domingo, 11 de agosto de 2013

Nas pegadas do Rosa - Mia Couto


Peço licença para divulgar aqui, na integra, a transcrição da comunicação dita por Mia Couto no Seminário Internacional Guimarães Rosa, organizado pela PUC - Minas em 1998 e que foi publicado no mesmo ano em edição especial da revista Scripta. Deliciem-se com as palavra do lindo Mia Couto.
Mia couto palestrando em outro evento em 2011, mas sempre o Mia, ...

Nas pegadas do Rosa  Mia Couto 
Digo a vocês que estou aqui em pânico, mas sinto, ao mesmo tempo, muito gosto de estar aqui convosco e partilhar. Eu sou realmente um biólogo. Sempre me perguntam o que eu sou, eu nunca digo que sou escritor, porque tem um lado triste de ser escritor, por isso digo sempre que sou biólogo.
Eu nasci numa pequena cidade que fica num pântano, no centro de Moçambique. A cidade era tão pequena que sonhava de fato ser cidade; havia um projeto de construir ali uma cidade bem no meio do lamaçal. E ela se sonhava sendo uma cidade europeia e, como uma cidade europeia e, como uma cidade europeia que sonhava ser, tinha um pequeno cinema. E nós, em tempos da minha infância, esperávamos pelo domingo, pela matinée de domingo, porque era o único espaço onde, naquela penumbra, daquela sala, nós  escapávamos daquela realidade e saíamos daquele lugar que sonhava ser cinema. Naquele lugarzinho, aos domingos, havia um funcionário que me fascinava e que era a única presença disciplinadora naquela sala. Era o arrumador, com lanterninha, de uma sala onde se fabricava o sonho. E eu sempre perseguia uma obsessão que era aquela do arrumador do cinema. Em vez de me sentar na sala, passava para o palco, para o écran,  e me arrumava para além daquela toalha luminosa, que era o lugar do sonho.
E isso vai acontecer pela mão de um arrumador, que era João Guimarães Rosa. Esse encontro deu-se de uma maneira mais fortuita.
Eu comecei a escrever poesia primeiro, depois fui escrever  contos. Eu era jornalista. E esses contos foram os primeiros contos que eu escrevi, num primeiro livro. Chama-se Vozes anoitecidas. Contos muito marcados pelo encontro que tive com o escritor que deveria estar aqui, chamado Luandino Vieira. Foi Luandino Vieira que me fez fazer este clic, e me autorizou a fazer coisa que aprecio muito fazer. As estórias que eu queria contar não podiam ser contatadas no português normal, no português que, afinal, Moçambique adotou como língua oficial.
Eu vi, mais tarde, depois de ter publicado esse livro, uma entrevista  com Luandino Vieira em que ele falava que ele tinha em mim, ele tinha a partir de um escritor que nós não conhecíamos, que se chamava Guimarães Rosa. Eu fiquei alertado, avisado, e queria muito que esses livros, desse tal escritor, chegassem até mim. Eu devo dizer que não chegavam livros do Brasil em Moçambique. Nós estávamos em plena guerra e não havia troca comercial alguma, nem cultural, com o Brasil. Então eu pedi a alguém, foi uma operação bem complicada, pedi a alguém que trouxesse um livro. E quando eu li, a primeira impressão é que eu não estava ali.
Quando chegou o primeiro livro, Primeiras estórias, houve um fenômeno curioso. Eu não conseguia entrar naquele texto. Era como se eu não lesse, ouvisse vozes, que eram as vozes da minha infância. Os livros de Guimarães Rosa quase me atiram para fora da escrita. E, para eu entrar naquele texto, eu tenho de fazer apelo a um verbo que não é o verbo ler, que é um outro verbo que provavelmente não tem nome.   O que me tomava principalmente  não era a invenção de palavras, mas havia ali uma poesia, a tal arrumação que funcionava muito como os dançarinos de Moçambique, os dançarinos da África em geral, naquele exato momento em que eles estão entrando  em transe para serem possuídos pelos espíritos. Aquele  flagrante  daquele momento em que aquilo já não é dança, mas já é outra coisa. Era isso que acontecia naquela linguagem. Era uma linguagem, quase uma linguagem de transe, que permitia que  outras linguagens tomassem posse dela. E isso era fundamental num país em que há uma amálgama, há uma ficção que se chama Moçambique.  Moçambique não é uma nação ainda, é um projeto de nação, portanto é uma espécie de categoria  ficcional que nós estamos inventando, numa situação em que existem vários povos com suas próprias línguas, numa situação em que 80% não tem a língua portuguesa como língua materna, em que há muita gente que não fala sequer português. Nessa circunstância é urgente que haja esse tipo de linguagem que é como a dos dançarinos a que me referi e como a linguagem que Guimarães Rosa usa e que permite essa situação de pulsão e de troca de diálogo, de cultura, para criarmos este corpo que ainda é um projeto  e que é Moçambique.
Eu, quando penso sobre a questão de Guimarães Rosa, de Luandino Vieira e nesse tipo de trabalho literário que estou fazendo em Moçambique, eu imagino que entre esses três casos existe uma relação que eu gostava de tocar aqui, que não é literária.  Para que o escritor chegue a esse relacionamento com esse tipo de linguagem, ele tem que ser, sobretudo, não escritor em momentos da sua vida. Ele tem que escapar daquela lógica, que é a escrita enquanto sistema de pensamento. Então significa que em qualquer um desses casos - Luandino Vieira esteve preso, não sei quantos anos, 14 anos, 17 anos -, num lugar onde a palavra devia ter peso, ela se transforma numa espécie de espaço redentor de salvação.  Guimarães Rosa reencontrou esse encantamento da linguagem, da fala, da anedota, do provérbio.
No meu caso, em particular, digamos, eu cheguei a essa possibilidade da escrita pelo lado não-literário, pelo lado da não escrita também, pelo lado da oralidade. Eu vivo num país onde os contadores de histórias têm grande importância. Nessas zonas rurais eles são, de fato, os grandes defensores, os grandes reprodutores dessa via antiga dos valores rurais. Os contadores de histórias têm um sistema muito ritualizado de narrar, o que é cerimônia muito coplicada, com interdições: não se pode contar histórias de dia porque senão fica careca, tem que contar histórias de noite. E dos rituais, uma das normas é que o contador de histórias nunca se intitule ele próprio um criador; ele está reproduzindo a palavra divina dos antepassados.
Então, no final, ele tem de fazer uma operação bem delicada que se chama o fechamento da história, ele tem que fechar a história. E ele chega ao fim da história, é como se falasse com a história, como se a história fosse uma entidade, ele vira para ela e diz : ‘Voltem para a casa, Zavane e Guama (serão o equivalente a Adão e Eva, o primeiro casal humano). E é dentro desta caixa que estão as estórias’. Então ele diz: ‘Voltem para a casa, Zavane e Guama’. Se ele faz isso, a assistência fica doente e é chamada uma doença de sonhar. E João Guimarães Rosa foi, para mim, um contador que não fechou a história e que nos deixou, pelo menos para mim, essa incurável doença e sonhar.
Muito obrigado.
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COUTO, Mia. Nas pegadas do Rosa. In: Scripta (Edição especial do Seminário Internacional Guimarães Rosa), Belo Horizonte, v. 2, no. 3, p. 11-13, 2 sem. 1998.



