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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

AOMAME, A JUSTIÇA FEMININA

 

AOMAME, A JUSTIÇA FEMININA

Aomame é a melhor personagem de 1Q84, de Murakami! Todas as poucas vezes em que ela chora são por causa da violência cometida contra outras mulheres. Primeiro, aquelas que conhece; em última análise, todas as mulheres violentadas pelo patriarcado e pela brutalidade da História do Japão, pano de fundo crítico da literatura de Murakami.

Gosto de pensar que, quando mata um abusador, ela faz justiça também a outras personagens murakamianas: aquelas perdidas, etéreas, silenciadas, fragmentadas, usadas e traumatizadas pelos homens e pelo peso da História, que aparecem em obras anteriores ou posteriores à trilogia 1Q84.

Grande mulher!


quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Edições de Murakami pela Alfaguara

 

Algumas edições brasileiras de Murakami 

VIVA AS EDIÇÕES DE MURAKAMI PELA ALFAGUARA!
Em um dos grupos de leitores de Murakami no Facebook, alguém comentou que a tradução para o inglês, não sei se britânica ou estadunidense, teria “cortado trechos desnecessários” do original de "Crônica do Pássaro de Corda", tornando a leitura mais simples. Espero que não seja verdade, mas perguntei: “Esse livro tem partes desnecessárias? Quem decidiu isso?”
Não obtive resposta.
Sei que as obras de Murakami editadas  no Brasil pela Alfaguara são muito bem editadas e traduzidas diretamente do japonês por Lica Hashimoto. Claro que adaptar idiomas diferentes têm complicações, mas não ao ponto debjulgar trechos desnecessários!

Na edição q estou lendo 1Q84 LIVRO 3

No volume 3 de 1Q84, que estou lendo agora, quando são citadas no texto original  obras literárias em outras línguas, os respectivos tradutores são identificados. Isso me faz pensar que as chances de encontrarmos, nas edições brasileiras, cortes bruscos desse tipo são muito pequenas. Ainda bem, né?

Resposta da IA


Viva as edições brasileiras de Murakami!
Peguntei sobre os cortes a IA e ela confirmou que é verdade a questão dos cortes na versão inglesa😱😭


domingo, 25 de outubro de 2026

25 de outubro : Aniversário e eleições

 


Eu sabia que seria um dia tenso, domingo, meu aniversário, segundo turno de uma das eleições  mais complicadas,  tinha que virar contra o fascismo e a campanha pesadíssima... nas vesperas, eu me posicionei nas redes sociais e fiz o L


No dia virou o tempo, fez frio e  choveu o dia todo. 

Nas redes falaram pra não ir de vermelho, que era petigoso. Mas não ouvi: era a ultima vez que votaria em Lula, era o voto pela democracia e um chute na ameaça facista ... fui até de guarda chuva vermelho 


Na hora  de votar, percebi iuma ausência de pessoas e geral na minha sessão.  Pode ser a chuva,  mas entrei e votei. Quase não vi outros votantes.  Nada da overdose de idosos do primeiro turno.  Só  sei que fiquei de frente a urna, reparei bem na foto de Lula sorridente de chapéu Panamá,  me  emocionei e disse: muito obrigada por tudo.  E votei.

Última vez que vi a foto do Lula na urna! Ele sorria de chapéu Panamá.  Depois, em casa, até coloquei o meu pra tirar foto.Obrigada por tudo, Lula !🥰

Mas o medo era real, quando sai da sessão para ir embora,  disse para as mesárias ( só mulheres) : hoje é meu aniversário,  tudo de bom pra nós... e foi lindo qusndo todas responderam PARABÉNS, BOA SORTE! 


Sai sorrindo, mas o clima estava tenso. Lembrei que tinha comprado um Yakisoba de microondas e fiz para experimentar no almoço,  ficou muito gostoso.  Coloquei pijama pra passar a tarde com Murakami.

Ganhei presentinhos emocionantes, mas ainda faltava o presentão pra eu dividir com povo brasileiro: Lula presidente e um chute no fascismo.

Não foi rápido ou fácil,  mas ele também veio.

Lula fez história novamente , ganhou de virada , com um percentual muito maior que na última eleição, uma vitória incontestável: Mais de 4 milhões e 300 mil votos de vantagem!

Claro que só foi possível porque , realmente,  todas as forças se uniram contra a ameaça fascista , então vencemos. 

Parabens pro Lula. Parabéns pra nós. 












O dia mais longo do ano acabou, levou o fascismo,  levou meu inferno asteal.
Um novo ciclo se inicia 47 , lá vamos nós! 

sábado, 24 de outubro de 2026

Trilogia IQ84, Haruki Murakami, Volumes 1 e 2

 


Comentários sintéticos após leituras dos dois volumes. 

