quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

"Oração para desaparecer" (2023), de Socorro Acioli: livro de outubro


Oração para desparecer : o livro de 2024

 Foi publicado em 2023 e como gosto muito da autora, pelas obras e pelo universo literário que a cerca, quis muito ler desde então. Era meu livro para 2024. E realmente foi. Eu li apenas no fim de outubro, mas pensei tanto nele que postei sobre desde março até novembro. 2024 será lembrando como o ano de Oração para desaparecer, não tem outra saída.

Mais ou menos na mesma linha do  primeiro romance da autora, A Cabeça do santo, mas com muito menos humor e mais referências simbólicas e literárias maravilhosas, Oração para desaparecer é um livro escrito por uma boa  escritora e sobretudo, uma grande leitora, que cita escondidinho, quem pegar pegou, ou então explicitamente, numa festa literária para quem gosta desse banquete, como eu.

O enredo é muito inventado, afinal Socorro, além de leitora,  é nordestina e bebe daquela cultura criativa desde sempre. Mas o mundo é tão grande que, o que ela acha que foi pura invenção, pode ter relação a alguma tradição cultural até então desconhecida, Tudo é um mistério. 

O livro  fala sobre uma "ressurecta", alguém que retornou da morte. Ela saiu de um buraco na terra, sem cabelo e com marcas de espancamentos e trouxe a imagem de uma nossa senhora, até que foi acolhida por um casal de idosos em Almofala, uma aldeia medieval portuguresa que existe de verdade.

"Almofala é uma palavra árabe, significa acampamento temporário. Al mohafala. Os mouros foram deixando muitos pelo caminho." p. 21

 Logo eles perceberam que ela "não tinha perdido as palavras" e "falava brasileiro". Era brasileira. Começamos sendo jogados na nossa própria história e discutindo as relações entre Portugal e Brasil. Tudo isso me lembrou muito o resultado do meu exame de DNA ancestralidade, muito África e Península ibérica. Não muito raramente alguém diz, talvez sem muita informação sobre, que tenho traços de MOURA. Uau!

A primeira parte do romance fala de como essa mulher tentou reunir pedaços de memórias e sonhos para saber quem era ela ou mesmo porque tinha morrido. Para continuar vivendo ela adotou o nome de Cida, pois havia aparecido e trazia nossa senhora. Cida se apaixonou pelo diplomata africano Jorge que gostaria de leva-la para conhecer o mundo .

Para viajar com Jorge, Cida precisava de documentos, um passado mais completo, daí que surge na trama Feliz Ventura,  personagem emprestada do romance "O vendedor de passados", de José Eduardo Agualusa. Feliz vai criar um passado para Parecida. Que teria nascido em 28 de outubro, seria de escorpião, novamente muito parecida comigo.

Na segunda parte Cida já se lembrou de bastante coisa da sua vida anterior. Lembrou que era uma mulher chamada Joana Camelo e vivia um amor com o biólogo Miguel,pesquisadora de cavalos marinhos. Joana  tinha sido abandonada pela mãe, em uma cidade também chamada Almofala, mas no Ceará , que existe de verdade. Essa cidade  é conhecida por ter tido uma igreja soterrada por areia por décadas e, provavelmente, sua passagem a ressurrecta teria se dado nessa ocasião.

Resumindo , foi o amor de Miguel que a manteve viva por tanto tempo,o mesmo tempo em que a igreja de Almofala CE ficou soterrada, e a história desse livro,na verdade, é sobre esse amor.

Deu spoiler? Alguns.mas juro que não contei nem metade. É um baita livro. Amei amei amei.

Vamos ver como eles estendeu no meu 2024 todinho:

NAS MINHAS REDES SOCIAIS DE MARÇO A NOVEMBRO:

 

16 MARÇO

MARTINS FONTES: Entrei na da Consolação só pra passar vontade. Lá estavam expostos livros muito importantes pra mim, que eu tenho, "a visão das plantas", " palavra que resta", "o avesso da pele", "Torto Arado"E dois dos livros do meu total interesse agora : "Oração para desaparecer" (próximo livro que vou comprar, se Deus quiser!), o novo do Gabo (nem perguntei o preço pq ele é até de capa dura,deve morrer nele uns 10 usados)... Se tudo mundo lê online,livro físico devia ser mais barato!



 

9 MAIO


24 JUNHO

Faz tanto tempo que desejo ler esse livro, desde antes de ficar doente, mas ainda não achei usado a preço justo (como eu prefiro) e de outro jeito: prioridades... Mas ainda quero muito!

 

29 JUNHO

PAQUERA: Já cheguei até a esquecer dele em maio, tempos difíceis, mas cada vez mais fico de paquera com esse livro. Toda vez que vou ao Sesc Consolação, procuro na Martins Fontes, está sempre fácil,pego, fico namorando, leio um trecho da última capa,nunca o texto todo, devolvo e vou embora. Por enquanto não achei um usado acessível, mas com fé, em breve chega minha vez 🥰

 

15 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Digo-lhes a verdade : faz tanto tempo que eu queria tanto ler esse livro da Socorro Acioli, todo azul, com cavalo marinho e tudo, mas ele era inacessível pra mim, quando achava um exemplar na livraria, eles são estavam no plástico, não  consegui nem folhear, uma frustração. Como revolta, nunca li o texto da última capa, deixei para quando eu tivesse o meu. Agora tenho! Ganhei de presente do Fábio Flora  e da Fernanda Duarte , e foi tão intenso que fiquei igual a menina do conto Felicidade Clandestina da Lispector: cheia de rituais com ele... Uma delícia. No dia que ganhei nem tirei do plástico. No dia seguinte, com muito cuidado, afinal é uma edição delicadíssima, lavei as mãos para não sujar, abri, admirei sua beleza,CHEIREI muito tempo aquele perfume de livro novo 🥰

