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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Capitães da Areia

Ambientado em Salvador, ou "Cidade da Bahia", no início do século XX. Nele lemos a história dos meninos abandonados que moram nas ruas. Antes do começo do livro temos uma representação de reportagens de jornal sobre a vida dos meninos que nos dá a impressão de que o livro vai se contruir sobre dor e as limitações da vida deles... mas não é isso que observamos no romance, observamos também o despertar para a vida...
Uma personagem que sempre me chamou a atenção é o Volta Seca - o menino que tinha vindo do sertão - que quando voltou ao seu lugar de origem nos proporcionou um dos momentos mais interessantes do livro (pelo que me lembro, eu li em 1993, quando eu tinha 13 aninhos ...)
Volta Seca é um encantado com Lampião,segue pra servir no seu exército, mas acaba sendo perseguido e morto, depois de ter matado muitos...
O cangaço oferecia a guerra, a capacidade de guerrear, a polícia, aos fazendeiros, a quem oferecesse melhor preço a cada momento, e como isso era pouco ou nada divulgado, grande parte da população achava que ele era o seu líder ideal, o rei dos cangaceiros!
Esse movimento acabou com a implantação do Estado Novo de Getúlio Vargas, quando foi preciso controlar todo foco de desodem... mas os sertanejos não tinham essa visão na época, como encontramos no romance de Jorge Amado:

"Agora é o sertão. Perfume das flores do sertão. campos amigos, aves amigas, magros cachorros nas portas das casas. Velhos que parecem missionários indianos, negros de longos rosóarios no pescoço. Cheiro bom de comidas de milho e mandioca. Homens magros que lavram a terra para ganhar mil e quinhentos dos donos da terra. Só a caatinga é que é de todos, porque Lampião libertou a caatinga, expulsou os homens ricos da caatinga, fez da caatinga a terra dos cangaceiros que lutam contra os fazendeiros. O herói Lampião, herói de todo o sertão de cinco Estados. Dizem que ele é criminoso, um cangaceiro sem coração, assassino, desonrador, ladrão. Mas para Volta Seca, para os homens, as mulheres e as crianças do sertão é um novo exército. Porque a liberdade é como o sol, o bem maior do mundo. E Lampião luta, mata, deflora e furta pela liberdade. Pela liberdade e pela justiça para os homens explorados do sertão imenso de cinco Estados: Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia.
O sertão comove os olhos de Volta Seca. O trem não corre, este vai devagar, cortando as terras do sertão. Aqui é tudo lírico, pobre e belo. Só a miséria dos homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes, que conseguem criar beleza dentro da miséria. Que não farão quando Lapeão libertar toda a caatinga, implantar a justiça e a liberdade?..."

Jorge Amado. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Record. 1993. P.211

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

VESTIBULAR 2010: LIVROS OBRIGATÓRIOS USP/UNICAMP

Saiu no dia 14 de janeiro a lista de livros obrigatória para o vestibular 2010 da USP e UNICAMP.
Somente três obras foram substituídas. Saíram Sagarana de Guimarães Rosa, A Rosa do povo de Drummond e Poemas escolhidos de Alberto Caeiro, e estraram Capitães de areia de Jorge Amado, Antologia 1960 de Vinicius de Moraes e O Cortiço, de Aluisio Azevedo.
Penso que a opção por Capitães da Areia, de Jorge Amado, ao invés de Sagarana me parece mais adequado para um vestibulando, pois não é um livro raso, mas também não exige uma interpretação tão profunda quando pede uma obra de Guimarães Rosa... Claro que Rosa é (para mim) incomparável, mas justamente por isso sou contra a obrigatoriedade de sua leitura. Se for para ler obrigado, acho bem melhor que seja Jorge Amado, que também tem muito pano para manga, pois trás sempre conflitos culturais e sociais a serem discutidos.

Já em relação à retirada de A Rosa do Povo, de Drummond, sou contra. Claro que é um livro bastante denso como todo Drummond, mas é de agradável leitura (apesar da densidade de alguns poemas...) e tem em sua base todo um contexto histórico (a Segunda Guerra) e todas as insatisfações frementes nesta época, o que poderia ser muito mais explorado, apesar de eu também ser a favor da entrada do poetinha nesta lista (poetinha sempre foi discriminado academicamente, mas ele também é um dos "grandes poetas do Brasil", como Drummond...) neste livro que foi indicado temos alguns dos meu favoritos dele,como Pátria minha e Operário em construção... talvez se ao invés de apostar na poesia de Vinicius para a inserção do autor no contexto da academia, pudéssemos ter apostado na prosa de Vinícius (que é forte também!) e mantido Drummond ... mas para começo, está bom.
Sobre o livro de Aluízio Azevedo, penso que é uma escolha padrão - embora o realismo já estivesse representado por Eça de Queirós com A Cidade e as Serras, mas Brasil já não é mais Portugal na época do realismo, então é interessante que apareçam as duas faces.
Resumindo eu achei a lista boa, espero dar muitas aulas sobre esses livros todos esse ano (porque as de literatura são as aulas que eu mais gosto de dar, apesar de eu estar redescobrindo o gosto bom da história, que pode ser muito divertida). Um dos nove livros da lista eu nunca li, o do Eça, mas como ele continua firme na indicação, acho que vou animar ler.
Esta nova lista de livros de leitura obrigatória, ao que me parece, apresenta alguma espécie de mudança na mentalidade pois derruba preconceitos tolos, mas vejamos como esses autores que sempre estiveram à margem serão aproveitados.