Um "portal" na parede da estação Clinicas, do metrô de São Paulo
Acho que ando lendo muito Murakami
A sensação que tenho é a de estar diante de um esboço, uma obra em que o autor experimenta, de forma até humorística, a composição de personagens e da estrutura narrativa. É quase um longo manuscrito. Como apontei acima, elementos-chave de seus textos mais envolventes,e que eu mais amo, já surgem aqui de maneira bastante crua, quase como rascunhos : o realismo fantástico; o tom onírico e surrealista; a música como marcador de tempo e ambiência; a abertura para outras dimensões da realidade e a reflexão sobre a solidão do homem moderno.
Para o leitor que já conhece seus trabalhos posteriores, esta leitura funciona como um autêntico documento de formação, pontuando o potencial de evolução que Murakami, como autor, vai desenvolver e concretizar plenamente em suas obras maduras.
A música é por este trecho "luz" :
" A neve continuou a cair até o fim da tarde, cobrindo toda a campina num único manto branco. Quando a noite chegou, a neve enfim parou e uma espessa névoa de silêncio aproximou-se uma vez mais. Um silêncio que eu não conseguia quebrar. Acertei o toca-discos na repetida automática e ouvi White Christmas, de Bing Crosby, VINTE E SEIS VEZES consecutivas."p. 296
Depois da deslumbrante " Contos do Loopi", no meio de tantas opções no Prime que acho que não valem meu tempo, foi a vez de devorar a série"Cangaço novo". E essa super valeu.
Produção nacional da Prime de 2023, é muito bem feita e não à toa fez o sucesso que fez. Depois de ver os primeiros episódios escrevi
" CANGAÇO NOVO
Comecei a assistir à série ontem. Gostei muito : historicamente é mesmo assim,nenhum movimento acaba com a morte de seus membros, sem que os motivos de sua formação tenham se resolvido. Os cangaceiros dos anos 1930, o grupo de Lampião, podem até ter sido exterminados pela polícia, mas o cenário não mudou tanto assim no século XXI, continuamos vendo miséria, o abandono do poder público e a aposta na violência como única reação possível. Só ganharam novas "tecnologias".
É uma série de ação, mas também se destaca pela trilha sonora e pela estética: belas cenas no Nordeste, a caatinga, os bravos homens e mulheres!
Um preciosismo: talvez pudessem ter cuidado mais da linguagem. Apesar do visual cru e cruel, como a história pede, desconfio muito de que membros de grupos armados no sertão do Ceará falariam quase sem sotaque, e que, mesmo nos momentos de maior ira, se limitassem a xingar com simples “caralh*s...”. Isso até os moleques que soltam pipa na minha rua falam! Um certo “adoçamento”, talvez herança da TV aberta, que no streaming acaba por empobrecer a trama.
Afora isso, tô curtindo e pretendo continuar assistindo."
Claro que depois achei algumas controvérsias
"Há controvérsias: Isabela Boscov gostou de não terem sotaque ... Quem sou eu pra falar algo kkkk mas não é uma coisa que atrapalhou, foi só um comentário"
Mas nada supera a qualidade da produção. A atuação do Allan Souza como Ubaldo Vaqueiro , e duas irmãs Divania - por Thainá Duarte, a mesma que interpretou Anita em "Se eu fechar os olhos agora" e dá super conta de fazer personagens "mudas" - e Dinorah, pela dona da série toda, a maravilhosa Alice Carvalho 😍
Claro que lembrou tanto Grande Sertão ! Pelo banditismo, mas no caso sem Diadorim, aqui tem Dinorah, a MARAVILHOSA Alice Carvalho! Foi no delírio dela que Lampião e Maria Bonita (uma figura meio azulada, que parecia Nossa Senhora Aparecida) vieram falar! Ela é mais protagonista que o irmão HAMLET 😍
Gostei tanto que tinha certeza que já tinha a segunda temporada, porque é tão comentado... Ainda não tem! Vamos esperar, a produção está em processo... eu eu quero mais!
