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quinta-feira, 23 de março de 2023

Sobre Torto Arado, anos depois

 

De repente um livro
 se uniu ao outro

Quando li Torto Arado , do Itamar Vieira Junior,  a questão religiosa  foi a mais  opaca para mim, reconhecia e não reconhecia aqueles cultos, o Jarê poderia ser, sem dúvidas, uma religião inventada para o romance, depois soube que não é, mas pouco sabia sobre ela. Eu pensava coisas sobre esse livro, como ISSO. Sempre disse que não estava  preparada para abordar o Torto Arado. Não estou. Não vou julgar ou falar sobre uma obra desconhecida. É preciso mais maturidade, mais conhecimento de coisas que se aprende e não se aprende em livros (até porque Torto também me tocou por essas vias inconscientes).

Como historiadora eu lembrava muito das histórias das feiticeiras nas Minas Gerais colonial, julgadas e condenadas de antemão pelo que sequer entendiam, que foram  estudadas pela professora Laura de Mello e Souza (e também pelo historiador Carlo Ginzburg no contexto europeu). Sobre Jarê na obra de Itamar, mesmo sabendo que são situações diversas, embora parecidas em certo ponto:  aquelas são tradições católicas, trazidas à colônia pelos acusados de feitiçaria europeus num contexto de colonização, mas que aqui ganharam novas configurações e aglutinações. Em Torto Arado estamos falando de tradições também herdadas, mas agora dos africanos, que aqui foram escravizados e trouxeram todo um repertório cultural que, remodelado, acabou compondo a base do que entendemos como Brasil, em fenômenos como o Candomblé (religião de culto aos orixás e celebração da ancestralidade, criada por africanos  na Bahia no século XIX) .  

No livro O que é religião afro-brasileira, que achei na livraria da estação de metrô da Barra Funda no carnaval, quando fiquei presa lá por causa da chuva, o autor Mário A. Silva Filho,  fala do Jarê (religião citada em Torto Arado) : "é uma religião observada especificamente na Chapada Diamantina, na área central do Estado da Bahia, no século XIX. Sua prática é semelhante ao Candomblé de Caboclo, que foi abordado anteriormente, sendo que a ritualística do Jarê é muito mais próxima do culto aos Caboclos do que às divindades, que no caso do Jarê são os Orixás. Seus sacerdotes são chamados de Babá ou Pai, as sacerdotisas de Iyá ou Mãe. A exemplo de outras religiões afro-brasileiras, Jarê proporciona àqueles que o buscam a saúde do corpo e da alma e seu sacerdotes e sacerdotisas são chamados de "Curadores", além, é claro, de Pais e Mães de Santo (Cf. BANAGGIA, Gabriel. As forças do Jarê: movimento e criatividade na religião de matriz africana da Chapada Diamantina. Tese de doutoramento: UFRJ/MN, 2013). Em nota: "Para saber mais sobre o Jarê recomendo a obra do Prof. Dr. Ronaldo de Salles Senna: "Jarê - Uma face do candomblé". Feira de Santana: UFS, 1998. " (SILVA FILHO. "O que é religião afro-brasileira". São Paulo: Lafonte, 2021,  p. 79/80)

Bate com o que é retratado no romance, sendo Zeca Chapéu Grande, pai de duas narradoras, um curador. Só não sei ainda (vale consultar os livros referenciados) sobre as entidades do  Jarê, sobre Santa Rita Pescadora, seria ela inventada por Itamar? Questões... A presença de cultos e feiticeiras na literatura brasileira contemporânea me interessa, mas não pretendo estudar Torto Arado, pelo menos não  ainda, por enquanto ele não se revelar melhor para mim.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

História da feitiçaria e literatura

 


No começo da minha vida de pesquisadora, fiz um inusitado (para a época)  trabalho sobre o Portugal do século XVIII retratado no esplêndido romance "Memorial do Convento", de José Saramago, com a presença das racionalidades, dentre elas a mão forte da inquisição moderna ameaçando a todos, especialmente mulheres simples como a personagem Blimunda, que tinha poderes ocultos e teve mãe condenada pelo Tribunal do Santo Ofício logo no início da trama. 

