terça-feira, 4 de novembro de 2025

Só um parágrafo de Murakami

 

Imagem da cena descrita, criada pelo Gemini

Eis um parágrafo imagético do romance "Caçando carneiros" . Aparece quando o protagonista (sem nome) está hospedado no oitavo andar de um hotel de uma cidade que também não sabemos o nome. Ele espera as 17 horas para se encontrar com uma mulher desconhecida e entregar a ela a carta de Rato,um amigo em comum. Eis o parágrafo:

A CHUVA DISSOLVE A CIDADE 

"A chuva fina continuava caindo às cinco horas da tarde seguinte. Chegou depois de quatro ou cinco dias de sol que prenunciavam um glorioso verão, bem na hora em que todos julgavam enfim terminado o deprimente período chuvoso. DA JANELA DO OITAVO ANDAR, a terra parecia preta e molhada até o último recanto. Na via expressa elevada, carros que se dirigiam do oeste para o leste estavam parados num gigantesco congestionamento de alguns quilômetros. Contemplando-os fixamente, pareceu-me que A CHUVA OS DISSOLVIA AOS POUCOS. Aliás, A CIDADE INTEIRA COMEÇAVA A DISSOLVER-SE. O cais no porto, os guindastes,os prédios enfileirados e,DEBAIXO DOS GUARDA-CHUVAS PRETOS, AS PESSOAS. O verde das montanhas também se dissolvia e escorria silenciosamente rumo à base. Mas, ao FECHAR OS OLHOS por alguns segundos e REABRI-LOS , a cidade tinha se reconstituído misteriosamente. Os seis guindastes continuavam com seus braços erguidos na direção do céu escuro carregados de nuvens cinzentas,a fila de carros despertava de súbito e lembrava de mover-se vez ou outra rumo a leste, os pedestres de guarda-chuva cruzavam o asfalto, o verde das montanhas absorvia com satisfação a copiosa chuva junina." (Haruki Murakami. Caçando carneiros,p.107-8)


Belo trecho.Imagético e mágico. Podia ser o roteiro de um curta-metragem, podia ser uma imagem de Monet, mas é só um parágrafo desse livro de Murakami que nem estou gostando tanto assim!

O crachá nos dentes,Um conto de Lygia

 

Ilustração Sigbert Franklin 









segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Contos do Loop : Humanidade perdida no tempo


Nos dois primeiros dias chuvosos de novembro de 2025, aproveitei a chegada da nova Smart TV em casa e assisti à série Contos do Loop (2020), pela Prime Vídeo, por recomendação do Geraldo. E gostei muito.

Trata-se de uma série de TV norte americana de ficção científica, que  está disponível na Amazon Prime apenas a primeira temporada, com oito episódios. A trama se passa em uma cidade fictícia chamada Mercer, Ohio, onde existe um acelerador de partículas gigante conhecido como “The Loop”. Diretamente ligados a esse experimento científico, os habitantes da cidade vivem fenômenos sobrenaturais e distorções da realidade, chegando até à alteração do tempo e do espaço.

Na verdade, a série é mais um subproduto das obras de arte de Simon Stålenhag, que originaram um jogo de RPG e, mais tarde, foram adaptadas para o audiovisual por Nathaniel Halpern.

Tendo tudo para ser uma série futurista, despótica e tecnológica, ela surpreende e encanta por ser bela, melancólica e profundamente humana, abordando alguns temas fundamentais da nossa vida como amor, morte, família,etc. Com uma estética retro-futurista e contar  histórias interligadas, a série mostra indivíduos tentando preservar sua existência e conviver em meio a uma natureza espetacular e a uma tecnologia que, ao mesmo tempo em que pode tornar tudo possível, também os lança num fluxo temporal desorientador, como se o Loop fosse uma força maior que suga, inexoravelmente, sua humanidade.

Vou tentar resumir os oito episódios:

1. “Loop” – A menina Loretta descobre que sua mãe trabalha num laboratório subterrâneo chamado “The Loop” e investiga o mistério, o que acaba levando-a a uma impressionante viagem no tempo.

O tempo faz tudo mudar 

2. “Transpose” – Dois adolescentes, Jakob e Danny, encontram um objeto na floresta que permite trocar de corpo e viver a vida um do outro. A experiência, que no início parece divertida, acaba levando-os a situações extremas, à beira dos limites da própria humanidade.