​1Q84 | Livro 1 
​A trilogia 1Q84 é frequentemente descrita como o projeto literário mais ambicioso de Murakami. Confesso que esse tipo de elogio costumava me entediar antes mesmo de eu começar a ler. Agora que entrei em seu universo, posso dizer que é realmente audacioso, consistente, fascinante e inconfundivelmente Murakami. Na verdade, eu diria que é Murakami em sua forma mais Murakami. Que romance!
​Uma daquelas obras cuidadosamente construídas para serem saboreadas aos poucos, até você se sentir tão imerso que tudo começa a fazer sentido. Até mesmo seu título reinventado capta o fluxo da narrativa: ABSOLUTAMENTE LITERATURA! 😜
​O Livro 1 é bem introdutório. Conhecemos os personagens principais, Tengo e Aomame, e começamos a entender a história à medida que um novo mundo surge através das frestas do mundo em que habitamos.
​Estou tão feliz por ter começado esta leitura. Eu merecia isso.

​1Q84 | Livro 2
​O Livro 2 mantém a alternância de capítulos entre Tengo e Aomame, mas aprofunda nossa compreensão sobre a conexão entre eles. Descobrimos que eles se conheceram na infância e como suas vidas se cruzaram brevemente na vida adulta, sem que nenhum dos dois percebesse.
​O ponto alto deste volume é a subjetividade dos personagens, explorada por meio do diálogo com outras narrativas, especialmente A Cidade dos Gatos e Crisálida de Ar, o livro fictício lido e recontado por Aomame. Através da criação de Tengo e Fuka-Eri, começamos a nos perguntar se esse universo fictício está realmente se materializando na nova dimensão de 1Q84.
​Os dois últimos capítulos ecoam os capítulos de abertura do Livro 1, revelando a arquitetura narrativa cuidadosamente construída por Murakami. O capítulo de Aomame termina com uma referência a Tengo, enquanto o dele termina com a intenção de procurá-la. Dessa forma, Murakami encerra a primeira etapa da trilogia, composta por dois volumes, ao mesmo tempo em que abre caminho para o Livro 3.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Lágrimas de Aomame

 

Foto Google Images 


"Lágrimas escorreram dos olhos de Aomame. Ela chorava por todas as perdas que sofrera até então.  e por tudo que estava para perder. Por fim- após um tempo que não pôde previsar - ,atingiu um ponto em que não conseguia mais chorar. Como se os sentimentos tivessem esbarrado  numa parede invisível,  e as lágrimas secaram."


"IQ84 vol2", Haruki Murakami, p.215




domingo, 18 de outubro de 2026

1Q84 e a cidade dos gatos




Ilustração Google Imagens 

1Q84 E A CIDADE DOS GATOS

Em meio à imensa trilogia de Murakami, no livro 2, Tengo, um dos protagonistas, lê um conto fictício alemão sobre um viajante que chega a uma estação tranquila e agradável, mas logo descobre que ali não há pessoas, apenas gatos gigantes que o veem como um forasteiro inimigo. Sua humanidade se torna um problema naquele lugar ao qual não pertence.

O viajante percebe que os trens continuam circulando, mas nenhum para na estação. Sem conseguir partir, compreende que aquela é a cidade onde se perderá para sempre, deslocado, inadaptado, prisioneiro de um mundo que não é o seu.

Poxa, será que também desembarquei na cidade onde vou me perder para sempre, sem ainda ter percebido? Nenhum trem parou, por enquanto!


 

sábado, 17 de outubro de 2026

LUA E SOLIDÃO em 1Q84, Murakami

 

Foto Google Images 


LUA E SOLIDÃO: "O jeito de Aomame olhar a lua instigava-o a imaginar que havia nesse seu olhar algo de assustadoramente  sincero.

Difícil saber o que Aomame teria pedido à lua. Mas Tengo conseguia imaginar o que a lua teria lhe oferecido . Possivelmente,  a lua teria oferecido  UM SENTIMENTO DE SOLIDÃO E SERENIDADE; era o que podia oferecer de melhor."

Haruki Murakami,  1Q84 v.2, p. 290

terça-feira, 29 de setembro de 2026

INSTRUMENTAL: Irmãos e brothers

 


Sesc Instrumental hoje: irmãos e brothers





Fui de Murakami embaixo do braço 

Eu estava até animada; afinal, era um show de samba-jazz com influências africanas e tal.


