domingo, 29 de agosto de 2010

MOVIMENTO VIOLÃO, DE PAULO MARTELLI - EXPERIÊNCIAS DO SUBLIME



Na última sexta feira eu voltei a ouvir o violão clássico de Paulo Martelli, aquele todo ritualítico que comento AQUI. Sempre quis ouvir Martelli de novo, mas achava que se eu tivesse essa oportunidade novamente seria sozinha , como foi da primeira vez, porque as pessoas não estão em sintonia com o mágico, o transcendente atualmente...Mas eu estava enganada, pois foi um rapaz quem me convidou para ouvir Martelli tocar Bach!
Eu sabendo o que significa alguém te convidar para ouvir Martelli tocar Bach, e sabendo que o menino em questão sabia muito bem o que estava fazendo ao fazer o convite
Entendi que estávamos no processo do Poema e M
artelli, com a ajuda de Bach, só viria ratificar isso.
Paulo Martelli continuava a elegância em pessoa!
M
as desta vez ele estava incrivelmente mais acessível, querendo conversar com as pessoas sobre violão clássico, responder perguntas, contou coisas lindas sobre o cuidado em experimentar novas maneiras de melhor tocar um compositor barroco,que envolviam a forma do violão; o aumento do número de cordas de 6 para 11 e a substituição das cordas tradicionais por uma certa linha de pesca japonesa, que adensavam o som e, acreditem, no interesse em aprender as danças barrocas para as quais as suítes eram feitas, o que o colocava em contato direito com o ritmo possível, ele está experimentando esse violão:

E o mais bonito : ele disse ser filho de mãe analfabeta, ouvinte de música caipira, tendo irmãos que enveredaram para o rock, etc... ele amava o clássico e achava importante existirem, aqui no Brasil, pessoas que tocavam Bach bem, porque essa idéia de acreditarmos que isso não era para nós não era verdadeira! EU CONCORDO!Me identifiquei imensamente quando ele falou algo assim:que quando tocava Bach sempre pensava "Nossa, que lindo isso e eu posso entrar em contato com essa manifestação musical das maiores da humanidade e isso não tinha preço". Sinto mais ou menos isso com o Rosa, não que eu tenha lido todos os autores, nem que eu ache que Rosa seja algo mundial como Bach, mas no contexto do Brasil, não conheço nada próximo, estou em contato com a ARTE PURA, coisas para poucos... que lindo Martelli!Bom, o concerto eu já sabia que seria maravilhoso, mas não imaginava o prazer de ouvi-lo como se eu estivesse sendo introduzida como um elemento constitutivo do universo divino de Bach.Um sonho meu, que guardava escondido aqui dentro de mim, desde que eu ouvi Martelli tocar a primeira vez, foi realizado! Quanta gente não vive a vida toda sem realizar nunca um desejo? Estou super feliz!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Outras Palavras

No ritual do Poema

Tenho vivido momentos de contato próximo com o ritual poema, me lambuzando dele (para além das palavras). me transformando nele...
Esta semana a Praça do Relógio virou mesmo a FLORESTA NEGRA (a dos contos de fadas) sob uma escandalosa lua cheia, falamos das experiências da temporalidade no poema e - como sempre acontece quando entramos no ritual POEMA - tudo ao redor mudou, gente viu coisas maravilhosas acontecendo no mundo, como se vissemos tudo como se fosse a primeira vez e a vida falava mais alto que a linguagem, assim como acontecia nos primeiros anos de nossas vidas-então abriram-se os portais do "devir criança".
A última vez que experimentei isso foi quando fui aluna do Claudio Willer em 2006 e recebia serenatas de violino na Paulista, ou vivia toda uma história de amor no tempo imediato do metrô...era a experiência do poema atuando na minha vida e fazendo tudo estar em movimento!
Desta vez nós VIMOS ATÉ UMA LAGARTA no meio do caminho e eu pude até perguntar, como no poema de Bandeira:
"-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?"
E alguma esfera de comunicação partiu dele, como se me informasse: "A gente começa a experiência poema"
Eu acho que mereço, merecemos pois sempre foi esta nossa busca!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

24 DE AGOSTO : DIA DA INFÂNCIA

DELICIOSA ESSA DATA COMEMORATIVA!
No site da FTD somos lembrados não só da alegria infantil, como também da situação das crianças no Brasil:
"
De acordo com a Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância, 62 milhões de brasileiros têm menos de 18 anos. As crianças são especialmente vulneráveis às violações dos direitos, à pobreza e à iniqüidade no País.

