sexta-feira, 8 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

MANIFESTO DE REITORES DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS À NAÇÃO BRASILEIRA

PARA DIVULGAR.
Laura Tavares Ribeiro Soares
PRÓ-REITORA DE EXTENSÃO DA UFRJ
(21) 2598-9696/9647


EDUCAÇÃO – O BRASIL NO RUMO CERTO

Da pré-escola ao pós-doutoramento – ciclo completo educacional e acadêmico de formação das pessoas na busca pelo crescimento pessoal e profissional – consideramos que o Brasil encontrou o rumo nos últimos anos, graças a políticas, aumento orçamentário, ações e programas implementados pelo Governo Lula com a participação decisiva e direta de seus ministros, os quais reconhecemos, destacando o nome do Ministro Fernando Haddad.

Aliás, de forma mais ampla, assistimos a um crescimento muito significativo do País em vários domínios: ocorreu a redução marcante da miséria e da pobreza; promoveu-se a inclusão social de milhões de brasileiros, com a geração de empregos e renda; cresceu a autoestima da população, a confiança e a credibilidade internacional, num claro reconhecimento de que este é um País sério, solidário, de paz e de povo trabalhador. Caminhamos a passos largos para alcançar patamares mais elevados no cenário global, como uma Nação livre e soberana que não se submete aos ditames e aos interesses de países ou organizações estrangeiras.

Este período do Governo Lula ficará registrado na história como aquele em que mais se investiu em educação pública: foram criadas e consolidadas 14 novas universidades federais; institui-se a Universidade Aberta do Brasil; foram construídos mais de 100 campi universitários pelo interior do País; e ocorreu a criação e a ampliação, sem precedentes históricos, de Escolas Técnicas e Institutos Federais. Através do PROUNI, possibilitou-se o acesso ao ensino superior a mais de 700.000 jovens. Com a implantação do REUNI, estamos recuperando nossas Universidades Federais, de norte a sul e de leste a oeste. No geral, estamos dobrando de tamanho nossas Instituições e criando milhares de novos cursos, com investimentos crescentes em infraestrutura e contratação, por concurso público, de profissionais qualificados. Essas políticas devem continuar para consolidar os programas atuais e, inclusive, serem ampliadas no plano Federal, exigindo-se que os Estados e Municípios também cumpram com as suas responsabilidades sociais e constitucionais, colocando a educação como uma prioridade central de seus governos.

Por tudo isso e na dimensão de nossas responsabilidades enquanto educadores, dirigentes universitários e cidadãos que desejam ver o País continuar avançando sem retrocessos, dirigimo-nos à sociedade brasileira para afirmar, com convicção, que estamos no rumo certo e que devemos continuar lutando e exigindo dos próximos governantes a continuidade das políticas e investimentos na educação em todos os níveis, assim como na ciência, na tecnologia e na inovação, de que o Brasil tanto precisa para se inserir, de uma forma ainda mais decisiva, neste mundo contemporâneo em constantes transformações.

Finalizamos este manifesto prestando o nosso reconhecimento e a nossa gratidão ao Presidente Lula por tudo que fez pelo País, em especial, no que se refere às políticas para educação, ciência e tecnologia. Ele também foi incansável em afirmar, sempre, que recurso aplicado em educação não é gasto, mas sim investimento no futuro do País. Foi exemplo, ainda, ao receber em reunião anual, durante os seus 8 anos de mandato, os Reitores das Universidades Federais para debater políticas e ações para o setor, encaminhando soluções concretas, inclusive, relativas à Autonomia Universitária.

