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quinta-feira, 7 de maio de 2026

LEITURA CRÍTICA DE "Caçando carneiros "



Neste  grupo sobre Murakami no Facebook,  a leitora Osama Flåan divulgou um ensaio crítico de Streacher muito interessante sobre o romance "Caçando carneiros" (livro que primeiro eu odiei, ai estranhei, não conseguia largar e depois me deu ressaca literária).

A tradução foi pelo Gemini:

"The result is that the simplicity of the Murakami hero, marked by lethargy and nostalgia, emerges as emblematic of contemporary humankind, bereft of identity, direction, and meaning."

— Matthew C. Strecher, Dances with Sheep

​"O resultado é que a simplicidade do herói de Murakami, marcado pela letargia e pela nostalgia, surge como emblemática da humanidade contemporânea, desprovida de identidade, direção e sentido."

Matthew C. Strecher, Dances with Sheep

​Nos conta Osama Flåan :

"Este é o segundo livro que leio de Streacher e não me decepcionei...

​O que ele demonstra é como, em quase todos os romances de Murakami, existe um portal para "o outro lado"... um reino metafísico onde a temperatura cai, o tempo se comporta de forma diferente e o ar cheira a mofo... Eu já tinha notado essa repetição, mas Strecher a sistematiza de uma forma que foi uma verdadeira revelação para mim... Isso é uma coisa.

​A segunda é como Strecher captura os paradoxos dentro de Murakami... um autor que escreve sobre as grandes e dolorosas questões da vida em uma linguagem tão simples que ressoa tanto em adolescentes quanto em professores... Alguém que brinca com o pós-modernismo, mas que, simultaneamente, alerta contra as forças "achatadoras" do mundo moderno...

​Quando Strecher finalmente amarra tudo... a magia, a psicologia, a crítica linguística... somos obrigados a reconhecer mais uma vez... o herói de Murakami, lento e nostálgico, é verdadeiramente um reflexo de todos nós... Sem raízes, sem direção, presos em uma realidade que está sendo gradualmente esvaziada de sentido...

​Se você já sentiu que o mundo de Murakami contém algo que você não consegue expressar em palavras... leia este livro."

​Notas da Tradução:

  • "Eye-opener": Traduzi como "revelação", que transmite a ideia de algo que abre os olhos ou traz uma nova compreensão.
  • "Flattening forces": Usei "forças achatadoras", termo comum na crítica literária para descrever a perda de profundidade cultural ou individual na modernidade.
  • "Sluggish": Traduzi como "lento", capturando a inércia característica dos protagonistas do autor.

​ 

Simplesmente ADOREI.    



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Caçando carneiros: Murakami em formação?

              

 MURAKAMI EM FORMAÇÃO :​Chegando às páginas finais de "Caçando Carneiros"(1982), confesso que já não aguento mais a a narrativa. Gosto muito  da obra de Haruki Murakami, mas, neste volume, embora a escrita mantenha pontos de luz e já estejam presentes os traços estilisticos que eu mais gosto ,a história é excessivamente longa, fragmentada em um  enredo que caberia em pouco mais de 100 páginas, a exemplo de outros trabalhos seus mais enxutos.

​A sensação que tenho é a de estar diante de um esboço, uma obra em que o autor experimenta, de forma até humorística, a composição de personagens e da estrutura narrativa. É quase um longo manuscrito. Como apontei acima, elementos-chave de seus textos  mais envolventes,e que eu mais amo, já  surgem aqui de maneira bastante crua, quase como rascunhos : o realismo fantástico; o tom onírico e surrealista; a música como marcador de tempo e ambiência; a abertura para outras dimensões da realidade e a reflexão sobre  a solidão do homem moderno. 

 Para o leitor que já conhece seus trabalhos posteriores, esta leitura  funciona como um autêntico documento de formação, pontuando o potencial de evolução  que Murakami, como autor, vai desenvolver  e concretizar plenamente em suas obras maduras.