Fui abrindo e degustando devagar. Antes de começar a leitura eu não quis ler a orelha, nem a última capa (qualquer "spoiler" pode destruir meu encontro com o meu desejado livro) e fui direto pro volume. Constatei que é um romance curto, dividido em três partes compostas por pequenos capítulos (o primeiro de Acioli, "A cabeça do santo" também é assim, acho) , esse vai dar para degustar palavra por palavra, como gosto. Li as epígrafes. A primeira do Guimarães Rosa :"Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas guardadas,a poder de minhas rezas."💕💕💕

Aí lembrei que é um livro da Acioli, tudo  que é literatura oral faz sentido ali. Especialmente as rezas. Estava me reconhecendo nesse lugar. Decidi ler bem devagar,um mini capítulo por noite, hoje vou ler o segundo . Sei que qualquer espectativa é irmã da decepção, mas por favor, me deixem me enamorar por esse romance, sentir o gozo de possuí-lo um pouco, pois ele é tão lindo, tão desejável que quando estamos juntos não dá pra não lembrar da Lispector:  "não era mais uma menina com o seu livro, era uma mulher com seu amante "


16 OUTUBRO

LENDO ORAÇÃO PARA DESAPARECER : Estou adorando. Não estou conseguindo ler tão devagarinho como planejei, mas estou degustando devagar, anotando,  deixando ele fazer parte do meu dia (hoje levei pra ler no metrô e ônibus,foi um deleite...) Como boa literatura de realismo maravilhoso, estamos sempre no limite entre vida e morte. Poucas páginas lidas ainda, mas muitas referências diretas ou transversais ao Guimarães Rosa e Juan Rulfo (que escreveram sobre montes perto do céu, os páramos...). Por enquanto, para usar uma palavra linda que apareceu mais de uma vez no livro, é uma Literatura de realismo insólito. Durante  a leitura desfilam na minha cabeça lembranças de  Kafka , Cortázar, Lygia Fagundes Telles, Poe, Murakami e tantas rezas e cantigas que a gente vem ouvindo ao longo da vida. Adoro os textos da Socorro Acioli, são a minha cara 😍

 

18 OUTUBRO

ORAÇÃO: Fazia  algum  tempo  que eu não lia um livro que eu realmente queria ler, um livro escolhido pra ser meu, como eram os que comprava para ler no hospital com minha mãe ou durante a pandemia e a maioria me agradavam. Nos últimos tempos tenho lido coisas boas também, mas apenas os disponíveis na biblioteca. Com "Oração para desaparecer", esse presente cheio de significados, revivo o gostinho de estar com ele e comigo mesma nessa aventura sublime pelas palavras. Desde que comecei a ler, toda hora tenho vontade de me trancar sozinha e ficar lendo, lendo... Não posso, por vários motivos, mas o principal é que se eu ler muito ele, que é curtinho, acaba logo. Que puxa! Literatura sempre foi minha melhor interlocutora na vida, só agradeço 🙏🏾

 

21 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Cheguei na metade do livro,mais rápido do que queria. Gosto muito dessas histórias de realismo fantástico, conversas com mortos, símbolos, ancestralidade. Cida, a personagem principal, se parece mais comigo do que eu gostaria. A única coisa que não gostei muito foi da história de amor com Jorge, que foi narrada tão apressadamente que, justo eu, uma romântica, não me sensibilizei como poderia, nem a belíssima canção "A lua girou", do Milton ,citada apenas pelo nome, amoleceu meu coração. Talvez eu tenha gostado mais do primeiro amor antigo que aparecia em sonhos com cavalos marinhos  para beijar-lhe os búzios! Temos meio livro inteiro, quem sabe eu passe a gostar do casal Cida e Jorge. Veremos...

 

22 OUTUBRO

SOCORRO ACIOLI: É a melhor autora brasileira para escrever realismo fantástico. Se em "A cabeça do santo" ela ficcionalizou de forma bonita e divertida aquela  cabeça oca descolada da imagem e Santo Antônio que ficou como monumento na cidade do CE. Em "oração para desaparecer" , só descobri agora com mais da metade do livro lido, ela também trata de um evento insólito do CE. Já disse que amo? Leia autore(a)s nordestino(a)s!


23 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Se a  primeira parte do livro foi marcada pelo insólito,nesta   segunda o livro começou a contar sobre o que realmente importa na vida humana, uma história de amor, digna dos grandes romances de Gabo e outros autores de realismo maravilhoso latino americano, muito do jeito que eu gosto

Só uma pena que, adorando assim, a qualquer momento concluo a leitura, daí fico numa ressacada literária kkkkkkk

 

24 OUTUBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Acabei de terminar a leitura. Que delícia de livro fantástico! Sem dar muito spoiler eu digo que, ouvindo a recomendação da mãe Malba, não li em voz alta a "oração para desaparecer",  que encere o romance! Vai que eu transmuto e reapareço em algum lugar longe,longe! Afinal, "não sabemos nada mesmo sobre o mundo"... Mas às vezes o escutamos como uma prece salvadora!