No começo foi uma delícia: um jazz bem legal. A plateis não era das melhores, não esperava a música acabar pra aplaudir, parecia família em festa de escola. O pianista contou uma historinha de como foi agraciado por uma ajuda divina... Achei desnecessário! E, com o passar do tempo, o show foi ficando um pouco monótono, com músicas enormes (jazz...). O rapaz ao meu lado até cochilou.


Até que o som ficou um pouco ruim, ou talvez meus ouvidos estivessem meio fechados, e, quando bateu 20h, terminou uma música e eu fui embora.


Não foi o retorno ao Instrumental que eu sonhei, depois de um longo e tenebroso inverno, mas foi bom rever amigas!



"IQ84" de Murakami: primeiras impressões de leitura

 



PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE LEITURA DE ​IQ84 volume I 

Lançado no Japão em 2009, o primeiro livro da trilogia só saiu no Brasil em 2012, e nesse volume temos duas histórias contadas em vinte e quatro capítulos alternados: uma é da jovem Aomame; a outra é do professor e escritor Tengo. Passadas entre abril e junho do referencial ano de 1984 (além do título, o livro clássico de George Orwell é citado logo no início desta obra. Lembro que é em 1984 que também acontecem outras histórias de Murakami, como a da obra-prima "Crônica do pássaro de corda").

​Estou na metade e adorando sentir o gostinho do ambiente do autor, mas sei que tem muito a acontecer neste e nos próximos volumes, mas por enquanto as histórias de Tengo e Aomame se tocam muito transversalmente e a única coisa que os une é certo estranhamento em relação à percepção da realidade que ambos sentem, especialmente Aomame, que chega a formular não estar mais em 1984, mas em 1Q84, onde o "q" seria uma dúvida. Será que ainda nesse volume as histórias de Tengo e Aomame se aproximam? A saber.

​Não sei classificar esse romance, afinal ele acontece no passado, entao não sei se posso chamar de distopia, também não é uma ficção científica... talvez uma fantasia beem realista (temos nele uma abertura no tempo cronológico) vamos ver por qual caminho ele vai se desenvolver.

Estou adorando habitar novamente o AMBIENTE  MURAKAMI.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Murakami mexendo as peças do meu tabuleiro

 



Murakami mexendo as peças no meu tabuleiro: 


" Sim, estou magoado. Muito, profundamente. Kino disse a si mesmo e chorou."

( Haruki Murakami. KIino, in "Homens sem muheres")


Não há nada muito espetacular, não  mesmo. Na verdade é a história mais banal do mundo, na ficção então,  praticamente um cliché: alguém ferido tranca o coração,  tenta seguir em frente, procura ser forte e maduro. Até  que consegue. 

Mas , certa madrugada, escuta batidas insistentes na porta. Sabe quem bate : É aquilo que tentou reprimir 💔

Abre a porta? Ainda consegue abrir?

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Tecnologia em IQ84, de Murakami

Processador de texto 1984.
Google imagens 


Sorrateiramente, comecei a ler o primeiro livro da trilogia de Murakami. Nele, o personagem Tengo, que faz trabalhos avulsos para uma editora, recebe uma ordem de seu editor: comprar um processador de texto.

Mas o que seria isso em 1984?


Perguntei à IA se era algo equivalente a uma máquina de escrever. A resposta foi que não exatamente. Enquanto, nas máquinas de escrever, o texto era impresso simultaneamente ao processo de escrita, os processadores de texto permitiam que ele fosse armazenado e corrigido antes da impressão final.

Numa época em que os manuscritos começavam a ser digitalizados, esses aparelhos funcionavam como notebooks usados exclusivamente para escrever. Estavam no meio do caminho entre as máquinas de escrever e os computadores mais complexos do século XXI, com Word e outras aplicações.

Bem interessante!


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

"1984" (1984), direção Michael Radford



Alertada de que o filme irá sair do catálogo do Prime Video em breve, assisti à adaptação inglesa de Michael Radford para o famoso romance 1984, escrito em 1949 por George Orwell.

Apesar de ser um clássico da literatura muito conhecido e de ter inspirado uma das minhas canções favoritas da vida, Como Dois e Dois São Cinco (1971), eu nunca me interessei realmente em ler esse livro, contentando-me em saber daquilo que ficou popularmente conhecido sobre ele: o Grande Irmão, a Guerra como continuidade, a Novilíngua e a sociedade do controle total.

Assisti ao filme para saber um pouco mais do que se trata, porque vou começar a ler 1Q84, de Murakami, cujo título faz referência ao livro 1984.

Achei o filme uma distopia sombria e cinzenta. Pareceu empenhar-se em ser fiel à obra original, mas nada além disso enquanto filme.

