Tenho um grande amor pelo primeiro romance publicado por Milton Hatoum, talvez o mais poético deles, e fico muito emocionada quando, nos contos ou crônicas, percebo alguma marca que me remetem a "Relato de um certo oriente", seja uma personagem, seja uma história paralela, seja o que for.
O segundo livro que leio em 2021 está sendo o seu enorme volume de crônicas "Um solitário à espreita" e estou gostando, como sempre é uma leitura muito apetitosa, mas como gostaria que me contassem uma história, estou intercalando, demoradamente, com outras narrativas.
Como suspeitei que viria, ontem li uma crônica que com uma referência direta à escritura de "Relato..."
"Que distração: em abril de 1989 publiquei meu primeiro romance, cujo esboço inicial foi feito em dezembro de 1980 e nos primeiros meses de 1981. O relato seria um conto, mas foi crescendo com o calor da viagem sinuosa e atropelada da escrita.
Às vezes, quando essa viagem é interrompida, você diz a si mesmo que é uma pausa provisória, mas há textos que ficam no meio do caminho e são abandonados ou esquecidos: assuntos morrem nas primeiras páginas. Na verdade não é o tema que morre, e sim a forma, a arquitetura, o projeto que não vinga. Mas aquele conto expandiu-se, uma voz puxava a outra, vozes tão intrometidas que nem sei de onde vinham. Quando me dei conta, já tinha escrito mais de cem páginas ..." Milton Hatoum. Tantos anos depois, Paris parece tão distante.... In "Um solitário a espreita", p. 33
Trocando ideias sobre a escrita de Hatoum no Instagram encontrei um leitor que, como eu, estava se deliciando com o "Relato...", eu disse que talvez a base da obra de Hatoum já estivesse esboçado ali, de uma forma fantástica, muito bonito de ver. Sabem que ele foi escrito há cerca de 40 anos (tem mais ou menos a minha idade), em um quartinho alugado em Paris, me deixa alegre de alguma forma: talvez eu também possa ser mais do que um projeto menor (no caso um conto) que não foi abortado e virou algo muito importante para outras pessoas.
NÃO À NORMALIZAÇÃO DO RACISMO - "... ao longo de mais de 30 anos eu tinha sido um inferno que tornava todos os outros infernos eventuais do cotidiano meras fagulhinhas na normalidade geral, que o meu olhar, MEU MODO DE LER A VIDA, RECUSAVA A NORMALIDADE ENGESSADA PELO DISTÚRBIO QUE AS PESSOAS CHAMAVAM DE RACISMO, pela devastação psíquica por ele causada, não importa o que os outros dissessem para tentar me convencer de que não estava tão ruim assim de que o ódio contra os pretos e o nojo em relação aos pretos estavam menores, de que no passado a coisa tinha sido muito pior... " "Marrom e Amarelo", Paulo Scott, p. 60
"MEMÓRIA – Oitavo álbum de estúdio de Jorge Ben Jor, lançado em novembro de 1971 pela gravadora Philips, Negro é lindo é fruto dos movimentos sociais que institucionalizaram o black power nos Estados Unidos ao longo dos anos 1960 e, por isso mesmo, o disco completa 50 anos em 2021 conectado e afinado com o grito pela reafirmação da importância de vidas negras que ecoa forte no mundo em tempos atuais.
Nos Estados Unidos, os movimentos sociais dos anos 1960 tiveram como trilha sonora sobretudo o soul e o funk que reverberaram no Brasil a partir do fim dos anos 1960, projetando artistas como Tim Maia (1942 – 1998) e Tony Tornado no início da década seguinte.
Ben, que já vinha pavimentando obra autoral desde 1962 com orgulho negro e boa dose de soul no toque do violão (mas sem se prender ao gênero norte-americano), explicitou o brado do movimento racial, em bom português, no titulo desde disco lançado no mesmo ano em que Elis Regina (1945 – 1982) popularizou o soul Black is beautiful (1971), marco da adesão dos irmãos compositores Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle ao movimento pela valorização do povo negro.
“Negro é lindo / Negro é amor / Negro é amigo”, reforçou Ben Jor em versos da letra da pacifista música-título Negro é lindo (Jorge Ben Jor, 1971), formatada no estúdio com cordas orquestradas pelo maestro Arthur Verocai – cordas também proeminentes também na faixa Porque é proibido pisar na grama (Jorge Ben Jor, 1971) e na regravação de Que maravilha (1969), parceria de Jorge Ben com Toquinho apresentada há então dois anos e revivida por Jorge no disco de 1971 em registro também pontuado pela leveza do toque de um piano.