3. “Stasis” – A jovem May se apaixona por Ethan e   tenta fazer o tempo parar com a ajuda de um artefato científico. Como metáfora do amor, o casal interrompe o tempo para viver sua paixão, mas, quando Cronos volta a agir, tudo muda novamente e e nada é para sempre.

4. “Echo Sphere” – O garoto Colle, filho de Loretta, e seu avô Russ (o fundador  do Loop) se confrontam com o fim da vida através de uma esfera que revela quanto tempo resta a cada pessoa. Um dos episódios mais bonitos e tristes, sobre a passagem inevitável do tempo, uma força que nem mesmo o Loop pode conter.

5. “Control”Ed é um pai que trabalha no Loop e faz escolhas extremas para proteger sua família após o filho entrar em coma. Talvez o episódio mais fraco da temporada, mas interessante pela forma como mostra os robôs envelhecidos e abandonados, lembrando que a tecnologia, por mais avançada que seja, logo se torna sucata, e nunca substitui o valor da vida humana.

6. “Parallel”Gaddis é um segurança do Loop que viaja para um mundo paralelo em busca de amor e sentido. Nessa jornada, ele encontra mais do que o amor: encontra a si mesmo, descobrindo possibilidades de vida que se desenrolam em outros tempos e dimensões.

Você toca a campainha e
quem atende é você mesmo 

Cada gota de chuva um segundo 
Tempo tempo tempo tempo

7. “Enemies”George, marido de Loretta, quando adolescente visita uma ilha misteriosa e descobre uma presença monstruosa que muda sua vida. A convivência entre robôs e humanos é mostrada de forma mais intensa e perturbadora aqui. Terminei o episódio impressionada, com um gosto amargo na boca.

8. “Home” – Colle, o  garoto,  tenta reencontrar o irmão Jakob, que havia se perdido,  e se reconectar com o passado em uma cidade onde o tempo parece correr diferente. Por ser o último da temporada, o episódio busca amarrar as histórias e acaba emocionando profundamente, afinal, já estamos afetivamente ligados às personagens e suas travessias pelo tempo e pelo sentimento. 

Quando termina, o que mais queremos é ver mais, porque é uma série linda, interessante, delicada e de altíssimo nível.

Você fotógrafa o que quer guardar 

Quando acabou, pensei em mil coisas — sobretudo na ideia de “tempo constelacional” de Walter Benjamin, que, em última instância, não rejeita a possibilidade de vidas simultâneas se desenrolando em outras dimensões. Será?

 

Pedi ajudinhas práticas à IA para escrever esse POST, ela me ofereceu um mapa das conexões entre os episódios. Ela inseriu também interpretações minhas (ela revisou o texto) e ficou bem legal :


🌀 Mapa das Conexões do Loop

1. Loretta (Ep. 1 – “Loop”)

É o ponto de partida e o fio condutor da série.

Aparece jovem, depois adulta e mãe de Cole (Ep. 4) — mostrando a continuidade entre gerações.

Representa a ciência e a curiosidade, mas também o risco de perder o humano ao tentar dominar o tempo.


2. Jakob e Danny (Ep. 2 – “Transpose”)

São vizinhos de Loretta.

A troca de corpos conecta-se ao tema da identidade e da incapacidade de ser “outro” sem se perder de si mesmo.

Jakob reaparece em outros episódios, mas de forma sutil — deslocado no tempo.


3. May e Ethan (Ep. 3 – “Stasis”)

Vivem no mesmo universo e época que Jakob.

Sua tentativa de parar o tempo é uma metáfora do desejo humano de congelar o instante do amor.

O dispositivo que usam é um dos muitos artefatos do Loop, e reaparece abandonado depois, como vestígio de uma história que o tempo engoliu.



4. Cole e Russ (Ep. 4 – “Echo Sphere”)

Cole é o filho de Loretta, e Russ, seu avô, o fundador do Loop.

É o episódio mais pessoal e filosófico: a aceitação da morte e do ciclo da vida.

Liga-se diretamente ao início e ao fim da série — a origem e o encerramento do Loop familiar.


5. Ed (Ep. 5 – “Control”)

Morador da mesma cidade, também trabalha no Loop.

O tema da proteção da família e da impotência humana diante do inevitável ecoa o que vemos em Cole e Loretta.

Mostra o contraste entre o controle e a entrega — uma das tensões centrais do Loop.


6. Gaddis (Ep. 6 – “Parallel”)

O segurança do Loop que descobre outra versão de si mesmo em um universo paralelo.

Espelha o conflito de Jakob (Ep. 2) e aprofunda a ideia de existências simultâneas, que você captou com a leitura de Walter Benjamin.