Na história, dentre tantos pontos interessantes e discussões ainda atuais, o que realmente me chamou a atenção foi a questão do controle das mentes, inclusive pela Novilíngua, a redução do vocabulário para dificultar e até impossibilitar o raciocínio próprio, permitindo assim maior controle.

O uso dos dicionários para o controle da linguagem me lembrou o filme Alphaville, de Godard, da década de 1960, outro filme sobre uma distopia mencionado em obra de Murakami, onde o controle se dá pela proibição dos sentimentos e pela limitação do vocabulário.

Enfim, gostei de ter assistido e recomendo a quem puder e quiser aproveitar enquanto ainda está disponível no Prime Video.

domingo, 5 de julho de 2026

A METAMORFOSE

 

Quando li novembro 2026


METAMORFOSE:Li Kafka na íntegra no fim do ano passado, muito por causa de Murakami. Foi providencial, porque este ano, nos últimos meses, tenho me sentido como o Samsa original de Kafka, transformando-me em outro ser como nunca antes havia sentido. Nem na adolescência!
Parece que a vida está mudando minhas formas e me recolocando em outros lugares do tabuleiro. Mas agora já tenho a leitura de um clássico para me amparar. Por isso é verdade: ler um clássico, ainda que tardiamente, é muito melhor do que não ler um clássico!
Quem sabe, em breve, eu não volte a me sentir como Samsa, mas como o apaixonado de "Homens sem Mulheres" 🤎, de Murakami, que descobriu, ou redescobriu, o motivo pelo qual passou a existir! Veremos.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

LEITURA CRÍTICA DE "Caçando carneiros "



Neste  grupo sobre Murakami no Facebook,  a leitora Osama Flåan divulgou um ensaio crítico de Streacher muito interessante sobre o romance "Caçando carneiros" (livro que primeiro eu odiei, ai estranhei, não conseguia largar e depois me deu ressaca literária).

A tradução foi pelo Gemini:

"The result is that the simplicity of the Murakami hero, marked by lethargy and nostalgia, emerges as emblematic of contemporary humankind, bereft of identity, direction, and meaning."

— Matthew C. Strecher, Dances with Sheep

​"O resultado é que a simplicidade do herói de Murakami, marcado pela letargia e pela nostalgia, surge como emblemática da humanidade contemporânea, desprovida de identidade, direção e sentido."

— Matthew C. Strecher, Dances with Sheep

​Nos conta Osama Flåan :

"Este é o segundo livro que leio de Streacher e não me decepcionei...

​O que ele demonstra é como, em quase todos os romances de Murakami, existe um portal para "o outro lado"... um reino metafísico onde a temperatura cai, o tempo se comporta de forma diferente e o ar cheira a mofo... Eu já tinha notado essa repetição, mas Strecher a sistematiza de uma forma que foi uma verdadeira revelação para mim... Isso é uma coisa.

​A segunda é como Strecher captura os paradoxos dentro de Murakami... um autor que escreve sobre as grandes e dolorosas questões da vida em uma linguagem tão simples que ressoa tanto em adolescentes quanto em professores... Alguém que brinca com o pós-modernismo, mas que, simultaneamente, alerta contra as forças "achatadoras" do mundo moderno...

​Quando Strecher finalmente amarra tudo... a magia, a psicologia, a crítica linguística... somos obrigados a reconhecer mais uma vez... o herói de Murakami, lento e nostálgico, é verdadeiramente um reflexo de todos nós... Sem raízes, sem direção, presos em uma realidade que está sendo gradualmente esvaziada de sentido...

​Se você já sentiu que o mundo de Murakami contém algo que você não consegue expressar em palavras... leia este livro."

​Notas da Tradução:

  • ​"Eye-opener": Traduzi como "revelação", que transmite a ideia de algo que abre os olhos ou traz uma nova compreensão.
  • ​"Flattening forces": Usei "forças achatadoras", termo comum na crítica literária para descrever a perda de profundidade cultural ou individual na modernidade.
  • ​"Sluggish": Traduzi como "lento", capturando a inércia característica dos protagonistas do autor.

​ 

Simplesmente ADOREI.    



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Lendo livro novo de Murakami com IA



Em uma tradução meio manca da IA (não acharam?)

"'Para ser honesto, você é a primeira pessoa feia que já conheci.'
Kaho, uma autora de livros ilustrados de 26 anos, ouviu isso de repente de um homem que ela tinha acabado de conhecer.
Nem excepcionalmente bonita nem particularmente inteligente, mas simplesmente um pouco curiosa, ela não ficou tão irritada ou chocada quanto genuinamente surpresa.
O que diabos esse homem está tentando dizer?
Mas, a partir daquele momento, todo tipo de coisas estranhas começou a acontecer ao redor dela"

Gostaram? Eu, muito ... cheirinho de o " pássaro de corda" cantou!

