quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

EU LEITORA EM 2024

 



Foi um ano rico em leituras, mesmo tendo ficado dois meses sem ler por motivos de saúde, no fim ultrapassei minha meta de ler um livro por mês. Comento aqui apenas livros que concluí a leitura, embora tenha arriscado ler muitos outros , que acabei abandonando por hora. E concluí livros muito bons, livros memoráveis que merecem um comentário só deles na revisão do ano.

Em 16 de dezembro eu terminei minha última leitura do ano e comentei nas redes:

Com Ciranda de pedra eu terminei minha vigésima primeira leitura do ano. Nada mal para o ano que tive dengue e cirurgia, passei longo tempo sem conseguir ler nada direito. Foi um ano em que quase não comprei livros, praticamente só li livros emprestados da biblioteca do SESC POMPÉIA,ou que ganhei de presente. Voltar a ler exemplares de biblioteca, como quando eu estudava na FFLCH, foi maravilhoso, porque tive oportunidade de experimentar muito mais obras do que essas que conclui a leitura. Algumas vi que não me agradam,outras retomo em outro momento, o importante é estar cercada de livros. Isso me nutre sempre.

Abaixo um comentário rápido sobre cada leitura concluída. Se tiver outro texto sobre o livro, o link aparece em azul na postagem


JANEIRO

1 Becos da memória, Conceição Evaristo


Primeira leitura do ano veio na onda da última do ano passado, que tinha sido o encantador Canção para ninar menino grande, da Conceição Evaristo. Esse ano comecei com Becos da memória , um livo mais cru, mais difícil de ler. Nesse livro muito ao modo das publicaçõs contemporâneas, que mesclam realidade e ficção de forma quase indistinta, o talento de Conceição se expressa  de forma exemplar, tornando esta uma das  leituras que mais me afetou, me deixou bem mal, me senti no beco, de onde demorei para sair. Literatura tem que incomodar, e esse livro incomodou.

2 Estado de líbido, Carmen Faustino


O segundo livro do ano foi o de poemas Estado de Libido, de Carmen Faustino, muito  para tentar amenizar o amargor do beco onde Conceição tinha me colocado. Mas como foi um livro de poesia negra, ele também era um açúcar marrom. Eu amei ler esses poemas eróticos e pretos. Passei a seguir Carmen Faustino, esta poeta negra linda e maravilhosa, nas redes e com isso venho repensando tanto sobre o que é ser mulher negra, pois no decorrer do ano a vida me obrigou a ter esse repertório e muita auto estima. Como você pode ver no link sobre o livro postado acima, nesse livro,  além das belas poesias, temos  ilustrações maravilhosas de Flávia Rosa, que me fez ver melhor o marrom das partes intimas femininas, que quase nunca são ressaltadas e nem os homens,especialmente eles inclsive, olham com o interesse que merecem. Que aprendizado!  

3 A dançarina de Izu, Yasunari Kawabata


Como comecei o ano  com litertatura negro-brasileira, normal que desse uma respirada e o  terceiro livro me levou ao encontro de um dos meus autores favoritos da vida, o japonês  Ysunari Kawabata, que eu sei que é sempre esteticamente atraente e realmente foi. Em A Dançarina de Izu temos o recorte de uma novela, ricamente representado, mostrando um Japão de sonhos que só a pena de ouro de Kawabata consegue traçar.

FEVEREIRO

4 Ponciá Vicêncio, Conceição Evaristo



Depois de muita poesia e  já  um pouco recuperada do trauma causado pelo beco do primeiro livro do ano, voltei a ler Conceição Evaristo com Ponciá Vicêncio. Achei a edição esteticamente linda e sai com ela num tom de roxo e sorrindo, até começar a ler e ver que, ainda que não tenha aquele peso cinza chumbo de Becos da Memória, ele também não é um livro lindo para sorrir. É um livro sobre mulheres, mulheres negras que é roxa violeta e o  ataque aqui é de outra forma.  Acho que esse é  realmente um dos primeiros volumes dela, tem marcas visíveis de herança escravocrata na vida das personagens. Conceição Evaristo é uma escritora negra enorme, é preciso ler o que ela escreve, mas para lê-la é preciso coragem e força.