sábado, 3 de agosto de 2013

O Amor na obra de Guimarães Rosa - Benedito Nunes (trecho)


“Esses personagens – o Menino, a Menina, o Jovem – dados a encanamento e sortilégios, munidos dos dons extraordinários, e que podem ter das coisas uma visão mais completa do que a comum, pertencem a uma só família mítica. A infância ou a juventude é neles um estado de receptividade, de sabedoria inata, e tem duplo sentido: por um lado, remorso e nebuloso passado, que se confunde com as origens, e, por outro lado, prenúncio de um novo ser, ainda em esboço, que advirá do que é humano e terrenal. Sob o primeiro aspecto, essa infância simboliza a alma que nasceu da Unidade primordial e que, por isso, ainda participa da indistinção caótica, anterior à separação dos elementos e ao conflito dos princípios opostos do mundo sensível. É, por esse lado, potência obscura, indefinida, cuja natureza oscila entre o divino e o diabólico. Mas se assim é em seu aspecto noturno, ancestral, o símbolo da infância, desentranhável dos  personagens a que nos reportamos, exprime, em sua face luminosa, a ideia de um novo nascimento, de reintegração da alma dividida, a qual deverá recuperar a sua unidade congênita e ingressar num estado de plena harmonia consigo mesma, harmonia que superará os contrários –o  masculino e o feminino- que a dividem no estágio terreno de sua peregrinação.