A música é por este trecho "luz" : 

 " A neve continuou a cair até o fim da tarde, cobrindo toda a campina num único manto branco. Quando a noite chegou, a neve enfim parou e uma espessa névoa de silêncio aproximou-se uma vez mais. Um silêncio que eu não conseguia quebrar. Acertei o toca-discos na repetida automática e ouvi White Christmas, de Bing Crosby, VINTE E SEIS VEZES consecutivas."p. 296

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Só um parágrafo de Murakami

 

Imagem da cena descrita, criada pelo Gemini

Eis um parágrafo imagético do romance "Caçando carneiros" . Aparece quando o protagonista (sem nome) está hospedado no oitavo andar de um hotel de uma cidade que também não sabemos o nome. Ele espera as 17 horas para se encontrar com uma mulher desconhecida e entregar a ela a carta de Rato,um amigo em comum. Eis o parágrafo:

A CHUVA DISSOLVE A CIDADE 

"A chuva fina continuava caindo às cinco horas da tarde seguinte. Chegou depois de quatro ou cinco dias de sol que prenunciavam um glorioso verão, bem na hora em que todos julgavam enfim terminado o deprimente período chuvoso. DA JANELA DO OITAVO ANDAR, a terra parecia preta e molhada até o último recanto. Na via expressa elevada, carros que se dirigiam do oeste para o leste estavam parados num gigantesco congestionamento de alguns quilômetros. Contemplando-os fixamente, pareceu-me que A CHUVA OS DISSOLVIA AOS POUCOS. Aliás, A CIDADE INTEIRA COMEÇAVA A DISSOLVER-SE. O cais no porto, os guindastes,os prédios enfileirados e,DEBAIXO DOS GUARDA-CHUVAS PRETOS, AS PESSOAS. O verde das montanhas também se dissolvia e escorria silenciosamente rumo à base. Mas, ao FECHAR OS OLHOS por alguns segundos e REABRI-LOS , a cidade tinha se reconstituído misteriosamente. Os seis guindastes continuavam com seus braços erguidos na direção do céu escuro carregados de nuvens cinzentas,a fila de carros despertava de súbito e lembrava de mover-se vez ou outra rumo a leste, os pedestres de guarda-chuva cruzavam o asfalto, o verde das montanhas absorvia com satisfação a copiosa chuva junina." (Haruki Murakami. Caçando carneiros,p.107-8)


Belo trecho.Imagético e mágico. Podia ser o roteiro de um curta-metragem, podia ser uma imagem de Monet, mas é só um parágrafo desse livro de Murakami que nem estou gostando tanto assim!

domingo, 2 de novembro de 2025

Trilogia do RATO


 RATO, contraponto do narrador-

O Rato é um personagem recorrente em alguns dos primeiros livros de Haruki Murakami — Ouça a Canção do Vento, Pinball, 1973 e Caçando Carneiros —, a chamada “Trilogia do Rato”. Ele aparece como o amigo do narrador-protagonista sem nome.

Como recurso de composição de personagem para o autor, acho interessante; mas, como leitura, confesso que é um pouco cansativo (já li muiyos textos mais bem-acabados de Murakami...).

Rato é um jovem melancólico, inteligente e inconformado, que sente repulsa pela rotina e pela superficialidade da vida moderna. Vive em busca de sentido, embora nem ele saiba exatamente o que procura . Algo muito juvenil pro meu gosto.

Como apontou a IA, dentro do universo dessas obras, o Rato acaba se tornando uma figura simbólica: representa o lado idealista e rebelde do narrador (e do próprio Murakami), aquele que não aceita o mundo como ele é e, por isso, se isola ou desaparece.

Rato é o alter ego solitário e inquieto de Murakami, símbolo da juventude perdida e do desejo de escapar da mediocridade.

Não deixa de ser interessante ,  mas ainda prefiro outras pegadas murakâmicas, menos teen... mais densas e enigmáticas.