatura,  o avesso da pele preta era a sensibilidade literária, que aparece em momentos como o que comentei aqui, resolvendo um problema até  banal, e principalmente nessa bela cena, onde essa mesma arma é capaz, literalmente, de salva-lo de alguma violência policial.

Quando acabei de ler,como previsto, estava num banzo só:



Tem muitas outras coisas a comentar sobre esse livro, que ele precisa urgentemente de bons leitores, porque é bom, é belo, contundente e necessário: Arrisquem-se em um dos melhores lançamentos da literatura brasileira contemporânea.

 

 


 

 

sexta-feira, 17 de abril de 2020

"A rejeição mais coletiva da morte já registrada na história" - Julián Fuks


Colo aqui um dos textos mais bonitos que li sobre a epidemia.


Primeiro pensei que fosse medo da morte, e sim, ainda penso, é claro que era medo da morte. Um medo que surgiu num ponto ignorado de Wuhan e logo tomou conta de toda a cidade, afugentando seus habitantes e com eles se alastrando mundo afora. Não era um medo qualquer, me pareceu, tinha a sua peculiaridade. Era mais que medo: em sua expressão mais aguda veio a tornar-se uma inconformidade, uma inaceitação da finitude da vida, própria ou alheia, a rejeição mais coletiva e sumária da morte de que já se teve notícia. 
Nada poderia ser mais compreensível do que isso, pude ponderar. As circunstâncias eram mesmo dramáticas, e são cada vez mais. Havia algo de indecoroso na morte a um só tempo massiva e solitária, e sempre haverá. Não faltam os que definem a humanidade justamente por essa indignação, pela repulsa que nos provoca qualquer prenúncio do fim, que dirá de um fim trágico. E, no entanto, não, nem toda a história está atravessada por essa rejeição absoluta do desconhecido, do imensurável. Foi nos últimos séculos, nas últimas décadas, nos últimos anos, que acabamos nos tornando mais hostis à certeza da finitude, que decidimos prolongar ao máximo cada vida e lamentar cada perda como inaceitável.
A literatura, mesmo em sobrevoo, talvez possa dar pistas dessa progressiva mudança de perspectiva. Por milênios os escritores mataram os seus personagens livremente, nos beligerantes épicos gregos, nas tragédias, nos romances de cavalaria. Em algumas peças de Shakespeare, chegado o desfecho, ficamos nos perguntando se terá sobrado algum personagem vivo.
E então veio o romance realista, veio Flaubert com seu rigor científico, matando sua maior protagonista em páginas numerosas e lentas. Veio Tolstói e escreveu "A morte de Ivan Ilitch", uma das mais precisas tentativas de apreender o inapreensível, de entender a morte em sua concretude, em sua vertigem. Em suas páginas intuímos que não há morte dos outros, que toda morte é sempre, em alguma medida, do outro e de si. Se sofremos ao ler Tolstói, é pela percepção perturbadora de que naquela morte se inscreve a nossa, de que na morte de Ivan Ilitch morremos todos.
Em nosso tempo a morte se fez tabu, já não conseguimos sequer falar a palavra sem que a nossa boca se consuma em morbidade. Talvez não seja disparatado propor um estudo sobre a dificuldade que hoje acomete escritores de matar os seus personagens, de condená-los ao insólito fim. Não ouço falar dessa dificuldade, apenas desconfio que exista, e a sinto em minha própria escrita. Tão grandiosa se fez entre nós a ideia da morte que as páginas dos livros já não a comportam, não conseguem acomodá-la sem convocar um princípio de revolta, e a presumível acusação de extravagância, de arbitrariedade. Já não somos capazes de contemplar em imagens ou palavras o mais comum dos acontecimentos, , humanos ou não, o mais fatal.
Primeiro pensei que fosse medo da morte, eu disse. Agora penso que não, que é medo da morte e algo mais. Se entre tantos, tão coletivamente decidimos que estas específicas mortes são inaceitáveis, e decidimos que todo empenho é válido para impedi-las, para reduzir sua ocorrência ao mínimo que toleramos, talvez não seja só por esse medo da morte que há algum tempo nos tomou de assalto. O medo é quase sempre uma experiência solitária - algum grau de solidão talvez seja sua condição primordial. Suspeito que apenas o medo não seria capaz de gerar uma reação tão comunitária.
Nesta disposição nova que temos testemunhado, nesta grande pandemia do não, pode haver exatamente o contrário do medo, tenha isso o nome que tiver. Foi pelo medo e por um equivocado instinto de defesa que se alçou ao poder, em tantos lugares, a política da brutalidade, da indiferença, da perversidade - necropolítica é o nome que alguns têm lhe dado. Se é contra essa política que tantos agora se levantam, ou melhor, que tantos agora se recostam e permanecem em casa, fazendo-se ruidosos quando a noite cai, não será por medo da morte. Será, sim, por respeito à vida, por apreço a toda esta incerteza vital em que estamos imersos, feita de som e de fúria mas também de beleza, antes que se consume a certeza do fim. 



quinta-feira, 16 de abril de 2020

Leandro Karnal: a Pandemia é o momento ideal para se apostar na esperança

Aproveitando as páscoas judaica e cristã e com a erudição de sempre o historiador Leandro Karnal aponta que momentos como esta pandemia pela qual passamos, sempre foi  o ideal para apostar na ESPERANÇA.