quarta-feira, 29 de abril de 2026

O céu de Suely , Karim Aïnouz

 


O CÉU DE SUELY, dirigido por Karim Aïnouz, era um dos quatro filmes destacados pela Folha de São Paulo que eu ainda não tinha visto. Assisti ontem com minha mãe e gostamos. Mesmo sendo dos anos 2000, continua bastante relevante.

Embora não traga uma novidade estética ao retratar um Brasil de forma crua, algo que já aparecia em filmes como Bye Bye Brasil e depois na retomada com Central do Brasil, aqui essa abordagem é revisitada para tratar da sobrevivência feminina. A história de uma mãe solteira abandonada, sem perspectivas, em busca de mudar de vida, é contada com dureza e delicadeza ao mesmo tempo, com boa trilha sonora e atuações consistentes.

Apesar de partir de um enredo que poderia cair no clichê ou no julgamento moral, o filme opta por um olhar humanista. A sensação de aprisionamento naquela vida e naquela cidade, vivida por Hermila, se transmite gradualmente ao espectador. Mais do que julgá-la, passamos a compreendê-la, mesmo quando, sob o codinome Suely, ela transforma o próprio corpo em prêmio de rifa. Essas cenas são mais tristes do que chocantes.

Chamam atenção as imagens que evidenciam sua solidão, como as cenas nos orelhões tentando restabelecer vínculos rompidos, ou na rodoviária, primeiro esperando alguém, depois buscando uma forma de partir. A esperança em um futuro diferente, que persiste apesar de tudo, é o que o filme constrói como possibilidade de salvação.

Um possível spoiler: no início, ouvimos Hermila narrar o dia mais feliz de sua vida, quando engravidou, em uma manhã de domingo, com um cobertor de lã escura e um CD com suas músicas favoritas. Ao final, já não há narração; vemos o mundo por seus olhos, um lugar vazio e sem caminhos claros. Nas cenas finais, quase teatrais, tudo se passa sob a placa “Aqui começa a saudade de Iguatu”, sentimento que talvez ela nunca chegue a experimentar, caso consiga partir.

Gostei bastante do filme.

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