25 OUTUBRO

Meu aniversário e comemorei com o livrinho 

Com o colar de búzios de  Joana

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Não é um livro fácil de ser resumido, ele  tem muitas camadas, mas talvez a mais bonita se concentre nesse trecho :  "A vida é essa coisa atropelada, que passa muito rápido e as únicas pessoas felizes são as que atravessam o tempo entregues ao amor." Socorro Acioli. "Oração para desaparecer", p 161

 

5 NOVEMBRO

ORAÇÃO PARA DESAPARECER: Estou adorando acompanhar a recepção do livro. Já ouvi muita coisa interessante, informativa, interpretativa. Essa é uma leitura longa. Eu li o livro rapidamente, anotando e  "comentando"  nas margens. A intenção era "revisar" depois  as impressões iniciais e adicionar post-its. Comecei a fazer isso ontem, conferi a primeira metade do livro e tanta coisa que tinha passado na primeira leitura, depois de concluída, de ouvir opiniões, de saber mais coisas,ganhou novos significados. A minha leitura final no Pequenidades, que escreverei em breve, alimentada por tudo isso,vai ser com spoiler e muito, muito,muito ancorada na minha identificação SURPREENDENTE com a personagem principal. Coisa que, desde o início, eu gostaria de negar, porém só vem aumentando, conforme a narrativa se consolida na minha mente. Grande livro, daqueles capazes de revirar nossos ocultos, como só a literatura é capaz...

 

8 NOVEMBRO

LÉXICO DE ORAÇÃO PARA DESAPARECER : Estou tão envolta nessa leitura, a qualquer hora darei à luz um texto sobre ela. Quando tiver tempo. Por hora, fiquem com uma leitura possível quase estrutural : Que é um livro literalmente fantástico, que une antepassados, vivos e mortos , eu já cansei de falar. Eu adoro esses enredos.

Relendo,por alto, destaquei algumas poucas palavras ou expressões que ganham um sentido especial nessa trama, pois  dão sustentação ela :

GEOGRAFIA DO DESTERRO: Fenômeno contado por antepassados segundo o qual algo que  desaparece em Almofala (Ceará)  é encontrado em Almofala (Portugal), ou o contrário;

DELÍRIO DO DESVELO: Sonhos que dificultam a capacidade de diferenciar real e irreal, mas que também revelam faces até então ocultas;

ENVULTAR-SE  ou Encantar-se:  é morrer ou enfeitiçar-se ;

HIEROFANIA:  Manifestação do sagrado;

(Na foto eu estou usando um colar de búzios africanos , que numa trama de "hierofania", chegou até mim há muitos anos, como "herança" dos antepassados e até agora me protege)

 

19 novembro

Eu ganhei o presente.
Divulguei e mais gente também ganhou ♥️



terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Sono, de Haruki Murakami: meu primeiro livro de dezembro 2024

 


Sono é um conto que foi editado em um exemplar belíssimo e ricamente ilustrado. Demorei cerca de um mês para concluir a leitura , entre meados de novembro até meados de dezembro. Antes desse volume, eu até tentei o romance Caçando carneiros, era muito longo, mas  parecia atraente, só que não engrenei na leitura, então escolhi Sono.A voz literária de Murakami eu já conheço, achei que tudo só poderia dar certo na leitura desse mês sempre atribulado, de fim de ano, e realmente deu.

Mais ou menos logo percebi que não é um romance, mas um  conto,ricamente ilustrado. Uma história muito bem construída,como eu conferi NESSE audiobook, antes de escrever esse post, conta a história de uma mulher não nomeada, com 30 anos,   casada com um dentista e vive como dona de casa. Sua rotina é muito "normal", entre a casa,os cuidados com o filho é marido e algumas visitas ao clube. 

Ela começa contando que, quando estudante, sofreu de insônia e foi uma experiência muito ruim, que ficou exausta, passava o dia sonolenta, dolorida e irritada. Um dia, assim como veio, a insônia sumiu, ela dormiu muitas horas e conseguiu se recompor,sem  causar muito alarde entre os conhecidos. Algo tão importante como não conseguir dormir por um bom tempo, sem que ninguém percebesse, já havia acontecido com ela antes.

Depois dessa introdução, que servirá apenas para explicar que o que vai acontecer a partir  dali não se trata de uma descrição de insônia, ela explica que está há dias sem dormir,mas agora não sente exaustão, nem nada parecido com o que sentia quando insone. Muito ao contrário, sente mais disposição, sempre alerta, apenas com muito muito tempo livre nas madrugadas .

No começo ela usa para repensar a sua vida, seu casamento, sua relação com o filho e tudo lhe parece repugnante, digno de crítica. O marido não era bonito ou admirável,nem o filho, que parecia ser sua cópia. Ela estranha tudo o que era normal em sua rotina na época em que dormia, e num cenário bastante kafkiano: um ambiente de irreal, absurdo e inacreditável.

Em outro momento o romance fica mais interessante, ela começa a RELER  Anna Karenina, de Tolstói, um calhamaço que leu muito jovem e nem se lembrava mais. Antes repensa qual o sentido de ter sido uma leitora assídua no passado, se depois foi deixando a leitura de lado e  hoje mal se lembrava de nada que tinha lido. A vida cotidiana, os cuidados com o filho e o marido, absorviam todo seu tempo e atenção e leituras não cabiam mais. Mas aquele era outro momento, em sua nova realidade, ela tinha, todos os dias, algumas horas plus só para si e aproveitou para reler diversas vezes esse romance. Depois que leu e releu inúmeras vezes o romance , percebeu que existiam nele diversas camadas que se entrecruzavam e em uma primeira ou segunda  leitura, só era possível absorver traços superficiais. Para entender esses calhamaços era preciso muito tempo de observação, coisa que agora ela tinha e usou.

Essa realidade não é nada "insólita" para mim. Nas mais diversas situações, alegres ou difíceis, sempre a leitura foi minha arma para sobreviver. Ler abre a possibilidade de criar novos ambientes de vida. E foi o que essa personagem fez.

