Acabei de ler este livro curto, emprestado da biblioteca do SESC Pompeia, e gostei bastante. A obra conta a história da octogenária Rosella Galante, que publica em um jornal da cidade europeia onde vive o seguinte anúncio: “Procuro alguém que saiba turco”. O chamado é atendido pela jovem estudante Pelin. A partir desse encontro, inicia-se uma conversa entre duas mulheres aparentemente distintas, mas que guardam semelhanças incontestáveis. Tudo gira em torno da importância de não perder a vitalidade do idioma que já foi sua identidade, mas que o tempo, a vida e a história podem desbotar. Como em uma peça teatral, esse tema é tratado no romance, todo escrito na forma de diálogo, sobre a vida e as crenças, a vibrante cidade de Istambul na realidade e na memória e, sobretudo, a prática de ouvir e falar o turco. O enredo aborda temas humanos como amor, família, o envelhecimento, o papel feminino ao longo do tempo. Achei uma graça de romance, sendo meu primeiro contato com a literatura turca. Recomendo!
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Algumas palavras de Rosella a Pelin:
"Mesmo que os deuses sejam diferentes,as preces são imutáveis, mademoiselle. Não há diferença tão grande quanto supomos entre uma oração feita a Buda ou a Alá... Saudades, esperanças, medos...No fundo, se parecem... Aliás, um poeta de Jerusalém disse: 'Os deuses vêm e vão embora,mas as preces são imutáveis. " (p.77-8)
"Talvez você tenha razão, ao contar tudo isso a você posso estar enfeitando as cenas com descrições e frases. Talvez porque já pensei tanto nessas cenas em minha vida e as repeti tantas vezes na minha mente que, com o tempo, elas se tornaram descrições fixas de uma peça teatral. O que você está ouvindo, com certeza podem ser as descrições escritas na mente de uma idosa que se distanciaram da sua origem (...) Com o tempo você perceberá com horror que agora está vivendo no mundo dos outros. Nenhum homem, nenhuma mulher, nenhum gato ou cachorro, ou nenhuma criança de sua juventude estará vivo mais... E eu lhe garanto, senhorita, que viver numa época estranha é muito pior do que viver numa cidade estranha. Mesmo quando você vive numa terra estranha, como um exílio, você tem a esperança de voltar para a sua terra um dia. Porém, a menos que inventem a máquina do tempo de que você falou, não há esperança de se livrar de uma época estranha. É uma saudade tão forte que não dá para explicar...” (p.124-5)

