terça-feira, 13 de outubro de 2020

" E não havia mais neve... ”, Senegal, 1965, direção Ababacar Samb-Makharram


O filme conta a história de um jovem senegalês que regressa da França e se vê diante de todos os dilemas dos que um dia deixaram sua terra natal. Ainda pertence àquele lugar? Aquele país ainda lhe atrai? Mais que a Europa?
Em preto e branco, e filme é bem agradável de assistir, adorei a trilha sonora, em alguns momentos me lembrou os sons de clássicos de Hollywood (como o E o Vento Levou), em outros mais sessentista, um som mais animado, gostei muto de ouvir o filme. 

Quando assisti lembrei muito do belíssimo,musical, colorido, mas também angustiante pelo sentimento de estrangeiridade na terra natal,  "Heremakono" (2002) de Abderrahmane Sissako, filme que comentei aqui ,mas mesmo tão antigo, o filme de  Ababacar Samb-Makharram me pareceu muito mais leve, tem certo humor de fundo, o que eu realmente gosto nos filmes e na vida, afinal nada é tão sério assim! 

Pelo que entendi esse tema do sentimento de estrangeiridade é comum na história dos cinemas africanos, muitos realizadores não saíram, depois voltaram a terra natal? Pois ...

Ouvi falar desse filme no curso sobre Cinemas Africanos, com o professor Marcelo Ribeiro e fiquei bem feliz em saber que ele está disponível no Youtube, ai assisti e gostei muito. 

 ALERTA DE SPOILER 
 Adorei a interpretação do professor para o desfecho do filme, quando a antiga namorada, que provavelmente nunca saiu de Senegal, pergunta ao que está de regresso se existe neve negra, então ele lhe responde que não existe, mas se ela quiser, ele fabricará para ela!  Para o professor, a partir desta cena, podemos pensar que não há  origem alguma que não na invenção constante desta origem, que segundo ele, é a proposta mesma dos cinemas africanos  emergentes. Achei belíssimo.  Lembro que no fim da aula aplaudi aqui sozinha no meu quarto, foi muito especial aquela aula!


Ainda não sou capaz de analisar um filme africano como ele merece, mas tô aprendendo, e muito !

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

"Lua Nova”, Quênia, 2018, direção Philippa Ndisi-Herrmann

 

CARTAZ DE LUA NOVA

Sinopse

            É um belíssimo documentário sobre a decisão da artista e cineasta  Philippa Ndisi-Herrmann em se converter ao Islã. Nessa empreitada, ao conhecer crentes e tentar conviver com eles,  Philippa repensa sua vida e trajetória, assim como os motivos que a levaram a tomar decisão tão radical (segundo ela mesma apresenta).

Ao mesmo tempo ela grava um documentário sobre a vida de um menino muçulmano. Ela, então, retrata a vida da sua amiga Raya, que tem dois filhos, trabalha em uma cia de seguros, é ativista em várias causas sociais, tem filhos (dentre eles o encantador Ahmed, o personagem do doc) e um casamento poligâmico.

PHILLIPPA – Esse é um filme sobre a busca pelo auto conhecimento da diretora, que se questiona constantemente sobre quem ela seria

Philippa 


Na bela cena inicial, Philippa nos conta sobre um sonho que sua mãe teve antes dela nascer, com ela lhe perguntando:

A pergunta[

Esse é um dos primeiros poemas visuais que pipocam no filme todo, que é visualmente bem trabalhado e bonito:

rituais

Ao longo do filme, e também dos sete anos que ele demorou para ser filmado e editado, Philippa viveu momentos de oscilação, sobre se deveria ou não se converter, mas ao final, quando ele conta para a mãe sua decisão e a mão lhe questiona o motivo, ela diz apenas

LUAS VÊM E VÃO.  Precisava pertencer a algo grande, pois “do grande viemos a ele voltaremos”.