Para entender um pouco melhor a racionalidades  da Europa moderna, os excepcionais trabalhos de Carlo Ginzburg sobre a feitiçaria, como esse "História noturna: decifrando o sabá" foram de muita importância. Na época esses livros não tinham sido traduzidos no Brasil, então lembro que li as edições portuguesas, presentes na maravilhosa Biblioteca da FFLCH. Leio a sinopse na capa da edição de bolso da Cia das Letras (2012) 


Esses temas também respingaram na História do Brasil colonial, pois muitas mulheres condenadas foram degradadas para o Brasil, trazendo aquelas crenças e racionalidades. Isso foi muito explorado nas pesquisas da minha primeira orientadora, professora Laura de Mello e Souza, que escreveu aquele trecho sobre Maria Padilha, que transcrevi aqui.

Certamente é um assunto muito interessante. Quem sabe não acho um gancho para estudar isso de novo? 










 

sábado, 31 de julho de 2021

Dois contos de Gogol e o estranhamento

 

Eu com livro de Gogol e os dois usados
como referência neste texto

Como postei em 28 de julho: 

Antes, um comentário sobre a bela edição de Gogol : Trata-se de uma tradução original do russo por Gália e Otto Schneider, com ilustrações do alemão Erich Grandeit, edições Melhoramentos, coleção Novelas do Mundo,  no.7, sem data. 

edição que é uma jóia


Agora terminei a leitura do livrinho e gostaria de postar um comentário breve sobre cada um desses contos fantásticos.

Pensando na produção literária do escritor russo Nikolai Gógol (1821 - 81), o conto  "O Capote", publicado em 1842, desenha uma caricatura da burocrática sociedade russa de meados do século XX através da história do humilde e sem grande personalidade funcionário público Akaki Akakiévitch, que é bem pobre e precisa urgentemente de um capote novo ou arrumado, para enfretar o rigoroso inverno de São Peterburgo e a refinada crítica de Gógol aparece em momentos assim: 


De leitura fácil, carregada de humor negro, nesse conto temos desenhada uma caricatura da sociedade russa através de contornos sutis das diferenças sociais na exuberante cidade peterburguense, o que o levou a ser tomando  pelos próprios escritores russos como  Dostoiévski, Tolstói, etc, uma especie de precursor de toda tradição ficcional que marcou a história da literatura de nosso tempo. 

Apesar de ser um pouco grande para um conto, considero que seja mesmo um, pois toda a trama, sua problemática, desenvolvimento e final, gira em torno de um ponto bem específico: o vestuário de  Akaki Akakiévitch: o que ele veste representa o que ele é, roto, gasto, velho, motivo de chacota. O narrador, que não é onisciente e conversa o tempo todo com o leitor sobre o que sabe e o que não sabe ao certo na história que está contando, e quando narra as humilhações cotidianas sentidas pelo personagem resignado, que não é dono nem das próprias palavras, e, estranhamente,  vai descrevendo a surrada roupa como um duplo de seu dono:  

"O leitor precisa saber que  o velho capote de Akaki Akakiévitch (como ele próprio) também era alvo de toda sorte de zombaria por parte dos colegas, a tal ponto que, privando-o da nobre designação de capote, chamavam-no de bata. Na realidade esse capote era algo inteiramente singular; sua gola diminuía de ano para ano, servindo para remendar outras partes dêle. Os remendos não mostravam grande arte do alfaiate, pois eram toscos e feios." (p.19)

Já não podendo mais remendar seu capote, Akaki sabia que teria que dar um jeito de ter um novo e então, humildemente, procura ao alfaiate e encomenda um novo capote

Akaki Akakiévitch encontra o alfaiate.
Ilustração do alemão Erich Grandeit

É a partir da encomenda do novo capote, sua feitura e especialmente o resultado final, quando ele enfim fica pronto, que vão movimentar a trama. Como o conto é sucinto e eu não quero dar spoiler, paro de falar dele por aqui, mas não posso deixar de comentar, mesmo que por alto, que no final o narrador diz aos leitores que algo fantástico, algo que ele não pode explicar acontece e isso, talvez, seja uma introdução ao conto seguinte da edição, O nariz, que é todo construído no território do realismo fantástico que, como sabemos, não nasceu nem na América Latina, muito menos com o Gabo ... 