5 Destilo melanina e mel, Upile Chisala 



Achei na biblioteca "Eu destilo melanina e mel", um livro de poesia da bela Upile Chisala, uma contadora de histórias do d Malawi, que se formou pela Universidade de Oxford e vive em Johanesburgo, África do Sul e na obra, não sei se pela tradução, temos muito reforçada uma linguagem pós colonial de empoderamento feminino , mais como militância do que como experiência sentida pela mulher sob o colonização (como li recentemente  em  Carmen Faustino ou em Conceição Evaristo). Desse livro eu não gostei tanto, não faz muito meu tipo, mas foi uma experiência esse contato.  

6 Mil Tsurus, Yasunari Kawabata




Ai voltei a Kawabata  e li Mil Tsurus, um dos melhores dele que conheço, me lembrou tanto Guimarães Rosa! Aquela escrita deslumbrante, mas agora tratanto de temas fundamentais, sobre  o Japão pós segunda guerra, numa trama  lírica e sensual muito bem construída que me faz até gostar mais do Japão (só Kawabata!) kkkk

MARÇO

7 Voragem , Jun'ichirō Tanizaki





Super influenciada pelo Kawabata, quis saber mais da literatura japonesa,ouvir outras vozes literárias de lá e 2024 realmente foi marcado por essa busca. Muito recomendado, pelo bem ou pelo mal, eu li meu primeiro Tanizaki, que foi  Voragem. Esse livro realmente mudu minha vida, me fez agir em meu favor, me afastar de histórias que estavam minando minha energia há anos. Depois, no final do ano, precisei fazer esse movimento de novo, mas já com tanto sofrimento real como aconteceu após a primeira leitura de Voragem. Que aprendizado.

8 Kyoto, Kawabata


Depois da porrada de Voragem, voltei à contemplação do Japão de Kawabata em Kyoto, em um dos seus livros com mais japonesices, me perdi em meio a tantas festas e rituais tradicionais, mas é  também um dos mais belos textos, como um desenho delicado! Que autor maravilhoso! Mais que recomendo.

9 Conspiração de nuvens, Lygia Fagundes Tellles



Depois dessas leituras deslumbrantes, me acalmei voltando a ler alguns contos de  Lygia Fagundes Telles, minha autora brasileira favorita. Ja estava numa fase de baixa energia e nem tirei foto com esse livro. Pra a pequena  compilação de contos Conspiração de nuvens, não cheguei a escrever um post específico, apenas sobre um tema que me ficou gravado na memória e que ainda s liga ao impacto da leitura de Voragem, que é respeitar o Direito de quem escolheu não te amar. Essa foi uma das lições mais fortes e doloridas que aprendi em 2024!


ABRIL E MAIO: DENGUE E CIRURGIA 

Aquela baixa energia e exaustão  sentida com o ultimo livro se consolidou no meu corpo e em abril e maio tive reais problemas de saúde. Em abril tive dengue e em maior passei por uma cirurgia , tudo isso me deixou muito fraca, sem possibilidade de me concentrar em leituras. Foi bem tenso. Mas também passou.


JUNHO

10 Oito Contos de amor, Lygia Fagundes Telles


Estava dificil concluir as leituras, mas continuava tentando. Para não deixar minha contista favorita Lygia Fagundes Telles no vácuo pela mal recebida leitura do seu último livrinho, assim que me vi mais disposta a ler depois das doenças, a ela que eu voltei, com foto e post comentando conto a  conto, como manda o figurino com a compilação Oito contos de amor Em uma edição meio paradidática, conta com um depoimento lindo de Lygia, que comentei no post linkado e traz contos sublimes e cruéis, como esperava de Lygia.

