domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Alfabeto grego


O Alfabeto grego

A introdução das letras gregas na escrita, em algum momento por volta de 700 a.C., deveria alterar a natureza da cultura humana, criando um abismo entre todas as sociedades alfabéticas e suas precursoras. Os gregos não inventaram um alfabeto: eles inventaram a cultura letrada e a base do pensamento moderno. Nas condições modernas, parece haver apenas um curto lapso de tempo entre a invenção de um dispositivo e sua plena aplicação social e industrial, e nós nos acostumamos a pensar nisso como um fato de tecnologia. Isto não foi o que aconteceu no caso do alfabeto. As formas e os valores das letras tiveram de atravessar um período de variação local, antes de se tornarem padronizados para toda a Grécia. Mesmo depois que a técnica foi padronizada, ou quase, sempre houve duas versões concorrentes, a oriental e a ocidental – , seus efeitos registraram-se devagar na Grécia; esses efeitos foram, depois,parcialmente anulados, durante a Idade Média europeia; só chegaram a uma plena realização com o posterior invento do prelo. (...)
Essa invenção democratizou o conhecimento da escrita, ou antes tornou possível a democratização. Isto é frequentemente afirmado, porém em termos simplistas, como se fosse mera questão de aprender um certo número de letras, ou seja, aprender a escrevê-las. Dai que até ao sistema semítico se tenha atribuído este avanço. Se as sociedades semíticas da Antiguidade mostraram tendências democráticas, não foi porque fossem letradas. Ao contrário, na medida em que sua democracia foi modificada pela teocracia, com cargos sacerdotais investidos de considerável prestígio e poder, elas mostraram todos os sintomas de uma cultura perti-letrada. O sistema grego, graças a sua superior análise do som. Pôs a capacidade de ler teoricamente ao alcance de crianças num estágio em que ainda estavam aprendendo os sons de seu vocabulário oral. Adquirida na infância, essa competência podia converter-se num reflexo automático e assim passível de espalhar-se pela maioria de uma população determinada, desde quando se aplicasse o vernáculo. Mas isso significava que a democratização dependeria não apenas do invento em apreço, mas também da organização e manutenção do ensino escolar de leitura num nível elementar. Isso não foi alcançado na Grécia senão, talvez, trezentos anos depois que o problema técnico fora resolvido; e essa conquista foi abandonada de novo na Europa durante um longo período depois da queda de Roma. Quando funcionou, ela tornou o papel do escriba ou clérigo obsoleto, e retiro o status elitista do conhecimento da escrita, característico das épocas perito-letradas.
Foram os efeitos externos, políticos-sociais, da aquisição do pleno domínio da escrita, tão importantes e profundos como às vezes se proclama? Nossos estudos posteriores de culturas orais lançam sobre isso algumas dúvidas. O que a nova escrita pode ter feito, a longo prazo, foi mudar, em alguma medida, o conteúdo da mente humana. (...) A eficiência acústica da escrita teve um resultado que foi psicológico: uma vez aprendida, não se tem que pensar nela. Embora ela seja uma coisa visível, uma série de marcas, ela cessa de interpor-se, como objeto de pensamento, entre o leitor e sua recordação da língua falada. Desse modo, a escrita veio a assemelhar-se a uma corrente elétrica ligando recordação de sons da palavra falada diretamente ao cérebro, de modo que o sentido parece ressoar na consciência sem referir-se às propriedades das letras usadas. A escrita foi reduzida a um truque; não tinha valor intrínseco em si mesma como escrita, isso a distinguia das anteriores. Veio a ser um traço característico do alfabeto o fato de que os nomes das letras gregas, emprestados do fenício, pela primeira vez se tornaram sem sentido: alfa, beta,gama etc, são apenas uma cantilena destinada a gravar os sons mecânicos das letras, usando o chamado princípio acrofônico, numa série fixa no cérebro da criança, ao tempo em que correlaciona estreitamente com a visão de uma série de formas que o menino olha enquanto pronuncia os valores acústicos. Esses nomes, no semítico original, original nomes de objetos comuns, como ‘casa’, ‘camelo’ etc. (...)

sábado, 11 de fevereiro de 2012



Que lindinhos! Usava esta história na aula sobre Miguilim na oficina sobre Guimarães Rosa para crianças... Miguilim, quando separado da cachorrinha Pingo-de-Ouro, ouvia a história de um
"Menino que achou no mato uma CUCA, cuca cuja depois os outros a tomaram dele e mataram. O Menino Triste cantava, chorando:

Minha Cuca, cadê minha Cuca?
Minha Cuca, cadê minha Cuca?!
Ai, minha Cuca
Que o mato me deu...

