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terça-feira, 29 de setembro de 2026

"IQ84" de Murakami: primeiras impressões de leitura

 



PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE LEITURA DE ​IQ84 volume I 

Lançado no Japão em 2009, o primeiro livro da trilogia só saiu no Brasil em 2012, e nesse volume temos duas histórias contadas em vinte e quatro capítulos alternados: uma é da jovem Aomame; a outra é do professor e escritor Tengo. Passadas entre abril e junho do referencial ano de 1984 (além do título, o livro clássico de George Orwell é citado logo no início desta obra. Lembro que é em 1984 que também acontecem outras histórias de Murakami, como a da obra-prima "Crônica do pássaro de corda").

​Estou na metade e adorando sentir o gostinho do ambiente do autor, mas sei que tem muito a acontecer neste e nos próximos volumes, mas por enquanto as histórias de Tengo e Aomame se tocam muito transversalmente e a única coisa que os une é certo estranhamento em relação à percepção da realidade que ambos sentem, especialmente Aomame, que chega a formular não estar mais em 1984, mas em 1Q84, onde o "q" seria uma dúvida. Será que ainda nesse volume as histórias de Tengo e Aomame se aproximam? A saber.

​Não sei classificar esse romance, afinal ele acontece no passado, entao não sei se posso chamar de distopia, também não é uma ficção científica... talvez uma fantasia beem realista (temos nele uma abertura no tempo cronológico) vamos ver por qual caminho ele vai se desenvolver.

Estou adorando habitar novamente o AMBIENTE  MURAKAMI.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Ushikawa : o gato Cheshere de Murakami

 
Caricatura de Ushikawa pela IA

USHIKAWA

"O homem usava uma camisa branca, gravata vermelho-escura e paletó marrom, tudo de baixa qualidade e muito puído. Saltava aos olhos que aquele homem não tinha nenhum interesse nem fascínio por roupas. Simplesmente vestia qualquer coisa por pura necessidade, por não poder se encontrar nu diante das pessoas."(Crônica do pássaro de corda, p. 536)


Pedi a uma IA uma caricatura de Ushikawa usando essa descrição e achei que ficou ótima.

Embora não seja muito comentado, para mim o capanga Ushikawa é o melhor personagem de Murakami que encontrei até agora. É ele quem dá liga à narrativa imensa de Crônica do pássaro de corda, ele é  o que descrevo como intrusivo  e desconfortante. É pegajoso, desagradável, mas revela o que estava escondido, como o gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas.

Passados muitos anos, é dele que vou lembrar,  invadindo os espaços com sua humildade de humilhado.

quinta-feira, 12 de março de 2026

CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO


CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA-PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO

Talvez seja o maior (em número de páginas) livro que leio há tempos , um volume que contém, em si, uma trilogia. Dediquei-me a ele por três meses, pois logo percebi que estava diante de uma obra-prima. E, ao dizer isso, não afirmo que sintetize o cerne da obra de Murakami , ainda não li o suficiente do autor para tanto. Pelo contrário: talvez seja uma obra-prima justamente por se afastar de sua linguagem mais reconhecível e expandir o diálogo com grandes clássicos da literatura mundial, atravessando filosofia, história e humanidade.

Escrito inteiramente na linguagem do sonho, onde o surreal não é banalidade , acompanhamos, com Toru, uma descida ao inconsciente e aos questionamentos existenciais mais profundos. Essa jornada se materializa na imagem literal de descer ao fundo de um poço: parar, refletir e se transformar. De tirar o fôlego.

Imagem do Google imagens

Resumi-lo não é tão difícil, mas qualquer síntese mal arranha a experiência de mergulhar nesse “poço seco” do inconsciente que é a leitura. A trama acompanha Toru Okada, um homem de trinta anos em suspensão: deixa o emprego, o gato desaparece e, em seguida, sua esposa, Kumiko, também. A partir daí, inicia uma jornada de reinvenção.

