terça-feira, 7 de abril de 2026

DARK : O inimigo é o tempo

 

 

DARK — Terminei de assistir a serie alemã e pirou meu cabeção!. Apesar do tema viagem no tempo ser muito batido, definitivamente ela se destaca. Passando-se em uma cidade alemã fictícia, onde está instalada uma usina nuclear, a história começa em 2019, quando o jovem Jonas tenta se recuperar da morte do pai, que se enforcou, enquanto outros garotos desaparecem, o que dá o mote para investigações nesse e em outros tempos.

Primeiro, um comentário técnico: que fotografia perfeita. Acompanhando o clima de tensão da série, é tudo sempre muito escuro: usina nuclear, bunker, floresta, cavernas... e chove tempestades na maior parte do tempo. Para completar a ambientação,  uma atenção uma trilha sonora incidental precisa, que imita discretamente uma sirene, nos fazendo lembrar que estamos perto da usina.

Foto da tela :"O homem pode,  de fato, fazer o quer, mas não pode querer o que quer"
Uma epígrafe 

Sobre a série em si, não esperem que eu faça nenhum comentário “explicativo”: há gente que está vendo há anos e ainda tenta entender. É que a ideia é muito boa, sustentada por teorias da física e da filosofia (alemães, né?), para colocar o Tempo como o vilão da trama. Claro que me lembrei da minha dissertação de mestrado sobre a negação do tempo e da história em Tutameia, de Guimarães Rosa. Muitos símbolos, muitas ideias. 

Ele não é citado na série, mas me lembrei muito da Wakter Benjamin assistindo.  Especialmente do conceito de Jetztzeit : o passado irrompe no presente como um relâmpago e ilumina presente passado futuro por alguns segundos.

Mais a cara de Dark que isso não há!

A  série é boa de assistir? Depende muito do tipo de espectador que você é. Como é labiríntica, digamos que não é só entretenimento: é preciso prestar muita atenção para tentar entender a trama, a árvore genealógica e, mesmo assim, toda hora nos perguntamos, junto com os personagens, muitas vezes tão perdidos quanto nós: “o que é isso?”, “quem é esse?” e, sobretudo, “quando foi isso?”.

Como história bem contada, tem muitas referências, como o teatro, o mito de Ariadne e cientistas, além de inúmeros detalhes. Soma-se a isso o fato de que todo mundo tem a mesma cara (alemães iguais) e cada personagem tem sua versão jovem, adulta, idosa e até em outra dimensão, e a cada momento estão em um tempo diferente. É muito bom para se confundir!

Como eu maratonei as três temporadas seguidas e, mesmo assim, me confundi, imaginei como foi assistir em tempo real, esperando dias, meses ou até um ano para a continuação. Dureza...

Mas é muito boa. Uma das melhores surpresas que o streaming me ofereceu!


sexta-feira, 3 de abril de 2026

Emergência radioativa, NETFLIX



​EMERGÊNCIA RADIOATIVA (2016)

​Assisti à nova minissérie da Netflix sobre a tragédia real ocorrida em Goiânia, em 1987. Na ocasião, catadores de lixo encontraram uma cápsula de chumbo nos destroços de uma clínica de radioterapia desativada e a venderam para um ferro-velho. Lá, o chumbo foi cortado e encontraram o altamente radioativo Césio-137. Aquele pó azul e brilhante da morte contaminou uma família inteira, além de muitos outros moradores.

​Pode ser uma memória inventada, já que eu tinha apenas 6 ou 7 anos, mas acho que me lembro de ter visto o caso na TV. Depois  eu não conhecia os detalhes, e a série os explicou muito bem. A produção é muito fiel aos acontecimentos e mostra um Brasil completamente despreparado para uma situação assim, até porque ela foi sem precedentes, algo nunca visto antes na história, envolvendo pessoas tão simples e vulneráveis.

​Me emocionei em vários momentos. Só achei que poderiam ter estendido a obra por mais alguns episódios e explorado uma história ficcional dentro desse contexto. Como sugeriu Isabela Boscov, o encantamento daquelas pessoas simples ao verem um pó azul tão bonito : o "pó das estrelas" que parecia mágico ,  e o desejo de compartilhá-lo com quem amavam seria um gancho poderoso para retratar o que há de profundamente humano, mesmo em meio à tragédia.

​De qualquer forma, recomendo a obra.

segunda-feira, 30 de março de 2026

PAPEL MARCHÊ

 

Lilás,  cor do mar...

