Em 13 de setembro tivemos um aperitivinho de carnaval em plena quarentena com a Live do Bloco Lua Vai. Amei demais. Me trabalhei toda pra curtir o pagodinho, quis ficar parecida como estava no carnaval, apesar de estar mais gorda, mas acho que fiquei mais bonita, meu cabelo está maior, gosto assim
E eu quis mesmo me divertir, mesmo aqui sozinha em casa, sambei muito (até gravei pra quem duvidava que eu sambasse) e tive um respiro na Quarentena
Cantei muito, me diverti, mesmo sozinha e isso é muita coisa na quarentena!
Tudo bem que a
primeira parte da Mostra de Cinemas Africanos já acabou, mas sempre que
aparecer algum filme africano ou sobre a
África, vou ver e comentar. Adoro.
No caso do documentário
Max Print, demorei um pouco para arrumar
um tempo e assistir e devo avisar que só consegui fazer isso de forma bem fragmentada, arrumando mesmo algum tempinho nos meus afazeres, mas consegui terminar antes que ele seja retirado do ar.
O filme trata da
história da cineasta e estilista inglesa Aiwan Obinyan, que descobre, através
da sua avó nigeriana, que os tecidos ‘tradicionais’ africanos impressos em cera
foram uma invenção colonial do Reino Unido e da Holanda. Aiwan, então, se lança
em uma jornada em busca da história desses tecidos que ela tanto ama e descobre
que esta é composta por uma trama de mandos e desmandos que dizem respeito a
África, aos africanos esua cultura e as
relações de dominação, apropriação e comunhão com outras terras e culturas. A existência de um tecido que nasceu da
própria dinâmica colonial, das suas estampas, comercialização, etc, pode revelar faces intrigantes da História da
Nigéria, da própria África.
O filme lança muitas
questões sobre a cultura e as identidades africanas e que tipos de trocas foram
sendo feitas, desde a época da colonização até a mais recente invasão dos produtos
chineses, que baratearam a produção tradicional.
Eu divido o filme em
três grandes partes, que comentarei a seguir:
os tecidos
Parte 1 - Na primeira parte Aiwan
mergulha no universo dos tecidos e das estampas, dos processos tradicionais de
estamparia a partir da cera, das diferentes imagens e histórias que cada tecido
podia contar em diversos lugares de África. É muito bonito, nos dá a sensação de que estamos em contato com o que
poderia ser uma espécie de berço daquela cultura. Mas estamos todos cientes de
que , talvez, essa sensação possa ter sido forjada pelos colonizadores,
entretanto estas continuam representando, no mundo todo, o reconhecimento
de uma identidade africana.
algumas alunas de costura da avó de Aiwan
Parte 2 - Na segunda parte Aiwan
vai em busca de detalhes das suas próprias raízes na Nigéria, tem uma emocionante
conversa com sua avó, que lhe conta sobre como foi quando começou a
costurare ensinar outras mulher e e
meninas a costurar, há muitas décadas e sobre como as alunas eram tantas que
ela nem podia se lembrar, individualmente, de nenhuma. Nesta parte conseguimos
entender como era quando as mulheres ainda tinham poder de troca , inclusive
com os colonizadores,e como aqueles
tecidose estampas foram, na verdade, o
resultado de um processo de criação entre ambas as partes, ainda que essas
roupas sejam usadas, cotidianamente, mais entre as africanas.
o castelo de Elmina
Parte 3 – Na terceira parte a
diretora Aiwan e a produtora Natuley Smalle vão em busca da história dos seus antepassados,
para tentar responder à pergunta : o que diriam se estivessem diante de seus ancestrais
. Nessa jornada chegam até o Castelo de Elimina, um dos locais onde ficavam
confinadas as pessoas antes de serem levadas à América ou ao Caribe para serem
escravizadas em plantações de algodão. O contato com o doloroso ambiente marcado
pelas dores da escravidão as surpreenderam, pois ambas supunham que sentiram muita raiva, e que seu grito
militante em favor das causas negras seria o que mais gritaria naquela visita,
no entanto o que elas sentiram foi mesmo muita tristeza, por tudo. Me identifiquei bastante com as palavras de Natuley
Smalle, quando ela se questiona como é possível que negros procurem redenção em
igrejas, em religiões organizadas, como se não pudessem ouvir os gemidos e
gritos dos seus antepassados enterrados debaixo daqueles prédios. Para ela, e
também para mim, não dá para separar as coisas assim. Dureza.