Na minha interpretação, essa  opção por reservar parte de seu "tempo livre" , que antes ela "perdia" dormindo, lendo é a parte mais sensacional desse conto. Eu não sei o que faria em uma situação tão insólita, mas certamente tentaria ler algo, pois isso sempre é o que me ajuda a colocar as coisas no lugar na vida. 

No caso do conto, a protagonista concluiu que não precisava mais dormir. Dormir seria perda de tempo, desse tempo precioso que ela passava primeiro  nas leituras noturnas, depois em outras atividades insólitas,  mas tudo isso lhe transmitia uma sensação incrível de ser o único ser humano que podia viver sem a necessidade de "desligar o motor" (dormir) a cada vinte e quatro horas. 

Claro que essa história dá panos para a manga de diversas interpretações médicas, psicológicas, politicas, filosóficas, etc, mas por hora não tenho condições de comentar mais amplamente todas as ideias que esse grande texto me despertou, por isso escrevo esse   breve comentário para e recomendar muito a leitura de Sono, de Murakami.

Antes vou postar os poucos comentários que publiquei nas redes durante a leiura, em ordem cronológica: 

15 de novembro

                                  

 

18 de novembro 


 SONO : Mais um Murakami da biblioteca do SESC Pompéia, nessa edição luxuosa da Alfaguara 😍. Um livro sobre sono ou a falta dele : 

 "Essa 'coisa parecida com insônia' durou cerca de um mês. Nesse período, não consegui ter uma única noite de sono.(...) Quanto mais me esforçava a pegar no sono, mais desperta ficava minha consciência. Cheguei a apelar para bebidas alcoólicas e até pílulas para dormir,mas nada resolveu.

Quando começava a amanhecer, finalmente eu sentia uma vontade de cochilar. Mas essa sonolência estava longe de ser chamada de sono. Eu SENTIA NAS PONTAS DOS DEDOS UMA VAGA SENSAÇÃO DE TOCAR NO UMBRAL DAS FRONTEIRAS DO SONO, mas o meu estado de vigília insistia em permanecer alerta." (Haruki Murakami. Sono. Ilu. Kat Menschik; Trad. Lica Hashimoto. RJ:Alfaguara, 2015,p.6 e 11)






19 de novembro 



11 de dezembro 
 
"Na biblioteca, meu lugar 😍
Devolvendo mais um Murakami...preciso escrever sobre "Sono", ainda esse mês"


Na biblioteca, quando devolvi o livro


sábado, 21 de dezembro de 2024

"Homens sem mulheres ", de Haruki Murakami: Meu livro de agosto de 2024

 

Eu li homens sem mulheres

Já faz algum tempo que venho lendo, aleatoriamente, alguns autores japoneses, pois eu estava  muito incentivada pela beleza da escrita de Kawabata, mas queria conhecer novas vozes literárias que estão disponíveis  na biblioteca do Sesc Pompéia. No inicio do ano, antes da dengue,  conheci o Tanizaki com o arrebatador "Voragem", que foi incrível. Mas agora era hora de  conhecer Haruki  Murakami, o autor japonês mais conhecido da atualidade.  Então escolhi  “Homens sem mulheres” para ser meu livro de agosto e foi uma excelente escolha.

Gostei de cara porque a escrita é muito agradável, Murakami é um bom contador de histórias, como diz público e crítica, ele realmente  cria toda uma atmosfera em torno do que narra e o leitor se transporta facilmente para aquele universo narrado. Para mim, o destaque nisso é que ele não monta esse universo como um pequeno Japão e suas tradições, como todos os japoneses que eu li antes, essa autor me pareceu mais universal, suas referências musicais ou literárias, não se referem unicamente o Japão. Gostei muito disso.

Apesar do nome, o livro NÃO apresenta uma sociedade só de homens, onde as mulheres não existem, mas sim contos tratando de sete contos onde um homem que teria ficado sem uma mulher específica de sua vida e essa falta se torna um problema para sua vida. Achei que tivesse feito um comentário rápido sobre os sete contos no Instagram,  seria minha primeira experiência de relato imediato, que depois usei muito no Instrumental, mas na verdade não comentei todos, uma pena.  Mas escrevi muito sobre esse livro nas redes, durante e depois da leitura porque esse livro , realmente, não saiu da minha cabeça no segundo semestre de 2024, porque é muito bom e despertou muitas reflexões e também porque eu encontrei um vídeo de um audiobook  de “Homens sem mulheres”, que você pode assistir AQUI, e eu, que sou muito oral, gostei muito de ouvir os textos depois.

Neste post, depois de meses, vou copiar o que escrevi a respeito desse livro nas redes, é muita coisa, vamos lá:


Consta que emprestei esse volume na biblioteca em 28 de julho, devolvi “Tsugumi”, de Banana Yoshimto, um livro banal escrito por uma autora japonesa (a ideia era  conhecer novas vozes literárias ) e trouxe juntamente com “Noites Brancas”, de Dostoiévski, e eram as minhas primeiras leituras desses autores. Eu queria coisas novas.

Agora as várias postagens que tomaram todo o mês de agosto, em ordem cronológica :

Em 9 de agosto

HOMENS: Faz quase uma semana que comecei a ler "Homens sem mulheres" , meu primeiro Murakami. Não é nenhum dos que eu pretendia iniciar o autor,mas foi que chegou. São sete histórias médias (ainda não sei dizer se contos ou novelas), estou terminando a segunda. Até  agora as histórias falam de um Japão  contemporâneo (anos 1980 ou antes), com muitas referências ocidentais e algumas orientais,  populares e eruditas (Beatles, Woody Allen ,Beethoven, Tchecov,etc).A escrita (meu interesse ) é fluida , por isso eu estranho a leitura não deslanchar como previsto,  nada poética  como Kawabata, mas com um ou outro trecho belo, uma ideia genial. Quero ao menos chegar na metade pra falar minhas impressões com mais propriedade.