PAPEL MARCHÊ

À noite, um casal de jovens namorava na praia quase vazia. Era uma exploração lenta e mútua: carinho, desejo, fascinação por estarem juntos, se descobrindo, fora do tempo.

— Olha que cena de cinema! — disse eu.

— Ah, eles devem não ter onde transar, então ficam na praia, que é de graça.

— Não acho que seja tão cru. Transar, todo mundo transa em algum lugar. O que eles fazem ali é outra coisa, mais rara. É como “voltar a nascer violeta e azul, outro ser…”

— É… “fazer amor” na praia?

— Sim. E ouvindo João Bosco!


domingo, 29 de março de 2026

O amante duplo (2017), François Ozon



O Amante Duplo, dirigido por François Ozon, conta a história de Chloé, uma jovem francesa que procura ajuda psicológica para resolver uma dor abdominal persistente. Ela acaba envolvida em uma trama psicológica complexa sobre gêmeos e segredos muito mais intensos que as dores iniciais.

​Assisti a este filme por recomendação do Prime Video, já que gosto de suspenses psicológicos e obras esteticamente interessantes. Sendo meu primeiro contato com o trabalho de Ozon, foi fácil identificar um cuidado visual meticuloso, característica típica de filmes com assinatura autoral. Diferente de outros títulos do gênero que vi até agora, o longa promete muito e quase entrega o suficiente.

​Achei a obra extremamente "psicanalítica" no sentido tradicional, pois aborda questões de identidade, projeções e o tema do duplo ou dos gêmeos, assunto que estudei brevemente em interpretação literária. Além disso, o filme traz para o centro da trama a força da pulsão sexual, temática central da psicanálise.

​Ainda que o enredo sejar labiríntico, não consegui me envolver ou me projetar na história. Em nenhum momento senti que a loucura da protagonista poderia ser a minha, que é o meu tipo de abordagem favorita no cinema. Por isso, não o considero o melhor filme do gênero, nem o mais sexualmente estimulante. As cenas de sexo não são belas ou instigantes; elas me pareceram mais próximas ao terror, superando até a crueza das imagens de exposição do corpo, seja em exames internos ou em estados de doença.

​No balanço geral, foi uma experiência válida e espero que venham outros filmes e séries sobre o tema.


sábado, 28 de março de 2026

Guida, Rosana Urbes

 
 



GUIDA : O curta-metragem de animação Guida (2014), disponível por completo na plataforma Itaú Cultural Play (plataforma  gratuita),  dirigido por Rosana Urbes, fala de uma idosa que rompe com sua rotina solitária e seu trabalho burocrático ao se tornar modelo vivo, explorando novas formas de liberdade e beleza.

Acabei de achar o filme no YouTube nesse LINK 

Em cerca de 12 minutos de animação, é lindo perceber a forma fluida e encantadora com que Rosana Urbes nos conduz pela travessia da entrada de uma mulher na velhice. Guida passa a se olhar com mais interesse e gentileza: exibe seu corpo maduro com altivez, pois sabe que ali há uma vida inteira,  e também sensualidade (por que não?). Assim, a vida se reafirma como algo que vale a pena ser vivido até o fim. Mais do que um filme, é um presente delicado para nós, mulheres 40+.



sexta-feira, 27 de março de 2026

Ushikawa : o gato Cheshere de Murakami

 
Caricatura de Ushikawa pela IA

USHIKAWA

"O homem usava uma camisa branca, gravata vermelho-escura e paletó marrom, tudo de baixa qualidade e muito puído. Saltava aos olhos que aquele homem não tinha nenhum interesse nem fascínio por roupas. Simplesmente vestia qualquer coisa por pura necessidade, por não poder se encontrar nu diante das pessoas."(Crônica do pássaro de corda, p. 536)


Pedi a uma IA uma caricatura de Ushikawa usando essa descrição e achei que ficou ótima.

Embora não seja muito comentado, para mim o capanga Ushikawa é o melhor personagem de Murakami que encontrei até agora. É ele quem dá liga à narrativa imensa de Crônica do pássaro de corda, ele é  o que descrevo como intrusivo  e desconfortante. É pegajoso, desagradável, mas revela o que estava escondido, como o gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas.