Ele nem sabia, ninguém sabia o que era uma cuca. Mas, então, foi que se lembrou mais da Cuca-Pingo-de-Ouro: e chorou tanto, que de repente pôs na Pingo-de-Ouro esse nome também, de Cuca. E desde então dela nunca mais se esqueceu."

João Guimarães Rosa. Manuelzão e Miguilim. p. 11

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Palhaço


Eu sabia que precisaria assistir a esse filme porque os temas circo e palhaços estão diretamente ligados a minha pesquisa desde o mestrado...o mundo circense, tão absurdamente rico em suas representações, personagens e significados, que alimenta e justifica toda a criação ficcional das relações entre a narrativa historiográfica e a ficcional.

Sobre o conto de Tutaméia O Palhaço da boca Verde eu escrevi na minha dissertação: Inseridos nessa trama, lemos discursos sobre conflitos culturais – como o ocorrido entre as diferentes formas circenses -, a própria idéia simbólica da figura do palhaço e a síntese cultural expressa pela retenção de objetos significativos em uma mala preservada por muito tempo. (Se quiser ler mais, baixe minha dissertação
aqui )

Agora no doutorado o tema ainda é importantíssimo, talvez até muito mais, afinal eu ainda acho que circo (mesmo que seja o Cirque du Soleil! ) é coisa de criança porque nelas ele desperta emoções muito fortes: alegria, susto, encantamento... é uma experiência bastante cara aos nossos primeiros anos de vida e que depois só agrada ao que nos restou disso. Mas por que despertam tanto a atenção de crianças? Suponho que seja porque o circo é uma forma artística inserida na tradição do humor oral e a criança (especialmente a pequena) é totalmente oral em sua comunicação.

Mas voltando ao filme, mesmo sabendo da importância que ele poderia ter para mim eu acabei deixando para lá por muito tempo porque jurava que fosse apenas mais um filme nacional comercial com globais chamando público , mas mesmo que fosse só isso, eu teria de assistir para criticar, claro, só que com menos prazer.
Só que não foi isso que assisti ontem, no meio da tarde de um domingo especialmente quente. Não ouso fazer comentários cinematográficos, claro, mas tive cá minhas impressões. Achei um filme extremamente lírico, quase um poema visual, muito bonito mesmo.

Aquele "Circo Esperança", seus personagens tão clássicos daquilo que se conhece como "cena circense tradicional" e, claro, o "multi referencial" palhaço Benjamin mostraram o que eu chamaria de "universo circense ficcional por excelência". Quando digo isso é claro que não estou dizendo que o filme não tenha nada de realidade, muito pelo contrário, a ficção que aparece em O Palhaço é a boa e velha dobradura do real (lembrando do que escreveu Antonio Candido sobre a literatura - que ela nos faz ver um mundo além do nosso mundo e que no entanto nos permite conhecê-lo melhor - eu adapto a toda a ficção. Isso se mostra claro no tempo do filme - que é uma espécie de 'tempo ficcional', parece ser tão distante do nosso, entretanto algumas vezes nem tanto assim... é o tempo daquela ficção de circo! Ainda sobre os elementos que destacavam a caracterização do ficcional, me chamou muito a atenção o dinheiro que eles usam: usam exatamente como nós usamos, mas ali é um dinheiro fictício, dinheiro de circo mesmo... muito bonito!
A figura do palhaço assume sua forma mais clássica no filme : o ser que se esconde atrás das piadas, da máscara, da maquiagem. No caso de Benjamin, sua identidade é questionada talmbém pela sua falta de documentos (falta a ele uma identidade, literalmente), mas ao final ele acaba a reintegrando: a gente é o que é, ainda que o que sejamos seja um total questionamento de ser.
No ano passado eu e meu namorado assistimos a um espetáculo do Circo Stankowich em Atibaia. Fazia tanto tempo que não via nada assim, foi muito importante para perceber que o circo (talvez toda forma teatral) exige uma participação imaginativa do espectador tão grande que se você esperar por um espetáculo todo pronto e completo, se decepcionará totalmente. Também por isso ele se encaixe tão bem ao mundo infantil ( naturalmente as crianças estão sempre reinventando tudo)... Na estória do Miguilim ele não conhecia circo, então perguntou a vários adultos ao seu redor "o que o circo era", mas nenhuma resposta o satisfez, então ele perguntou a seu irmãozinho Dito (criança como ele) , mas ai a pergunta/ foi subtancialmente diferente: "Dito, você vai imaginar como é que é o circo? " Como se destacando que para falar em circo, não é preciso saber, é preciso imaginar! Fantástico, não!