11 Claro Enigma Drummond


Gosto muito dessa foto:
Recuperada depois de ter ficado muito mal

Me deparei com um dos melhores livros do ano, Claro Enigma, de Drummond e esse, confesso, é um caso em que o livro é maior que  a gente, por isso não consegui escrever sobre, nem comentar direito. Foi uma entrada na esfera da maturidade e a beleza de uns dos mais belos poemas de Drummond destacando essa fase da vida. 

Para no dizer que não postei nada sobre esse livro enorme, nesse post sobre o instrumental de  26 de junho, comentei:

"Na terapia começamos falando do livro que tem salvo minha vida, o Claro Enigma, de Drummond, um livro de poemas da maturidade do nosso querido poeta, que tem me feito pensar muito na vida, nas escolhas passadas e fazer um balanço da vida na maturidade! Como se eu fosse uma personagem de Jeferson Tenório, é sempre  um livro o que vem me salvar de crises e dificuldades! "

JULHO

12 Tsugumi Banana Yoshimoto



Voltando ao universo das vozes literárias japonesas, quis terminar um livro escrito por uma  autora japonesa, já que tinha largado Relatos de um gato viajante , de  Hiro Arikawa e emprestei Tsugumi, de Banana Yoshimoto, que achei uma bobagem sem fim. Um livro adolescente, não serviu para mim, mesmo.

13 Noites brancas Dostoievski


E foi nesse ano  que li Noites Brancas, meu primeiro Dostoiévski. Foi um pouco decepcionante,muito romântico pro meu gosto, mas passei o pano necessário: não é um romance, é uma novelinha etc. Para encarar um romance desse mestre ainda não estou preparada.

AGOSTO

14 Homens sem mulheres Murakami


E agosto trouxe Homens sem mulheres minha primeira leitura de  Haruki Murakami, e um  um dos concorrentes a melhor livro de 2024, pois  realmente pirou meu cabeção de agosto para o resto do ano. O post sobre ele que linkei cima é um dos mais longos do blog! Que livro, meus amigos! Recomendo.

SETEMBRO/OUTUBRO

15 Oração para desaparecer, Socorro Acioli


A vida me puxou para outras coisas além da leitura, mas em outubro, mês do meu aniversário, consegui ler,enfim, o livro que queria ler desde o ano passado, o livro  do ano de 2024, Oração para desaparecer, da Scorro Acioli que ganhei de presente de aniversário. Esteve na minha cabeça muito tempo, mas foi além, já pensava  nele antes de ler, pensava durante a leitura, depois pensei mais anda.Como podemos ver no post sobre ele, a identificação comigo foi assustadora!  Não vai ter como não lembrar de 2024 como o ano de Oração para desaparecer.

16 Acabou Chorare, Márcio Gaspar


Ganhei de aniversário Acabou Chorare, mais um livro de disco, tema de meu total interesse e foi um delicia ouvir e me dedicar novamente a pesquisa sobre canção popular brasileira.

17 Caetano Veloso (Folha explica)


Na trilha dos livros sobre canção popular brasileira, pegei esse livrinho sobre Caetano que tenho faz tempo, mas não tinha lido de cabo a rabo. Agora li, mas não tive tempo e atenção para escrever  sobre. Caetano é sempre desconcertante!

NOVEMBRO

18 Sono MURAKAMI


Em novembro li Sono, meu segundo Murakami. Escrevi sobre um comentário muito menor do que ele merece, mas foi o que deu nesse clima de fim de ano.

19 Relato de um certo oriente (releitura)


Em dezembro reli Relato de um certo oriente (esse link é sobre a primeira leitura), antes de assistir ao filme Retrato de um certo oriente de Marcelo Gomes. É meu favorito de Hatoum, e o filme é muito bom .

DEZEMBRO

20 De onde eles vêm, Jeferson Tenório


Ganhei De onde eles vêm de presente de natal. Li, gostei em partes. Foi um pouco decepcionante, muito por causa de Avesso da Pele ser aquilo tudo,  tinha muitas expectativas com Tenório, mas é um bom romance.