Que filme
interessante! Quantas coisas ainda temos que aprender sobre a África!
Fui conhecer este autor no pós doutorado, quando assisti a um curso de extensão só sobre ele, com a professora Sarita Mucinic Sarue, que fui muito prejudicado por uma greve violenta e sem fim, mas conforme Sarita foi comentando sobre Korczak eu fui identificando nele tantas semelhanças com Pedro Bloch e todo o ideário de reconhecimento da criança que foi emocionante. Mas eu o "conhecia" desde antes, desde minhas primeiras experiências com crianças, na Escola Lumiar, no Projeto Piá, como se ele fosse um autor base, mas de quem só não sabia a referência. Quando comprei este livrinho, eu já conhecia bem o texto sensacional, lido de outra publicação, mas queria ter essa essa nova tradução, a qual achei muito dura e não gostei nada, mas gostei mesmo foi do prefácio, escrito por S. Tomkiewicz, que me mostrou um Korczak mais próximo, com as tais ideias de uma "nova criança", mais autônoma, mais participante, um ser reconhecido como sujeito da História (inclusive a sua própria), que tanto me encantam. Recentemente escrevi um capítulo de livro (a ser publicado ano que vem), ainda sobre minha pesquisa de pós-doc, sobre o trabalho de Pedro Bloch e as crianças e como ele estaria inserido nesse contexto. Como referência teóricas para o capítulo, elenquei dois pensadores cujo ideário sobre a infância poderiam sustentar Bloch : Walter Benjamin, que conheço muito bem desde o doutorado, e Janusz Korczak, que conheço um pouco e o que conheço corrobora minhas hipóteses. Vejamos um exemplo de como essas ideias de maior autonomia para crianças foram divulgadas por nossos pensadores: entre 1929 e 1932. Walter Benjamin manteve um programa de rádio para crianças berlineses, onde dialogava com elas sobre os mais diversos assuntos, fossem de interesse infantil, fossem de interesse social, seu objetivo era dialogar com esses sujeitos na sociedade. Alguns desses programas foram traduzidos para o português em 2015 e eu até escrevi uma resenha dele. Lindo. Pois não é que, lendo este prefácio, soube que antes, em 1926, também Korczak defendeu "a importância educativa do cinema e do rádio (Programas de Cinema e Rádio para crianças), mas sobre o conteúdo desses programas só saberei quando alguém traduzir do polonês ! kkkkk
Mas estou escrevendo isso porque já faz tempo que o nome Janusz Korczak não me sai da cabeça, preciso fazer alguma coisa com ele. Não sei ainda o que. Mas por enquanto estou tentando aumentar minha pequena biblioteca korczaquiana, uma hora A IDEIA vai aparecer, porque nosso "encontro" está marcado e será definitivo em minha trajetória!
LUTE COMO UMA MENINA - Toda essa história tenebrosa da menina grávida me tocou imenso,nem consigo comentar muito. Só quem é mulher, quem já foi menina, quem viveu esse susto de caminhar encantada nesse mundo masculino e violento do adulto, entende o tamanho disso. Tem muita gente que acha que as mulheres (agora até as meninas) no Brasil não tem o direito de serem elas mesmas, de existirem, nem de serem meninas no seu tempo! São sempre as culpadas de tudo. Como podem ver, não tenho ainda uma fala coerente sobre isso tudo, é doído demais. Que tristeza!
Terminei de ler o segundo volume da trilogia “O Lugar mais sombrio”, o
chamado “Pontos de Fuga”, que continua narrando a saga de Martim. Não foi nada fácil
de ler, me perdi, reclamei muito e, em muitos momentos, cheguei até a perder as
esperanças de gostar do livro. Houve uma ocasião em que o próprio Milton
Hatoum, em uma troca de mensagens em um grupo sobre ele do qual ele também
participa, me pediu para ter paciência com esse livro, e não é que no final,
devo dizer que gostei, especialmente do encaixe com o "A noite da
espera"?