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| Imagem da cena descrita, criada pelo Gemini |
Eis um parágrafo imagético do romance "Caçando carneiros" . Aparece quando o protagonista (sem nome) está hospedado no oitavo andar de um hotel de uma cidade que também não sabemos o nome. Ele espera as 17 horas para se encontrar com uma mulher desconhecida e entregar a ela a carta de Rato,um amigo em comum. Eis o parágrafo:
"A chuva fina continuava caindo às cinco horas da tarde seguinte. Chegou depois de quatro ou cinco dias de sol que prenunciavam um glorioso verão, bem na hora em que todos julgavam enfim terminado o deprimente período chuvoso. DA JANELA DO OITAVO ANDAR, a terra parecia preta e molhada até o último recanto. Na via expressa elevada, carros que se dirigiam do oeste para o leste estavam parados num gigantesco congestionamento de alguns quilômetros. Contemplando-os fixamente, pareceu-me que A CHUVA OS DISSOLVIA AOS POUCOS. Aliás, A CIDADE INTEIRA COMEÇAVA A DISSOLVER-SE. O cais no porto, os guindastes,os prédios enfileirados e,DEBAIXO DOS GUARDA-CHUVAS PRETOS, AS PESSOAS. O verde das montanhas também se dissolvia e escorria silenciosamente rumo à base. Mas, ao FECHAR OS OLHOS por alguns segundos e REABRI-LOS , a cidade tinha se reconstituído misteriosamente. Os seis guindastes continuavam com seus braços erguidos na direção do céu escuro carregados de nuvens cinzentas,a fila de carros despertava de súbito e lembrava de mover-se vez ou outra rumo a leste, os pedestres de guarda-chuva cruzavam o asfalto, o verde das montanhas absorvia com satisfação a copiosa chuva junina." (Haruki Murakami. Caçando carneiros,p.107-8)
Belo trecho.Imagético e mágico. Podia ser o roteiro de um curta-metragem, podia ser uma imagem de Monet, mas é só um parágrafo desse livro de Murakami que nem estou gostando tanto assim!
Trata-se de uma série de TV norte americana de ficção científica, que está disponível na Amazon Prime apenas a primeira temporada, com oito episódios. A trama se passa em uma cidade fictícia chamada Mercer, Ohio, onde existe um acelerador de partículas gigante conhecido como “The Loop”. Diretamente ligados a esse experimento científico, os habitantes da cidade vivem fenômenos sobrenaturais e distorções da realidade, chegando até à alteração do tempo e do espaço.
Na verdade, a série é mais um subproduto das obras de arte de Simon Stålenhag, que originaram um jogo de RPG e, mais tarde, foram adaptadas para o audiovisual por Nathaniel Halpern.
Tendo tudo para ser uma série futurista, despótica e tecnológica, ela surpreende e encanta por ser bela, melancólica e profundamente humana, abordando alguns temas fundamentais da nossa vida como amor, morte, família,etc. Com uma estética retro-futurista e contar histórias interligadas, a série mostra indivíduos tentando preservar sua existência e conviver em meio a uma natureza espetacular e a uma tecnologia que, ao mesmo tempo em que pode tornar tudo possível, também os lança num fluxo temporal desorientador, como se o Loop fosse uma força maior que suga, inexoravelmente, sua humanidade.
Vou tentar resumir os oito episódios:
1. “Loop” – A menina Loretta descobre que sua mãe trabalha num laboratório subterrâneo chamado “The Loop” e investiga o mistério, o que acaba levando-a a uma impressionante viagem no tempo.
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| O tempo faz tudo mudar |
2. “Transpose” – Dois adolescentes, Jakob e Danny, encontram um objeto na floresta que permite trocar de corpo e viver a vida um do outro. A experiência, que no início parece divertida, acaba levando-os a situações extremas, à beira dos limites da própria humanidade.
3. “Stasis” – A jovem May se apaixona por Ethan e tenta fazer o tempo parar com a ajuda de um artefato científico. Como metáfora do amor, o casal interrompe o tempo para viver sua paixão, mas, quando Cronos volta a agir, tudo muda novamente e e nada é para sempre.