21 Ciranda de pedra, Lygia Fagundes Telles


Terminei o ano lendo o primeiro romance de Lygia, como disse acima, e foi muito diferente achar minha contista em outra esfera. Terminou bem esse ano de maravilhosas leituras. 

Que venha 2025!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

"Oração para desaparecer" (2023), de Socorro Acioli: livro de outubro


Oração para desparecer : o livro de 2024

 Foi publicado em 2023 e como gosto muito da autora, pelas obras e pelo universo literário que a cerca, quis muito ler desde então. Era meu livro para 2024. E realmente foi. Eu li apenas no fim de outubro, mas pensei tanto nele que postei sobre desde março até novembro. 2024 será lembrando como o ano de Oração para desaparecer, não tem outra saída.

Mais ou menos na mesma linha do  primeiro romance da autora, A Cabeça do santo, mas com muito menos humor e mais referências simbólicas e literárias maravilhosas, Oração para desaparecer é um livro escrito por uma boa  escritora e sobretudo, uma grande leitora, que cita escondidinho, quem pegar pegou, ou então explicitamente, numa festa literária para quem gosta desse banquete, como eu.

O enredo é muito inventado, afinal Socorro, além de leitora,  é nordestina e bebe daquela cultura criativa desde sempre. Mas o mundo é tão grande que, o que ela acha que foi pura invenção, pode ter relação a alguma tradição cultural até então desconhecida, Tudo é um mistério. 

O livro  fala sobre uma "ressurecta", alguém que retornou da morte. Ela saiu de um buraco na terra, sem cabelo e com marcas de espancamentos e trouxe a imagem de uma nossa senhora, até que foi acolhida por um casal de idosos em Almofala, uma aldeia medieval portuguresa que existe de verdade.

"Almofala é uma palavra árabe, significa acampamento temporário. Al mohafala. Os mouros foram deixando muitos pelo caminho." p. 21

 Logo eles perceberam que ela "não tinha perdido as palavras" e "falava brasileiro". Era brasileira. Começamos sendo jogados na nossa própria história e discutindo as relações entre Portugal e Brasil. Tudo isso me lembrou muito o resultado do meu exame de DNA ancestralidade, muito África e Península ibérica. Não muito raramente alguém diz, talvez sem muita informação sobre, que tenho traços de MOURA. Uau!

A primeira parte do romance fala de como essa mulher tentou reunir pedaços de memórias e sonhos para saber quem era ela ou mesmo porque tinha morrido. Para continuar vivendo ela adotou o nome de Cida, pois havia aparecido e trazia nossa senhora. Cida se apaixonou pelo diplomata africano Jorge que gostaria de leva-la para conhecer o mundo .

Para viajar com Jorge, Cida precisava de documentos, um passado mais completo, daí que surge na trama Feliz Ventura,  personagem emprestada do romance "O vendedor de passados", de José Eduardo Agualusa. Feliz vai criar um passado para Parecida. Que teria nascido em 28 de outubro, seria de escorpião, novamente muito parecida comigo.

Na segunda parte Cida já se lembrou de bastante coisa da sua vida anterior. Lembrou que era uma mulher chamada Joana Camelo e vivia um amor com o biólogo Miguel,pesquisadora de cavalos marinhos. Joana  tinha sido abandonada pela mãe, em uma cidade também chamada Almofala, mas no Ceará , que existe de verdade. Essa cidade  é conhecida por ter tido uma igreja soterrada por areia por décadas e, provavelmente, sua passagem a ressurrecta teria se dado nessa ocasião.

Resumindo , foi o amor de Miguel que a manteve viva por tanto tempo,o mesmo tempo em que a igreja de Almofala CE ficou soterrada, e a história desse livro,na verdade, é sobre esse amor.

Deu spoiler? Alguns.mas juro que não contei nem metade. É um baita livro. Amei amei amei.