Escrito entre 1835 e 1836 o conto O nariz é um dos contos cómico-satíricos clássicos na literatura russa, e referência para o realismo fantástico e estudos sobre humor até hoje. Dividido em três partes que vou comentar ligeiramente aqui,

A primeira parte trata de quando em uma manhã, ao morder o pão recém assado pela esposa, o  barbeiro Ivan Iákovlevitch vai morder um pão caseiro e encontra um nariz. Mais que isso, um nariz conhecido, o do major Kovaliov, de quem tinha feio a barba na noite anterior. Como podia ser isso? Não havia sangue, e o pão estava assado,  O que faria com aquele nariz, além de deixá-lo em algum lugar antes que alguém descobrisse o fato inusitado? 

A segunda parte trata do espanto do vaidoso assessor graduado Major Kovaliov quando descobre, com perplexidade, que no lugar do seu nariz encontrava uma superfície  plana! Estava sem nariz!

Major Kovaliov sem nariz
Ilustração do alemão Erich Grandeit


 Muito intrigado, sai em busca do nariz com ajuda da policia e da imprensa em cenas engraçadíssimas, até encontrou um senhor de uniforme que não era outra coisa que não o seu nariz uniformizado!
Major Kovaliov encontra seu nariz com uniforme mais graduado que o seu.
Ilustração do alemão Erich Grandeit


E reage incrédulo:

"O pobre Kovaliov quase perdeu o juízo. Não sabia o que pensar de tão estranho acontecimento. Como era possível que o nariz, que ainda ontem fazia parte da sua cara, sem poder se locomover ou andar, estivesse  hoje de uniforme?" (p.70)

Não quero estragar a surpresa dessa deliciosa peça literária, por isso paro de falar do enredo aqui, mas não sem antes destacar que esse conto foi objeto de discussão e reflexão constante nas minhas pesquisas sobre humor e estranhamento e humor, para as quais usei como apoio o capítulo "Estranhamento", do livro "Olhos de Madeira: Nove reflexões sobre a distância", de Carlo Ginzburg ( Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Cia das Letras",  2001. e o ensaio "Dois narizes", da  escritora paulista Zulmira Ribeiro Tavares (In Região. São Paulo: Cia das Letras, 2012), onde ela experimenta uma comparação entre a obra de Gogol e parte da história da "Menina do narizinho arrebitado", de Monteiro Lobato. 

Tanto Ginzburg , quanto Zulmira tratam por estranhamento como toda ordem de inesperado dentro do cotidiano, do banal, aquele lapso, que na maioria das vezes resulta em comicidade e nos convida a olhar nosso mundo de outra forma.



segunda-feira, 3 de abril de 2017

SÍNTESE DO MEU PERCURSO ACADÊMICO : BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE

BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE - Precisei abrir meus resultados finais de pesquisa sobre as relações entre História e Literatura (Iniciação científica - mestrado - tese) e sabe de uma coisa? Me orgulhei muito deles!
Se na IC, sobre um romance de Saramago, eu já me interessava por questões teóricas e metodológicas, também já amava Ginzburg, mas ainda não conhecia outra orientação teórica mais específica na História para realizar esta operação com o literário, só que com minhas "visitas" às aulas nas Letras "conheci" o discurso dialógico de Bakhtin e pirei (até hoje piro nesse lance do diálogo) e adaptei isso para os fluxos da historiografia portuguesa, o que Laura de Melo e Sousa (orientadora) achou que ficou original. Como resultado final eu escrevi um artigo que ficou eternamente no prelo e nunca foi publicado, infelizmente.
Ilustrações  do livro Tutaméia: terceitórias de JGR (1967)
No mestrado eu quis mudar e mergulhei no livro Tutaméia de Rosa e na sua fortuna crítica, e isso me obrigou a mudar certas perspectivas : embora não seja o ideal, o texto de Saramago me permitia não analisá-lo detalhadamente, palavra por palavra, como o Alfredo Bosi ensinava analisar um poema. Já o rendado texto de Rosa sempre exige uma leitura "ulpianística" da coisa. Nesse trabalho, além do papai Ginzburg, eu mergulhei também nas ideias de Walter Benjamin e formou-se minha divina trindade:
Ginzburg-Rosa-Benjamin
O legal desse trabalho é que, como eu queria, ele ficou bem brasileiro, e embora não o cite textualmente nenhuma vez (não sei porque não o cito nunca!), por trás de tudo ali está embutido o ideário do que considero nosso maior historiador, que é o Sérgio Buarque de Holanda (sim, eu sou uma cria da USP!).
Recortes de desenhos que Rosa fez para sua neta Vera Tess
O doutorado poderia ter sido só a celebração da minha santíssima trindade descoberta no mestrado, mas como eu quis inserir as crianças, precisei experimentar novos métodos historiográficos e trouxe à tona os manuscritos literários, o que me levou a dialogar com a Crítica Genética e tal...e é um trabalho mais lúdico, mais lambuzado de Guimarães Rosa que eu simplesmente amei fazer.