Passados muitos anos, é dele que vou lembrar,  invadindo os espaços com sua humildade de humilhado.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Filhos de João: o Admirável Mundo Novo Baiano, Henrique Dantas

           

FILHOS DE JOÃO – Acabei de assistir ao documentário Os Filhos de João: o Admirável Mundo Novo Baiano (2009), de Henrique Dantas, na Netflix. Para quem ama João Gilberto e os Novos Baianos, como eu, é uma preciosidade. É o complemento audiovisual do maravilhoso livro Acabou Chorare: o rock'n'roll encontra a batida de João Gilberto (2020), de Márcio Gaspar, só que com sons, depoimentos e imagens de época. É muito emocionante ouvi-los cantando a própria história. Foi um presentinho fofo para o fim deste dia quente e pesado. Super recomendo.


quarta-feira, 25 de março de 2026

"O museu da inocência " (série): a história do "Que mal" 😕

 




MUSEU DA INOCÊNCIA (romance: 2008; série: 2024)

Inspirada no romance homônimo do autor turco, Nobel de Literatura, Orhan Pamuk, que eu não li, a série da Netflix me desencorajou totalmente a ler. Não porque esteja mal feita, muito ao contrário: a exuberância estética da recriação de uma Istambul dos anos 1970, com imagens que contam a história de forma belíssima, foi o que me manteve até o último episódio, enquanto Geraldo largou logo no começo.

A trama conta a história do rico Kemal, que vou chamar de “Que Mal” (combina mais com o personagem), que, mesmo noivo da rica Sibel, se envolve de maneira doentia com a bela Füsun, uma prima pobre distante a quem manipula e tenta dominar o tempo todo. “Que Mal” é um vacilão e, mesmo tentando considerar as diferenças culturais entre Oriente e Ocidente e o período em que a história se passa, nada me empolgou ou envolveu.

Para esse tipo de narrativa, prefiro Dom Casmurro, que é do século retrasado. O livro eu não sei, mas a série eu não recomendo.

segunda-feira, 23 de março de 2026

O jovem- Annie Ernaux


 ​"Se não escrevo as coisas,

elas não encontram seu termo,

são apenas vividas."

​O Jovem (2022), de Annie Ernaux, é um relato autobiográfico que narra a memória de um amor intenso entre uma mulher de mais de 50 anos e um rapaz décadas mais jovem. Sendo meu primeiro livro da autora, gostei muito da experiência. É um texto curto e poético.

​Para mim, aos 46 anos, foi salutar ingressar nas questões colocadas sobre mudança do corpo, sexualidade e o preconceito contra casais nesse modelo. Mas o principal aspecto foi perceber que a experiência do encontro ganhou os tons pastéis da memória e serviu de estímulo para a criação literária. Que belezinha de livro.

Belo trecho 


Frases...

"...produzia em mim a sensação, durante minutos, de que eu estava vagando pelo tempo inominável de um sonho." P. 19


"Certo verão,  em Chioggia, aguardando o vaporetto para voltar a Veneza, ele me disse: 'Eu queria estar dentro de você e sair de lá para me parecer  com  você." P.33


"...o papel desempenhado por ele - o de alguém que abria as portas do tempo na minha vida - tenha chegado ao fim..."p. 36




sexta-feira, 20 de março de 2026

"Silêncio dos inocentes": melhor filme da vida?

          

Durante muito tempo, até pré adolescência, quando me perguntavam qual era meu filme favorito, eu respondia este sem hesitar, embora já quase não me lembrasse dos detalhes do filme que assisti aos 11 anos. Ainda assim, sabia que era bom. Esses dias, encontrei no Prime Video e resolvi assistir novamente.

Que filmaço. Uma verdadeira aula de suspense e tensão. As cenas com Hopkins e Foster, então, são impressionantes.

Ao final só comentei: caramba, que filme é esse?😱

Pedi à IA um resumo das informações e deixo aqui a indicação para todos: assistam.

"O Silêncio dos Inocentes" (1991), de Jonathan Demme, é um dos thrillers psicológicos mais marcantes do cinema. Conta a história da agente do FBI Clarice Starling, interpretada por Jodie Foster, que busca a ajuda do brilhante e perturbador psiquiatra canibal Dr. Hannibal Lecter, vivido por Anthony Hopkins, para capturar o assassino em série Buffalo Bill, interpretado por Ted Levine. À medida que Clarice se aprofunda nesse jogo psicológico intenso, ela precisa enfrentar não apenas o criminoso que procura, mas também seus próprios medos e traumas.