Em que pesem as cordas, o motor do álbum Negro é lindo é o violão de Ben Jor. Com toque alquimista que sintetiza ritmos negros do Brasil e dos Estados Unidos, criados a partir de matrizes africanas, o violão do músico carioca é a veloz máquina de ritmo que eletriza Cassius Marcelo Clay (1971).
Outra parceria de Jorge com Toquinho, Cassius Marcelo Clay é tributo dos compositores ao engajado pugilista norte-americano Cassius Marcellus Clay Jr. (1942 – 2016), rebatizado como Muhammad Ali desde que se converteu ao islamismo com o incentivo de Malcom X (1925 – 1965), líder norte-americano do movimento negro nacionalista que mobilizou os Estados Unidos nos anos 1960.
A homenagem de Ben Jor a Cassius Clay mostra como o álbum Negro é lindo está impregnado do poder negro importado dos EUA, mas adaptado, inclusive musicalmente, à realidade brasileira. Tanto que o disco é o terceiro de trilogia fonográfica em que Ben Jor é acompanhado pelo balanço singular e brasileiríssimo do Trio Mocotó, grupo de samba-rock formado em 1968 por Fritz Escovão (cuíca), João Parahyba (bateria) e Nereu Gargalo (pandeiro).
É no balanço do Trio Mocotó que Ben Jor cai no suingue de Rita Jeep (Jorge Ben Jor, 1971), samba-rock que abre o disco com homenagem a Rita Lee (“Sujeita, você é um barato / Terrivelmente feminina / Com você, eu faço um trato / Um trato de comunhão de bem”), com quem Ben convivia nos estúdios paulistanos em que gravou o álbum, muitas vezes voltando para casa de carona no carro da cantora.
Com capa que expõe Jorge Ben em foto de Wilney, enquadrada na arte de Aldo Luiz, o álbum Negro é lindo foi produzido em estúdio sob direção do compositor e violonista Paulinho Tapajós (1945 – 2013), hábil ao organizar e harmonizar os elementos de disco composto e gravado com fidelidade ao universo de Jorge Ben.
Como o título já explicita, Negro é lindo é disco político, mas Jorge faz política com a sintaxe peculiar de cancioneiro pautado mais pelo ritmo do que pela letras, escritas a serviço desse ritmo. Celebrar o baterista do Trio Mocotó João Parahyba em Comanche (Jorge Ben Jor, 1971) e exaltar a beleza negra em Zula (Jorge Ben Jor, 1971) são armas usadas por Ben para entrar na luta e ostentar orgulho negro sem fazer letras explicitamente engajadas.
Coerente com a própria ideologia, o compositor celebra musas em Maria Domingas (Jorge Ben Jor, 1971) e Cigana (Jorge Ben Jor, 1971) – outra faixa em que foram destacadas as cordas orquestradas por Arthur Verocai.
No fecho do disco, Palomaris (Jorge Ben Jor, 1971) esboça certa sofrência indicada pelo tom melancólico dos versos, mas logo diluída pelo ritmo, motor da obra do artista.
Negro é lindo está longe de ser o álbum comercialmente mais bem-sucedido de Jorge Ben Jor. O disco tampouco rendeu um grande sucesso para o repertório do cantor e compositor.
Contudo, Negro é lindo conserva frescor musical e, por estar embebido em orgulho negro, faz 50 anos em 2021 com forte conexão com o atual e oportuno movimento que propaga a importância das vidas negras."
Viva a ciência no Brasil!
No dia 17 de janeiro de 2021 a profissional de saúde a enfermeira Monica Calazans , do instituto de infectologia Emílio Ribas, foi a primeira pessoa a ser vacinada contra a Covid 19 no Brasil. Viva a ciência! Há luz no fim do túnel!