No pós-doutorado, ainda inconcluso, voltei à historiografia mais clássica e brinco com a História Cultural, só que do humor. Para analisar minhas fontes, sigo o método do meu ex orientador e atual supervisor Elias Thomé Saliba : objetividade metodológica (leia e analise o documento) e subjetividade epistemológica (considere todos os que dialogarem com seu tema), que, na verdade, é mais uma forma possível de abordar a interdisciplinaridade na pesquisa em História.
Acho que, resumidamente, este é o grosso do meu percurso acadêmico até agora.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

"A indagação da História nos manuscritos literários de João Guimarães Rosa", Camila Rodrigues


Acaba de ser publicado o novo número da Revista Intelligere, com a segunda parte do dossiê sobre História e Literatura. Nele, dentre outros excelentes artigos, encontra-se o meu "A indagação da História nos manuscritos literários de João Guimarães Rosa", no qual abordo uma metodologia proposta por Carlo Ginzburg que utilizei em minha tese e que também fundamentou o minicurso que ministrei no EPHIS/UFMG em junho de 2016.
Confira o volume em  aqui. 
Sobre meu texto diz a apresentação:
"Camila Rodrigues explora os manuscritos de Guimarães Rosa, nos quais encontra questionamentos acerca do devir histórico, mostrando o quão fecunda é a proposta de Carlo Ginzburg para a análise das obras literárias."

domingo, 26 de junho de 2016

SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA, NOVAMENTE

Guimarães Rosa escrevendo
Na última vez que ouvi Carlo Ginzburg falar sobre as relações entre História e Literatura (em 2007, no contexto do lançamento de O fio e os rastros, na FFLCH), ele se colocou contra o estabelecimento do que chamou de "relações 1 a 1" (que entendi serem relações diretas entre os discursos).
Adorei isso, porque, pensando em minha longa pesquisa histórica sobre Guimarães Rosa, acho que o projeto literário rosiano é grande, minucioso e poderoso por si só. Compará-lo diretamente a textos sociológicos ou a historiografia é uma boa forma de não compreendê-lo.
Também penso que cobrar dele militância ou posicionamentos mais objetivos é desprezar (ou rejeitar mesmo) sua mais profunda forma de expressão, que está escorada nos movimentos da linguagem, e é dali que ele pode expressar melhor a sua voz.
E não acho pouco. Tanto que até hoje buscamos compreende-lo em sua plenitude.
Viva a literatura. Viva a literatura de Guimarães Rosa.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Estranhamento

"Que interesse isso (Estranhamento) pode ter - alguém poderia perguntar- para historiadores, para os estudiosos às voltas com documentos de arquivo, com atos notariais, e assim por diante? Por que deveriam perder tempo com o estranhamento e com conceitos semelhantes elaborados pelos teóricos da literatura? (...) Parece-me que o estranhamento é um antídoto eficaz contra o risco a que todos nós estamos expostos : o de banalzar a realidade (inclusive nós mesmos). As implicações antipositivistas dessa observação são óbvias. Mas salientar as implicações cognitivas do estranhamento, eu gostaria também de me opor com máxima clareza possível às teorias da moda que tendem a esfumar, até torná-los indistintos, os limites entre história e ficção. Essa confusão teria sido repelida pelo próprio Proust. Quando dizia que a guerra pode ser contada como um romance, Proust não pretendia de modo algum exaltar o romance histórico; ao contrário, queria sugerir que tanto historiadores como os romancistas (ou pintores) estão irmanados num fim cognitivo. É um ponto de vista que compartilho plenamente. Para descrever o projeto historiográfico em que pessoalmente me reconheço, utilizaria, com pequena modificação, uma frase de Proust :'mesmo supondo-se que a história seja científica, ainda assim seria preciso pintá-la como Elstir pintava o mar, ao revés."
Carlo Ginzburg. O Estranhamento. In: Olhos de Madeira. p. 39-41

terça-feira, 11 de maio de 2010

Uma amostra "metodológica" de como eu encaro a pesquisa das relações entre História e Literatura