7. George (Ep. 7 – “Enemies”)

Marido de Loretta e filho de Russ.

O episódio revela seu trauma de infância , o que explica muito da frieza e solidão dele no presente.

Amarra o ciclo familiar, tornando o Loop uma metáfora do destino hereditário.


8. Cole novamente (Ep. 8 – “Home”)

O último episódio fecha o círculo iniciado em “Loop”.

Cole percorre o tempo em busca do irmão  Jakob
e, sem perceber, vive dentro do mesmo Loop que seu avô criou.

É o retorno ao lar — não físico, mas emocional, espiritual e temporal.


💫 Evidente e invisível ao mesmo tempo — a série faz o tempo agir como personagem. As vidas se entrelaçam não apenas por parentesco, mas por temas: identidade, perda, amor, passagem e permanência.
Tudo é sobre ser humano diante do incompreensível.


Uau! Deu pano pra mangas! Super recomendo a série.

Um plus: minha amiga Rosane Pavam reparou que no primeiro episódio, enquanto a menina Loreta caminha pela cidade,há um letreiro do filme Monika e o desejo, de Bergman 



domingo, 2 de novembro de 2025

Trilogia do RATO


 RATO, contraponto do narrador-

O Rato é um personagem recorrente em alguns dos primeiros livros de Haruki Murakami — Ouça a Canção do Vento, Pinball, 1973 e Caçando Carneiros —, a chamada “Trilogia do Rato”. Ele aparece como o amigo do narrador-protagonista sem nome.

Como recurso de composição de personagem para o autor, acho interessante; mas, como leitura, confesso que é um pouco cansativo (já li muiyos textos mais bem-acabados de Murakami...).

Rato é um jovem melancólico, inteligente e inconformado, que sente repulsa pela rotina e pela superficialidade da vida moderna. Vive em busca de sentido, embora nem ele saiba exatamente o que procura . Algo muito juvenil pro meu gosto.

Como apontou a IA, dentro do universo dessas obras, o Rato acaba se tornando uma figura simbólica: representa o lado idealista e rebelde do narrador (e do próprio Murakami), aquele que não aceita o mundo como ele é e, por isso, se isola ou desaparece.

Rato é o alter ego solitário e inquieto de Murakami, símbolo da juventude perdida e do desejo de escapar da mediocridade.

Não deixa de ser interessante ,  mas ainda prefiro outras pegadas murakâmicas, menos teen... mais densas e enigmáticas.

sábado, 1 de novembro de 2025

Sobre o filme MALÊS

               

 
Durante uma visita a Niterói, em meados de outubro de 2025, fui convidada pelo meu anfitrião e tive a oportunidade de assistir ao filme Malês (Antônio Pitanga )no cinema em  17 de outubro 2025.
Assistimos Malês 

Esse filme era muito aguardado, por tudo o que representa: uma página especial do cinema negro, trazendo à tela uma das mais importantes revoltas negras da história do Brasil.

Entre 1831 e 1840, a instabilidade política após a abdicação de Dom Pedro I provocou diversas revoltas populares de grupos insatisfeitos com o governo central, como a Cabanagem (no Grão-Pará), a Farroupilha (no Rio Grande do Sul) e a Sabinada (na Bahia). A Revolta dos Malês (também na Bahia) foi uma delas.

Seu grande diferencial é que foi a única planejada e executada por africanos muçulmanos, que sabiam ler, escreviam em árabe e mantinham costumes distintos de outros grupos africanos, como os oriundos do Congo ou da Nigéria. Esse traço ajuda a explicar outra particularidade: o objetivo da revolta não era apenas a libertação dos negros, mas também a implantação de uma sociedade islâmica na Bahia.

Outro aspecto que a distingue de outros levantes regenciais é que depois de reprimida, as lideranças que não foram mortos, foram deportados para a África.
#Levantemalêsnoscinemas


Toda essa riqueza de detalhes aparece no filme — é verdade. A língua, os costumes, a estética e os valores dos Malês, apresentados lado a lado com outras tradições africanas (como o culto aos orixás), são algo digno de se apreciar. É um trabalho visualmente interessante e culturalmente potente.

Mas o difícil no filme é que, apesar do elenco talentoso, do tema relevante e dos detalhes inéditos, afinal, a Revolta dos Malês raramente é abordada com a importância que merece, nem mesmo nas escolas, eu achei  o roteiro  muito fraco, tornando o filme pouco envolvente.

