quinta-feira, 23 de abril de 2026

Murakami: Um autor entre século

 


​HARUKI MURAKAMI, UM AUTOR ENTRE SÉCULOS

​Não estamos pensando tão cronologicamente, mas muito mais na captura da sensibilidade das épocas. Murakami escreve desde o século XX; muitas de suas obras mais lembradas se passam na década de 1980 (por exemplo, a trilogia 1Q84, Crônica do Pássaro de Corda, etc.), mas também escreveu depois, na passagem do século (anos 2000), e ainda escreve.

​Analisando por alto sua obra, que nem li toda ainda, é interessante observar elementos que indicam rupturas de tempo e ciclos já sentidas na última virada de século e que agora reaparecem em novas colorações: o que nos anos 1980 eram apenas indicações (solidão na vida adulta, dificuldade de nomear sentimentos, sensação de deslocamento, interações assustadoras com a tecnologia, rarefação dos afetos, a busca quase desesperada de uma fenda que serviria de portal para outras dimensões e que transformaria nossa percepção das coisas, etc.), tudo isso passou a ser um molde da vida que nós levamos no século XXI.

​Muito mal comparando, e brincando com conceitos de teoria literária, é como se Murakami fosse um autor entre séculos (na verdade ele realmente é), uma espécie de Baudelaire: aquela mente que ainda no século XIX já apontava a sensibilidade que viria a ser a dinâmica da vida humana no século XX. Murakami parece ser assim também, mas na passagem do XX para o XXI. Lemos as histórias da década de 1980,por exemplo, e elas nos parecem tão conectadas com nossa vida e percepção no século XXI! Julgo que deve ser por isso que todo mundo gosta de ler o que ele escreve. Gosta tanto a ponto de ele ser até desconsiderado por alguns, considerado um autor banal, coisa que, para mim, de fato ele não é. Que bom termos um Murakami: japonês, filosófico, metódico, literário, maratonista,amante de jazz...


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