O índice de pobreza infantil é de 44% no Brasil, passando a 78% entre as crianças negras. Mais de 70% das crianças pobres nunca foram à escola durante a primeira infância. Há 800 mil crianças de 7 a 14 anos fora da escola.

De cada 100 alunos que entram no ensino fundamental, apenas 59 terminam a 8ª série e, destes, somente 40 concluem o ensino médio. A evasão escolar e a falta às aulas ocorrem por diferentes razões, incluindo violência e gravidez na adolescência.
"

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Trabalho do POEMA

"O trabalho do POEMA desempenha um papel emblemático ao entrar em uma subjetividade extrema para atingir o sujeito em todo sujeito, passar do formalismo do signo a uma poática da sciedade. (...) O poema não sabe mais. Não ensina um saber. Não ensina. Evidentemente. Mas ele mostra. Trabalha o insabido. Nem à margem, nem fora dela." Henri Meschonnic

domingo, 22 de agosto de 2010

SEM TERRINHA EM MOVIMENTO

Assisti um vídeo produzido pelo Coletivo Educação,cultura e Comunicação do MST.Ali soubemos da situação das crianças envolvidas no Movimento Sem Terra.Começamos com uma animação que reproduzida uma conversa entre duas alunas de uma escola, uma delas morava num assentamento, e a outra lhe perguntou se lá onde ela morava tinha muita violência e gente amarmada, e ao saber qua agora não, só quando trabalhavam para o fazendeiro, então a menina que não era sem terra diz que não era isso que passava na televisão. Mas falou-se, também, da educação que eles recebiam. Naquilo que eles chamam de "Ciranda infantil", a educação é produzida em uma "pedagogia baseada na cultura popular, nas brincadeiras, na cooperação, na coletividade e no direito de ser criança". Isso é lindo, não? Um objetivo final desta educação é a crença na idéia de que a melhor forma de educar de forma libertária é a ensinar política. Eu acredito que isso é importante, claro, mas talvez a idéia de política da escola do MST talvez seja um pouco afastada da de ser libertária. É claro que , ao potencializar a coletividade e a cooperação, está-se investindo na idéia de política pois pensa-se na idéia das formas de governar os povos... para pensar em política de forma libertária é preciso investir na discussão de idéias - o que deveia ser uma das bases de toda organização política - eles parecem fazer isso, claro, mas o discurso das crianças passam a impressão de que elas passaram, também, por uma doutrinação , a forma de expressá-lo, as palavras usadas, etc. A musiquinha que elas cantam não nos levam a pensar em outra coisa: "Nós somos sem terrinha do MST, brilha ano céu a estrela do Chê" (?!?!)
Mas em um país como Brasil onde, em 2009, mais de 860 viviam em condições prejudiciais de existência, um país onde a terra não é nada bem dividida e as pessoas, até hoje, precisam se locomover para sobreviver, a idéia da "Escola itinerante", que é a que vai junto com o acampamento e vai com ele para onde ele for, permitindo que a educação persista em cada ocupação e, em sete estados do país, hoje já são reconhecidas pelos conselhos de educação como escolas estaduais, quando eles cantam "Escola itinerante, um marco na história, poder estudar nela para nós é uma vitória", eu acho lindo e verdadeiro!
Lembrei da fala do Mauricio de Sousa no encontro de literatura infanfil na USP em agosto, sobre a "Turma da Mônica Jovem", na qual o Chico Bento não sai da roça para estudar, pode fazer muitas coisas lá mesmo, com a ajuda da internet. Os adolescentes sem terra são categóricos: Não quero sair da nossa terra, queremos estudar, sim, mas sem sairmos de lá! Isso é mesmo um marco na história!
Coisa linda demais tudo isso, só não gosto da marca doutrinária tão forte... mas ainda assim fico feliz em entrar em contato com essas coisas belas demais.
Sobre o Guimarães Rosa - que é obviamente meu maior interesse nesse tema- com a fala de um menino sem terrinha no começo do vídeo "sonho muita coisa boa, mas que acontece é o contrário do que eu sonho", me lembrei do texto do Alfredo Bosi, claro... Céu/inferno, onde ele defente que em Guimarães Rosa é possível transcender a miserabilidade do real, mas em Graciliano Ramos os sonhos são sempre sonhos e a realidade é sempre pior... são momentos do sertão, são momentos...

sábado, 14 de agosto de 2010

"A Recepção crítica de João Guimarães Rosa na França" 03/08/2010, com Jacqueline Penjon da Universidade de Paris-Sorbonne Nouvelle