No filme de Selton Melo este circo tradicional ganha destaque, por isso é melancólico, poético, lindo... é uma representação substancial do imaginário popular. Aos que se interessam por esses temas e não tiverem assistido a este filme por certo preconceito contra filmes com atores globais em destaque (como eu) , recomendo muitíssimo este porque o"ator global" em questão incorpora lindamente uma legião de palhaços que a gente pode até nem nunca ter visto, mas em algum lugar das nossas referências os conhecemos pelas imagens dos narizes vermelhos e das sapatanchas.
Gostei demais!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Lápis contra caneta




"Não uso caneta, não me acostumo. Não sei se o senhor já viu, mas a caneta corre no papel sem freio, então se a gente erra e quer arrumar, aí emporcalha tudo, fica aquela disenteria de tinta. Agora o lápis não, o lápis é maravilhoso, porque ele agarra o papel, ele aceita a borracha, ele obedece à mão e ao pensamento da gente. Eu sou um homem que só consegue pensar a lápis "


Antonio Biá no filme "Narradores de Javé"




Super interessante se lembrarmos do que escreveu Rosa em um de seus Cadernos de Rosa :

"M% o lápis é perdulário, a caneta usuraría " (CAD 4, P.16)


Mas na era dos tablets, que será que ainda liga para isso? Eu ligo!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Carta de repúdio dos trabalhadores da cultura à política do coturno no Pinheirinho



"Vídeo imperdível. Os cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra - que ganharam um prêmio pelo longa Trabalhar Cansa - fazem uma moção de repúdio à "reintegração de posse" em Pinheirinho dentro do Palácio dos Bandeirantes e diante da cara (des)lavada de Geraldo Alckmin e Andrea Matarazzo. A gente fina, no meio do discurso, pede para que parem. Vexame". Por Vini Gorgulho.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Panfleto por uma SP menos reacionária - Xico Sá

DIRETAMENTE DO BLOG DO XICO SÁ:
Nesta semana de aniversário da cidade, pego a bandeira de uma das mais sábias e lindas paulistanas:"São Paulo, larga a mão de ser reacionário. Isso é triste e burro e violento", manifestou-se a brava moça.Bia Abramo é o nome dela, profissão jornalista.Em nome da sua nobre causa, rodei este panfleto romântico, declaradamente ingênuo e grávido de anarcolirismo.Bárbaros, crédulos, pitorescos, meigos e novos Oswalds de todas as artes & ofícios, espalhemos a boa nova.Por uma SP menos reacionária.Por uma SP menos sorridente diante da chacina. Por um São Paulo menos reacionário e uma SP igualmente.Por uma SP que não seja a extensão do braço armado da polícia.Menos design fascista, menos bancos antimendigos, menos rampas antimiseráveis.Pela ocupação dos prédios improdutivos do centro por sem-tetos e artistas sem grana.Por calçadas menos esburacadas para o conforto do flâneur, do bêbado, do velho e da mulher grávida.Por uma estética mais “baiana” e menos fetiche da mercadoria nova-iorquina.Que Esperanza, a índia boliviana de Cochabamba, troque a escravidão do parque industrial subterrâneo pelo sol da decência.Que a alegria seja mesmo a prova dos nove no matriarcado de Pindorama e de Piratininga.Pela prática da psicanálise selvagem nos bancos de praça. A Sé como a Viena de Freud.Redes entre as árvores dos parques para a sesta de esportistas e sedentários.Que a sesta seja obrigatória no comércio, na indústria e nas redações de revistas e jornais. Por uma SP menos avexada. Que a tecla oficial da cidade seja o slow.Pela modernismo de ontem e não a modernagem de hoje. Pela ciência de que o futuro está em 1922.