"A postura, hoje difundida, em relação às narrativas historiográficas me parece simplista porque examina, normalmente, só o produto literário final sem levar em conta as pesquisas (arquivísticas, filológicas, estatísticas etc) que o tornaram possível. Deveríamos, pelo contrário, deslocar a atenção do produto literário final para as fases preparatórias, para investigar a interação recíproca, no interior do processo de pesquisa, do dados empíricos com os vínculos narrativos.Há muitos anos, Lucien Febvre observou que as fontes históricas não falam sozinhas mas só se interrogadas de maneira apropriada. Hoje isso nos parece óbvio. Menos óbvia é a observação de que as perguntas do historiador são colocadas sempre, direta ou indiretamente, em formas (destaco o plural) narrativas. Essas narrações provisórias delimitam um âmbito de possibilidades que, freqüentemente, são modificadas ou até descartadas no curso do processo de pesquisa. Podemos comparar essas narrativas a instâncias mediadoras entre questões e fontes, as quais influem profundamente (ainda que não de maneira exclusiva) sobre os modos pelos quais os dados históricos são recolhidos, eliminados, interpretados - e, por fim, naturalmente narrados. "
GINZBURG, Carlo. Decifrar um espaço em branco. In: Relações de força: história, retórica, prova.São Paulo: Cia das Letras. P.114

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Meditações sobre um cavalinho de pau E.H. Gombrich

Foi Carlo Ginzburg, em seus livros Mitos Emblemas sinais e Olhos de Madeira (Ginzburg, 2005; 2007) que indicou um caminho remeteu às idéias de E.H. Gombrich, em seu texto Meditações sobre um cavalinho de pau, como um caminho possível de decifração de imagens pelo historiador. Em meu doutorado, pretendo interpretar símbolos referentes à infância não sónos textos escritos de Guimarães Rosa, mas também coleção de desenhos produzida em sua correspondência com as netas.
Gombrich trabalha sempre com a idéia de representação como produtora de "substitutos" da realidade- com a ajuda da imaginação criadora, que tem função de comunicar- pois “toda imagem será de algum modo sintomática de seu criador, mas pensá-la como uma fotografia de uma realidade preexistente é compreender mal todo o processo de feitura de imagens(...) na linguagem do quadro de criança, continua a ser reconhecida a função psicológica da ‘representação’. A criança recusará uma boneca perfeitamente naturalista em favor de alguma ‘bruxa’ monstruosamente ‘abstrata’ que seja mais ‘fofinha. É possível até mesmo que prescinda totalmente do elemento ‘forma’ e tome o travesseiro ou o edredom por sua chupeta predileta-um substituto ao qual quer entregar o seu amor. Mais tarde na vida, dizem os psicanalistas, pode entregar esse mesmo amor a alguém vivo, digno ou indigno dele."

E.H. Gombrich. Meditações sobre um cavalinho de pau. P. 04)

Isso é lindo, não é?

sábado, 5 de dezembro de 2009

LER O LIVRO DO MUNDO = DECODIFICAR LINGUAGENS

Os pensamentos que me atraem podem parecer bastante diversos (Caetano Veloso, Guimarães Rosa, Walter Benjamin, Tom Zé, Carlo Ginzburg...), mas para mim eles são atraentes porque se dedicam a produzir uma linguagem de signos e decodificá-los...

