sábado, 15 de maio de 2010

MÚSICA BASILEIRA

No curso de pós que eu estou assistindo, sobre a escrita da oralidade, o professor - que diz no programa do curso que pretende abordar poemas do Oswald de Andrade - trouxe para nós uma folha com um poema de Olavo Bilac.

Isso, claro, foi algo inesperado, pois todos temos internalizada a crítica rasa "Olavo Bilac é parnasiano, o príncipe dos poetas, eca"
Mas com esse tipo de discurso, nunca paramos para ler o que ele escreveu para podermos fazer,sim, uma crítica com propriedade (que não é nem boa nem má de antemão).

Mas o professor nos colocou esse desafio de ler Bilac, pensando no seu contexto histórico e literário...

No contexto literário, o poema foi publicado (o livro de poesia TARDE, de 1919) era, sim, um avanço para a época, não podemos ser anacrônicos e achar que eles tinham as mesmas concepções que temos hoje em dia, por favor!

Falando propriamente do poema, temos uma reflexão social, com um eu lírico que assume estar olhando tudo a partir de uma perpectiva superior (reparem como a segunda pessoa do singular determina o tom do discurso de superioridade, que não combina com o tema "música brasileira",como disse o professor, parece que o tema "cultura musical' estava tão fortemente presente que as belas letras não podiam mais se calar, então a idéia era falar sobre, mas assumindo um papel de superioridade em relação à algo tão popular ...

No que se refere ao contexto histórico, o poema aborda uma idéia muito da época, mesmo que hoje a consideremos ultrapassada e tal, que é a teoria das três raças. Se lembrarmos bem, em 1840 o IHGB (Instituto histórico georáfico do Brasil) promoveu um concurso que premiaria a melhor resposta para a pergunta "qual a melhor maneira de escrever a História do Brasil?" Quem ganhou o concurso foi Carl von Martius, com a proposta de que se deveria valorizar a contribução portuguesa (especialmente a monarquia), mas salientar que o processo histórico brasileiro devia considerar a fusão das três raças.

Mas não foi Matius quem executou sua idéia vencedora, mas sim Francisco Adolfo Varnhagen, que partiu dela para escrever sua História geral do Brasil, em 1854.

Nesse pouco mais de 50 anos entre a publicação do livro de Varnhagen e a do poema de Bilac, cresceu uma percepção de que essas três raças tinham em comum um sentimento de desadequação, pois a presença delas nestas terras eram produto de três povos em total estado de indeterminação, pois as três estava em trânsito quando da formação do Brasil: (a mata que não era mais o lugar só de índio; o deserto, que também não era mais o lugar do negro; e o mar que era o lugar transitório do colonizador português)

Todos precisavam mover-se em busca de algum pólo fixo, desta sensação, surge o Estado Brasil, que é definido pela falta de um ponto de chegada...

Alguns aninhos depois (lembrem-se que nalquela época não havia o imediatismo da intenet...) isso se concretizou como idéia no livro do Sergio Buarque de Holanda, Raizes do Brasil (1936), no qual lemos que somos estrageiros em nossa própria terra.

Não é pouca coisa lembrar, também, que essa idéia já aparecia em 1919, em um poema parnasiano, quem diria, heim!


Por isso que eu detesto criticas que apostam na POSITIVAÇÃO DA NEGATIVIDADE, porque acho que quem usa esse recurso pensa que fazer critica é simplesmente falar mal de algo, como uma mulher que um dia me disse não gostar do barroco mineiro por não gostar de igrejas... Como é?
Se formos por ai, perdemos algumas das maiores obras de arte do mundo, como a música de Bach... mas só podemos criticar com propriedade, se não formos ignorantes e construirmos nossa própria opinião, o mais longe de ideologias possível .

Enfim, leiamos o poema:


MÚSICA BASILEIRA
Olavo Bilac

Tens, às vezes, o fogo soberano

Do amor: encerras na cadência, acesa

Em requebros e encantos de impureza,

Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza

Dos desertos, das matas e do oceano:

Bárbara poracé, banzo africano,

E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, chiba e fado, cujos

Acordes são desejos e orfandades

De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,

Lasciva dor, beijo de três saudades,

Flor amorosa de três raças tristes.

BILAC, Olavo. Poesias. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 23ª edição. 1964, p.263.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Semiótica à Luz de Guimarães Rosa



Já foi publicado, pela o livro do Luiz Tatit, com o conteúdo do curso que eu assisti no ano passado.Eu achei o curso delicioso de assistir (Tatit é ótimo), mas o conteúdo eu achei um pouco perigoso...apesar de fazer todo o sentido pensar em analisar o texto de Guimarães Rosa à luz da semiótica (como se fosse uma super semântica), aplicar apenas os conceitos semióticos (que servem tão bem para as canções, mas para literatura nem tanto) pode resultar em leituras rasas, o que eu vejo agora na leitura dos críticos à teoria do signo. O resultado (que foi claramente percebido por mim no curso e não deve ser diferente no livro) é que o universo rosiano serve muito bem para explicar alguns conceitos da semiótica, não o contrário. Ou seja, a gente a prende sobre conceitos semióticos, mas não sobre Guimarães Rosa. Mas vale a indicação.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Uma amostra "metodológica" de como eu encaro a pesquisa das relações entre História e Literatura

"A postura, hoje difundida, em relação às narrativas historiográficas me parece simplista porque examina, normalmente, só o produto literário final sem levar em conta as pesquisas (arquivísticas, filológicas, estatísticas etc) que o tornaram possível. Deveríamos, pelo contrário, deslocar a atenção do produto literário final para as fases preparatórias, para investigar a interação recíproca, no interior do processo de pesquisa, do dados empíricos com os vínculos narrativos.Há muitos anos, Lucien Febvre observou que as fontes históricas não falam sozinhas mas só se interrogadas de maneira apropriada. Hoje isso nos parece óbvio. Menos óbvia é a observação de que as perguntas do historiador são colocadas sempre, direta ou indiretamente, em formas (destaco o plural) narrativas. Essas narrações provisórias delimitam um âmbito de possibilidades que, freqüentemente, são modificadas ou até descartadas no curso do processo de pesquisa. Podemos comparar essas narrativas a instâncias mediadoras entre questões e fontes, as quais influem profundamente (ainda que não de maneira exclusiva) sobre os modos pelos quais os dados históricos são recolhidos, eliminados, interpretados - e, por fim, naturalmente narrados. "
GINZBURG, Carlo. Decifrar um espaço em branco. In: Relações de força: história, retórica, prova.São Paulo: Cia das Letras. P.114

segunda-feira, 10 de maio de 2010

CORAL TROVADORES DO VALE


Bom, eu nem falo nada, né? Cultura popular mineira é tudo de bom pra mim!
Eu me apaixonei por essa menininha aqui cantando uma das cantigas que está nesse disco dos Trovadores do Vale, ela cantando é um barato, muito engraçadinha:

domingo, 9 de maio de 2010

DIA DAS MÃES

Vocês já viram a foto de Guimarães Rosa e sua mãe,
D. Chiquitinha?
Eu adoro essa foto, porque a mãe dele é parecida com a mãe do meu pai (minha avó, D. Ana):