terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O poeta, mas crianças, a poesia ..

No final, em cerca de seis minutos, Willer me dá de presente uma espécie de depoimento legitimando a minha pesquisa! Como eu adoro este poeta!

Fita verde no cabelo - a nova velha estória


Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.
Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.
Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo.
Então, ela, mesma, era quem se dizia:
– Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.
A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós.
Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa.
Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: – Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

Texto primeiramente publicado em 8 de fevereiro de 1964, no Suplemento Literário do Estado de São Paulo, e republicado na obra póstuma João Guimarães ROSA. Ave, palavra.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Um texto de 2006, diretamente das ruínas do meu antigo blog...



Terminei um curso sobre a moderna poesia mexicana. E terminei lamentando muito que tenha sido tão curto! Foi muito bom entrar em contato com a discussões da modernidade no México, a rixa entre o grupo dos "contemporàneos" e os "estridentistas", que pode ser um pouco melhor compreendida se acessarmos este link aqui e que valeria ao menos um mês para que pudéssemos tocar a obra de cada um dos poetas dos quais não ouvimos falar muito aqui no Brasil (pelo menos eu não conhecia).

São eles figuras como "Carlos Pellicer; José Gorotiza; Jaime TorresBodet; Jorge Cuesta; Xavier Villaurrutia; Salvador Novo; Bernardo Ortiz de Motellano; Gilberto Owen; Enrique González Rojo, etc...Todos estes poetas estão concentrados em uma impotante coletânea chamada "Poesia em movimento", que simboliza o fazer poético do México moderno... queria ter tempo e condições de me dedicar mais a conhecer todos esses poetas! Mas o professor Rodolfo Mata (excelente, aliás) nos deixou cientes de que imediatamente antes dos "contemporàneos" ou dos "estridentistas", tivemos alguns poetas interessantes que não se encaixavam em nenhum dos grupos, são eles "Alfonso Reyes " e "Julio Torri"...
Dos pequenos trechos que o professor apresentou, gostei mais de Alfonso Reyes, aquele que percebeu que os contemporàneos fugiam da "História Viva", de certa forma... foi ele quem escreveu poemas como "Para un mordisco":

"Propio camaleón de otros cielos mejores,
A cada nueva aurora mudaba de colores.

Así es que prefiriera a su rubor primero
El tizne que el oficio deja en el carbonero.

Quiero decir ( me explico ): la mudanza fue tal,
que iba del rojo al negro lo mismo que Stendhal.

Luego, un temblor de púrpura casi cardenalicio
(que viene a ser también el tizne de otro oficio)

se quebró en malva y oro con bandas boreales,
que ni el disco de Newton exhibe otras iguales.

Es muy de Juan Ramón esto de malvas y oros,
O del traje de luces de un matador de toros.

Y no sé si atreverme, en cosa tan sencilla,
A decir que hubo una "primavera amarilla",

Con unas vetas verdes, con unos jaspes grises
En olas circunflejas como en el mar de Ulises.

¡Ulises yo, que apenas de Caribdis a Escila
-de un vértice a un escollo - saciaba la pupila!

Porque como es efímero todo lo que es anhelo,
El color se evapora y otra vez sube al cielo,

Y ya sabemos que poco a poco se va
Aun la marca de fuego de la infidelidá.

Y se acabó la historia - Tal era la mordida
Que lucía en el anca mi querida."

Percebem como ele vai fazendo a descrição da mordida pela mutação das cores e associação a outras descrições literárias (como o romance "vermelho" e "negro" de Stendhal) para que, ao final, saibamos que se trata apenas de uma marca deixada por atividade erótica...isto seria a tal "História viva", que está em constante fluxo, mesmo nas atividades mais prosaicas e que também é uma expressão da modernidade! A apresentação de Reyes aparece como se fosse um exercício de Picasso, não é? Acho muito bom!
Acontece que apenas três finais de tarde e noites seriam pouco tempo para nos debruçarmos direito sobre esses poetas, imagine se lembrarmos que também no grupo dos poetas mexicanos modernos brilha o nome de uma figura assaz complexa chamada Octávio Paz.
Sobre ele - que foi quem me levou a me inscrever no curso - poderíamos montar cursos e mais cursos muito densos e belos, porque este expressou - não só pelos ensaios fundamentais, mas também pela sua obra poética - uma percepção bastante diferenciada dos fluxos do tempo... apenas sobre ele vou tentar escrever um texto...
Por enquanto, fico aqui com a confissão de que já sou uma apaixonada pela poesia mexicana e pela beleza da Casa das Rosas, como pude registar nestas fotos aqui!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ISMAEL LO-TAJABONE

Que linda canção! Sempre amei!Vocês se lembram a cena com esta música no filme "Todo sobre minha mãe"? Confiram a "tradução" da letra e vejam que genial!Um Almodóvar é sempre um Almodóvar!

"with translation A great song,a touching melody Tajabone, which is the name of the song, is in Wolof, the language spoken in Senegal. It's about a muslim tradition. Tajabone is collecting candy, food or money for children. This tradition is also a thanksgiving for muslims"

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

WITTGENSTEIN PROFESSOR PRIMÁRIO...

Vocês podem imaginar que Ludwig Wittgenstein foi professor de escola primária no período entreguerras? Pois esta foi a verdade, entre 1920 e 1926 ele foi professor de crianças em idade de alfabetização, mas não foi o que podemos chamar de professor afetuoso, pois não tinha paciência alguma para ensinar e em 1926 vai a julgamento pelo tratamento dado a um aluno - o caso Haidbauer- afinal, para ele agreções físicas podiam até serem demonstrações de carinho (rs). Mas ele até copilou um inovador dicionário para crianças de escola primária "Wörterbuch für Volksschulen", o que foi estudado neste trabalho aqui.

Na época sua irmã teria declarado:
"Eu disse a ele...que imaginá-lo como professor de escola primária, com sua mente treinada para a filosofia, era para mim como imaginar uma pessoa usando um instrumento de precisão para abrir uma cratera. Ao que Ludwig respondeu com uma comparação que me fez calar: 'E você me faz pensar numa pessoa que olha através de uma janela fechada e não consegue explicar para si mesma os movimentos de um transeunte. Não sabe a tempestade que está caindo lá fora e nem que essa pessoa está tendo de fazer um enorme esforço para se manter de pé.' Foi então que eu entendi seu estado de espírito."
( Hermine Wittgenstein. In: Edmonds e Eidinow. O Atiçador de Wittgenstein.P.201)

Poxa, se Wittgenstein - um filósofo interessadíssimo nos estudos da linguagem- construiu para si mesmo uma alegoria de um transeunte sob a tempestade, em relação a aquisição da linguagem pelas crianças, isso acaba legitimando a ideia da minha pesquisa: É preciso atentar para as origens da ligação dos Homens com a linguagem se quisermos entender porque e como esta entidade chamada linguagem pode substituir ou mesmo anular a realidade...
Estou pensando demais nessas coisas...