Vamos ver como eles estendeu no meu 2024 todinho:

NAS MINHAS REDES SOCIAIS DE MARÇO A NOVEMBRO:

 

16 MARÇO

MARTINS FONTES: Entrei na da Consolação só pra passar vontade. Lá estavam expostos livros muito importantes pra mim, que eu tenho, "a visão das plantas", " palavra que resta", "o avesso da pele", "Torto Arado"E dois dos livros do meu total interesse agora : "Oração para desaparecer" (próximo livro que vou comprar, se Deus quiser!), o novo do Gabo (nem perguntei o preço pq ele é até de capa dura,deve morrer nele uns 10 usados)... Se tudo mundo lê online,livro físico devia ser mais barato!



 

9 MAIO


24 JUNHO

Faz tanto tempo que desejo ler esse livro, desde antes de ficar doente, mas ainda não achei usado a preço justo (como eu prefiro) e de outro jeito: prioridades... Mas ainda quero muito!

 

29 JUNHO

PAQUERA: Já cheguei até a esquecer dele em maio, tempos difíceis, mas cada vez mais fico de paquera com esse livro. Toda vez que vou ao Sesc Consolação, procuro na Martins Fontes, está sempre fácil,pego, fico namorando, leio um trecho da última capa,nunca o texto todo, devolvo e vou embora. Por enquanto não achei um usado acessível, mas com fé, em breve chega minha vez 🥰

 

15 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Digo-lhes a verdade : faz tanto tempo que eu queria tanto ler esse livro da Socorro Acioli, todo azul, com cavalo marinho e tudo, mas ele era inacessível pra mim, quando achava um exemplar na livraria, eles são estavam no plástico, não  consegui nem folhear, uma frustração. Como revolta, nunca li o texto da última capa, deixei para quando eu tivesse o meu. Agora tenho! Ganhei de presente do Fábio Flora  e da Fernanda Duarte , e foi tão intenso que fiquei igual a menina do conto Felicidade Clandestina da Lispector: cheia de rituais com ele... Uma delícia. No dia que ganhei nem tirei do plástico. No dia seguinte, com muito cuidado, afinal é uma edição delicadíssima, lavei as mãos para não sujar, abri, admirei sua beleza,CHEIREI muito tempo aquele perfume de livro novo 🥰

Fui abrindo e degustando devagar. Antes de começar a leitura eu não quis ler a orelha, nem a última capa (qualquer "spoiler" pode destruir meu encontro com o meu desejado livro) e fui direto pro volume. Constatei que é um romance curto, dividido em três partes compostas por pequenos capítulos (o primeiro de Acioli, "A cabeça do santo" também é assim, acho) , esse vai dar para degustar palavra por palavra, como gosto. Li as epígrafes. A primeira do Guimarães Rosa :"Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas guardadas,a poder de minhas rezas."💕💕💕

Aí lembrei que é um livro da Acioli, tudo  que é literatura oral faz sentido ali. Especialmente as rezas. Estava me reconhecendo nesse lugar. Decidi ler bem devagar,um mini capítulo por noite, hoje vou ler o segundo . Sei que qualquer espectativa é irmã da decepção, mas por favor, me deixem me enamorar por esse romance, sentir o gozo de possuí-lo um pouco, pois ele é tão lindo, tão desejável que quando estamos juntos não dá pra não lembrar da Lispector:  "não era mais uma menina com o seu livro, era uma mulher com seu amante "


16 OUTUBRO

LENDO ORAÇÃO PARA DESAPARECER : Estou adorando. Não estou conseguindo ler tão devagarinho como planejei, mas estou degustando devagar, anotando,  deixando ele fazer parte do meu dia (hoje levei pra ler no metrô e ônibus,foi um deleite...) Como boa literatura de realismo maravilhoso, estamos sempre no limite entre vida e morte. Poucas páginas lidas ainda, mas muitas referências diretas ou transversais ao Guimarães Rosa e Juan Rulfo (que escreveram sobre montes perto do céu, os páramos...). Por enquanto, para usar uma palavra linda que apareceu mais de uma vez no livro, é uma Literatura de realismo insólito. Durante  a leitura desfilam na minha cabeça lembranças de  Kafka , Cortázar, Lygia Fagundes Telles, Poe, Murakami e tantas rezas e cantigas que a gente vem ouvindo ao longo da vida. Adoro os textos da Socorro Acioli, são a minha cara 😍