Alan Barbiero – Universidade Federal do Tocantins (UFT)
José Weber Freire Macedo – Univ. Fed. do Vale do São Francisco (UNIVASF)
Aloisio Teixeira – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Josivan Barbosa Menezes – Universidade Federal Rural do Semi-árido (UFERSA)
Amaro Henrique Pessoa Lins – Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Malvina Tânia Tuttman – Univ. Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
Ana Dayse Rezende Dórea – Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Maria Beatriz Luce – Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)
Antonio César Gonçalves Borges – Universidade Federal de Pelotas (UFPel)
Maria Lúcia Cavalli Neder – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Carlos Alexandre Netto – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Miguel Badenes P. Filho – Centro Fed. de Ed. Tec. (CEFET RJ)
Carlos Eduardo Cantarelli – Univ. Tec. Federal do Paraná (UTFPR)
Miriam da Costa Oliveira – Univ.. Fed. de Ciênc. da Saúde de POA (UFCSPA)
Célia Maria da Silva Oliveira – Univ. Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
Natalino Salgado Filho – Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
Damião Duque de Farias – Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
Paulo Gabriel S. Nacif – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Felipe .Martins Müller – Universidade Federal da Santa Maria (UFSM).
Pedro Angelo A. Abreu – Univ. Fed. do Vale do Jequetinhonha e Mucuri (UFVJM)
Hélgio Trindade – Univ. Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)
Ricardo Motta Miranda – Univ. Fed. Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Hélio Waldman – Universidade Federal do ABC (UFABC)
Roberto de Souza Salles – Universidade Federal Fluminense (UFF)
Henrique Duque Chaves Filho – Univ. Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Romulo Soares Polari – Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Jesualdo Pereira Farias – Universidade Federal do Ceará – UFC
Sueo Numazawa – Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
João Carlos Brahm Cousin – Universidade Federal do Rio Grande – (FURG)
Targino de Araújo Filho – Univ. Federal de São Carlos (UFSCar)
José Carlos Tavares Carvalho – Universidade Federal do Amapá (UNIFAP)
Thompson F. Mariz – Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
José Geraldo de Sousa Júnior – Universidade Federal de Brasília (UNB)
Valmar C. de Andrade – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
José Seixas Lourenço – Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
Virmondes Rodrigues Júnior – Univ. Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
Walter Manna Albertoni – Universidade Federal de São Paulo ( UNIFESP)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Proteja-se dos e-mails caluniadores na campanha 2010

Todo mundo já deve ter recebido pelo menos um dos e-mail assim.
Eu acho que é um grande serviço a todos fornecer as respostas a eles. Clique aqui.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Liberdade de imprensa? Onde? Quando?

Vocês souberam que o Estado dde São Paulo publicou um editorial declarando abertamente apoio a campanha de Serra, né? Dias depois Maria Rita Kehl publicou um comentário no mesmo jornal. Em seguida ela foi demitida do jornal por ter escrito esta resposta!! Dias depois o jornal teria voltado atrás e ela foi readmitida, mas com a restrição de só poder escrever sobre psicanálise...
Segue abaixo a íntegra do editorial:

"Dois pesos...

Maria Rita Kehl

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos."

terça-feira, 28 de setembro de 2010

“O riso continua sendo a arma dos impotentes”, diz professor da FFLCH

“O riso continua sendo a arma dos impotentes”, diz professor da FFLCH
Natália Natarelli e Pedro Lucas | Publicado em 24.09.2010 – 371 (set/2010), em pauta

Na seção Em Pauta dessa edição, discutimos a questão dos candidatos pouco tradicionais, como celebridades e figuras consideradas excêntricas ou caricatas, que acabam se transformando em fenômenos de voto e de popularidade. Como muitas dessas personalidades utilizam o humor e a dramaticidade em suas campanhas, o Jornal do Campus entrevistou o professor titular do Departamento de História da USP, Elias Thomé Saliba, que é também autor do livro Raízes do riso, para nos explicar um pouco desse fenômeno que permeia a política brasileira atual.

Jornal do Campus: Historicamente, qual a relação do humor com a política no Brasil? E, mais especificamente, como tem sido essa relação nas últimas décadas?
Elias Thomé Saliba: Ao longo de todo o seu passado, a relação do humor com a política sempre foi muito intensa – talvez mais do que noutros países – porque a história brasileira não cria e não criou nenhuma identidade autentica e duradoura, ela apenas ajudou a segregar, a isolar a maior parte da população – não criou espaços públicos estáveis – mesmo após a Abolição e a República, que prometeram muito e, na realidade, realizaram pouco ou quase nada. Em muitos casos, o riso brasileiro nasceu assim, como que para compensar um déficit emocional em relação aos sentidos da história brasileira. O brasileiro ri para compensar sua cidadania constantemente burlada. Entre a dimensão formal e pública e o universo tácito da convivência personalista é que se construiu uma fragmentada representação cômica do país, dando ao brasileiro, naqueles efêmeros momentos de riso, a sensação de pertencimento que a esfera política lhe subtraíra.

