Ruth Rocha e Ana Maria Machado são minhas autoras favoritas desde a infância, na década de 1980. Tive a sorte de ser criança na geração delas, no fim da ditadura militar (1964-1985), quando a literatura infantil reforçava seu caráter libertário e deixava de considerar o infante como um ser que deveria apenas RECEBER ensinamentos, passando a reconhecê-lo como SUJEITO capaz de pensar criticamente, questionar, interpretar o mundo, as linguagens e até perceber mecanismos de poder (só depois soube da pedagogia da autonomia de Paulo Freire). Esses livros trazem anseios que o Brasil vivia na época:
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| REIZINHO MANDÃO: Cala boca já morreu! Ilustração Walter Ono |
1. O Reizinho Mandão (1973/1978), de Ruth Rocha
Conta a história de um reizinho que governa IMPONDO sua vontade, impondo um "cala a boca" e levando todos a temer falar, até acabar falando sozinho! Eis que uma menina traz um papagaio que, imitando o reizinho, grita: "Cala a boca! Cala a boca!". Até que a menina reage:
— CALA A BOCA JÁ MORREU! QUEM MANDA NA MINHA BOCA SOU EU!
Assim, as vozes de todo o reino são libertadas e o reizinho foge!
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| ERA UMA VEZ UM TIRANO Ilustração Gabor Geszti |
2. Era uma vez um tirano (1982), de Ana Maria Machado
Vai por uma trilha parecida. Fala de um país submetido a um tal TIRANO, que só sabia proibir tudo: de ter ideias e conversar a brincar e, especialmente, fazer música. Então, as pessoas passam a se organizar para afastar o tirano e recuperar a liberdade perdida.
Que alegria experimentar, desde a infância, o poder da literatura em reforçar minha autonomia e minha busca pela liberdade! Amo!