Beleza Americana: eterna crises do American way of lifecrises

 

         


Assistir "Beleza Americana" (1999), de Sam Mendes, em 2026 é divertido e interessante, pois nos deparamos com uma narrativa que debocha do American way of life de diversas formas, mas se mantém atual ao sublinhar questões ainda em destaque.
Isso faz sentido, já que a virada do século XX para o XXI trouxe um olhar mais atento ao declínio do império americano, processo que continuamos a acompanhar.
O filme explora a crise existencial de um homem de meia-idade que, ao se ver no limite, tenta reagir, causando desconforto nas pessoas ao seu redor, que passam então a encarar e revelar seus próprios vazios por trás de vidas aparentemente estáveis.
O impacto da obra vem menos de reviravoltas e mais de transformações internas, mostrando como qualquer reação pessoal, por mínima que pareça, pode conduzir a mudanças que se tornam decisivas.

Mercado play e o envelhecimento


 Gosto de usar a plataforma Mercado Play, que é gratuita e tem um catálogo muito interessante para quem tem mais de 40 anos. São filmes considerados bons ou ótimos quando foram lançados, há pelo menos 20 anos, ali na virada do século. Revisitar essas obras vale, no mínimo, para perceber se envelheceram bem ou não. O mais bacana é que todos os que assisti até agora, ainda poucos (Eu, Robô; Beleza Americana; Controle Total), continuam ótimos, mostrando que filme bom não tem idade.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Livros rESTANTEs

 

LIVROS RESTANTES (2023), disponível no Amazon Prime, dirigido por Rebeca Diniz, o filme  conta a história de Ana, interpretada por Denise Fraga,uma professora,que prestes a se mudar para o exterior, desmonta sua vida entre objetos e afetos em Florianópolis. 

A parte mais difícil é esvaziar sua estante de livros, por todo o simbolismo que carrega. Ela decide, então, devolver aos remetentes cinco obras que ganhou com dedicatórias. Ana pede que essas pessoas guardem os livros rESTANTEs, cheios de significado, como forma de preservar o afeto construído ao longo dos anos.

Um detalhe no filme é a mesma canção em forma de samba e de fado, representando a vida de Ana Catarina, catarinense de ascendência portuguesa, que viaja de Florianópolis a Portugal . Quantos livros nessa viagem?

Um filme lindo e super significativo para quem se formou como pessoa na cultura do livro. Super recomendo!



domingo, 15 de março de 2026

"Contos de Nova York", um passeio pelo bom cinema

 


"Contos de Nova York" (1989) é um filme dividido em três partes, cada uma dirigida por um renomado cineasta. 


Em "Lições de Vida", Martin Scorsese conta a história do pintor Lionel Dobie, vivido por Nick Nolte, um homem de meia-idade que sofre por ter criado uma dependência emocional de sua jovem assistente Paulette, interpretada por Rosanna Arquette. Marcadamente ambientada na década de 1980, com uma trilha sonora de excelente seleção, a trama é puro charme ao abordar medo, rejeição e criação artística.


No delicioso "Vida sem Zoe", de Francis Ford Coppola, conhecemos a história da precoce Zoe, interpretada por Heather McComb, que vive sozinha em um hotel de luxo em Nova York, cercada de conforto, mas carente da presença dos pais. Sua mãe, Charlotte, é vivida por Talia Shire, e seu pai, Claudio, um músico constantemente ausente, é interpretado por Giancarlo Giannini. Em meio às tentativas de reconciliação dos pais, Zoe é levada a lidar com a solidão e o amadurecimento. Com a colaboração de sua filha Sofia Coppola, Francis cria uma história leve e divertida sobre pequenos milionários.



Na hilária "Édipo Arrasado", Woody Allen interpreta Sheldon Mills, um advogado nova-iorquino atormentado por sua mãe superprotetora, vivida por Mae Questel. Após desaparecer durante um número de mágica, ela retorna de forma surreal no céu da cidade, visível a todos, passando a comentar publicamente a vida do filho e convidando toda a população a opinar sobre o que ele deve fazer.

Que experiência fantástica assistir a essa película tão marcante em suas três excelentes partes, relembrando o que há de melhor na experiência que o cinema pode oferecer.

sábado, 14 de março de 2026

"Meu amigo Tororo", O ponto de vista da criança em "Meu amigo Totoru"

 
          

MEU AMIGO TOTORO

Assisti ontem Meu Amigo Totoro (1988), dirigido por Hayao Miyazaki e produzido por Toru Hara. É um filme dos Studio Ghibli. A animação acompanha as irmãs Satsuki e Mei, que ainda na infância se mudam com o pai para uma casa no campo enquanto a mãe está internada em um hospital. As duas meninas gritam muito e se aventuram nesse novo ambiente. Nessa realidade rural, exploram a natureza e acabam fazendo amizade com figuras mágicas protetoras da floresta, como o mais fofo deles, o amigo Totoro.