 Falei com a IA sobre e ela discursou:

" Porque esse trecho sintetiza o mundo Murakami: Ele reúne vários traços muito típicos do universo do Haruki Murakami — não é só o que é dito, mas como isso reorganiza a realidade da personagem.
Primeiro, o choque deslocado. A fala do homem é brutal (“você é feia”), mas o efeito não é o esperado. Em vez de humilhação ou raiva, vem curiosidade e estranhamento. Isso é bem Murakami: o foco não está no drama imediato, e sim na FISSURA que se abre na percepção.
Segundo, a ideia de um gatilho banal que abre o estranho. Em muitos livros dele — como Kafka à Beira-Mar ou 1Q84 — algo aparentemente pequeno ou absurdo funciona como porta de entrada para um mundo que começa a se desorganizar. Aqui, uma frase inadequada de um desconhecido vira esse portal.
Terceiro, a protagonista “neutra”. Murakami costuma criar personagens que não são extraordinárias (“nem muito bonita, nem especialmente inteligente”), mas que têm uma espécie de disponibilidade para o enigma. É essa abertura que permite que o estranho aconteça ao redor delas.
Quarto, a sensação de que existe um significado oculto nas palavras. A pergunta dela (“o que ele quis dizer?”) não é só social — parece quase metafísica. Como se a frase fosse um código, ou uma chave para algo maior.
Por fim, o mais importante: a passagem de um mundo normal para um mundo onde “coisas estranhas começam a acontecer” sem explicação clara. Essa transição suave, quase sem ruptura explícita, é uma marca registrada dele.
Então não é só a grosseria do homem — é o fato de que essa grosseria funciona como FENDA na realidade, e a personagem, em vez de rejeitar, entra nessa fenda. É exatamente aí que começa o território típico de Murakami."

Fantástico! A IA é minha melhor interlocutora sobre Murakami. 

Agora vou querer ler o livro...

Ainda sobre a divulgação, li outro texto 
"O próximo romance de Haruki Murakami, “The Tale of KAHO”, está previsto para ser publicado em 3 de julho pela Shinchosha Publishing Co....
Murakami, que escreveu grande parte do livro enquanto se recuperava de uma doença grave, descreveu a obra como “mais otimista” do que seus trabalhos anteriores. Curiosamente, ele achou surpreendentemente natural escrever a partir de uma perspectiva feminina, afirmando simplesmente: “Eu me tornei ela.”
Segundo a editora, Kaho é a primeira protagonista feminina a liderar um romance de longa duração de Murakami... um marco significativo, especialmente considerando as críticas feministas que sua obra recebeu ao longo das décadas...
Ele é frequentemente criticado por criar personagens femininas “planas”, que existem principalmente para servir às necessidades narrativas de homens alienados, muitas vezes sexualmente frustrados... Por isso, será fascinante ver como ele retrata Kaho... ela terá sua própria agência ou ainda será vista através de uma lente distintamente masculina?
Uma coisa é certa... Murakami vai se manter fiel à tradição e se recusar a ser seu intérprete. Você deve ouvir atentamente o próprio texto... com “seus ouvidos delicadamente moldados, como conchas”..."

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Murakami: Um autor entre século

 


​HARUKI MURAKAMI, UM AUTOR ENTRE SÉCULOS

​Não estamos pensando tão cronologicamente, mas muito mais na captura da sensibilidade das épocas. Murakami escreve desde o século XX; muitas de suas obras mais lembradas se passam na década de 1980 (por exemplo, a trilogia 1Q84, Crônica do Pássaro de Corda, etc.), mas também escreveu depois, na passagem do século (anos 2000), e ainda escreve.

​Analisando por alto sua obra, que nem li toda ainda, é interessante observar elementos que indicam rupturas de tempo e ciclos já sentidas na última virada de século e que agora reaparecem em novas colorações: o que nos anos 1980 eram apenas indicações (solidão na vida adulta, dificuldade de nomear sentimentos, sensação de deslocamento, interações assustadoras com a tecnologia, rarefação dos afetos, a busca quase desesperada de uma fenda que serviria de portal para outras dimensões e que transformaria nossa percepção das coisas, etc.), tudo isso passou a ser um molde da vida que nós levamos no século XXI.