O infante de Guimarães Rosa, pelo seus atributos míticos, pelo seu caráter peregrino, abrange simbolicamente esses dois nascimentos. Por isso é que a estirpe do Menino, com seus muitos avatares, da menina encantada e do Rapaz alado, é espécie representativa de um padrão mitológico, uma essência arquetípica, inserta nas formas religiosas arcanas, e que tem servido de conduto à imaginação poética: a Criança Primordial.

A Criança Primordial ou Criança Divina, ocupa, segundo Jung, um campo mitológico versátil. Apesar de corresponder a certas formas significativas, arquetípicas, as suas manifestações fenomênicas variam: menina algumas vezes, menino de ouro outras e, ainda, jovem, efebo alado, semelhante a representação pictórica do divino Eros (...)

O andrógeno, a que se refere Platão em O Banquete, é a espécie primitiva da humanidade, que se teria dividido em dois seres incompletos que se buscam, movidos pela força original do Eros, cada qual ativada por um princípio complementar do outro. Da união deles resultaria a coincidentia oppositorum.

A Criança Primordial ou Criança Divina pertence a um domínio que é comum à simbologia erótica e mística, porque representa a final restituição do homem à divindade ou, numa interpretação mais condizente com o ensino das correntes ocultistas, que admitem a adroginia, da final conversão do humano ao divino.

O andrógino, desse modo, comporta os mesmos aspectos retrospectivos e prospectivos do infante mítico, da Criança Divina, que Guimarães Rosa recriou poeticamente com seus meninos sábios e extremamente sensíveis, - um dos quais devassa o passado imemorial, chegando ao domínio fugidio das reminiscências – como seu jovem alado, prenúncio de um novo ser, tal como aquele que, na operação alquímica , destinada a produzir a pedra filosofal, resultaria na conjunção dos opostos, encarnando a própria natureza da alma purificada. Reminiscência de um estado originário que foi perdido, a Criança Divina é também a superior excelência de um estado ideal a conquistar. Além dessa ambilência no tempo, ela possui o caráter ambíguo das teofanias primitivas, peculiar à dialética do sagrado, do numinoso. Seduz e fascina, aterroriza e inquieta. Força ambígua, seus efeitos ora tão benéficos ora maléficos,  podendo ser fonte do Bem ou causa do Mal. Possui um polo luminoso, amável e propício, e outro sombrio, repelente e hostil, um polo divino e um polo demoníaco, reversível, pois que o diabo fascina e Deus é, por vezes, sombrio e tortuoso.”
NUNES, Benedito. O Amor na obra de Guimarães Rosa, p. 161-4.
 
Tenho uma relação muito ambígua com este texto, eu amo, concordo, mas não plenamente, tenho MUITA DIFICULDADE com algumas coisas expressas ali... sei que eu vou ter que me haver com ele, muitas vezes... vamos ver
 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O Mito da infância feliz: antologia

 
Achei este  livro  aleatoriamente, ontem na biblioteca ... e é  muito interessante! Trata-se de uma antologia de depoimentos sobre o "lado não tão feliz" da infância de algumas personalidades. O fato delas serem quem elas são (pessoas verdadeiramente ligadas ao mundo infantil, justamente as que a gente apostava terem sido crianças puramente felizes na infância, como Ana Maria Machado, Fanny Abramovich, Ruth Rocha etc) torna o livro mais verdadeiro e mais interessante. Diz a contra capa:
"Que espécie de verdade estamos passando às crianças quando lhes dizemos que temos inveja da felicidade e que vivem nos anos da infância? É o esta oportuna antologia questiona, mediante textos perplexos, dilacerados, irônicos, sofridos, de autores que atuam em diferentes campos profissionais, tendo em comum a capacidade de expressarem em termos atuais suas posições e - mais importante- todos tem algo a dizer. Para refletirmos, para discutirmos, para ampliarmos nosso horizonte de compreensão da criança."
ABROMOVICH, Fanny. (org). "O Mito da infância infeliz: antologia". São Paulo: Summus Editorial, 1983. (Série Novas buscas em educação). 