Sou apaixonada pela Etiópia. Por isso inventei que sou descendente de etíopes. Como não sei nada sobre minha ancestralidade, eu invento o que eu quiser. Mas olha que lugar MARAVILHOSO, Todo cheio de "tesouros escondidos", como em Minas, mas mais antigo! Trago dois vídeos para a gente saber um pouquinho sobre :APAIXONANTE
À esquerda, a capa de Torto Arado, por Linoca Souza À direita, a foto de Giovanni Marrozzini em Nouvelle (2010)
Venho dizendo que é muito
difícil falar desse livro, mas é impossível não falar. Como sei que nunca vou
conseguir escrever sobre como ele merece, então vou tentar pontuar algumas questões que julgo importantes
e , evitando dar spoiler, pelo menos não muito, mas é que tem coisas que acho
que preciso comentar. Quis muito que esse livro fosse bom, fosse mágico, fosse
arrebatador, mas como quase nunca meu desejo é realizado, comecei a ler sem
expectativas. Planejava ler até a virada do ano e se fosse preciso, no começo
de janeiro, mas comprei na primeira semana, dia 8 de dezembro, mas só recebi
dez dias depois, comecei a ler dia 18 e
terminei dia 26: o Livro de dezembro! Presente de Natal!
Durante a leitura já fui sentindo
essa dificuldade de falar sobre ele, é tão mágico, não dá para comentar muito,
mas é urgente recomendá-lo. Na hora que terminei, no final de um ano apocalíptico
como foi 2020, não sabendo o que dizer, disse apenas: Que tiro foi esse?
Como demorou um pouco para chegar
(os pedidos ultrapassaram o previsto em dezembro e foram precisas novas
edições), eu assisti as resenhas no Youtube, todas eram unânimes : se trata de um
livro que nasceu clássico. Um dos Youtubers disse que tem tantas coisas
nesse livro que é impossível comentar. Não foi só eu. Estou tentando escrever
sobre faz tempo, mas é tão enorme, que eu acho um pecado profanar. Vou tentar
ler a partir de três tópicos que mais me chamaram a atenção porque se ampliam e podem meio que sintetizar o romance. Avisando que
avisandoestes não são os únicos que
julgo importantes do livro, nem os únicos que eu gostei, mas são os que mais me
tocaram e sobre eles me sinto ligeiramente confortável para comentar:1 Terra – Escravidão- Servidão; 2 Brincadeiras de Jarê- Encantaria - Ancestralidade ;3- Mulheres fortes e unidas;
1 Terra – Escravidão- Servidão O livro é sobre uma comunidade rural, a partir da história da família do
curador Zeca Chapéu Grande, sua esposa a parteira Salu e seus quatro filhos, que
passaram a viver de “morada” na fazenda Água Negra com o fim da escravidão, no
interior da Bahia, e foram trabalhar em regime de servidão. Quem narra são as duas irmãs mais velhas, Bibiana e Belonisia (cada uma narra um capítulo).
Em tempo, fala-se de pessoas que saíram da escravidão e passaram à servidão,
até o surgimento de novos tempos com lutas sociais.
A epígrafe do romance é só TODO o
capítulo 28 de Lavoura Arcaica de Raduam Nassar (livro que reli imediatamente após terminar Torto, ainda em 2020)
capítulo 28 de Lavoura Arcaica, de Raduam Nassar
Nesta entrevista Itamar
conta que o arado torto que aparece no romance é um instrumento de trabalho
arcaico, que veio dos antepassados de Belonísia e que "se deformou com o tempo,
mas ainda continua rasgando a terra para semear a vida”. Itamar diz também
que a ideia do título foi retirado de um trecho de Marília de Dirceu, de Thomás
Antonio Gonzaga, e todo o imaginário do trabalho com a terra na literatura
brasileira é pontuado no romance. Foi fácil encontrar na internet:
Percebe-se de cara que é uma história de gente que tem a
terra como parte de si, do seu corpo , e seu habitat, afinal como os donos da fazenda não os permitia
ter nenhum bem durável,não tinham casas
de alvenaria,e até vivem em casas feitas
de barro (terra). Segundo conta a filha de Zeca Chapéu Grande, Belonísia, a mais ligada ao pai:
“Meu pai, quando encontrava
um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu
interior, para decidir o que usar, o que fazer,onde avançar, onde recuar.
