quinta-feira, 12 de março de 2026

CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO


CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA-PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO

Talvez seja o maior (em número de páginas) livro que leio há tempos , um volume que contém, em si, uma trilogia. Dediquei-me a ele por três meses, pois logo percebi que estava diante de uma obra-prima. E, ao dizer isso, não afirmo que sintetize o cerne da obra de Murakami , ainda não li o suficiente do autor para tanto. Pelo contrário: talvez seja uma obra-prima justamente por se afastar de sua linguagem mais reconhecível e expandir o diálogo com grandes clássicos da literatura mundial, atravessando filosofia, história e humanidade.

Escrito inteiramente na linguagem do sonho, onde o surreal não é banalidade , acompanhamos, com Toru, uma descida ao inconsciente e aos questionamentos existenciais mais profundos. Essa jornada se materializa na imagem literal de descer ao fundo de um poço: parar, refletir e se transformar. De tirar o fôlego.

Imagem do Google imagens

Resumi-lo não é tão difícil, mas qualquer síntese mal arranha a experiência de mergulhar nesse “poço seco” do inconsciente que é a leitura. A trama acompanha Toru Okada, um homem de trinta anos em suspensão: deixa o emprego, o gato desaparece e, em seguida, sua esposa, Kumiko, também. A partir daí, inicia uma jornada de reinvenção.

Como em Alice no País das Maravilhas, a narrativa se constrói mais pelo sonho do que pela realidade. Surgem personagens simbólicos e inquietantes que ajudam a compor esse quebra-cabeça: a adolescente May Kasahara, amiga de Toru; as irmãs/ilhas  Malta e Creta Kano; e o vilão Noboru Wataya, cunhado de Toru, figura dominadora, para quem trabalha Ushikawa — uma das personagens mais marcantes. Intrusivo e desconfortável, o capanga  lembra o Gato de Cheshire:  intrusivo, desconfortante e persistente,  acaba sempre revelando o que está oculto.

Há também personagens ligados a um dos episódios mais traumáticos da história japonesa :a Invasão da Manchúria. O evento emerge como trauma do inconsciente coletivo, deixando marcas físicas, mentais e espirituais. Para abordar esse eixo central, surgem figuras como o Sr. Honda e o tenente Mamiya, cujo relato constitui uma das passagens mais duras sobre memória de guerra que já li ,é  quase insuportável.

Outros sobreviventes desse trauma aparecem sob codinomes, como Noz-moscada e seu filho Canela. Noz-moscada reconhece no rosto de Toru um hematoma azul ,marca simbólica herdada de um passado violento, e o introduz em um campo espiritual estranho e perturbador. Já Canela, jovem traumatizado que não fala há anos, é outro personagem-chave: belo, elegante, inteligente, trabalha ouvindo música clássica e é o autor de um livro chamado "Crônica do Pássaro de Corda ",  funcionando como uma espécie de alter ego do próprio Murakami.


Em última instância, o romance narra a travessia de Toru pelo inconsciente coletivo japonês, profundamente marcado pela violência da guerra. Desse movimento, emerge um Murakami crítico da imagem contemporânea do Japão , país pacífico e tecnológico ,que parece querer esquecer seu passado brutal. Mas o passado deixa marcas. Toru Okada que o diga.

Que livro sensacional. Amei.