Nesta linda imagem poética vemos representa da conversão, a mulher se transformando na muçulmana:

conversão

BISMILAH : “Em nome de Alá”. “Deus esteja conosco”

RAYA - A  Raya é uma mulher pró ativa, comunicativa, tecnológica, trabalhadora e muito bonita.Muitas vezes em seu discurso percebemos o quanto sua rotina é exaustiva, ao cuidar da casa e dos filhos, a ponto dela ter simplesmente se  acostumado com o fato de que seu marido tem outras esposas, afinal ela mesma chega a se esquecer de ligar para ela algumas vezes. Essa narrativa impactou muito Philippa , que parecia ter demorado a se decidir pela conversão, dado que nunca tinha imaginado dividir o marido com outras. 

Raya

AHMED - Mas a melhor personagem do filme, além da própria Philippa A outra personagem encantadora é o menino Ahmed:

Desjejum


Com as crianças para a reza

Na escola do Islã


Se arrumando para rezar





Sua rotina é bem normal de casa para a Escola do Islã e de volta para casa. Sempre a rezar e cantar para Alá. Quando Philippa lhe pergunta qual seria o seu herói, o garoto não pensa duas vezes antes de responder: O PROFETA.

Filme muito diferente e bonito, foi bem interessante assistir.


 







Fiquei muito impressionada com a figura de Raya,  que é mãe, ativista, que vive um (impensável para mim e tantas de nós) casamento poligâmico, personagem do documentário queniano Lua Nova (2018). Ela é um soco no estômago pra nós mulheres ocidentais. Passou por cima do incomodo de saber que o marido tem outras mulheres para ter acesso a uma vida mais dela mesma, onde tem tempo de trabalhar, fazer o que gosta e precisa, não precisa ficar só de dedicando a ele. Tem das que até o esquece! Quis fazer uma homenagem a ela, me vestindo de muçulmana, mas sou muito ruim de imitar muçulmanas, deixo aparecer muita pele, muito cabelo e muito sorriso! Valeu a homenagem ! Fica o registro


💕


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

SEM TEMPO, IRMÃO

SEM TEMPO, IRMÃO - Até que enfim recebi meu tão aguardado volume, mas por algum motivo misterioso eu não consegui ler nem o primeiro conto completo. Quando comprei "A cidade ilhada" foi porque tinha muito tempo livre, pois tinha acabado a primeira temporada da Mostra de Cinemas Africanos (que preenchia muito tempo da minha Quarentena com filmes e lives) e eu sempre sentia falta da escrita companheira de Hatoum e sei que novo romance da trilogia só em 2021, aí achei que alguns contos poderiam me nutrir. Mas tenho a sensação de que essa necessidade  foi suprida e há tanto tempo que já mudei de frequência. Agora a Mostra já reiniciou, de forma menos intensa e sem lives, tenho estado mais ocupada com artigos do dossiê sobre história cultural do humor , tenho feito caminhadas diariamente e voltei a estudar Guimarães Rosa (esse é um ponto importante, pois ele suga o tempo da gente). Por tudo isso, ainda não tive tempo de degustar os contos como quero. Mas vou. Está no horizonte de pequenos prazeres para outubro.

Como diria Drummond "O tempo é minha matéria". E até minha profissão (agora reconhecida)