Como um médico à procura do coração." p.100
Além de Belonísia, que não se via separada da terra, para todos eles a terra também era tudo, mas embora nela labutassem dia a dia para dar a terça parte da produção ao seu dono (tipo na idade média mesmo) e ainda
agradecendo-lhes pela chance de poder trabalhar naquele chão, a vida que levavam ao cultivar para
alimentação própria, sem dinheiro, quase sem autonomia não era justa, como conta Bebiana:
“se algo acontecesse a eles, não teríamos direito à
casa, nem mesmo à terra onde plantavam sua roça. Não teríamos direito a nada, sairíamos
da fazenda carregando nossos próprios pertences. Se não pudéssemos trabalhar,
seríamos convidados a deixar Água Negra, terra onde toda uma geração de
filhos de trabalhadores haviam nascido. Aquele sistema de exploração já estava
claro para mim.”p.83
Nada é exposto diretamente pelas narradoras, nenhuma das três, mas a
narrativa vai nos fazendo ver, cada vez mais claramente, a realidade daquele
povo, juntamente com o momento em que eles mesmos vão se enxergando como são :
escravos não são mais, não recebem mais açoite (embora a mãe de Zeca narre
lembranças dessa época sofrida na tal fazenda Caxangá ), mas às vezes se dizem
índios porque sabem que há lei para protegê-los; sabem que são
trabalhadores, mas a qualquer hora os donos podem chegar e tomar-lhes o
plantio, sem dó. É uma vida muito “análoga à da escravidão”. Demora um pouco,
no tempo e na narrativa, para que os irmão mais jovens das protagonistas e netos
de Zeca Chapéu Grande passem a falar em
termos como “quilombolas”, que poderia inseri-los sob a proteção legal:
“Não podemos
mais viver assim. Temos direito à terra. Somos quilombolas” p.187
Nada acontece por acaso, mas não posso deixar de tomar como curioso que,
ao mesmo tempo em que lia, fico sabendo da história do resgate
de Madalena Gordiano (46 anos), essa mulher tão bonita, que viveu 38 em
regime análogo à escravidão na casa de uma família, em Patos de Minas (MG). Escrava
em pleno século XXI? Pois é. Como no romance, a historia nãopara nela , maspossivelmente
se estende a sua família ,suairmã .
É muito ter a "nossa saga" brasileira jogada na cara. Como
prosseguir?
Do outro lado dessa vida de trabalho braçal sem fim na roça, temos um dos trechos mais
bonitos do livro em minha opinião, quando Bibiana conta
“Meu pai não era
alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos de colher frutos e espinhos
da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava deixar as digitais
em algum documento. De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez fosse a
escrita e a leitura dos filhos o que perseguia com mais afinco. Quem
acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as
crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência.Mas pessoas
como nós, quando viam o orgulho qe sentia dos filhos aprendendo a ler e o valor
que davam ao ensino, saberiam que era o bem que mais queria poder nos legar.”P.
66
Emocionou-me muito essa parte porque ele me remeteu, de alguma forma, ao meu pai, que não era analfabeto, mas estudou menos do que gostaria, só que gostava dos livros e do saber e, segundo
minha mãe conta, quando casou levou duas malas, uma de roupas e outra de livros
para nova vida. Já idoso e começando a ter esquecimentos, lia todo dia, o dia
todo, uma cópia impressa com erros da minha dissertação que
ficava no quartinho dele. Certamente tinha orgulho de mim, e eu dele tenho
muito.
2 Brincadeiras de Jarê- Encantaria- Ancestralidade
Outra das maiores belezas de Torto Arado é todo seu caráter mágico. Muitas
vezes, lendo sobre a infância de Bebiana e Belonísia, pensei que estivesse
lendo estórias mágicas das crianças de Guimarães Rosa (minha especialidade), ou mesmo
em outras descrições do decorrer do livo, parecia queestava lendo algum texto de realismo
fantástico. Isso porque, junto às personagens, estão sempre seus ancestrais,
encantados, santos,espíritos e outras manifestações mágicas, o que é muito
bonito e importante.