 

18 OUTUBRO

ORAÇÃO: Fazia  algum  tempo  que eu não lia um livro que eu realmente queria ler, um livro escolhido pra ser meu, como eram os que comprava para ler no hospital com minha mãe ou durante a pandemia e a maioria me agradavam. Nos últimos tempos tenho lido coisas boas também, mas apenas os disponíveis na biblioteca. Com "Oração para desaparecer", esse presente cheio de significados, revivo o gostinho de estar com ele e comigo mesma nessa aventura sublime pelas palavras. Desde que comecei a ler, toda hora tenho vontade de me trancar sozinha e ficar lendo, lendo... Não posso, por vários motivos, mas o principal é que se eu ler muito ele, que é curtinho, acaba logo. Que puxa! Literatura sempre foi minha melhor interlocutora na vida, só agradeço 🙏🏾

 

21 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Cheguei na metade do livro,mais rápido do que queria. Gosto muito dessas histórias de realismo fantástico, conversas com mortos, símbolos, ancestralidade. Cida, a personagem principal, se parece mais comigo do que eu gostaria. A única coisa que não gostei muito foi da história de amor com Jorge, que foi narrada tão apressadamente que, justo eu, uma romântica, não me sensibilizei como poderia, nem a belíssima canção "A lua girou", do Milton ,citada apenas pelo nome, amoleceu meu coração. Talvez eu tenha gostado mais do primeiro amor antigo que aparecia em sonhos com cavalos marinhos  para beijar-lhe os búzios! Temos meio livro inteiro, quem sabe eu passe a gostar do casal Cida e Jorge. Veremos...

 

22 OUTUBRO

SOCORRO ACIOLI: É a melhor autora brasileira para escrever realismo fantástico. Se em "A cabeça do santo" ela ficcionalizou de forma bonita e divertida aquela  cabeça oca descolada da imagem e Santo Antônio que ficou como monumento na cidade do CE. Em "oração para desaparecer" , só descobri agora com mais da metade do livro lido, ela também trata de um evento insólito do CE. Já disse que amo? Leia autore(a)s nordestino(a)s!


23 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Se a  primeira parte do livro foi marcada pelo insólito,nesta   segunda o livro começou a contar sobre o que realmente importa na vida humana, uma história de amor, digna dos grandes romances de Gabo e outros autores de realismo maravilhoso latino americano, muito do jeito que eu gosto

Só uma pena que, adorando assim, a qualquer momento concluo a leitura, daí fico numa ressacada literária kkkkkkk

 

24 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Acabei de terminar a leitura. Que delícia de livro fantástico! Sem dar muito spoiler eu digo que, ouvindo a recomendação da mãe Malba, não li em voz alta a "oração para desaparecer",  que encere o romance! Vai que eu transmuto e reapareço em algum lugar longe,longe! Afinal, "não sabemos nada mesmo sobre o mundo"... Mas às vezes o escutamos como uma prece salvadora!