Mas há ainda outro aspecto a ser mencionado. A esfera política sempre foi motivo de chacota porque as pessoas que participam da vida pública são iguais a todas as outras no plano individual – e esta diferença suscita ambiguidades que constituem o motor do riso e da piada. Hoje a esfera política é mais sujeita à chacota e ao riso cínico talvez porque os grandes projetos políticos de transformação social mostraram-se utópicos e falharam. Numa época de crise de utopias, as sociedades regridem emocionalmente à sátira, à derrisão e ao humor. As pessoas riem das desgraças alheias, mas também das próprias desgraças. A produção humorística é ambígua. É o doa a quem doer. Não é inocente, é um espelho da sociedade, embora distorcido.

No caso brasileiro tudo isso é muito mais forte porque, como já disse no início, o que caracteriza a história brasileira é a eterna confusão entre as esferas pública e privadas e nossa vocação – que, gradativamente, temos esperança de superar – para tratar tudo emocionalmente, reduzindo as distâncias sociais. Chamamos esta vocação de síndrome de Santa Terezinha. A santa francesa Thereza de Lisieux, se transforma aqui em Terezinha – ou seja, até os santos partilham de nossa vida privada, tornando-se mais próximos de nós. Usamos de diminutivos para quebrar hierarquias e tornar tudo próximo, porque temos horror das distâncias sociais, que são enormes. Não conseguimos ver o mundo sem emoção, distinguir o público do privado. Queremos transformar o público numa coisa nossa, pessoal. Vem das nossas raízes ibéricas. O brasileiro não resiste muito à seriedade. Quanto Ayrton Senna morreu, menos de 24 horas já circulavam anedotas.

Mas o riso também é a arma social dos impotentes. No decorrer da história, o próprio riso popular permitiu que se criasse, cada vez mais, uma cultura da divergência, ativa e oculta – mostrando como o humor se tornou uma arma política importante contra os regimes repressivos. Se não se pode mudar a história real, muda o sentido dela. O riso, a piada é, essencialmente, alteração de sentido, reversão de significado.

No caso brasileiro, humor e riso compensam também a falta de identidade. Uma sociedade mal costurada, que sempre praticou a exclusão. Brasileiros só se sentem brasileiros em momentos emocionais, rápidos e circunstanciais – quando toca o Hino Nacional, tem jogo da seleção. O humor funciona como o carnaval e o futebol para o brasileiro ter este momento efêmero e emocional de identidade.

Nas últimas décadas isto se acentuou, visto que as promessas trazidas pela redemocratização do país estancaram na corrupção crônica – institucionalizada pela impunidade – numa política social remediadora e na tibieza dos partidos e organizações políticas. O universo político só foi, digamos, mais “espetacularizado” mas continua “estranho” e distante para a maioria dos brasileiros (como se não lhes dissesse respeito). E o riso continua sendo, como em muitos momentos de nossa história, a arma dos impotentes.

JC: Como o senhor analisa a esteriotipação de candidatos, inclusive ligadas ao humor, atualmente, considerando o processo de formação da política brasileira?
ETS: Sempre houve estereótipos – eles constituem parte da própria publicidade eleitoral – e isto desde os tempos mais primitivos da publicidade, quando humoristas criavam versinhos corrosivos ou satíricos na Campanha Civilista em 1910, por exemplo. Agora ele é muito mais intenso devido às exigências de formato da mídia (timming da TV, etc.)

Agora, quando consigo assistir ao horário eleitoral, surpreendo-me, perguntando a mim mesmo: não estamos, afinal, em pleno “país da piada pronta”? Ou como perguntava um espantado viajante alemão, que esteve por aqui no ano de 1913: “se a realidade já é engraçada, como vocês fazem para contar piadas, se não há contraste?”