É um dos filmes mais infantis, no melhor sentido, que já vi. Sobre o que realmente acontece com a família, qual é a doença da mãe ou em que hospital ela está internada, sabemos muito pouco. Apenas o mínimo que uma criança saberia. Sabemos muito mais sobre as figuras mágicas que habitam o entorno e que, na verdade, dão significado à história.

Saber que esse filme foi lançado pelos Studio Ghibli simultaneamente ao lendario filme de animação  sobre o pós guerra japones  O Túmulo dos Vagalumes , s o qual comento aqui obre é uma informação interessante. São duas visões quase opostas da infância e duas animações essenciais. Nunca mais me esquecerei da musiquinha “tuturututuro tututurututu”… muito fofo!

Como outros trabalhos do Studio Ghibli, o filme está disponível na Netflix. Recomendo! 🎬🌿

Imagens de fofoca





quinta-feira, 12 de março de 2026

CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO


CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA-PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO

Talvez seja o maior (em número de páginas) livro que leio há tempos , um volume que contém, em si, uma trilogia. Dediquei-me a ele por três meses, pois logo percebi que estava diante de uma obra-prima. E, ao dizer isso, não afirmo que sintetize o cerne da obra de Murakami , ainda não li o suficiente do autor para tanto. Pelo contrário: talvez seja uma obra-prima justamente por se afastar de sua linguagem mais reconhecível e expandir o diálogo com grandes clássicos da literatura mundial, atravessando filosofia, história e humanidade.

Escrito inteiramente na linguagem do sonho, onde o surreal não é banalidade , acompanhamos, com Toru, uma descida ao inconsciente e aos questionamentos existenciais mais profundos. Essa jornada se materializa na imagem literal de descer ao fundo de um poço: parar, refletir e se transformar. De tirar o fôlego.

Imagem do Google imagens

Resumi-lo não é tão difícil, mas qualquer síntese mal arranha a experiência de mergulhar nesse “poço seco” do inconsciente que é a leitura. A trama acompanha Toru Okada, um homem de trinta anos em suspensão: deixa o emprego, o gato desaparece e, em seguida, sua esposa, Kumiko, também. A partir daí, inicia uma jornada de reinvenção.

Como em Alice no País das Maravilhas, a narrativa se constrói mais pelo sonho do que pela realidade. Surgem personagens simbólicos e inquietantes que ajudam a compor esse quebra-cabeça: a adolescente May Kasahara, amiga de Toru; as irmãs/ilhas  Malta e Creta Kano; e o vilão Noboru Wataya, cunhado de Toru, figura dominadora, para quem trabalha Ushikawa — uma das personagens mais marcantes. Intrusivo e desconfortável, o capanga  lembra o Gato de Cheshire:  intrusivo, desconfortante e persistente,  acaba sempre revelando o que está oculto.

Há também personagens ligados a um dos episódios mais traumáticos da história japonesa :a Invasão da Manchúria. O evento emerge como trauma do inconsciente coletivo, deixando marcas físicas, mentais e espirituais. Para abordar esse eixo central, surgem figuras como o Sr. Honda e o tenente Mamiya, cujo relato constitui uma das passagens mais duras sobre memória de guerra que já li ,é  quase insuportável.

Outros sobreviventes desse trauma aparecem sob codinomes, como Noz-moscada e seu filho Canela. Noz-moscada reconhece no rosto de Toru um hematoma azul ,marca simbólica herdada de um passado violento, e o introduz em um campo espiritual estranho e perturbador. Já Canela, jovem traumatizado que não fala há anos, é outro personagem-chave: belo, elegante, inteligente, trabalha ouvindo música clássica e é o autor de um livro chamado "Crônica do Pássaro de Corda ",  funcionando como uma espécie de alter ego do próprio Murakami.


Em última instância, o romance narra a travessia de Toru pelo inconsciente coletivo japonês, profundamente marcado pela violência da guerra. Desse movimento, emerge um Murakami crítico da imagem contemporânea do Japão , país pacífico e tecnológico ,que parece querer esquecer seu passado brutal. Mas o passado deixa marcas. Toru Okada que o diga.

Que livro sensacional. Amei.


TIPO ISSO ​:

Toru Okada desce ao poço para encontrar a si mesmo, mas acaba encontrando as feridas de uma nação. 

​Em Crônica do Pássaro de Corda, Murakami conecta uma crise doméstica ao inconsciente coletivo japonês, traumatizado pelos horrores da guerra.

segunda-feira, 9 de março de 2026

HISTORIADORAS NO OSCAR 2026




HISTORIADORAS NO OSCAR 2026

​Neste ano assisti a dois concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Internacional, Valor Sentimental e O Agente Secreto. Escrevo aqui para observar um “detalhe” que ambos têm em comum: mostram historiadoras trabalhando em nossa profissão, pesquisando.