Caetano Veloso, nas suas palavras, lê processos de História do Brasil o tempo todo: somos um país mulato (cheio de “musas híbridas”, “pretas chiques”, “jaboticabas brancas”...), preso a uma mentalidade colonial (em pleno século XXI, somos apenas mulatos "natos no sentido lato mulato democrático do litoral: Sugar Cane Fields Forever) e embora estivermos cientes disso, ele alerta claramente:” E a crítica que não toque na poesia". Esse é Caetano pensador poeta. Isso é poesia.
Guimarães Rosa era um Peter Pan (eis a idéia do meu doutorado), ele nunca deixou de "ver o mundo como se fosse a primeira vez" - que é tarefa das crianças - e o mais interessante: exatamente como elas fazem o tempo todo, ele representava esse estado de catarse constante na linguagem (por isso as palavras tão herméticas de Rosa parecem - e são - ao mesmo tempo moderníssimas e arcaicas), e ele está percebendo os tempos e decodificando-os na linguagem. Isso é arte.
Walter Benjamin queria ler o livro do mundo, que é perceber que cada momento apresenta possibilidades de futuro e de passado, ou seja, “ler” o livro do mundo é encontrar diversas épocas em momentos alegóricos e demonstrar isso na linguagem. Isso é História.
Tom Zé é o mais complicado de entender (pelo menos para mim), porque ele usa diversas linguagens - muitas delas eu não domino nem um pouco-, mas todas elas possuem ligações diretas com os sentidos do tempo (sons, ruídos, psicanálise, poesia, culturas, danças, etc...). Isso é música.
Carlo Ginzburg é meu mestre - como historiadora - e o que ele pensa é muito simples, não existem ligações diretas entre a História e a realidade que não sejam pobres... Para ele, entre essas esferas encontram-se diversas camadas de sentidos inventadas e fabricadas, e decifrar esses códigos da linguagemé fazer narrativa da História. Isso é historiografia.

Resumindo, meu grupo é o grupo dos que se voltaram com amor e atenção para a linguagem. O que eu vou fazer com isso eu não sei... Ainda.

terça-feira, 17 de março de 2009

DEIXANDO AS MARCAS DO PROCESSO...

Ainda sobre a revisão da minha dissertação de mestrado, assistindo ao vídeo da defesa e lendo as considerações à margem da cópia da professora Susana, percebi que eu não defendi uma idéia maravilhosa que eu tentei exercitar, mas não me ocorreu explicar no dia. Vejamos do que eu estou falando:
A professora dizia que eu levantava muitas questões, mas não me aprofundava em nenhuma delas! Isso eu esperava que alguém dissesse e tinha a resposta pronta na língua : Uma dissertação de mestrado tem como objetivo indicar portas possíveis para a continuidade nas pesquisas sobre o tema e não entrar em alguma delas para aprofundamento, até pelo pouco tempo disponível. Desenvolver as hipóteses ficaria para outos trabalhos, meus (ao que tudo indica meu doutorado vai ser o desenvolvimento de uma das possibilidades levantadas em meu mestrado), mas também podem ser idéias para o trabalho de outras pessoas, eis a pesquisa científica. Certo, ela compreendeu.
Mas uma coisa que ela perguntou e eu achei tão surpreendente que nem respondi direito foi: "Você escolheu as três estórias de tutaméia sobre as quais se debruçar porque elas tratam do tema da migração?"
Eu respondi que não, e não mesmo eu só fui descobrir que elas três tratavam da migração depois de longo caminho de tradução e interpretação do texto de Rosa, inicialmente os meus motivos foram outros... Aí, como eu vejo no vídeo, expliquei porque tinha escolhido aquelas estórias e o assunto foi para outro lado, então acabei deixando de responder algo legal: O que aconteceu foi uma coisa que seria esperada de uma historiadora ginzburginiana (como um dia eu irei ser): Não parti com idéias previamente definidas (tipo escolher os textos porque sei que eles apresentam determinado elemento...) , fui descobrindo seus elementos e estabelendo conexões ou rupturas ao longo da pesquisa. Claro, como boa aprendiz de Ginzburg, não apaguei essas marcas no meu texto. A idéia era que não restasse dúvida nenhuma sobre o fato daquilo ser uma narrativa produzida em um determinado momento de uma pesquisa na área de história, por isso comento abertamente as dificuldades encontradas, as perguntas que não foram respondidas ainda e a narrativa não é propriamente linear, com começo meio e fim concebidos previamente e com ligações previamente demarcadas...como ela é um texto científico, suas conclusões são sempre passíveis de questionamentos ou mesmo de superação.
É por isso que algumas recomendações feitas pela professora eu não acatei (como a indicação de algums obras que, no momento em que pesquisa estava sendo feita eu não tomei contato e seria leviano da minha parte indicá-las como se eu as tivesse estudado e considerado que não eram passíveis de comentários maiores...
Como estamos vivos para que possamos formular nossas narrativas pessoais, bastente singulares, que também chamamos História, esta dissertação deve ser precisamente um retrato da Camila, a moça que entre os anos de 2000 e 2009 estudou História e Tutaméia e ninguém mais a faria como eu a fiz, com os mesmo momentos brilhantes e rasos, com a mesma paixão ou indignação.
Tenho dito.