Se no anterior falávamos de um adolescente
ambientado em Brasília, neste volume ele se muda para São Paulo para terminar
sua faculdade de arquitetura e vai morar numa república na rua Fidalga, onde
conhece um grupo de amigos, a maioria também estudante de
arquitetura, com os quais vai ingressar na vida adulta e tentar sobreviver aos
duros tempos ditatoriais. Se no primeiro a narrativa estava mesmo mais centrada
em Martim, neste livro ouvimos mais relatos de outros, e a até a imagem do
próprio Martim, refletida pela visão dos outros, foi ficando mais clara aos poucos e como eu já
vinha de uma certa impaciência com o rapaz, no começo briguei muito com o
livro, não conseguia ter empatia por ele, nem pelos seus amigos, mas Hatoum foi
diluindo essa má impressão e ao final já estava entendendo e sofrendo junto com
esses personagens, que viveram um dos piores momentos para se viver no Brasil.
Falando do livro, propriamente dito, destaco seu título, altamente
relacionado à formação de arquiteto de Hatoum e da maior parte destes seus
personagens, lembro que :
“o ponto de fuga é a referência no horizonte para
fazer as linhas em um desenho e construir uma perspectiva”.
No romance,portanto, talvez cada uma das personagens, especialmente as que moraram na
república da Fidalga, poderia ou deveria representar um ponto de fuga para
tentar construir alguma perspectiva, ainda que fosse colocando um questionamento, como faz o personagem Nortista (o melhor da trilogia até agora), em cena em palco teatral:
“como viver num tempo trágico e numa terra trágica?”(p.160)
***
Uma cena tristemente emblemática da leitura do país experimentada neste
romance é quando, em 3 de novembro de 1977,o trapezista Julião, que está se preparando para se exilar, e sofria demais por isso, deita em um sofá na casa dos amigos e fica ouvindo a bela e terrível canção Sargaço Mar, de Dorival Caymmi, como se fosse um lamento de despedida, uma carta de adeus antes de morrer:
"Quando se for esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz verde cor de arrebentação
Sargaço mar, sargaço ar
Deusa do amor, deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar
Alucinado desesperar
Querer morrer para viver com Iemanjá"
Então Julião sente uma sonolência, dorme e sonha com:
"o impulso no trapézio volante, o sumiço dos braços do trapezista aparador, 5 ou 6 segundos no espaço, meu corpo bateu na rede de proteção e quando subiu, vi no horizonte a praça dos Três Poderes ocupada por um monte de pessoas de pedra sob um céu de enxofre, parecia uma poeira atômica cobrindo Brasilia" (p.282)
Não é fácil MESMO a leitura desse romance, como não foi fácil a realidade que ele procura retratar, justamente na época em que eu nasci, final dos anos 1970! Eu até tinha uma imagem mais positiva de 1979, não pensava em uma horda de desterrados, sequelados por anos e anos de repressão e violência, como encontramos nesse livro, mas ao menos tem uma bela trilha sonora.
***
Voltando ao Martim, é preciso registar que há momentos em que ele realmente se desespera, como quando Anita comenta com Mariela, na casa da Fidalga, que ele e Dinah estava se esguelando lá em cima, e Mari responde:
"Dinah está em Londres ou Paris, Anita, Martim conversa com ela, com a mãe, com os livros, com o mundo. Mas sempre sozinho" (p. 168).
Ou então, em uma das cenas mais simbólicas, como quando ele literalmente rasga
“o desenho do Sérgio San com os pontos de fuga”.(p. 198)
Mas, enfim compreendi bem, para Martim, insustentável é a dor de estar sem suas
mulheres - a mãe Lina e a amada Dinah - que aos poucos vão se diluindo e, enfim,
acabaram tendo o mesmo final, transforma-se em um só
sofrimento, mais intenso :
“A dor mais profunda e verdadeira só
encontra alívio nos sonhos?” (p.223)
Acho que a resposta a essa pergunta é não. Martim
não teve um segundo de alivio, nem em sonho. Sobre sua história, caiu como uma luva a delicada canção "Todo Homem", do Zeca Veloso com o seu pai Caetano Veloso, cantada num falsete cheio de lembranças e esquecimentos:
“Eu sou cordão umbilical
Pra mim nunca 'tá bom(...)
Todo homem precisa de uma mãe...”