Parei a leitura agora  quando um casal de universitários conversa depois de jantarem num restaurante italiano em Tokio, e a moça ficar sabendo que o rapaz terminou seu namoro de colégio e teoriza:"Será que não é necessário você passar por essa fase solitária e difícil enquanto ainda é jovem? Como um processo de crescimento? (...) Assim como uma árvore que,para crescer vigorosamente, precisa passar por invernos rigorosos. Em um clima quente e agradável, não surge o anel de crescimento." E o rapaz ""Eu tentei imaginar o anel de crescimento dentro de mim. Só me veio à cabeça o resto de Baumkuchen de três dias atrás" (p.66) Peguei o celular para procurar a imagem de um Baumkuchen (em nota explica que : significa literalmente "bolo árvore". Os anéis que aparecem qd o bolo é fatiado lembram os anéis de uma árvore). Será que   essa imagem tem  algum significado maior na história? A ver...

À direita o Baumkuchen,
bolo árvore
 

12 de agosto

HOMENS : Terminei ontem de ler  a terceira história "Órgão independente" e , superficialmente, é Murakami dando material para  reclamarem  que ele é machista, que odeia mulheres, etc.  Não é meu caso, a visão dos personagens não é necessariamente a de Murakami, e mesmo que ele também concorde, estamos falando de Japão, outra cultura, difícil e pobre  condenar  julgando com nossa régua moral ocidental. Achei a história de Tokai, um homem que foi enganado por uma mulher e isso lhe foi fatal, bem pesada por motivos existenciais e filosóficos. A referência não nominal ao livro sobre holocausto

"É isto um homem?" de Primo Levi , que lemos na faculdade, e que  sustenta essa história, tornou meu sono mais difícil.

Para mim o problema  de Tokai não foi ter sido enganado por uma mulher mentirosa, mas sim um questionamento mais íntimo sobre o sentido da sua vida vazia que possibilitou que ele, tão dono de si, fosse enganado pela conversa fiada da mulher.

Aí, devo dizer, do pouco que conheço da literatura japonesa, ela é ótima pra pirar nosso cabeção  nesse sentido. Grandes são os livros que incomodam!

13 de agosto

HOMENS : "Sherazade"o quarto conto de "Homens..." ,na verdade o livro todo, me fez pensar em  como as mulheres são fascinantes e perturbadoras para Murakami. Retomando o tema das 1001 noites, nesse conto  um homem chamado Habara, que vive isolado em uma casa (e não sabemos pq) recebe eventualmente uma mulher para cuidar dele, trazer compras e transar. Como ela gosta de contar histórias mirabolantes pós sexo, ele a chama de Sherazade. Nesse conto é o fio da narrativa que une Habara e Sherazade :

 "Eles estavam ligados por uma corda fina e frágil, por assim dizer, Provavelmente um dia, ou melhor,com certeza um dia essa relação ia chegar ao fim. A corda seria cortada. Mas cedo ou mais tarde (...) E uma vez que Sherazade partisse, Habara já não poderia mais ouvir suas histórias. O fluxo seria interrompido, e várias narrativas fantásticas, desconhecidas,ainda não contadas, desapareceram.

Ou talvez ele fosse privado de qualquer liberdade e, como consequência, fosse afastado de todas as mulheres, não só Sherazade. Era grande a chance de isso acontecer. Assim, ele nunca mais poderia penetrar o interior úmido do corpo feminino.Nem sentir seu tremor sutil. Mas o que era difícil para Habara não era  a falta de sexo em si, mas a possibilidade de não poder mais compartilhar um momento íntimo com mulheres. Perdê-las, no final das contas, era isso. Um momento especial,que anula a realidade mesmo fazendo parte dela :era o que as mulheres proporcionaram." (P. 152/3)

Como diz um comentário que achei na internet, eu também quero agradecer essa mulher que traumatizou Murakami e o fez escrever esse livro sensacional e perturbador.

13 de agosto

HOMENS : Nada que eu diga vai superar esse comentário!

O livro,no fundo, é uma dolorosa sessão de terapia. E o pior é que eu estou adorando !

 


Não disse que pirou meu cabeção?


14 de agosto

A ESCRITA DE "HOMENS...": É  meu primeiro Murakami. Depois de "Yesterday" e "Sherazade", eu até fiquei bem empolgada com a leitura do livro, que é mesmo boa literatura. Mas a escrita, que é algo importante pra mim, não me encanta tanto. Não tem trechos saborosos que gostaria de copiar (até agora só destaquei um, no fim de "Sherazade"). Além disso , tenho dificuldade em chamar esses textos de contos, pois acho muito extensos (não só em páginas), e tem momentos que dá vontade de pular trechos !Agora cheguei na metade e estou sem motivação pra começar a ler "Kino", o próximo texto, sabendo que tem mais de 30 páginas, tem duas noites que deixo o livro de lado... Vou persistir e terminar, claro, mas antes quis deixar um depoimento.

14 de agosto

HOMENS : Acabei de escrever um depoimento "reclamando" de algumas coisas no  Murakami, dizendo que estava com preguiça de ler "Kino" o próximo conto do livro,bla,bla,bla. Comecei a ler, e ele ME RESPONDEU! A leitura fluiu muito, rapidinho,  terminei e acabei com o "coração"(sim,o órgão mesmo) disparado. É um texto muito musical, dessa vez ouvimos  Jazz, onde o protagonista, Kino, vai ficando perdido, alguém "meio transparente" com as "vísceras transparentes, como uma lula recém capturada" (189), um "homem que não está em lugar nenhum" (189) e eu acho (sem muita certeza) que para entender melhor essa história eu devesse conhecer mais Kafka. Como todos do  livro, é um texto sobre solidão. Sobre apagar   todos os  sentimentos, tentar desligar o coração ,para  evitar mergulhar numa dor profunda. Mas aí um dia você ouve alguém bater no vidro da janela

"Em um ritmo sempre regular,como se tentasse seduzi-lo a entrar em um labirinto de sugestivas memórias. Toc, toc, Toc,toc.