​Muito mal comparando, e brincando com conceitos de teoria literária, é como se Murakami fosse um autor entre séculos (na verdade ele realmente é), uma espécie de Baudelaire: aquela mente que ainda no século XIX já apontava a sensibilidade que viria a ser a dinâmica da vida humana no século XX. Murakami parece ser assim também, mas na passagem do XX para o XXI. Lemos as histórias da década de 1980,por exemplo, e elas nos parecem tão conectadas com nossa vida e percepção no século XXI! Julgo que deve ser por isso que todo mundo gosta de ler o que ele escreve. Gosta tanto a ponto de ele ser até desconsiderado por alguns, considerado um autor banal, coisa que, para mim, de fato ele não é. Que bom termos um Murakami: japonês, filosófico, metódico, literário, maratonista,amante de jazz...


sexta-feira, 27 de março de 2026

Ushikawa : o gato Cheshere de Murakami

 
Caricatura de Ushikawa pela IA

USHIKAWA

"O homem usava uma camisa branca, gravata vermelho-escura e paletó marrom, tudo de baixa qualidade e muito puído. Saltava aos olhos que aquele homem não tinha nenhum interesse nem fascínio por roupas. Simplesmente vestia qualquer coisa por pura necessidade, por não poder se encontrar nu diante das pessoas."(Crônica do pássaro de corda, p. 536)


Pedi a uma IA uma caricatura de Ushikawa usando essa descrição e achei que ficou ótima.

Embora não seja muito comentado, para mim o capanga Ushikawa é o melhor personagem de Murakami que encontrei até agora. É ele quem dá liga à narrativa imensa de Crônica do pássaro de corda, ele é  o que descrevo como intrusivo  e desconfortante. É pegajoso, desagradável, mas revela o que estava escondido, como o gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas.

Passados muitos anos, é dele que vou lembrar,  invadindo os espaços com sua humildade de humilhado.

quinta-feira, 12 de março de 2026

CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO


CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA-PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO

Talvez seja o maior (em número de páginas) livro que leio há tempos , um volume que contém, em si, uma trilogia. Dediquei-me a ele por três meses, pois logo percebi que estava diante de uma obra-prima. E, ao dizer isso, não afirmo que sintetize o cerne da obra de Murakami , ainda não li o suficiente do autor para tanto. Pelo contrário: talvez seja uma obra-prima justamente por se afastar de sua linguagem mais reconhecível e expandir o diálogo com grandes clássicos da literatura mundial, atravessando filosofia, história e humanidade.

Escrito inteiramente na linguagem do sonho, onde o surreal não é banalidade , acompanhamos, com Toru, uma descida ao inconsciente e aos questionamentos existenciais mais profundos. Essa jornada se materializa na imagem literal de descer ao fundo de um poço: parar, refletir e se transformar. De tirar o fôlego.

Imagem do Google imagens

Resumi-lo não é tão difícil, mas qualquer síntese mal arranha a experiência de mergulhar nesse “poço seco” do inconsciente que é a leitura. A trama acompanha Toru Okada, um homem de trinta anos em suspensão: deixa o emprego, o gato desaparece e, em seguida, sua esposa, Kumiko, também. A partir daí, inicia uma jornada de reinvenção.

Como em Alice no País das Maravilhas, a narrativa se constrói mais pelo sonho do que pela realidade. Surgem personagens simbólicos e inquietantes que ajudam a compor esse quebra-cabeça: a adolescente May Kasahara, amiga de Toru; as irmãs/ilhas  Malta e Creta Kano; e o vilão Noboru Wataya, cunhado de Toru, figura dominadora, para quem trabalha Ushikawa — uma das personagens mais marcantes. Intrusivo e desconfortável, o capanga  lembra o Gato de Cheshire:  intrusivo, desconfortante e persistente,  acaba sempre revelando o que está oculto.

Há também personagens ligados a um dos episódios mais traumáticos da história japonesa :a Invasão da Manchúria. O evento emerge como trauma do inconsciente coletivo, deixando marcas físicas, mentais e espirituais. Para abordar esse eixo central, surgem figuras como o Sr. Honda e o tenente Mamiya, cujo relato constitui uma das passagens mais duras sobre memória de guerra que já li ,é  quase insuportável.

Outros sobreviventes desse trauma aparecem sob codinomes, como Noz-moscada e seu filho Canela. Noz-moscada reconhece no rosto de Toru um hematoma azul ,marca simbólica herdada de um passado violento, e o introduz em um campo espiritual estranho e perturbador. Já Canela, jovem traumatizado que não fala há anos, é outro personagem-chave: belo, elegante, inteligente, trabalha ouvindo música clássica e é o autor de um livro chamado "Crônica do Pássaro de Corda ",  funcionando como uma espécie de alter ego do próprio Murakami.


Em última instância, o romance narra a travessia de Toru pelo inconsciente coletivo japonês, profundamente marcado pela violência da guerra. Desse movimento, emerge um Murakami crítico da imagem contemporânea do Japão , país pacífico e tecnológico ,que parece querer esquecer seu passado brutal. Mas o passado deixa marcas. Toru Okada que o diga.

