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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

ASSUNTO DE TERAPIA

 

Camilinha tinha um desejo


ASSUNTO DE TERAPIA: Na minha última sessão, dolorosamente,  apareceu uma palavra que representa um dos meus monstros internos mais terríveis... Eu lembrei e citei de cabeça um trecho de uma das obras mais importantes para mim:


"Todas as crianças têm uma fada a quem podem pedir a realização de um desejo. Mas só poucos são capazes de se lembrar do desejo que formularam; e por isso só poucos reconhecem mais tarde, ao longo da vida, que seu desejo foi satisfeito. Eu sei qual foi o meu..." Walter Benjamin, Infância Berlinense.


O desejo da Camilinha era justamente eliminar daminha vida aquela palavra-terror e tudo o que ela representa.

Porém, se ela apareceu na minha sessão agora, às vésperas dos meus 47 anos, só comprova que ou  minha fadinha se atrasou ou se esqueceu. Mas eu não esqueci, e dói cada vez mais, afinal nunca abrimos mão de um desejo! 


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Contos do Loop : Humanidade perdida no tempo


Nos dois primeiros dias chuvosos de novembro de 2025, aproveitei a chegada da nova Smart TV em casa e assisti à série Contos do Loop (2020), pela Prime Vídeo, por recomendação do Geraldo. E gostei muito.

Trata-se de uma série de TV norte americana de ficção científica, que  está disponível na Amazon Prime apenas a primeira temporada, com oito episódios. A trama se passa em uma cidade fictícia chamada Mercer, Ohio, onde existe um acelerador de partículas gigante conhecido como “The Loop”. Diretamente ligados a esse experimento científico, os habitantes da cidade vivem fenômenos sobrenaturais e distorções da realidade, chegando até à alteração do tempo e do espaço.

Na verdade, a série é mais um subproduto das obras de arte de Simon Stålenhag, que originaram um jogo de RPG e, mais tarde, foram adaptadas para o audiovisual por Nathaniel Halpern.

Tendo tudo para ser uma série futurista, despótica e tecnológica, ela surpreende e encanta por ser bela, melancólica e profundamente humana, abordando alguns temas fundamentais da nossa vida como amor, morte, família,etc. Com uma estética retro-futurista e contar  histórias interligadas, a série mostra indivíduos tentando preservar sua existência e conviver em meio a uma natureza espetacular e a uma tecnologia que, ao mesmo tempo em que pode tornar tudo possível, também os lança num fluxo temporal desorientador, como se o Loop fosse uma força maior que suga, inexoravelmente, sua humanidade.

Vou tentar resumir os oito episódios:

1. “Loop” – A menina Loretta descobre que sua mãe trabalha num laboratório subterrâneo chamado “The Loop” e investiga o mistério, o que acaba levando-a a uma impressionante viagem no tempo.

O tempo faz tudo mudar 

2. “Transpose” – Dois adolescentes, Jakob e Danny, encontram um objeto na floresta que permite trocar de corpo e viver a vida um do outro. A experiência, que no início parece divertida, acaba levando-os a situações extremas, à beira dos limites da própria humanidade.

3. “Stasis” – A jovem May se apaixona por Ethan e   tenta fazer o tempo parar com a ajuda de um artefato científico. Como metáfora do amor, o casal interrompe o tempo para viver sua paixão, mas, quando Cronos volta a agir, tudo muda novamente e e nada é para sempre.

4. “Echo Sphere” – O garoto Colle, filho de Loretta, e seu avô Russ (o fundador  do Loop) se confrontam com o fim da vida através de uma esfera que revela quanto tempo resta a cada pessoa. Um dos episódios mais bonitos e tristes, sobre a passagem inevitável do tempo, uma força que nem mesmo o Loop pode conter.

5. “Control” – Ed é um pai que trabalha no Loop e faz escolhas extremas para proteger sua família após o filho entrar em coma. Talvez o episódio mais fraco da temporada, mas interessante pela forma como mostra os robôs envelhecidos e abandonados, lembrando que a tecnologia, por mais avançada que seja, logo se torna sucata, e nunca substitui o valor da vida humana.

6. “Parallel” – Gaddis é um segurança do Loop que viaja para um mundo paralelo em busca de amor e sentido. Nessa jornada, ele encontra mais do que o amor: encontra a si mesmo, descobrindo possibilidades de vida que se desenrolam em outros tempos e dimensões.