​Em Valor Sentimental, Agnes Borg Pettersen é a filha mais nova da família Borg e também é historiadora, aquela que realiza a pesquisa nos arquivos sobre o passado da avó, que se suicidou após ter tido vida intensa e ter sido perseguida por sua atuação na luta antinazista no século XX. No filme, quando vemos Agnes pesquisando em um arquivo a história da avó, essa trajetória já havia sido parcialmente apresentada em um dos pequenos filmes contidos nessa bela película. É interessante que, mesmo sendo todas personagens fictícias, a importância real do trabalho de pesquisa histórica, neste caso para dar bases a narrativas artísticas, aparece ressaltada. Afinal, sem o resultado de sua investigação mais técnica, nem ela, nem sua irmã Nora Borg, e talvez nem o próprio pai, o cineasta Gustav Borg, saberiam muito sobre as dores que atingiram a avó das duas. Foi ele quem a encontrou morta em casa, abrindo uma enorme ferida que passa a reverberar na relação com as filhas. O trabalho profissional de Agnes, que consiste em desvelar a trajetória de tantas pessoas que realmente atuaram no passado, aparece aqui como fundamental para se contar a História e para sustentar o próprio roteiro.

​Já em O Agente Secreto, percebemos uma espécie de homenagem de Kleber Mendonça Filho à sua mãe, que foi pesquisadora de História Oral. No filme, duas historiadoras aparecem trabalhando na investigação sobre quem foi Armando e por que ele teve de mudar seu nome para Marcelo no Recife da década de 1970. Ao contrário da primeira obra, nesse caso não ficou claro se essa pesquisa foi encomendada para a realização de filmes, nem mesmo este do qual ela faz parte. No entanto, trata-se também de uma “pesquisa” ficcional sobre personagens ficcionais.

​Seguindo os caminhos da metodologia histórica, a historiadora Flávia chega a procurar Fernando, o filho do protagonista Armando, para lhe mostrar tantas coisas sobre o pai, com quem ele próprio tivera contato intenso apenas na primeira infância, como é mostrado no filme. Já adulto, ele mal se lembra racionalmente de muitos episódios. A historiadora sabia mais sobre Armando do que seu próprio filho. Flávia aparece como agente do resgate racional do passado. Já Fernando nada sabia objetivamente sobre o pai, mas o recordava demais. Recordar é diferente de lembrar, pois passa pelo radical “cor”, que significa trazer de volta ao coração. Quantas vezes, como historiadores, não tivemos nossas pesquisas técnicas preenchidas pelo material humano dos depoimentos orais, em princípio tão fragmentários, até que tudo começa realmente a fazer sentido.

​De duas formas diferentes, nós historiadores fomos presenteados por termos nossa profissão validada em dois filmes concorrentes a prêmio internacional. Seja lá quem ganhe o Oscar, pode até não ser nenhum desses filmes, ainda assim nós, historiadores, já ganhamos o prêmio de ver nossa profissão tão bem representada no cinema em 2026.


domingo, 8 de março de 2026

Cassanda e o Dia da mulher

 
  


CASSANDRA: Assisti hoje inteira à minissérie de ficção científica da Netflix. Fotografia impecável, pra gente perceber se estava no presente ou nos passados (anos 60/70)...Mesmo sendo bem de terror, me diverti bastante, sempre relevando o fato de que a família que vai morar na casa que tinha todo um equipamento para controlar tudo por uma IA dos anos 1970 é burra e tapada. A única exceção é a mulher que, claro, acaba indo parar no hospício.

Sem dar muitos spoilers, é claro que Cassandra é má e descontrolada, mas também fica evidente que há uma explicação trágica para ela ter se tornado esse monstro. E não é porque assisti no Dia das Mulheres, mas excetuando o filho gay,  os homens da série, são deploráveis ,bananas, idiotas, burros e covardes. Afff

Como disse um comentarista, já temos IA acoplada à nossa vida, mas a nossa Alexa é bem tapada. Cassandra, porém, não é. Ela está em todos os lugares da casa, sempre com aquele sorrisinho forçado. Terror total!