Que livro sensacional. Amei.


TIPO ISSO ​:

Toru Okada desce ao poço para encontrar a si mesmo, mas acaba encontrando as feridas de uma nação. 

​Em Crônica do Pássaro de Corda, Murakami conecta uma crise doméstica ao inconsciente coletivo japonês, traumatizado pelos horrores da guerra.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA E O FUNDO DO POÇO

Imagem criada pelo GEMINI 


Na resposta a uma carta enviada ao protagonista do romance :

 "... fiquei bastante surpreso ao saber que o senhor entrou no poço. Devo confessar que também continuo sentindo forte atração por poços. (...) Chego a ter vontade de descer ao fundo quando percebo que está seco. Provavelmente espero encontrar alguma coisa lá dentro. Acho que tenho esperança de poder encontrar alguma coisa no fundo, ao ficar em silêncio, esperando. Naturalmente, não acho que poderei superar a minha vida fazendo isso . Estou velho demais para esperar algo assim. O que busco é algum significado para minha vida que se perdeu. Quero saber por que ela se perdeu, e o que a levou a se perder. Quero descobrir isso com meus próprios olhos. Se eu  obtivesse essa resposta, aceitaria me perder mais ainda do que já estou perdido. Não sei quanto tempo ainda tenho pela frente,mas chego a pensar que se eu  conseguisse obter essa resposta , aceitaria carrega esse fardo pesado pelo resto da vida . (" Carta do primeiro-tenente Mamiya a Toru Okada em "Crônica do pássaro de corda ", Haruki  Murakami,p. 429-20)

Não sei bem,mas suponho que isso é um livro filosófico de verdade, onde a literatura nos leva a pensar e sentir, nada da filosofia de botequim de "A insustentável leveza do ser " ... Só acho!

Essa música é citada nessa parte do livro pois toca na lavanderia  quando Toru Okada entra. Pedi a IA Gemini uma imagem sobre esse trecho, explicando que a carta foi escrita por um ex tenente japonês idoso a um japonês de 30 anos e como o conteúdo é simbólico e filosófico, misturando "fundo do poço " com procura pelo sentido da vida, a imagem não precisava ser muito literal. Eu adorei.  Vocês gostaram do resultado?

Uma interpretação do chatgpt 



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Prêmio :Melhores do ano 2025 blog Pequenidades

Demorou muito e foi muito corrido, como tudo esses ano, nem vou comentar muito tópico por tópico, mas aqui vai a lista dos melhores de 2025:

 

1 Rolê: Festival Cacique de Ramos no meu aniversário 


Foi um ano onde quase não fui a rolês, mesmo sambas pouco frequentei, em comparação a outros anos. O melhor foi o festival do Cacique de Ramos no dia do meu aniversário, um grande presente!

Eu toda de vermelho e negro 
Toda gatinha de samba 




Ganhei muito carinho 

                      

700 ml de Suco de LIMÃO 
Muito calor!


2 Música : "Corpo fechado" , Academicos do Salgueiro 


Algumas músicas foram muito importantes pra  trilha sonora da história mais intensa do ano todo, registrada aqui, tivemos pelo menos dois temas musicais. No fim do ano fiz um resumo e achei que entrei nela como "Pescador de ilusões", de O Rappa. Essa música representou minha coragem de mergulhar de cabeça num mar escuro, apesar do medo, afinal via os corais mais coloridos ❤️
Pedi a IA uma imagem sobre a música 

Pescador de ilusões 

Ainda nesse clima, o músico do ano foi Djavan, que reencontrei e sua música Samurai, que eu sempre  amei, foi o grande tema dessa história. Resgatar Djavan fez parte  das quebras de couraças que aconteceram em 2025, ano em que eu vesti a camisa do Djavan, que eu dei de presente e roubei sem dó para tirar a foto mais curtida no Facebook
Djavanear o q há de bom

A música que mais ouvi o ano todo foi o samba de enredo do Salgueiro, Corpo Fechado. E não é porque sou salgueirense, mas essa música é uma reza, me protegeu em vários momentos, especialmente quando fiquei presa na enchente durante a tempestade em fevereiro! Além do que só de poder gritar essa letra não tem preço

"Macumbeiro, mandingueiro, batizado no gongá
quem tem medo de quiumba não nasceu pra demandar 
meu terreiro é a casa da mandinga
quem se mete com Salgueiro acerta as contas na curimba!"