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Viva o humor das crianças


Hoje recebi um alerta do Google Acadêmico : Citaram meu artigo sobre os dicionários de humor infantil de Pedro Bloch em uma dissertação de mestrado em educação infantil defendida em SC em 2020. Fiquei muito contente, pois eu realmente goto muito daquele artigo (que foi publicado na Revista de História USP (referência que a autora usou), mas também está numa página da plataforma Scielo: https://www.scielo.br/.../n178/2316-9141-rh-178-a00118.pdf
A citação é a seguinte:
"Por pertencer ao campo da Educação Infantil constituído por uma caminhada que já completa dez anos, os ditos e as compreensões das crianças pequenas fecundam meu trabalho cotidiano e contribuem para minhas tentativas de compreender as necessidades e os modos como as crianças pensam o que pensam. Também, nesse interesse radical – ou de raiz – por registrar e colecionar os ditos das crianças pequenas reside o apreço que tive em minha infância pelos livros do médico-foniatra e escritor Pedro Bloch, quem publicou uma série de compêndios de frases e compreensões das crianças. A historiadora Camila Rodrigues (2014) destacou a importância da obra de Bloch em sua tese de doutorado em História Social na Universidade de São Paulo, Escrevendo a lápis de cor: Infância e História na escritura de Guimarães Rosa , e no artigo Dicionários Infantis de Pedro Bloch: Compêndios sobre a graciosa sabedoria da criança, no qual analisa como o autor foi se aproximando da cosmologia da criança.
"Desde a segunda metade do século XX, no Rio de Janeiro, o médico foniatra e escritor Pedro Bloch (1914-2004) realizou um importante trabalho no sentido de resgatar a voz de seus pacientes pequenos tanto no sentido literal, ao ajudá-los em suas dificuldades na fala, como no sentido social, ao reconhecê-los como sujeitos interlocutores legítimos, donos de uma sabedoria original. Para divulgar seu “achado” passou a escrever e publicar enunciações infantis que revelavam aquelas originais interpretações de mundo" (RODRIGUES, 2019, p. 3).
A partir de meu encontro com a sabedoria das crianças resgatada por Bloch, muito antes de cogitar a possibilidade do envolvimento profissional com a Educação Infantil e, portanto, com os modos de imaginar e de pensar das crianças pequenas, fui prestando atenção naquelas com as quais convivia e fazendo pequenas coleções de seus “ditos” no contexto familiar."
( SANTOS, Inara Moraes dos. "Literatura e Formação Docente na Educação Infantil: Lendo e amando como infância". Dissertação de mestrado: Universidade de Santa Cruz do Sul, 2020.)



segunda-feira, 28 de setembro de 2020

"Akasha", Sudão, 2018, direção Hajooj Kuka

 


Sinopse

            Adnan é um revolucionário sudanês, um herói de guerra e ama seu rifle AK47 como ama sua namorara Lina. Por ter se atrasado no retorno a unidade militar depois dos dias de folga da guerra civil, passa a ser perseguido pela kasha, ai foge com seu amigo Absi, se envolvendo nas maiores trapalhadas e mostrando a vida e as ideologias de um Sudão controlado por rebeldes de forma muito humorística.  

Lembrando que, nesse momento em que o filme está sendo apresentado na Mostra, seu diretor, artista  ativista,  Hajooj Kuka estava sendo perseguido e foi preso e, claro, o publico da Mostra se mostrou empático e ajudamos a pressionar a Embaixada do Sudão no Brasil - fomos um dos países que mais mandou emails pressionando esta prisão por motivos políticos.

O Filme          

No começo do filme lemos uma explicação que nos alerta para o fato de estarem tratando de um país em guerra civil e ela tem algumas regras:

“Durante a época das chuvas, a guerra civil sudanesa para devido à lama. Para os rebeldes,é hora do cultivo, família e amor. Depois a chuva para...”

A fita começa com uma comemoração tradicional, de onde um  casal sai sorratiramente, tratam-se de Adnan, com seu rifle nas costas e sua linda namorada Lina, que seguem para a tenda dela, para desfrutarem   e Lina desfruta momentos prazerosos

Adnan faz muitas promessas a Lina, de torná-la rainha e ela parece mesmo uma nobre junto a ele

em frente a ele, até descobrir que Nancy o nome que o namorado deu ao rifle e fica com ciúmes, porque pensa que este só pode ter sido o nome de alguma mulher com quem ele se envolveu.


Na cena da briga do casal, o rebelde é expulso da casa, com as calças caindo e a bela Lina fica muito brava, mas também muito triste com a inconstância do namorado

Mas como a garota fica com a arma e o namorado passa a ser perseguido pela kasha, justa-se ao amigo Absi e os dois seguem se escondendo dos "melhores" jeitos


Seguem em uma moto, vestindo saias, sutiã e carregando um bebê, em cenas engraçadíssimas 

Em um dos momentos mais especiais do filme eles chegam em uma caverna onde Absi passa a tocar uma linda  música tradicional

 para ouvir os conselhos de uma sabia ânsia ela tenta impedir que Adnan com uma flor rosada, mas consegue em partes, tanto que a partir daí ele fica todo marcado da magia da flor, com quem conversa