25 OUTUBRO

Meu aniversário e comemorei com o livrinho 

Com o colar de búzios de  Joana

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Não é um livro fácil de ser resumido, ele  tem muitas camadas, mas talvez a mais bonita se concentre nesse trecho :  "A vida é essa coisa atropelada, que passa muito rápido e as únicas pessoas felizes são as que atravessam o tempo entregues ao amor." Socorro Acioli. "Oração para desaparecer", p 161

 

5 NOVEMBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Estou adorando acompanhar a recepção do livro. Já ouvi muita coisa interessante, informativa, interpretativa. Essa é uma leitura longa. Eu li o livro rapidamente, anotando e  "comentando"  nas margens. A intenção era "revisar" depois  as impressões iniciais e adicionar post-its. Comecei a fazer isso ontem, conferi a primeira metade do livro e tanta coisa que tinha passado na primeira leitura, depois de concluída, de ouvir opiniões, de saber mais coisas,ganhou novos significados. A minha leitura final no Pequenidades, que escreverei em breve, alimentada por tudo isso,vai ser com spoiler e muito, muito,muito ancorada na minha identificação SURPREENDENTE com a personagem principal. Coisa que, desde o início, eu gostaria de negar, porém só vem aumentando, conforme a narrativa se consolida na minha mente. Grande livro, daqueles capazes de revirar nossos ocultos, como só a literatura é capaz...

 

8 NOVEMBRO

LÉXICO DE ORAÇÃO PARA DESAPARECER : Estou tão envolta nessa leitura, a qualquer hora darei à luz um texto sobre ela. Quando tiver tempo. Por hora, fiquem com uma leitura possível quase estrutural : Que é um livro literalmente fantástico, que une antepassados, vivos e mortos , eu já cansei de falar. Eu adoro esses enredos.

Relendo,por alto, destaquei algumas poucas palavras ou expressões que ganham um sentido especial nessa trama, pois  dão sustentação ela :

GEOGRAFIA DO DESTERRO: Fenômeno contado por antepassados segundo o qual algo que  desaparece em Almofala (Ceará)  é encontrado em Almofala (Portugal), ou o contrário;

DELÍRIO DO DESVELO: Sonhos que dificultam a capacidade de diferenciar real e irreal, mas que também revelam faces até então ocultas;

ENVULTAR-SE  ou Encantar-se:  é morrer ou enfeitiçar-se ;

HIEROFANIA:  Manifestação do sagrado;

(Na foto eu estou usando um colar de búzios africanos , que numa trama de "hierofania", chegou até mim há muitos anos, como "herança" dos antepassados e até agora me protege)

 

19 novembro

Eu ganhei o presente.
Divulguei e mais gente também ganhou ♥️



terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Sono, de Haruki Murakami: meu primeiro livro de dezembro 2024

 


Sono é um conto que foi editado em um exemplar belíssimo e ricamente ilustrado. Demorei cerca de um mês para concluir a leitura , entre meados de novembro até meados de dezembro. Antes desse volume, eu até tentei o romance Caçando carneiros, era muito longo, mas  parecia atraente, só que não engrenei na leitura, então escolhi Sono.A voz literária de Murakami eu já conheço, achei que tudo só poderia dar certo na leitura desse mês sempre atribulado, de fim de ano, e realmente deu.

Mais ou menos logo percebi que não é um romance, mas um  conto,ricamente ilustrado. Uma história muito bem construída,como eu conferi NESSE audiobook, antes de escrever esse post, conta a história de uma mulher não nomeada, com 30 anos,   casada com um dentista e vive como dona de casa. Sua rotina é muito "normal", entre a casa,os cuidados com o filho é marido e algumas visitas ao clube. 

Ela começa contando que, quando estudante, sofreu de insônia e foi uma experiência muito ruim, que ficou exausta, passava o dia sonolenta, dolorida e irritada. Um dia, assim como veio, a insônia sumiu, ela dormiu muitas horas e conseguiu se recompor,sem  causar muito alarde entre os conhecidos. Algo tão importante como não conseguir dormir por um bom tempo, sem que ninguém percebesse, já havia acontecido com ela antes.

Depois dessa introdução, que servirá apenas para explicar que o que vai acontecer a partir  dali não se trata de uma descrição de insônia, ela explica que está há dias sem dormir,mas agora não sente exaustão, nem nada parecido com o que sentia quando insone. Muito ao contrário, sente mais disposição, sempre alerta, apenas com muito muito tempo livre nas madrugadas .