Outra vez: toc,toc. Não desvie os olhos. Olhe para mim fixamente, alguém sussurrava em seus ouvidos. Afinal, esta é a imagem do seu coração. (...) No profundo interior de Kino a mão quente de alguém foi estendida e tentou pousar sobre a dele. Com os olhos fortemente cerrados, Kino sentiu o calor dessa mão e a espessura macia. Era algo de que ele se esquecera havia muito tempo. Era algo que fora afastado dele havia muito tempo. 'Sim, estou magoado. Muito, profundamente' Kino disse a si mesmo. E chorou."(P.194)

E eu, que não sou "homem sem mulheres", muito me identifiquei com Kino. A mão quente que se estendeu sobre o meu coração em carne viva hoje foi a de Murakami. E como dói!


Em 20 de agosto

HOMENS : "... Entendi- ela disse (a Samsa!) . - Você é meio retardado. Mas o seu pênis é bem saudável. Fazer o quê?" ("Samsa apaixonado" In "Homens sem mulheres", Haruki Murakami.

Como suspeitei : Kafka presente! Tô adorando esse livro.

 

Em 22 de agosto

HOMENS SEM MULHERES: Estou a um conto de terminar o livrinho, claro que já adio esse final, porque essa é uma obra que está mexendo muito comigo e vai ser difícil a despedida. Um homem, vendo que eu carregava o volume, leu o título e me disse que ser um homem sem mulheres é o que ele não quer. Nenhum dos homens do livro quis, mas acabaram assim. Murakami é muito cirúrgico: não é um livro sobre um mundo só de homens. Em geral os contos falam de homens que,tendo conhecido uma mulher específica em determinado momento da vida, tiveram que se despedir dela e muitas vezes os contos são como sessões de terapia, algo bem parecido com a frase atribuída ao Freud: "ninguém sabe o que quer uma mulher!". Mas, como acontece na vida real, esse homens tem sempre outras mulheres em suas vidas (homem hetero não fica sem mulher), mas ficam sem "aquela mulher", que eles não saberão nunca o que ela quer! Vamos ver o que nos diz o último conto "homens sem mulheres" e saber como termina essa jornada literária de agosto ! 


Em 30 de agosto

HOMENS : O sétimo  e último conto do livro, "Homens sem mulheres" é  exatamente o que a gente vem percebendo conto a conto no livro: histórias de homens largados por uma mulher importante. Esse conta a história de um que recebe uma ligação na madrugada  com a notícia de que uma ex namorada se suicidou. Mais uma, a terceira no caso dele. Mas essa, idealizadíssima,   foi que o jogou na inquestionável condição de "homem sem mulher", que Murakami define : "É muito fácil ser um homem sem mulheres. Basta amar profundamente uma mulher e ser abandonado por ela. (...) De uma forma ou de outra, você também vai ser um dos 'homens sem mulheres'. De repente. E,uma vez que você se tornar um dos homens sem mulheres, a cor da solidão se impregnará no seu corpo. Como se fosse uma mancha de vinho tinto em um tapete de vir clara. Por maior que seja o seu conhecimento sobre arrumação doméstica, limpar essa mancha será um trabalho assustadoramente árduo. A mancha pode clarear um pouco com o tempo, mas permanecerá lá até seu último suspiro." (P. 234) Baita livro. Em breve faço um balanço da leitura

Meses se passaram e, em outubro , escrevi sobre esse livro de novo


Em 28 de outubro

"Homens sem mulheres" foi meu livro de agosto. Até hoje não tive tempo de escrever  um texto maior sobre ele, sobre essa viagem a possíveis universos masculinos. Talvez eu não tenha ainda digerido tudo aquilo. No dia do meu aniversário estava conversando sobre literatura com o Fernando e Micael no Sesc Pompéia e falei do conto "Samsa apaixonado".

Lembrava bem dele, que é uma recriação de "A Metamorfose" de Kafka,mas ao contrário. Depois do papo eu   tive vontade de reler o conto. Especialmente aquela parte em que Gregor Samsa se apaixona por uma chaveira corcunda  e quer conversar com ela com calma, perguntar muitas coisas "sobre a origem desse mundo, sobre você, sobre mim" ... Queria encontrá-la de novo, "ficar frente a frente, conversar com ela até se satisfazer, queria desvendar com ela,aos poucos, o mistério deste mundo...."queria observá-la de vários ângulos ...e, se possível, queria tocar as várias partes de seu corpo, queria sentir a textura, o calor da sua pele e queria subir e descer junto com ela as diferentes escadas deste mundo..."Poxa, que descrição do estar apaixonado ! Mesmo para quem não leu o conto (recomendo) fica evidente que,para Samsa, a simples existência da chaveira dá algum significado à sua vida, algum significado ao fato dele  ser um homem, não um peixe ou girassol...

Tem coisas que só a literatura nos oferece...