Escrito por Manuela Dias, conhecida por suas novelas, o enredo transforma a revolta em um romance um tanto incoerente, ambientado em meio a escravidão e uma guerra. Um tema tão rico, uma pesquisa tão detalhada, atores excelentes :  tudo isso poderia ter resultado em algo ainda melhor. Detesto dizer isso, mas... hoje, com o nível que o cinema brasileiro alcançou, esperávamos mais.

Ainda assim, pela importância e originalidade do tema, o filme certamente será lembrado como o único dedicado a essa revolta . A menos que surja outro, o que sabemos que não é fácil, já esse foi como tirar leite de pedra .

Mas sim, fizemos questão de prestigiar o filme, logo nas primeiras semanas, comparecer, torcer para gostar — e até gostamos —, mas ficou aquele gostinho de quero mais.


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Assisti " Babygirl" : um filme nota 7


                                   


Assisti "Babygirl" (Direção Halina Reijn)  sozinha, numa manhã tranquila, e gostei. Tive aquela sensação agradável de ter visto um filme realmente bom , coisa que nem sempre acontece. Como alguém disse na internet, digamos que é um “filme nota 7”.

A história gira em torno de Romy (Nicole Kidman, deslumbrante), uma CEO poderosa e inacessível que vive um casamento “perfeito” com Jacob (Antonio Banderas, no papel do marido romântico). No entanto, ela mantém um caso com o jovem Samuel, seu estagiário,com quem se permite descobrir e experimentar seus desejos sexuais mais profundos que o marido nunca acompanhou e  por isso estavam reprimidos: o de ser dominada, obedecer, servir.

Romy, até então a imagem da mulher que comanda e dá as ordens, revela sua camada submissa na intimidade. Só isso já seria um bom tema, mas o filme não é assim tão raso: essa entrega a um garoto só é possível  e prazerosa para ambos , porque é consensual. Eis a chave do tesouro na história de Romy e Samuel.

Trata-se de uma história de adultério, não é  uma história romântica no sentido tradicional, mesmo assim eu diria que é uma história de amor. Uma “anedota”, no sentido de narrativa curta, que vem para balançar estruturas, redimensionar a vida de Romy e proporcionar experiências transformadoras.

Como é um thriller sexual, é claro que muita gente (para não dizer a maioria) não vai gostar. Há uma grande rejeição aos filmes “sérios” com temática sexual, como se o ser humano não fizesse sexo. Em geral, não tenho esse estranhamento, mas lembro que não consegui terminar de assistir  "Anora", porque a forma como o sexo é mostrado ali me pareceu ofensiva e cansativa. Em certo momento, perguntei: “Esse filme não tem roteiro?” — e larguei a sessão.

Este não é ,de forma alguma, o caso de Babygirl. Ali  o sexo é o fio condutor de um roteiro sólido e atual, aparecendo em cenas de bom gosto inegável, muito  provavelmente com a intenção de revelar camadas das personagens. O caso entre uma mulher mais velha, bem-sucedida e casada, e seu jovem estagiário traz à tona temas envolvendo sexo e poder em suas múltiplas manifestações.

Gostei bastante, embora ache que o uso constante de gemidos bem audíveis ao fundo  tenha sido um pouco desnecessário. A sexualidade já estava expressa de muitas formas mais interessantes, e o som pode acabar  reduzindo Romy à imagem de “uma mulher no cio” — o que definitivamente não corresponde à profundidade da personagem.

Para encerrar, destaco a trilha sonora — não apenas a incidental como acabei de comentar, que  traz  canções marcantes que embalam o filme: "Never Tear Us Apart", do INXS, e "Father Figure" , de George Michael:  É puro suco da melhor música dos anos 1980, década em que eu era criança, mas já via a ascensão de atores como Banderas e Kidman, que atuam no filme com brilhantismo.


No Spotify, esse lugar que uso para repercutir os filmes  e livros por meio das trilhas sonoras, eu  encontrei uma playlist sobre Babygirl e sexualidade feminina que é puro sucesso. Como não gostar de um filme que desperta tudo isso?

sábado, 25 de outubro de 2025

Aniversário com o Cacique de Ramos


 

Em 25 de outubro 2025, meu aniversário, o Cacique de Ramos chegou no Maria Zélia e não pude deixar de comemorar lá com eles. Melhor presente não há!Muito bom !

Eu estava toda de sambista, vestido vermelho e chapéu e me diverti muito 


Alguns stories do dia 








O samba é meu melhor abraço