No começo ela usa para repensar a sua vida, seu casamento, sua relação com o filho e tudo lhe parece repugnante, digno de crítica. O marido não era bonito ou admirável,nem o filho, que parecia ser sua cópia. Ela estranha tudo o que era normal em sua rotina na época em que dormia, e num cenário bastante kafkiano: um ambiente de irreal, absurdo e inacreditável.

Em outro momento o romance fica mais interessante, ela começa a RELER  Anna Karenina, de Tolstói, um calhamaço que leu muito jovem e nem se lembrava mais. Antes repensa qual o sentido de ter sido uma leitora assídua no passado, se depois foi deixando a leitura de lado e  hoje mal se lembrava de nada que tinha lido. A vida cotidiana, os cuidados com o filho e o marido, absorviam todo seu tempo e atenção e leituras não cabiam mais. Mas aquele era outro momento, em sua nova realidade, ela tinha, todos os dias, algumas horas plus só para si e aproveitou para reler diversas vezes esse romance. Depois que leu e releu inúmeras vezes o romance , percebeu que existiam nele diversas camadas que se entrecruzavam e em uma primeira ou segunda  leitura, só era possível absorver traços superficiais. Para entender esses calhamaços era preciso muito tempo de observação, coisa que agora ela tinha e usou.

Essa realidade não é nada "insólita" para mim. Nas mais diversas situações, alegres ou difíceis, sempre a leitura foi minha arma para sobreviver. Ler abre a possibilidade de criar novos ambientes de vida. E foi o que essa personagem fez.

Na minha interpretação, essa  opção por reservar parte de seu "tempo livre" , que antes ela "perdia" dormindo, lendo é a parte mais sensacional desse conto. Eu não sei o que faria em uma situação tão insólita, mas certamente tentaria ler algo, pois isso sempre é o que me ajuda a colocar as coisas no lugar na vida. 

No caso do conto, a protagonista concluiu que não precisava mais dormir. Dormir seria perda de tempo, desse tempo precioso que ela passava primeiro  nas leituras noturnas, depois em outras atividades insólitas,  mas tudo isso lhe transmitia uma sensação incrível de ser o único ser humano que podia viver sem a necessidade de "desligar o motor" (dormir) a cada vinte e quatro horas. 

Claro que essa história dá panos para a manga de diversas interpretações médicas, psicológicas, politicas, filosóficas, etc, mas por hora não tenho condições de comentar mais amplamente todas as ideias que esse grande texto me despertou, por isso escrevo esse   breve comentário para e recomendar muito a leitura de Sono, de Murakami.

Antes vou postar os poucos comentários que publiquei nas redes durante a leiura, em ordem cronológica: 

15 de novembro

                                  

 

18 de novembro 


 SONO : Mais um Murakami da biblioteca do SESC Pompéia, nessa edição luxuosa da Alfaguara 😍. Um livro sobre sono ou a falta dele : 

 "Essa 'coisa parecida com insônia' durou cerca de um mês. Nesse período, não consegui ter uma única noite de sono.(...) Quanto mais me esforçava a pegar no sono, mais desperta ficava minha consciência. Cheguei a apelar para bebidas alcoólicas e até pílulas para dormir,mas nada resolveu.

Quando começava a amanhecer, finalmente eu sentia uma vontade de cochilar. Mas essa sonolência estava longe de ser chamada de sono. Eu SENTIA NAS PONTAS DOS DEDOS UMA VAGA SENSAÇÃO DE TOCAR NO UMBRAL DAS FRONTEIRAS DO SONO, mas o meu estado de vigília insistia em permanecer alerta." (Haruki Murakami. Sono. Ilu. Kat Menschik; Trad. Lica Hashimoto. RJ:Alfaguara, 2015,p.6 e 11)






19 de novembro 



11 de dezembro 
 
"Na biblioteca, meu lugar 😍
Devolvendo mais um Murakami...preciso escrever sobre "Sono", ainda esse mês"


Na biblioteca, quando devolvi o livro