sexta-feira, 27 de março de 2026

Ushikawa : o gato Cheshere de Murakami

 
Caricatura de Ushikawa pela IA

USHIKAWA

"O homem usava uma camisa branca, gravata vermelho-escura e paletó marrom, tudo de baixa qualidade e muito puído. Saltava aos olhos que aquele homem não tinha nenhum interesse nem fascínio por roupas. Simplesmente vestia qualquer coisa por pura necessidade, por não poder se encontrar nu diante das pessoas."(Crônica do pássaro de corda, p. 536)


Pedi a uma IA uma caricatura de Ushikawa usando essa descrição e achei que ficou ótima.

Embora não seja muito comentado, para mim o capanga Ushikawa é o melhor personagem de Murakami que encontrei até agora. É ele quem dá liga à narrativa imensa de Crônica do pássaro de corda, ele é  o que descrevo como intrusivo  e desconfortante. É pegajoso, desagradável, mas revela o que estava escondido, como o gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas.

Passados muitos anos, é dele que vou lembrar,  invadindo os espaços com sua humildade de humilhado.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Filhos de João: o Admirável Mundo Novo Baiano, Henrique Dantas

           

FILHOS DE JOÃO – Acabei de assistir ao documentário Os Filhos de João: o Admirável Mundo Novo Baiano (2009), de Henrique Dantas, na Netflix. Para quem ama João Gilberto e os Novos Baianos, como eu, é uma preciosidade. É o complemento audiovisual do maravilhoso livro Acabou Chorare: o rock'n'roll encontra a batida de João Gilberto (2020), de Márcio Gaspar, só que com sons, depoimentos e imagens de época. É muito emocionante ouvi-los cantando a própria história. Foi um presentinho fofo para o fim deste dia quente e pesado. Super recomendo.


quarta-feira, 25 de março de 2026

"O museu da inocência " (série): a história do "Que mal" 😕

 




MUSEU DA INOCÊNCIA (romance: 2008; série: 2024)

Inspirada no romance homônimo do autor turco, Nobel de Literatura, Orhan Pamuk, que eu não li, a série da Netflix me desencorajou totalmente a ler. Não porque esteja mal feita, muito ao contrário: a exuberância estética da recriação de uma Istambul dos anos 1970, com imagens que contam a história de forma belíssima, foi o que me manteve até o último episódio, enquanto Geraldo largou logo no começo.

A trama conta a história do rico Kemal, que vou chamar de “Que Mal” (combina mais com o personagem), que, mesmo noivo da rica Sibel, se envolve de maneira doentia com a bela Füsun, uma prima pobre distante a quem manipula e tenta dominar o tempo todo. “Que Mal” é um vacilão e, mesmo tentando considerar as diferenças culturais entre Oriente e Ocidente e o período em que a história se passa, nada me empolgou ou envolveu.

Para esse tipo de narrativa, prefiro Dom Casmurro, que é do século retrasado. O livro eu não sei, mas a série eu não recomendo.

segunda-feira, 23 de março de 2026

O jovem- Annie Ernaux


 ​"Se não escrevo as coisas,

elas não encontram seu termo,

são apenas vividas."

​O Jovem (2022), de Annie Ernaux, é um relato autobiográfico que narra a memória de um amor intenso entre uma mulher de mais de 50 anos e um rapaz décadas mais jovem. Sendo meu primeiro livro da autora, gostei muito da experiência. É um texto curto e poético.

​Para mim, aos 46 anos, foi salutar ingressar nas questões colocadas sobre mudança do corpo, sexualidade e o preconceito contra casais nesse modelo. Mas o principal aspecto foi perceber que a experiência do encontro ganhou os tons pastéis da memória e serviu de estímulo para a criação literária. Que belezinha de livro.

Belo trecho 


Frases...

"...produzia em mim a sensação, durante minutos, de que eu estava vagando pelo tempo inominável de um sonho." P. 19


"Certo verão,  em Chioggia, aguardando o vaporetto para voltar a Veneza, ele me disse: 'Eu queria estar dentro de você e sair de lá para me parecer  com  você." P.33


"...o papel desempenhado por ele - o de alguém que abria as portas do tempo na minha vida - tenha chegado ao fim..."p. 36




sexta-feira, 20 de março de 2026

"Silêncio dos inocentes": melhor filme da vida?

          

Durante muito tempo, até pré adolescência, quando me perguntavam qual era meu filme favorito, eu respondia este sem hesitar, embora já quase não me lembrasse dos detalhes do filme que assisti aos 11 anos. Ainda assim, sabia que era bom. Esses dias, encontrei no Prime Video e resolvi assistir novamente.

Que filmaço. Uma verdadeira aula de suspense e tensão. As cenas com Hopkins e Foster, então, são impressionantes.

Ao final só comentei: caramba, que filme é esse?😱

Pedi à IA um resumo das informações e deixo aqui a indicação para todos: assistam.

"O Silêncio dos Inocentes" (1991), de Jonathan Demme, é um dos thrillers psicológicos mais marcantes do cinema. Conta a história da agente do FBI Clarice Starling, interpretada por Jodie Foster, que busca a ajuda do brilhante e perturbador psiquiatra canibal Dr. Hannibal Lecter, vivido por Anthony Hopkins, para capturar o assassino em série Buffalo Bill, interpretado por Ted Levine. À medida que Clarice se aprofunda nesse jogo psicológico intenso, ela precisa enfrentar não apenas o criminoso que procura, mas também seus próprios medos e traumas.

Beleza Americana: eterna crises do American way of lifecrises

 

         


Assistir "Beleza Americana" (1999), de Sam Mendes, em 2026 é divertido e interessante, pois nos deparamos com uma narrativa que debocha do American way of life de diversas formas, mas se mantém atual ao sublinhar questões ainda em destaque.
Isso faz sentido, já que a virada do século XX para o XXI trouxe um olhar mais atento ao declínio do império americano, processo que continuamos a acompanhar.
O filme explora a crise existencial de um homem de meia-idade que, ao se ver no limite, tenta reagir, causando desconforto nas pessoas ao seu redor, que passam então a encarar e revelar seus próprios vazios por trás de vidas aparentemente estáveis.
O impacto da obra vem menos de reviravoltas e mais de transformações internas, mostrando como qualquer reação pessoal, por mínima que pareça, pode conduzir a mudanças que se tornam decisivas.

Mercado play e o envelhecimento


 Gosto de usar a plataforma Mercado Play, que é gratuita e tem um catálogo muito interessante para quem tem mais de 40 anos. São filmes considerados bons ou ótimos quando foram lançados, há pelo menos 20 anos, ali na virada do século. Revisitar essas obras vale, no mínimo, para perceber se envelheceram bem ou não. O mais bacana é que todos os que assisti até agora, ainda poucos (Eu, Robô; Beleza Americana; Controle Total), continuam ótimos, mostrando que filme bom não tem idade.