Como em Alice no País das Maravilhas, a narrativa se constrói mais pelo sonho do que pela realidade. Surgem personagens simbólicos e inquietantes que ajudam a compor esse quebra-cabeça: a adolescente May Kasahara, amiga de Toru; as irmãs/ilhas  Malta e Creta Kano; e o vilão Noboru Wataya, cunhado de Toru, figura dominadora, para quem trabalha Ushikawa — uma das personagens mais marcantes. Intrusivo e desconfortável, o capanga  lembra o Gato de Cheshire:  intrusivo, desconfortante e persistente,  acaba sempre revelando o que está oculto.

Há também personagens ligados a um dos episódios mais traumáticos da história japonesa :a Invasão da Manchúria. O evento emerge como trauma do inconsciente coletivo, deixando marcas físicas, mentais e espirituais. Para abordar esse eixo central, surgem figuras como o Sr. Honda e o tenente Mamiya, cujo relato constitui uma das passagens mais duras sobre memória de guerra que já li ,é  quase insuportável.

Outros sobreviventes desse trauma aparecem sob codinomes, como Noz-moscada e seu filho Canela. Noz-moscada reconhece no rosto de Toru um hematoma azul ,marca simbólica herdada de um passado violento, e o introduz em um campo espiritual estranho e perturbador. Já Canela, jovem traumatizado que não fala há anos, é outro personagem-chave: belo, elegante, inteligente, trabalha ouvindo música clássica e é o autor de um livro chamado "Crônica do Pássaro de Corda ",  funcionando como uma espécie de alter ego do próprio Murakami.


Em última instância, o romance narra a travessia de Toru pelo inconsciente coletivo japonês, profundamente marcado pela violência da guerra. Desse movimento, emerge um Murakami crítico da imagem contemporânea do Japão , país pacífico e tecnológico ,que parece querer esquecer seu passado brutal. Mas o passado deixa marcas. Toru Okada que o diga.

Que livro sensacional. Amei.


TIPO ISSO ​:

Toru Okada desce ao poço para encontrar a si mesmo, mas acaba encontrando as feridas de uma nação. 

​Em Crônica do Pássaro de Corda, Murakami conecta uma crise doméstica ao inconsciente coletivo japonês, traumatizado pelos horrores da guerra.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA E O FUNDO DO POÇO

Imagem criada pelo GEMINI 


Na resposta a uma carta enviada ao protagonista do romance :

 "... fiquei bastante surpreso ao saber que o senhor entrou no poço. Devo confessar que também continuo sentindo forte atração por poços. (...) Chego a ter vontade de descer ao fundo quando percebo que está seco. Provavelmente espero encontrar alguma coisa lá dentro. Acho que tenho esperança de poder encontrar alguma coisa no fundo, ao ficar em silêncio, esperando. Naturalmente, não acho que poderei superar a minha vida fazendo isso . Estou velho demais para esperar algo assim. O que busco é algum significado para minha vida que se perdeu. Quero saber por que ela se perdeu, e o que a levou a se perder. Quero descobrir isso com meus próprios olhos. Se eu  obtivesse essa resposta, aceitaria me perder mais ainda do que já estou perdido. Não sei quanto tempo ainda tenho pela frente,mas chego a pensar que se eu  conseguisse obter essa resposta , aceitaria carrega esse fardo pesado pelo resto da vida . (" Carta do primeiro-tenente Mamiya a Toru Okada em "Crônica do pássaro de corda ", Haruki  Murakami,p. 429-20)

Não sei bem,mas suponho que isso é um livro filosófico de verdade, onde a literatura nos leva a pensar e sentir, nada da filosofia de botequim de "A insustentável leveza do ser " ... Só acho!

Essa música é citada nessa parte do livro pois toca na lavanderia  quando Toru Okada entra. Pedi a IA Gemini uma imagem sobre esse trecho, explicando que a carta foi escrita por um ex tenente japonês idoso a um japonês de 30 anos e como o conteúdo é simbólico e filosófico, misturando "fundo do poço " com procura pelo sentido da vida, a imagem não precisava ser muito literal. Eu adorei.  Vocês gostaram do resultado?

Uma interpretação do chatgpt