Ontem assisti a uma conferência da professora de português e literatura brasileira da Universidade de Paris-Sorbonne Nouvelle, professora Jacqueline Penjon. Vamos ver o que eu achei mais interessante...
Segundo ela, estudar o problema da recepão de uma obra literária no estrangeiro SIGNIFICA ESTUDAR O POTENCIAL DE SIGNIFICAÇÃO QUE A ELA FORAM SENDO TRIBUÍDOS pelos críticos, tradutores, intelectuais e, enfim, leitores...A professora apresentou este problema para a França, que recebe a obra de Guimarães Rosa dividida em duas fases principais ocorridas nos anos 1960 e depois a partir de 1980.
Nos anos 1960 o português era tomado como um anexo do espanhol e o Brasil tinha uma imagem de país pitoresco, regional, desequilibrado socialmente, que se sobressaia no território de tensões do terceiro mundo. Já nos anos 1950 os autores brasileiros que eram lidos na França (pouco lidos, na verdade...) eram os que tinham escrito obras que reforçavam essa expectativa: Jorge Amado; José Lins do Rego; Graciliano Ramos etc. Mas como Guimarães Rosa não bailava essa dança, um texto de jornal chegou a comentar que os franceses queriam mais "vida real", não "tanto lirismo"...Mas entre 1948 e 1951 Guimarães Rosa esteve na França como diplomata e já era reconhecido escrito aqui no Brasil por Sagarana (1946). Em 1947 escreve em carta que o período que passou pela França serviu-lhe como o tempo de FECUNDAÇÃO E GESTAÇÃO de novos personagens e livros, em uma espécie de de "ENCONTRO CONSIGO MESMO." (isso seria o ouvir a tal voz interior? Acho que sim)
Parte do "Diário de Rosa em Paris" está publicado em Ave Palavra, no qual ele afirma que ali suas leituras mais frequentes eram as dos clássicos da literatura, até que ele pudesse, enfim, reescrever Sagarana, que só teria sua versão brasileira definitiva em sua 5a. edição.
Para essa época uma coisa interessante aconteceu com os livros de Rosa pois somente cinco anos separavam a publicação de Corpo de Baile no Brasil em 1946 da tradução francesa de Buriti de 1951. A partir de meados dos anos 1960 e em todos os anos 1970 a França viveu o fascínio pela Literatura Latino Americana, que trazia à tona o "realismo fantástico", mas que foi um movimento do qual o Brasil ficou fora, mas esse desinteresse pela literatura brasileira já vinha do século XIX.
O conhecido tradutor de Rosa para o francês
Jean-Jacques Villard - alvo de muita polêmica, mas que tinha total aprovação de Rosa...ele declarou, em uma carta a Rosa, que para traduzir o Buriti ele utilizou muito um dicionário da bisavó dele (que era brasileira), pois o Rosa utilizava muitas palavras que não estava mais "em uso" no Brasil! (como meus alunos escreveram sobre o Rosa "palavras que falavam antigamente"...)
Quem conhece a relação de Rosa com seus tradutores -pelas cartas é perceptível-,sabe que ele sempre os encorajava e pedia muita ATENÇÃO AOS ASPECTOS SONOROS, POIS O QUE IMPORTAVA ERA O SIGNO, NÃO APENAS SINGNIFICADO (e eu penso que também não apenas o significante também)...Os tradutores tinham que TENTAR RETOMAR OS PROCESSOS DE CRIAÇÃO DO AUTOR. ADORO ISSO! ADORO!
A conclusão de
Penjon é de que o leitor francês sempre se sentiu "estrangeiro" no sertão de Guimarães Rosa e o Brasil que ele apresentava em suas obras - conforme eu ja falei - não era o Brasil que o francês queria encontrar. Isso foi percebido por Rosa, que escreveu uma carta a Villard em 1967 onde declarava que sabia que o leitor francês era um alguém MUITO AFASTADO DO MUNDO MÁGICO.
A partir dos anos 1980 o protuguês passou a EXISTIR na França, como uma língua não mais relacionada ao espanhol e já existiam até tradutores profissionais e isso foi bom para o Rosa, que tem textos que "RESISTEM À DOMESTICAÇÃO E EXIGEM SEMPRE UMA FLUIÇÃO DE LEITURA QUE DEVE IMITAR O ATO DO 'SE LAMBUZAR' DA LINGUAGEM (ela usou essa expressão exata).
Soube, também, que nos anos 2000 temos até uma pesquisadora que estuda o tema infância na obra de Rosa, como eu! (precisei olhar para França para achar isso!)...Assim caminha minha pesquisa...