Passando por cima de vários furos, eu gostei e recomendo. 🎬

sábado, 7 de março de 2026

"SALVE ROSA" : Um thriller psicólogo nacional

 

SALVE ROSA - Assisti ao suspense brasileiro Salve Rosa, lançado em 2025 sob a direção de Susanna Lira, e a experiência foi muito positiva. O filme acompanha Rosa (Klara Castanho), uma influenciadora digital de 13 anos com milhões de seguidores. Por trás da imagem perfeita, a jovem vive sob o controle sufocante de sua mãe, Dora (Karine Teles). Aos poucos, o roteiro revela segredos obscuros nessa relação, transformando a vida da protagonista em uma encenação perturbadora e cruel.

Com atuações sólidas, a originalidade do enredo de suspense psicológico surpreende no contexto do cinema brasileiro. 


Inicialmente, a dinâmica familiar lembra o filme Run (2020), de Aneesh Chaganty, no qual as personagens de Kiera Allen e Sarah Paulson também vivem uma tensão entre mãe e filha marcada por segredos. Em Salve Rosa, porém, esse conflito é deslocado para um tema contemporâneo: a exploração e a hiperexposição infantil no ambiente digital. E embora no início sejamos avisados de que qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência, todo mundo lembra de algum caso semelhante!

Parte do público que esperava uma obra pedagógica, quase como um alerta direto sobre os perigos da internet, acabou se frustrando com a presença de cenas de sexo. No entanto, a proposta não parece ser didática. Esses momentos ajudam a construir o perfil psicológico de Dora, uma mulher que ultrapassa qualquer limite para satisfazer os próprios desejos.

Apesar de algumas falhas, a obra se sustenta bem. O grande destaque é a atuação de Klara Castanho, que convence ao interpretar a personagem em diferentes idades, elemento essencial para a credibilidade do roteiro. 😊


BE ATRIZ


 

BE ATRIZ

Tinha feito exame de sangue ali na Lapa e passei na biblioteca do Sesc Pompeia. Ainda estava comendo as torradinhas pós-jejum que ganhei no laboratório, em frente ao teatro, quando um homem me viu e comentou:

“Só faltou uma máquina de café para você agora.”

Eu sorri e apontei para o café do teatro ao lado.

Ele disse: “Ah, mas ali tem que pagar, daí não vale. Se bem que você é atriz e não paga.”

Respondeu em seguida: “Sim, já te vi em muitas peças aqui.”

Sem ter muito o que dizer, me calei.

O que será que ele quis dizer com “se bem que você é atriz”? Na história das mulheres isso nem sempre foi algo positivo, aliás, muito pelo contrário (rs).

Eu estava tão cansada, mas fiquei com a dúvida: que papel representava a “atriz” naquele momento? Sozinha, cansada, com fome?

Atriz ou não, fui vista, flagrada em um momento de vulnerabilidade, e ganhei mais uma historinha para o meu anedotário no Sesc Pompeia.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Sussurros do coração: filme Ghibli feito "pra mim"

        

Lançado em 1995, Sussurros do Coração é uma animação do Studio Ghibli dirigida por Yoshifumi Kondō. Conta a história de Shizuku Tsukishima, uma estudante apaixonada por livros que descobre que todos os títulos que pega na biblioteca já haviam sido lidos antes por Seiji Amasawa, um jovem dedicado ao sonho de se tornar violinista e artesão de instrumentos. 

O filme é pontuado pela canção Take Me Home, Country Roads, em versões japonesas e também para violino.

"Suspiros do coração " é o nome da história que a nossa heroína escreve sobre a história de amor da estátua de gato Lord e sua amada gata perdida, quando ele ainda estava vivo...

É o filme que os estúdios Ghibli parecem ter feito para mim. Eu fui essa adolescente leitora e rata de biblioteca que, em 1994, estava pronta para sonhar novas narrativas e subir tão alto que quase alcançava o céu. 


Foi muito emocionante assistir a esse filme, que se tornou meu Ghibli favorito.







sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

"Túmulo dos Vagalumes", Isao Takahata

         

Lançado em 1988 pelo Studio Ghibli, Túmulo dos Vagalumes é dirigido por Isao Takahata e baseado no livro homônimo de Akiyuki Nosaka. A animação acompanha os irmãos Seita e Setsuko tentando sobreviver no Japão durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, em uma narrativa delicada e devastadora sobre amor, perda e a fragilidade da infância em tempos de guerra.

Depois de muito adiar, finalmente terminei de assistir à animação e confesso que a primeira sensação foi de vazio e profunda tristeza, porque é uma história real. Akiyuki Nosaka realmente perdeu a irmã mais nova por desnutrição durante a Segunda Guerra, e é quase intolerável acompanhar a atrocidade destruindo a delicadeza do olhar infantil sobre a vida.