Você toca a campainha e
quem atende é você mesmo 

Cada gota de chuva um segundo 
Tempo tempo tempo tempo

7. “Enemies” – George, marido de Loretta, quando adolescente visita uma ilha misteriosa e descobre uma presença monstruosa que muda sua vida. A convivência entre robôs e humanos é mostrada de forma mais intensa e perturbadora aqui. Terminei o episódio impressionada, com um gosto amargo na boca.

8. “Home” – Colle, o  garoto,  tenta reencontrar o irmão Jakob, que havia se perdido,  e se reconectar com o passado em uma cidade onde o tempo parece correr diferente. Por ser o último da temporada, o episódio busca amarrar as histórias e acaba emocionando profundamente, afinal, já estamos afetivamente ligados às personagens e suas travessias pelo tempo e pelo sentimento. 

Quando termina, o que mais queremos é ver mais, porque é uma série linda, interessante, delicada e de altíssimo nível.

Você fotógrafa o que quer guardar 

Quando acabou, pensei em mil coisas — sobretudo na ideia de “tempo constelacional” de Walter Benjamin, que, em última instância, não rejeita a possibilidade de vidas simultâneas se desenrolando em outras dimensões. Será?

 

Pedi ajudinhas práticas à IA para escrever esse POST, ela me ofereceu um mapa das conexões entre os episódios. Ela inseriu também interpretações minhas (ela revisou o texto) e ficou bem legal :


🌀 Mapa das Conexões do Loop

1. Loretta (Ep. 1 – “Loop”)

É o ponto de partida e o fio condutor da série.

Aparece jovem, depois adulta e mãe de Cole (Ep. 4) — mostrando a continuidade entre gerações.

Representa a ciência e a curiosidade, mas também o risco de perder o humano ao tentar dominar o tempo.


2. Jakob e Danny (Ep. 2 – “Transpose”)

São vizinhos de Loretta.

A troca de corpos conecta-se ao tema da identidade e da incapacidade de ser “outro” sem se perder de si mesmo.

Jakob reaparece em outros episódios, mas de forma sutil — deslocado no tempo.


3. May e Ethan (Ep. 3 – “Stasis”)

Vivem no mesmo universo e época que Jakob.

Sua tentativa de parar o tempo é uma metáfora do desejo humano de congelar o instante do amor.

O dispositivo que usam é um dos muitos artefatos do Loop, e reaparece abandonado depois, como vestígio de uma história que o tempo engoliu.



4. Cole e Russ (Ep. 4 – “Echo Sphere”)

Cole é o filho de Loretta, e Russ, seu avô, o fundador do Loop.

É o episódio mais pessoal e filosófico: a aceitação da morte e do ciclo da vida.

Liga-se diretamente ao início e ao fim da série — a origem e o encerramento do Loop familiar.


5. Ed (Ep. 5 – “Control”)

Morador da mesma cidade, também trabalha no Loop.

O tema da proteção da família e da impotência humana diante do inevitável ecoa o que vemos em Cole e Loretta.

Mostra o contraste entre o controle e a entrega — uma das tensões centrais do Loop.


6. Gaddis (Ep. 6 – “Parallel”)

O segurança do Loop que descobre outra versão de si mesmo em um universo paralelo.

Espelha o conflito de Jakob (Ep. 2) e aprofunda a ideia de existências simultâneas, que você captou com a leitura de Walter Benjamin.

7. George (Ep. 7 – “Enemies”)

Marido de Loretta e filho de Russ.

O episódio revela seu trauma de infância , o que explica muito da frieza e solidão dele no presente.

Amarra o ciclo familiar, tornando o Loop uma metáfora do destino hereditário.


8. Cole novamente (Ep. 8 – “Home”)

O último episódio fecha o círculo iniciado em “Loop”.

Cole percorre o tempo em busca do irmão  Jakob
e, sem perceber, vive dentro do mesmo Loop que seu avô criou.

É o retorno ao lar — não físico, mas emocional, espiritual e temporal.


💫 Evidente e invisível ao mesmo tempo — a série faz o tempo agir como personagem. As vidas se entrelaçam não apenas por parentesco, mas por temas: identidade, perda, amor, passagem e permanência.
Tudo é sobre ser humano diante do incompreensível.


Uau! Deu pano pra mangas! Super recomendo a série.

Um plus: minha amiga Rosane Pavam reparou que no primeiro episódio, enquanto a menina Loreta caminha pela cidade,há um letreiro do filme Monika e o desejo, de Bergman