 

Poxa, que leitura! Super recomendo! Mas aviso: carece de ter coragem!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

"Ciranda de pedra", a roda fechada da vida e o desamparo de Virgínia

Eu li Ciranda de pedra


Em dezembro de 2021 eu li meu último livro do ano, “Ciranda de pedra”, primeiro romance da Lygia Fagundes Telles, minha escritora brasileira favorita e tinha tudo para dar certo. E deu, pois gostei muito do livro. Embora ela tenha escrito coisas antes, ela mesma considera este o seu primeiro livro. É também o primeiro romance dela que eu li. Achei muito bom, aquela escrita que nos prende do inicio ao fim, uma leitura excelente.

Primeiro quero falar sobre a capa desta edição da Cia das Letras. Geralmente os livros de contos de  Lygia tem capas muito interpretativas, um recorte de uma obra de arte maior,indicando que o tesouro está nos detalhes . No caso deste romance a capa não foi um recorte, mas praticamente a obra toda 

À esquerda a obra original, à direita a capa do livro

"Tonga II", de Beatriz Milhazes, 1994
Muitas cirandas de pedrinhas 

Mas tive meus estranhamentos. O maior deles foi encontrar um texto tão bem explicado. Todo bom texto de Lygia, é cheio de metáforas e símbolos que, se observados, vão nos fazendo escavar melhor os significados da narrativa. Nesse livro, não sei se porque é um romance e não um conto, ou e é porque é o primeiro livro que ela considera ter escrito, todo isso é muito bem explicado, de forma quase didática.

Uma das coisas que mais me atraem na obra de Lygia é que embora ela tenha escrito excelentes contos de terror ou suspense, terríveis mesmo são aqueles fragmentos de narrativa do cotidianos cheios de tensão embutidas, nos quais você lê, não acontece muita coisa surpreendente, mas a gente sente o soco, só não sabe de onde veio. Nada é muito explicado, mas aparecem as metáforas, os símbolos,por exemplo,  o som do saxofone que contradiz o discurso do narrador ; a escolha do  o colar de falsas  pérolas que  supões uma traição; as lantejoulas verdes que parecem querer alcançar  Tatisa quando ela foge para não  presenciar a morte do pai; as três xícaras de café bem forte que servem de armadura para proteger a dignidade de Maria Camila quando seu castelo é invadido; o vermelhidão de loucura das cerejas nas memórias de infância;  o suor amarelo-verde que empapava o  vestido branco de mamãe no sonho; etc.

Lygia é excelente contista. Será que é também boa romancista ?Não tenho como saber ainda,por enquanto eu ainda prefiro a riqueza de tesouro dos contos.

No romance publicado em 1954, o narrador cola-se na perspectiva da protagonista Virgínia para contar a sua história, inicialmente como  uma criança e depois uma mulher adulta, que vai  narrando sua vida , conforme vai adquirindo consciência do que acontece.

Virginia é a caçula de uma família que, no inicio da narrativa, já está repartida.Enquanto seu pai  Natércio, um advogado muito bem sucedido, e as suas duas irmãs mais velhas: a  moralista e religiosa Bruna e a bela e dispersa  Otávia, moram em uma casa grande com a governanta Herta , e são vizinhos do jovens  Afonso e os irmão Conrado – seu amor platônico -  e Letícia , formando um grupo de cinco pessoas mais velhas que a menina Virginia admira e ao qual deseja pertencer, embora seja sempre excluída e rejeitada .  Ela, por sua vez,  mora em uma casa simples com sua mãe Laura – uma mulher com perturbações mentais- ; Daniel, o seu “amante”, que é também o  médico que a atende e que a menina chama de “tio”;  e a Luciana, uma empregada negra também apaixonada por Daniel e que Virginia vive depreciando, chamado-a  de “mulata” . Quando criança, Virgínia é carente e deseja que a mãe se cure e volte a morar com o pai.Nessa primeira parte do romance, a mais interessante, nossa pequena  protagonista vive em estado de profunda solidão, sem ninguém para conversar, brincar ou confiar. Em alguns momentos de desespero chega a implorar afeto até a Luciana, com quem normalmente troca farpas:

“Luciana, eu vou morrer, ninguém gosta de mim, ninguém! Diga que gosta de mim, pelo amor de Deus , diga que gosta de mim!

-Não chore assim alto. Quer que sua mãe ouça? Virgínia tapou a boca com as mãos. Soluços fundos sacudiam-lhes os ombros.

-Diga Luciana...

-Você está se despenteando.

- Quero ficar despenteada, tenho ódio deles! – exclamou puxando os cabelos. Estendeu-se no chão.- Queria morrer...

-Você vai sujar o vestido e não tem outro.

-Ninguém gosta de mim. Minhas irmãs não se importam comigo e minha mãe só gosta do Tio Daniel” (p.20).

 

No decorrer do romance vamos entendendo o contexto muito vagarosamente, seguindo a limitada consciência infantil da menina Virgínia, que Laura era casada com Natércio, passou a ter problemas mentais e o médico Daniel foi chamado para tratá-la e no fim acabaram se apaixonando, romance de onde ela nasceu, a mais nova, a filha do amante, como era pensada nóis anos 1950.  Laura e Daniel vão morar juntos, levando sua filhinha, que acreditava ser filha de Natércio e não entendia porque não morava com a família ou porque  as irmãs a rejeitavam. Virginia não é acolhida em lugar nenhum, é sempre um elemento que sobra e, numa visita a casa do pai Natércio, ela vê umas estátuas de anões de pedra, de mãos dadas, em uma ciranda da qual ela não pode fazer parte, assim como não pode fazer parte da ciranda de pedra formada por suas irmãs e seus vizinhos.  

Com a morte de Laura, na metade do romance, Daniel também morre em circunstâncias inovadora para a época, que não vou revelar aqui, e esse choque de realidade faz com que Virginia vá, enfim, morar na casa do pai e das irmãs, onde também é constantemente rejeitada e ouve da boca lúcida de Luciana, a verdade que nunca quis aceitar, que seu verdadeiro pai era o tio Daniel.