 Gostei muito de assistir esse filme, porque ele me apresenta uma África que a gente até espera ver retratada - cheia de guerras civis- , mas também mostra que, apesar disso,  os africanos e africanas se envolvem nos mesmos problemas (inclusive afetivos ) que nós, mas as saídas que encontram são bastante inusitadas e divertidas. Assistindo a esse filme, me lembrei muito do meu queridinho da primeira temporada da Mostra, o Yellen, e toda a magia que envolve o modo de alguns africanos enxergarem a vida, conversando com flores, cantando e tocando músicas, apesar da infindável guerra civil, o horizonte é sempre um retorno ao estado de nobreza, de onde essa gente veio. Eu AMO MUITO ISSO.







sábado, 26 de setembro de 2020

Resgate da dissertação

 



Ontem fiz uma live bate papo com o Fernando Costa no Instagram. Falei um pouco da minha trajetória como pesquisadora, como leitora  e como ouvinte. Dentre outras coisas mostrei minha dissertação de mestrado, trabalho que salvou minha vida em 2005, mas que depois da defesa em 2009 eu sempre rejeitei. Coloquei na cabeça que não foi tão bem feito como foi a tese, que eu não sabia escrever, etc. O fato é que sobre ela não publiquei nada, ela ficou  escondida. Agora em outubro, 11 anos depois, vou ministrar um minicurso online sobre ela na Semana de História da Unesp/Assis e estou pesquisando aquele trabalho. É sobre Guimarães Rosa,mas é profundamente histórico, ou melhor, historiografico e, nas condições que foi feito (tive que inventar uma metodologia para falar de História a partir de um escritor que a renegava o tempo todo e, além disso, havia muita instabilidade de saúde), hoje acho que o resultado foi um primor. Como os humilhados um dia serão exaltados, mostro ela aqui, nessa encadernação vermelha  lindíssima, pois tenho orgulho de tê-la escrito.

A TRAVESSIA ∞ - Assistindo ao vídeo da defesa da minha dissertação, eu estava toda de amarelo. Willi Bolle, na banca, não deixou de comentar que eu estava vestida como se fosse para uma festa. E era mesmo, toda trabalhada no amarelo! E era porque só eu sabia que entre 2005, quando comecei o mestrado e 2009, quando defendi, a EM não esteve controlada o tempo todo como está hoje, a todo momento eu achava que poderia não mais conseguir fazer nada (não esqueço que em 2006, quando tive minha última crise até hoje, ela aconteceu em uma aula, quando perdi a coordenação motora para escrever! A qualquer hora podia acontecer). Então, para mim, aquela era a maior festa da vida: Eu tinha conseguido! Graças a Deus, a mamãe Oxum e ao Guimarães Rosa, que me lembrou todo o tempo que "o real não está
na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da
travessia. " ∞
E foi uma longa travessia, só tenho a agradecer à vida !

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Live com Fernando Costa no Instagram


A primeira live foi fantástica, falamos de assuntos ótimos, música, literatura, tudo de bom!
E eu estava toda menina mulher da pele preta, olhos azuis e sorriso branco 

No dia seguinte eu refleti no Facebook 
Ontem em uma live bate papo com o
Fernando Costa
no Instagram. Falei um pouco da minha trajetória como pesquisadora, como leitora e como ouvinte. Dentre outras coisas mostrei minha dissertação de mestrado, trabalho que salvou minha vida em 2005, mas que depois da defesa em 2009 eu sempre rejeitei. Coloquei na cabeça que não foi tão bem feito como foi a tese, que eu não sabia escrever, etc. O fato é que sobre ela não publiquei nada, ela ficou escondida. Agora em outubro, 11 anos depois, vou ministrar um minicurso online sobre ela na Semana de História da Unesp/Assis e estou pesquisando aquele trabalho. É sobre Guimarães Rosa,mas é profundamente histórico, ou melhor, historiografico e, nas condições que foi feito (tive que inventar uma metodologia para falar de História a partir de um escritor que a renegava o tempo todo e, além disso, havia muita instabilidade de saúde), hoje acho que o resultado foi um primor. Como os humilhados um dia serão exaltados, mostro ela aqui, nessa encadernação vermelha lindíssima, pois tenho orgulho de tê-la escrito.
Em outubro ministrei um minicurso só sobre ela!