Zeca Chapéu Grande é um curador de Jaré,
pai espiritual de toda a comunidade, que o procurava para curar males do corpo
(já que medicina estava distante), mas especialmente da alma. Quando apareciam
doentes assim, ficavam alguns dias em sua casa, conta Bebiana
“Não eram
hóspedes, visitas ou convidados. Eram pessoas desconectadas de seu eu,
desconectadas de parentes e de si. Eram pessoas com encosto ruim, conhecidos e
também desconhecidos de todos. (...) O que mais chegava à nossa porta eram as
moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias, memórias,
apartadas do seu próprio eu” P. 33 e
39
Religião daquele povo, as “brincadeiras de jarê” tratam-se de
“uma religião de
matriz africana, mais especificamente um candomblé de caboclo, que existe
exclusivamente em cidades do Parque Nacional da Chapada Diamantina (...)Uma de
suas principais particularidades é o grande sincretismo religioso, com
influência do catolicismo, da umbanda e do espiritismo kardecista. Pode ser
considerado um amálgama das nações bantu e nagô, as quais se uniram o culto aos
caboclos.” (Wikipédia)
Nada mais brasileiro e bonito. Nessas
práticas, no romance, quem comanda as festas e as homenagens é o curador Zeca Chapéu
Grande, mas ele também recebe a ajuda, incorporadoou não, de Encantados,que, diferentemente das
entidades da umbanda,
“não são
necessariamente de origem afro-brasileira e não morreram, e sim, se
"encantaram", ou seja, desapareceram misteriosamente, tornaram-se
invisíveis ou se transformaram em um animal, planta, pedra, ou até mesmo em
seres mitológicos e do folclore brasileiro como sereias, botos e curupiras. Na Encantaria, as entidades
estão agrupados em famílias e possuem
nome, sobrenome e geralmente sabem contar a sua história de quando viveram na
terra antes de se encantarem.” (Wikipédia)
A confiança nessas forças e energias, ao que parece,
está sustentada na presença constante dos ancestrais para dar apoio e proteção
em todos os momentos da vida. Os encantados e encantadas,
que viveram desde antes, sabem de tudo, conheceram os ancestrais mais longínquos,
sabiam quais das coisas que acontecem agora são repetições de acontecidos com ancestrais
nessa terra. Saber (não apensas acreditar) da sua importância como guias para a vida das personagens é o que me parece dar a sentido àquelas vidas tão sofrida que levam. Eis o verdadeiro tesouro do povo preto.
Muito emocionante.
3- Mulheres fortes e unidas
O último tópico, mas não menos importante (muito ao
contrário, talvez o mais importante mesmo) seja a união das mulheres nessa saga
toda. Além das duas irmãs narradoras, que possuem uma ligação muito íntima, que
os acontecimentos da trama só reforçam e que, mesmo quando elas se afastam,
nunca morre, também temos as suas ancestrais
e até mesmo as encantadas são a marca feminina desse romance. Na entrevista do
autor, citada acima, ele lembra que no cenário rural do sertão da Bahia as
mulheres têm protagonismo muito forte na família e na comunidade, porque elas
sobrevivem mais tempo, guardam as memórias.
Encerro este texto com outro trecho que muito me tocou:
Amigas, afeto
O afeto que Belonísia ganha, sem querer, de sua amiga Maria Cabocla e nunca vai saber como lhe agradecer. Eu não tenho os cabelos crespos, mas é cacheado e,
como cresci numa família branca, de gente de cabelo liso, eu também demorei muito para receber um
carinho na cabeça, e foi fora da família, como se aquele meu cabelo diferente não tivesse o direito de
receber um carinho, não por maldade, mas porque , inconscientemente, funciona
assim. Eu sei como é e só agradeço aos meus orixás e encantados por, ainda que tarde, tenha tido essa oportunidade na vida. E mais de uma vez.
ESSE TEXTO É UMA DAS COISAS COISAS MAIS A MINHA
CARA QUE EU JÁ LI. Não só porque foi escrito por Milton Hatoum (adoro, vocês
sabem); não só porque, ocasionalmente, sublinha perfil de um mau leitor de Guimarães
que não consegue identificar Grande
Sertão: Veredas como uma obra prima; nem porque cita meu rosiano favorito
Willi Bolle, minha banca e interlocutor para assuntos rosianos na vida, mas
porque o faz associando todos esses pontos a uma leitura desse inferno
negacionista e bolsonarista que estamos vivendo. Vale muito ler
(Publicado originalmente neste
link no Caderno 2, Estadão, 8/01/2021)
“Durante o clima insuportável que precedeu as eleições de 2018, meu
amigo desdenhou da minha apreensão.
Esse amigo era um liberal entusiasmado com o Estado mínimo. Certo, mas a
implantação autoritária desse Estado-formiga pode resultar em estado de sítio e
guerra fratricida. Ia dizer a ele que o Estado-elefante é nocivo, e que o
tamanho do Estado deve adequar-se à construção da plena cidadania numa
sociedade verdadeiramente democrática. Mas não falei nada: sabia que a
ingenuidade dele ia de par com a aversão a qualquer política pública de
inclusão social.