Mas o filme não é só isso. Ao recontar essa história, a animação a preenche com a magia do amor entre os irmãos. Quando Seita percebe que a guerra levou a família inteira, a mãe e o pai, e que restaram apenas ele e Setsuko, sofrendo de fome e desnutrição, o jovem cria pequenos milagres cotidianos para a irmãzinha: brinca na praia, faz malabarismos, mistura balas de fruta como se fossem um tesouro, brinca com os vaga-lumes, arranca risos dela. Tudo porque sabe que podem não sobreviver e que é urgente transformar cada momento em algo único. E consegue encher de encantamento seus últimos momentos de vida.

Essa história, que foi cruel e implacável, nos deixou, ainda assim, essa triste joia do Studio Ghibli. Sei que, por muito tempo, ainda vou ouvir o alegre riso de Setsuko chamando o maninho para brincar com os vaga-lumes, e isso é muita coisa.

 


O DRAMA MENSTRUAL DE JANE AUSTEN (2025): Indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem no Oscar 2026, O Drama Menstrual de Jane Austen (2025), dirigido por Mariana Whitaker, está disponível no YouTube.

Nele acompanhamos a história da srta. Estrogênia Talbot, interpretada por Julia Romano, que menstrua justamente durante um pedido de casamento feito por Edmund Ashford, vivido por Thomas Ellery. Ao perceber o sangue, Edmund acredita que a jovem está gravemente ferida. Estrogênia, então, decide explicar o que realmente está acontecendo, o que dá origem a uma sucessão de situações cômicas impagáveis.

Muito bem produzido, com grande elenco para um curta, figurino impecável e imagens belíssimas da natureza, o filme é uma divertidíssima aula sobre questões femininas, tema sobre o qual ainda se fala pouco, até hoje.

A narrativa é sucinta e não necessariamente precisaria se estender mais. No entanto, caso houvesse alguns minutos adicionais, talvez até mesmo as piadas já incríveis alcançassem um efeito ainda mais potente. Recomendo vivamente que assistam.

Um apontamento interessante: este é um filme sobre questões de mulheres, no qual os homens entram sobretudo para observar e aprender. Já em Cantores (2025), outro curta que assisti recentemente e que concorre ao mesmo prêmio, o tema é exclusivamente o universo masculino.

Eis mais uma disputa entre homens e mulheres na qual ambos saem ganhando, com filmes excelentes.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

RAINHA Charlotte: uma história de Bridgerton


RAINHA CHARLOTTE Uma História de Bridgerton

Depois de terminar a encantadora primeira temporada de Bridgerton lançada em 2020, com seu Duque inesquecível interpretado por Regé-Jean Page, em vez de continuar acompanhando a segunda temporada, decidi pular direto para o spin-off sobre a história de uma mulher forte na História, a Rainha da Coroa inglesa da era georgiana.

Foi uma decisão acertada. A minissérie lançada em 2023 não apenas mantém tudo aquilo de lindo que amamos nos primeiros episódios de Bridgerton, como cenários, figurino, atuações excelentes, como também se destaca especialmente por apresentar uma narrativa mais fechada, centrada no aprofundamento de temas apenas sugeridos na série original, como a possibilidade da entrada de nobres africanos no convívio social da corte inglesa da época.

A partir do foco em Charlotte, acompanhamos excelentes interpretações da personagem em diferentes fases da vida. A jovem Rainha Charlotte é vivida por India Amarteifio, enquanto a versão madura da rainha é interpretada por Golda Rosheuvel, personagem já conhecida de Bridgerton. Essa construção em duas temporalidades fortalece o drama e dá densidade emocional à história.

Destaco também a atuação das atrizes que viveram Lady Danbury. A personagem aparece jovem, interpretada pela LINDÍSSIMA Arsema Thomas, e mais madura, vivida por Adjoa Andoh. Com suas roupas coloridas e elegantes, Lady Danbury não apenas imprime um forte toque africano à série, como se torna um de seus eixos centrais, tanto político quanto emocional.

A aposta na ideia de que a Rainha Charlotte teria, de fato, traços africanos, hipótese levantada por historiadores contemporâneos, funciona muito bem como sustentação para a ficção. Ainda que seja impossível afirmar com certeza o que realmente ocorreu, para os propósitos da minissérie essa escolha foi acertada .

Gostei tanto que cheguei a me sentir  a própria Rainha Charlotte de COROA e roupas coloridas  kkkk.

Essa comparação ficou melhor kkk