4. “Echo Sphere” – O garoto Colle, filho de Loretta, e seu avô Russ (o fundador do Loop) se confrontam com o fim da vida através de uma esfera que revela quanto tempo resta a cada pessoa. Um dos episódios mais bonitos e tristes, sobre a passagem inevitável do tempo, uma força que nem mesmo o Loop pode conter.
5. “Control” – Ed é um pai que trabalha no Loop e faz escolhas extremas para proteger sua família após o filho entrar em coma. Talvez o episódio mais fraco da temporada, mas interessante pela forma como mostra os robôs envelhecidos e abandonados, lembrando que a tecnologia, por mais avançada que seja, logo se torna sucata, e nunca substitui o valor da vida humana.
6. “Parallel” – Gaddis é um segurança do Loop que viaja para um mundo paralelo em busca de amor e sentido. Nessa jornada, ele encontra mais do que o amor: encontra a si mesmo, descobrindo possibilidades de vida que se desenrolam em outros tempos e dimensões.
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| Você toca a campainha e quem atende é você mesmo |
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| Cada gota de chuva um segundo Tempo tempo tempo tempo |
7. “Enemies” – George, marido de Loretta, quando adolescente visita uma ilha misteriosa e descobre uma presença monstruosa que muda sua vida. A convivência entre robôs e humanos é mostrada de forma mais intensa e perturbadora aqui. Terminei o episódio impressionada, com um gosto amargo na boca.
8. “Home” – Colle, o garoto, tenta reencontrar o irmão Jakob, que havia se perdido, e se reconectar com o passado em uma cidade onde o tempo parece correr diferente. Por ser o último da temporada, o episódio busca amarrar as histórias e acaba emocionando profundamente, afinal, já estamos afetivamente ligados às personagens e suas travessias pelo tempo e pelo sentimento.
Quando termina, o que mais queremos é ver mais, porque é uma série linda, interessante, delicada e de altíssimo nível.
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| Você fotógrafa o que quer guardar |
Quando acabou, pensei em mil coisas — sobretudo na ideia de “tempo constelacional” de Walter Benjamin, que, em última instância, não rejeita a possibilidade de vidas simultâneas se desenrolando em outras dimensões. Será?
Pedi ajudinhas práticas à IA para escrever esse POST, ela me ofereceu um mapa das conexões entre os episódios. Ela inseriu também interpretações minhas (ela revisou o texto) e ficou bem legal :
Uau! Deu pano pra mangas! Super recomendo a série.
Um plus: minha amiga Rosane Pavam reparou que no primeiro episódio, enquanto a menina Loreta caminha pela cidade,há um letreiro do filme Monika e o desejo, de BergmanO Rato é um personagem recorrente em alguns dos primeiros livros de Haruki Murakami — Ouça a Canção do Vento, Pinball, 1973 e Caçando Carneiros —, a chamada “Trilogia do Rato”. Ele aparece como o amigo do narrador-protagonista sem nome.
Como recurso de composição de personagem para o autor, acho interessante; mas, como leitura, confesso que é um pouco cansativo (já li muiyos textos mais bem-acabados de Murakami...).
Rato é um jovem melancólico, inteligente e inconformado, que sente repulsa pela rotina e pela superficialidade da vida moderna. Vive em busca de sentido, embora nem ele saiba exatamente o que procura . Algo muito juvenil pro meu gosto.
Como apontou a IA, dentro do universo dessas obras, o Rato acaba se tornando uma figura simbólica: representa o lado idealista e rebelde do narrador (e do próprio Murakami), aquele que não aceita o mundo como ele é e, por isso, se isola ou desaparece.
Rato é o alter ego solitário e inquieto de Murakami, símbolo da juventude perdida e do desejo de escapar da mediocridade.
Não deixa de ser interessante , mas ainda prefiro outras pegadas murakâmicas, menos teen... mais densas e enigmáticas.