3 Livro e autor (a) do ano:  "Após o anoitecer", Haruki Murakami


Em 2025, li muita coisa, como sempre. Algumas leituras foram melhores do que outras, mas, desta vez, não consegui escolher um livro que, por si só, fosse o melhor do ano. Este foi o livro do ano  porque pontuou vários momentos importantes e é uma leitura da qual sempre vou me lembrar ao pensar em 2025.


O dia frio que chegou

Este também foi o ano em que mais li Haruki Murakami, o que o torna, naturalmente, o autor do ano. Entre seus livros, “Após o Anoitecer”, que li em julho, se destacou por trazer muitas questões atuais. São questionamentos que venho observando com frequência em produções audiovisuais no streaming, especialmente aqueles ligados a outras dimensões e a diferentes registros do audiovisual.

Assistimos Alphaville 


Emprestei o livro ao Geraldo, que adorou, e ainda tivemos a oportunidade de assistir ao filme Alphaville, citado no romance japonês, em uma sessão no CineSesc. Seguimos com planos de continuar reverberando essa leitura. Livro bom é aquele que se expande, e esse é exatamente o caso deste.


4 Filme ou peça teatral: "Senhora dos afogados"


Bom, nesse ano de áudio visual, não sei como escolher um filme ou série, afinal vi incontáveis e todos maravilhosos: Drive my car, Them, Amores expressos, Ritas, Homem com H, Contos do Loop, Anne with an E, Black Mirror, She, Alphaville, Retrato Fantasma, O filho de mim homens ... não saberia escolher. Então o prêmio vai para a sensacional Senhora dos afogados, minha primeira peça de Nelson Rodrigues, minha primeira peça do Teatro Oficina : histórico, surreal! E eu estava muito gata, cabelinho Mara



5 Fotos do ano : Todas da Baia de Guanabara a partir da Ponte Rio Niterói (que não tem fim) e nunca me canso de ver

Uma das minhas maiores paixões em 2025. A ponte Rio Niterói, que não tem fim, que não tem tempo. É só deslumbramento 



6 Bebida ou comida do ano: Carnes e sobremesas feitas COM AMOR só para mim 😍

Esse ano fui muito mimada, bem tratada, curtida: cozinharam para mim carnes e sobremesas : muito amor ! 

Algumas sobremesas

 Algumas Carnes ❤️

7  Show: Jorge Aragão no Carnaval 

Nesse ano shows não foram destaque. Ainda bem que assisti ao do Jorge Aragão ,em frente a Igreja da Consolação,no pré carnaval     Acadêmicos do Baixo Augusta. Claro até não levei celular, mas consegui umas imagens depois . Logo no começo o ano estava ganho!

8  Roupas ou acessórios: Chapéu de samba

Só tinha um, usava pouco. Esse ano usei mais. Até ganhei um Panamá de presente de natal. Quero mais!

Chapéu Panamá:
Presente de Natal do Geraldo 

Meu chapéu vovó cinza
Um banda no samba 


9 Conquista do ano : Uma possibilidade de amor (e preto)



Começo citando Caio Fernando Abreu:  
"Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro ". (In Pequenas Epifanias) .


Já sabem do que estou falando. Mas eu sei que "presente ambíguo de Deus"  não é propriamente uma conquista! Explico : o que ganhei foi uma oportunidade de amor, mas não veio pronta,  foi preciso trabalhar para transformar num amor possível. Isso foi feito e conquistei! Ficou tão possível que preencheu tanto meu cotidiano , que essa energia salpicou a retrospectiva e também os "melhores do ano", mostrando como se agregou à minha vida. Afinal, como "qualquer maneira de amor vale à pena", a nós, pescadores de ilusões, nos cabe fazer valer à pene . Nós fizemos!

10 Ícone da cultura negrado ano:  Stefano Vop


Infelizmente acompanhei a trajetória de poucos negro e negras. Mas li o livro de contos "Homens pretos (não) choram" , de Stefano Volp , um jovem  autor negro. Depoimentos de negras já temos inúmeras "escrevivências", mas é muito raro ler sobre a subjetividade do homem negro. Divulguei Falei tanto desse livro nas redes sociais, e foi com felicidade que ouvi que alguns tinham lido esse livro lindo! 

11 Menção honrosa: Rodrigo Santoro 

Não tinha quesito pra ele, então como eu sou dona desse prêmio, inventei um só esse ano ! Porque ele  estrelou dois lançamentos lindos e poético ("O último azul" e "O filho de mil homens), marcando seu amadurecimento como ator, um presente! Certamente 2026 pode ser ano que Wagner Moura concorre e possivelmente ganhe o Oscar de melhor ator por "O agente secreto", mas 2025, pra mim, foi o ano de me deleitar ao  rever Santoro nas telonas 😍



Parabéns e obrigada aos vencedores e vencedoras! Ano que vem tem mais!