Mas o que perturba, o que Martim define como “lugar mais sombrio da
vida” (p. 196) ,é aquilo que é
“impossível lembrar. O esquecimento e a lembrança
estavam no centro do monólogo do Martim”. (p. 196)
Se “amargura” foi a palavra chave de “a noite da espera”, neste volume,
as palavras chave são “memória” e “esquecimento”, já que
“a memória é uma voz
submersa, um jogo perverso entre lembrança e esquecimento”(p. 182).
E este jogo foi mesmo muito perverso com Martim, a ponto de fazê-lo surtar de verdade: “Todo homem
precisa de uma mãe”.
Dando um pequeno spoiler (que era até um pouco previsível), digo que ao
final desde livro ficamos sabendo que, de alguma forma, os três personagens centrais – Martim,
Lina e Dinah- não morrem, pelo menos ainda não, afinal temos mais um
volume inteiro para concluir esta saga.
Depois de comentar filme a filme e fazer até um resumo final, até achei que já tivesse esgotado o assunto da fundamental mostra de
cinema que tornou tolerável minha quarentena neste primeiro semestre, porém
três canções que ouvi nos filmes não saem mais da minha cabeça.Gravei as três em MP3 e, de vez em quando,
volto a ouvir e me emociono. Das três,
duas são adaptações de poemas e uma foi feita especialmente para o filme. Pena
que não sei disponibilizar arquivo MP3 aqui no blog, mas vou comentar pelo
menos a letra de cada uma.
Pela ordem em queapareceram na Mostra, a primeira é “Caminho
do Mato”, inspirada no poema de Agostinho Neto, e apareceu na mostra no filme
algolano Sambizanga (1972), de Sarah Maldoror.
Segundo a pesquisadorade cinema angolano Renata Dariva (PUCRS), que participou da mostra, essa
música aparece em vários filmes de Angola, como se fosse uma canção nacional. A
letra é bem significativa: o caminho do mato é o caminho da nossa vida, da vida
do africano, da vida do angolano :
Caminho do mato
caminho da gente
gente cansada
Óóó - oh!
Caminho do mato
soba grande
caminho do soba
Óóó - oh!
Caminho do mato
caminho de Lemba
Lemba famosa
Óóó - oh!
Caminho do mato
caminho do amor
do amor de Lemba
Óóó - oh!
Caminho do mato
caminho das flores
flores do amor.
Por nossa sorte, ela é trilha sonora de uma das mais belas
cenas do filme está disponível no Youtube e podemos ouvi-la aqui
*
A segunda canção também está em um filme angolano, o “Ar-condicionado”
(2020), de Fradique. A canção, originalmente composta para o filme é
interpretada por Aline Frazão e se chama Matacedo , toca na cena em que o personagem Matacedo, um
ex soldado lesado de guerra, que entra na máquina de extrair memória em carro , fecha os
olhos e vamos vendo o carro passear por uma Luanda bonita, de dia, de noite, na
chuva, com prédios novos com a canção, cantada por Aline Frazão, de
forma muito sincopada, assim como o filme, a música dá um passo e volta dois,
como é o ritmo da memória de Matacedo, mas também uma fala sobre Angola:
Quando eu fecho os
olhos imagino um país novo
quando eu fecho os
olhos eu me lembro de novo
para não me dissolver
no cassino da lembrança aperto passo na dança, obstinada dos dias
tudo era bem melhor no
tempo em que ainda me vias
tempo tempo tempo,
tempo, tempo
denoite adormece o meu corpo antigo
enferrujado e doído,
como um sobrado em ruínas
Sonho para não
esquecer e esqueço ao amanhecer
Consegui o link para se ouvir a canção, espero que não o tirem do ar, porque não paro
de ouvir essa.
*
A última canção aparece no filme "Heremakono - À Espera
da Felicidade " (2002), deAbderrahmane
Sissako, que é um filme sobre o sentimento de estrangeiridade em sua própria terra de origem .
A canção "Amor à terra natal", que é cantada pelo menino Khatra, é também umpoema de Paul Niger de 1962:
Passarinho que canta
seu amor pela terra
natal
vou escolher o
quevai comer
e trazer para você
Interessante é que o menino é proibido de cantar esta
canção, mas canta mesmo assim e é tão lindo que,mesmo sendo em árabe, eu canto junto em português, como se fosse uma canção originária, que dispensa o significado das palavras.
Poemas, canções, e filmes são as vozes da África, para quem
deseja ouvi-la.