Mas era ingenuidade ou ideologia extremista? Ele falava em mérito, em
esforço individual, e citava cinco ou sete homens e mulheres que, vindos do
deserto da vida, tinham construído uma floresta de fortunas. Esses poucos
exemplos o confortavam; 80 milhões de pobres e miseráveis não o inquietavam. E
ele mesmo não era exemplo de nada. Levava uma vida de Brás Cubas do século 21:
um parasita esnobe e herdeiro improdutivo. Usava sua erudição com uma soberba
que, talvez à revelia dele, rebaixava os outros. Gostava de recitar “par cœur”
e em francês passagens dos “Ensaios” de Montaigne. Admito que nem mesmo sua
pronúncia pedante – promessa do mais ridículo – matava a beleza dos “Ensaios”.
Mas às vezes ele era possuído por uma ignorância desavergonhada. Certa vez
disse, sem hesitar, que não havia personagens complexas no “Grande sertão:
veredas”.
Não quis confrontá-lo. Melhor divertir-se com equívocos aberrantes. E,
convenhamos, não se rompe uma amizade por causa de um livro, nem mesmo de uma
obra-prima.
Usei os verbos no imperfeito porque só agora meu amigo mudou. O péssimo,
o desastrado leitor de Guimarães Rosa está angustiado com a perda de um
parente, vitimado pela Covid-19. E arrependeu-se de ter votado num sujeito
despreparado, mentiroso e manipulador até o vil populismo, atributos comuns de
não poucos políticos. Em todo caso, não há lugar no palácio para os
escrupulosos demais. Mas só agora ele assentiu que o palácio foi ocupado por um
homem de caráter infame, e que durante o trágico 2020, esse presidente, seus
filhos – e bajuladores fardados e à paisana – não pararam de bradar “Vida longa
à morte!”.
Não sei se o meu amigo é um caso clínico. De algum modo, todos nós
somos. Mas dois anos longuíssimos não é muito tempo para perceber que o
ex-militar e ex-deputado federal pratica a mesma vilania há três décadas?
Quando esse sujeito fala, anuncia uma mentira criminosa; quando fica em
silêncio, pressente-se um malefício.
Minha aversão a polêmicas é tão profunda que ignorei as palavras do meu
amigo, mescla de confissão e desabafo. Por que um homem de 58 anos, diplomado
por uma famosa universidade estrangeira, não adquirira um naco de discernimento
político? Às vezes um diploma é apenas o belo papel timbrado da vaidade.
Ouvi por telefone as palavras do enlutado, que só agora despertou para a
infâmia. E despertou com uma severa autocrítica, que me surpreendeu: “Eu não
era um verdadeiro liberal, e este governo não tem nada de liberal”.
Não usou essas palavras, e sim uma explosão de injúrias, que escutei com
deleite. Depois lhe disse que a autocrítica era uma virtude, e até mencionei,
com ironia, nosso amado Montaigne: “Também nos corrigimos tolamente com
frequência, assim como corrigimos os outros”.
Desliguei o telefone, abri o livro “Romance de formação” e terminei de
ler um ótimo ensaio de Willi Bolle sobre “Berlin Alexanderplatz”. O professor
Bolle cita trechos do discurso “Sobre a burrice”, proferido em Viena por Robert
Musil, em março de 1937. Um desses trechos é:
“O homem público atuante, desde que está com o poder, diz […] que foi
escolhido por Deus e destinado a atuar na História. Isso se mostra sobretudo
quando certa camada inferior da classe média – em termos intelectuais e morais
– se manifesta protegida por um partido, uma nação ou uma seita e se sente
autorizada a dizer ‘nós’ em vez de ‘eu’”.
Era uma alusão ao partido de Hitler, que, em março de 1938, anexou a
Áustria ao Reich alemão. Claro, não se deve comparar o nazismo com a destruição
que está em curso no Brasil. Mas essas e outras frases de Musil, ditas numa
época tenebrosa, talvez nos ajudem a refletir sobre o tempo presente:
“A burrice ocasional de um indivíduo pode facilmente se transformar numa
burrice constitucional de todos […] Os exemplos para essa situação saltam aos
olhos”.
E como saltam, meu amigo!”
* * *
Milton Hatoum é autor dos romances Dois irmãos, Cinzas do Norte e A
noite da espera, entre outros.