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segunda-feira, 9 de março de 2026

HISTORIADORAS NO OSCAR 2026




HISTORIADORAS NO OSCAR 2026

​Neste ano assisti a dois concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Internacional, Valor Sentimental e O Agente Secreto. Escrevo aqui para observar um “detalhe” que ambos têm em comum: mostram historiadoras trabalhando em nossa profissão, pesquisando.

​Em Valor Sentimental, Agnes Borg Pettersen é a filha mais nova da família Borg e também é historiadora, aquela que realiza a pesquisa nos arquivos sobre o passado da avó, que se suicidou após ter tido vida intensa e ter sido perseguida por sua atuação na luta antinazista no século XX. No filme, quando vemos Agnes pesquisando em um arquivo a história da avó, essa trajetória já havia sido parcialmente apresentada em um dos pequenos filmes contidos nessa bela película. É interessante que, mesmo sendo todas personagens fictícias, a importância real do trabalho de pesquisa histórica, neste caso para dar bases a narrativas artísticas, aparece ressaltada. Afinal, sem o resultado de sua investigação mais técnica, nem ela, nem sua irmã Nora Borg, e talvez nem o próprio pai, o cineasta Gustav Borg, saberiam muito sobre as dores que atingiram a avó das duas. Foi ele quem a encontrou morta em casa, abrindo uma enorme ferida que passa a reverberar na relação com as filhas. O trabalho profissional de Agnes, que consiste em desvelar a trajetória de tantas pessoas que realmente atuaram no passado, aparece aqui como fundamental para se contar a História e para sustentar o próprio roteiro.

​Já em O Agente Secreto, percebemos uma espécie de homenagem de Kleber Mendonça Filho à sua mãe, que foi pesquisadora de História Oral. No filme, duas historiadoras aparecem trabalhando na investigação sobre quem foi Armando e por que ele teve de mudar seu nome para Marcelo no Recife da década de 1970. Ao contrário da primeira obra, nesse caso não ficou claro se essa pesquisa foi encomendada para a realização de filmes, nem mesmo este do qual ela faz parte. No entanto, trata-se também de uma “pesquisa” ficcional sobre personagens ficcionais.

​Seguindo os caminhos da metodologia histórica, a historiadora Flávia chega a procurar Fernando, o filho do protagonista Armando, para lhe mostrar tantas coisas sobre o pai, com quem ele próprio tivera contato intenso apenas na primeira infância, como é mostrado no filme. Já adulto, ele mal se lembra racionalmente de muitos episódios. A historiadora sabia mais sobre Armando do que seu próprio filho. Flávia aparece como agente do resgate racional do passado. Já Fernando nada sabia objetivamente sobre o pai, mas o recordava demais. Recordar é diferente de lembrar, pois passa pelo radical “cor”, que significa trazer de volta ao coração. Quantas vezes, como historiadores, não tivemos nossas pesquisas técnicas preenchidas pelo material humano dos depoimentos orais, em princípio tão fragmentários, até que tudo começa realmente a fazer sentido.

​De duas formas diferentes, nós historiadores fomos presenteados por termos nossa profissão validada em dois filmes concorrentes a prêmio internacional. Seja lá quem ganhe o Oscar, pode até não ser nenhum desses filmes, ainda assim nós, historiadores, já ganhamos o prêmio de ver nossa profissão tão bem representada no cinema em 2026.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

 


O DRAMA MENSTRUAL DE JANE AUSTEN (2025): Indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem no Oscar 2026, O Drama Menstrual de Jane Austen (2025), dirigido por Mariana Whitaker, está disponível no YouTube.

Nele acompanhamos a história da srta. Estrogênia Talbot, interpretada por Julia Romano, que menstrua justamente durante um pedido de casamento feito por Edmund Ashford, vivido por Thomas Ellery. Ao perceber o sangue, Edmund acredita que a jovem está gravemente ferida. Estrogênia, então, decide explicar o que realmente está acontecendo, o que dá origem a uma sucessão de situações cômicas impagáveis.

Muito bem produzido, com grande elenco para um curta, figurino impecável e imagens belíssimas da natureza, o filme é uma divertidíssima aula sobre questões femininas, tema sobre o qual ainda se fala pouco, até hoje.

A narrativa é sucinta e não necessariamente precisaria se estender mais. No entanto, caso houvesse alguns minutos adicionais, talvez até mesmo as piadas já incríveis alcançassem um efeito ainda mais potente. Recomendo vivamente que assistam.

Um apontamento interessante: este é um filme sobre questões de mulheres, no qual os homens entram sobretudo para observar e aprender. Já em Cantores (2025), outro curta que assisti recentemente e que concorre ao mesmo prêmio, o tema é exclusivamente o universo masculino.

Eis mais uma disputa entre homens e mulheres na qual ambos saem ganhando, com filmes excelentes.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"Sonhos de trem" , de Clint Bentley



SONHOS DE TREM: Disse que não ia assistir mais candidatos ao Oscar 2026, mas acabei assistindo esse de , que traz o brasileiro Adolpho Veloso como indicado ao prêmio de Melhor Fotografia. Como está disponível na Netflix, consegui assistir no domingo, 25 de janeiro de 2025, e não me arrependi. O filme é literalmente LINDO, com uma fotografia deslumbrante , fiquei com vontade de ter assistido na telona. 
Conta a história do solitário lenhador Robert que, no início do século XX, vai abrindo caminhos para a modernidade, construindo pontes e estradas. Ele vê muitas coisas como injustiça, violência , e se questiona sempre sobre as consequências de precisar derrubar tantas árvores que viviam ali há séculos, ouvindo opiniões de jovens e de velhos. Não sabendo nada sobre sua origem, consegue se unir a alguém e ter uma família, mas a vida é implacável e ele precisa superar muitas coisas. Sempre revendo sua trajetória nas viagens de trem.
É um filme todo narrado por uma voz masculina e lento o suficiente para a gente ter tempo de ver as belas imagens com detalhes enquanto o narrador se encarrega da história. Gostei muito de ver. Que lindo filme! Esse Oscar bem que pode vir pro Brasil!
Como aprontou um crítico no YouTube: É um filme sobre memória, solidão e sobrevivência.