Muito interessante, não acham?

domingo, 7 de julho de 2013

Quartas Estórias e a consolidação do cânone literário que, antes de tudo, vende!

 
Eu comprei este livro e não tinha gostado muito dele. Até comentei que achei só legalzinho, nada demais... porque, como eu temia, a maior parte dos textos é inspirada em passagens do Grande Sertão, algumas poucas em Sagarana e uma ou outra no Corpo de Baile. Inspirado nas Primeiras Estórias, pelo que vi, só um texto a partir de Famigerado, e sobre Tutameia: nada. Isso é comum na recepção crítica que Rosa tem até hoje e é claro que se trata da solidificação de sua imagem  como autor de determinadas obras canônicas, ok. Eu nem sei se deveria achar isso ruim, mas de qualquer forma eu não gosto nada disso! Eu gosto muito da segunda fase do Rosa, acho que continua sendo uma escrita densa, repleta de significados e cada vez mais caindo para o poético.
Agora fui pesquisar um pouco na editora Garamond e vi do que se trata realmente este livro: é mesmo para comemorar datas cabalísticas e tentar vender mais livros...
No site da editora está escrito assim:
Este livro é uma homenagem, respectivamente, aos 60 e 50 anos de lançamento das duas obras-primas de Guimarães Rosa, Sagarana e Grande Sertão: veredas. Reflete tanto a atualidade da obra de Rosa quanto suas diferenças com relação ao mundo em que vivemos, estabelecendo um diálogo entre diferentes aspectos do Brasil e da literatura.
Ao encarnar o desafio de recriar as histórias de um autor tão especial para a literatura do Brasil e do mundo, Quartas Histórias atesta o talento de 40 escritores brasileiros contemporâneos, alguns ainda bem jovens, e a vitalidade da nossa literatura contemporânea. Trata-se de uma obra marcada pelo vigor, pela ousadia e pela atualidade.
Os contos de Quartas Histórias podem ser lidos e entendidos independentemente de o leitor conhecer ou não as histórias de Guimarães Rosa. Eles podem inclusive despertar a curiosidade dos mais jovens pela obra do grande autor mineiro.
AUTORES QUE PARTICIPAM DE QUARTAS HISTÓRIAS
Aleilton Fonseca, Amador Ribeiro Neto, André Sant’Anna, Antonio Carlos Secchin, Antonio Carlos Viana, Ataíde Tartari, Bernardo Ajzenberg, Carlos Gildemar Pontes, Carlos Ribeiro, Cecília Prada, Deonísio da Silva, Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Geraldo Maciel, Godofredo de Oliveira Neto, João Anzanello Carrascoza, José Castello, José Rezende Jr., Leila Guenther, Luzilá Gonçalves Ferreira, Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha, Maria Alzira Brum Lemos, Marilia Arnaud, Mário Chamie, Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Paulo Franchetti, Pedro Salgueiro, Raimundo Carrero, Ricardo Soares, Rinaldo de Fernandes, Ronaldo Correia de Brito, Ruy Espinheira Filho, Sérgio Fantini, Silviano Santiago, Suênio Campos de Lucena, Tércia Montenegro e W. J. Solha.
SOBRE O ORGANIZADOR
Rinaldo Fernandes é escritor, pesquisador e professor de literatura, atualmente na Universidade Federal da Paraíba. É autor de livros de contos e romances, além de organizador das coletâneas O Clarim e a Oração: cem anos de Os Sertões; Chico Buarque do Brasil e Contos Cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira.
Quem sabe um dia Guimarães Rosa vai interessar para além da sua capacidade de produzir mercadoria...
De qualquer forma, fica  a dica para quem se interessar.