Ciente de que era indesejada por todos na casa do pai Natércio, aquele que não conseguia sequer olhar para ela, pois ela era o resultado vivo da traição que havia sofrido, Virginia pede para viver em um internato, de onde sai já adulta formada em línguas.

De volta a casa de Natércio a moça observa que, embora suas vidas tenham mudado muito a ciranda ainda rodava em torno de su mesma: Bruna se casou com Afonso e teve uma filha, Otávia virou artista plástica; Letícia uma tenista de sucesso e Conrado, seu príncipe, virou solteirão. Nesse retorno, incrivelmente, Afonso e Letícia a desejaram como mulher, assim como Robson , um novo atleta da ciranda. Sublinhando esse ponto do enredo, destaco a originalidade do romance para a época, além de tratar de loucura, divórcio, bissexualidade, entre outros temas tabus nos anos 1950. Mas, ainda que fosse disputada pelos membros da ciranda, Virginia foi percebendo que, por mais que tentasse fazer arte,nunca conseguia e a melhor coisa a ser feita seria tentar a vida longe daquelas pessoas, pois aquela ciranda de pedra deveria ruir sozinha, voltada para si própria.

Como foi uma leitura muito fluída, terminei rapidamente e quase nem fiz comentários sobre.  Só copiei trechos lindíssimos. O primeiro de quando Virginia visita a casa do pai Natércio e, isolada no jardim, depara-se com os anões e deseja fazer parte da roda, explicando então a metáfora da ciranda de pedra:

“Aproximou-se dos  anõezinhos que dançavam numa roda tão natural e tão viva que pareciam ter sido petrificados em plena ciranda. No centro, o filete débil da fonte a deslizar por entre as pedras. ‘Quero entrar na roda também!’ exclamou ela apertando as mãos entrelaçadas dos anões mai próximos. Desapontou-se com a resistência dos dedos de pedra. ‘Não posso entrar? Não posso?”  (Lygia Fagundes Telles . 'Ciranda de pedra", p.79)

Em um dos trechos mais bonitos do livro, encontramos a menina Virginia ouvindo, de seu quarto, os discos de Beethoven que tio Daniel coloca para tocar todas as noites e descreve  o som assim :

Os discos que ele punha para tocar eram sempre os mesmos e tinham um som um pouco gasto, como se estivessem esgotados. Mas ele repetia dez, vinte vezes sem parar. (...)A princípio pareciam sem sentido. Mas certa noite, na escuridão do quarto, só ouvir os discos que já sabia fazerem parte do álbum de Beethoven, recebera-os com obscuro sentimento de cumplicidade. A música tinha um enredo e desafiava esse enredo como uma pessoa amiga que entrava para uma visita, uma pessoa muito amiga, mas muito estranha, que ora chorava, ora ria, repetindo de vez em quando o começo da historinha :'Sabe Virgínia, eu vou contar, era uma vez...'. As histórias começavam bem, mas de repente tomavam um rumo imprevisto e vinha um assunto que nada tinha a ver com o início, ramificavam-se. Eram queixas, protestos, ela já os conhecia de cor, 'Agora vem a raiva, mas já vai passar'. E de fato, logo após vinham sons brandos, lentos,como que cansados devido ao acesso. E a história recomeçava numa obsessão: 'Sabe, Virgínia, mas eu estava contando'...Era um amigo difícil, triste, por isso mesmo era preciso ter paciência com ele." (Lygia Fagundes Telles . 'Ciranda de pedra", p.57-8)

Já adulta, se dá conta da impossibilidade de entrar na ciranda de pedra :

“A dança era antiga e exaustiva justamente porque ela ficara de fora, desejando participar e sendo rejeitada. E rejeitando-a para logo em seguida esforçar-se para entrar. Admitiram-na finalmente. Mas era tarde, jamais acertaria o passo.” (Lygia Fagundes Telles . 'Ciranda de pedra", p.173)

Não vou dar spoiler do que aconteceu no final, mas só copiar um belo trecho que encerra do romance e copie quando terminei de ler

"CIRANDA DE PEDRA : "Hei de me guiar por alguma daquelas estrelas que me dirá onde devo descer . (...)  ao menos isso eu quero, já que é preciso aceitar a vida, que seja corajosamente." (Lygia Fagundes Telles . 'Ciranda de pedra'(1952), p. 199)

Amo muito a escrita de Lygia! Em véspera de natal foi desafiador ler um  romance sobre o brutal desamparo de uma garota que nunca se sente pertencendo a lugar nenhum, como eu, mas quero ler mais e mais livros dela.


domingo, 15 de dezembro de 2024

Samba d'Coroa : último do ano




 Foi o último do ano, fechando com chave de ouro . E eu já estava mesmo exausta, depois de um ano com incontáveis sambas maravilhosos, já estava no fim do circuito olímpico. Como o dia se zangou, nada gostoso pra usar branco, tive q me previnir pra chuva ou frio. Fiz o que pude! 

No caminho guardei a flor:
Sem clima 









Foi bom demais ter ouvido um pouco do Nilson Rufino: só música boa! Sambas tradicionais

No busão de volta:cansada

Nilson Rufino

Pena que não ouvi minha favorita Pago pra ver, mas ouvi outras maravilhas.

O tema desse samba, muito pela presença da Cassiana Pérola Negra, foi a música que mais ouvi em 2024, segundo o Spotify 




Agora entrei no recesso: dormi mais que a cama e agora só volto pro rolê no réveillon! 

Depois fui até garota propaganda 



Só tenho agradecer mais um ano deitada no berço do samba!