JC: Quando os votos ainda eram realizados em cédulas de papel, comumente eram escritos nomes que não concorriam à eleição, em especial de personagens e personalidades e com caráter satírico. Como o senhor vê esse fato? O senhor acredita que a motivação para tais votos, em geral, tende mais para o desinteresse político ou para o voto de protesto? Como esse processo se assemelha ou se diferencia do voto em figuras como o Tiririca atualmente?
ETS: Votos em bichos (como o Cacareco, nos anos 1960) ou em figuras cômicas revelam mais um desinteresse do que protesto. É uma reação emocional de indiferença e de impotência que reitera o fato de que ainda não superamos uma ética da irrisão em relação ao espaço público. Sempre houve este tipo de reação na história política brasileira. Quando a UDN lançou o Brigadeiro Eduardo Gomes, nas eleições de 1946, o refrão do candidato não era lá muito sério, pois dizia: “Vote no Brigadeiro, é bonito e é solteiro”. Hoje o espaço político parece mais distante porque foi ritualizado e espetacularizado e, na ausência de verdadeiras lideranças – a maioria delas apóia-se num frágil apelo emocional e populista efêmeros – ganham projeção apenas aqueles que circulam na mídia – não necessariamente política. “Pior que está não fica” – corre o risco de pegar, porque tem um dos melhores “ganchos” da piada que é a auto-ironia ou auto-derrisão… É quase uma meta-piada, diriam os lingüistas…

Mas, uma advertência: quando falo em no riso como parte de uma regressão a uma ética emocional, que dizer que tanto pode ser cordial, risonha e pacífica, como violenta e, nalguns casos, irracional e triste. Minha pesquisa no livro “Raízes do Riso” explorou o lado risonho desta ética emotiva, mas no caso brasileiro é até possível fazer outra pesquisa, que teria até um título parecido – Raízes do Choro.

JC: De que forma o senhor acredita que humor motiva e influencia os eleitores a escolher seus candidatos? Na sua visão, até que ponto a grande presença desses candidatos e o tipo de utilização que fazem do humor contribuem para o debate eleitoral democrático? E que prejuízo trazem? Como o senhor avalia, no geral, a presença desses candidatos num contexto democrático?
ETS: É difícil dizer se contribuiu ou prejudica – seria necessário analisar cada caso e cada situação. O humor é um espelho da sociedade – embora seja um espelho distorcido, caricato. O humor – sobretudo o humor que nasceu com o século XX – possui uma fortíssima vocação para a ambiguidade: se uma piada agrada e gratifica alguns ela acaba por ferir outros – não há remédio. Se fui eu quem escorregou na casca de banana, eu não vou rir… Se o escorregão for de alguém que tem poder (político, pessoal ou qualquer outro) ele não só não vai rir, como vai proibir os outros de rirem.

Por outro lado, o humor, por mais agressivo que seja, incentiva a sociabilidade, sublima a agressão, administra o cinismo e, em alguns casos, estiliza a violência, dissolvendo-a no riso. “Fiquem tranquilos: nenhum humorista atira para matar”, diz Millôr Fernandes.

Para os indivíduos, a disposição de rir das tolices da humanidade sempre foi considerada pela medicina como um meio de preservar a saúde. (Aliviar o excesso de bílis, ou de adrenalina que, em excesso produz a melancolia e as doenças) Talvez isto funcione para a sociedade brasileira também. (é o rir para não chorar) Porque as pessoas que riem das piadas guardam resíduos de emoções que lhes vão permitir rir das maldades, dos preconceitos e das falcatruas reais. Quando as pessoas não riem é pior, pois os ressentimentos são recalcados. O que talvez explique porque o humor – sob quaisquer de suas formas, pela graça ou pela inteligência – tenha um efeito libertador.
(Jornal do Campus- set 2010)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Medo da Eternidade - Clarice Lispector

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

domingo, 26 de setembro de 2010

Verdades sobre a vida?

EU VI ESTE ANÚNCIO NO MURAL DA ECA :
SÓ PUDE PENSAR "VERDADE, NÉ gUIMARÃES ROSA?"
ELE QUE É MAIS QUE UM ESCRITOR, MAS UM SENTIDO PARA MINHA VIDA!